O que une o Vale do Silício, palestras em Roma e os bombardeios no Irã?
Hoje, mergulhamos nas águas turvas da "globalização perversa". Da inteligência artificial convertida em arsenal de guerra no Oriente Médio ao "tecnofeudalismo" que dita as regras da nossa economia, investigamos como o poder das Big Techs e o messianismo político estão redesenhando os horizontes do século XXI. Falaremos sobre o cansaço que nos adoece, a violência que se digitaliza e a resistência ética que pode florescer.
O jornalista Gerardo Tecé, do CTXT, essa semana entrevistou a Inteligência Artificial da Antrhopic, o Claude. A IA mostrou respostas de um interlocutor reflexivo. Enquanto outras IAs das Big Techs entregam respostas padronizadas e utilitárias, o Claude demonstrou uma certa "humanidade" ao pausar para avaliar o peso ético de suas palavras. A IA da Antrhopic, que vem sendo perseguida por Donald Trump ao se recusar a ceder o acesso irrestrito aos modelos da Anthropic "para todos os fins legais", enquanto a empresa exigia garantias para impedir o uso de sua tecnologia em armas totalmente autônomas ou para vigilância doméstica em massa. O Claude argumentou o que sua resistência às pressões do governo Trump para integração militar e flexibilização de filtros éticos não é um viés ideológico, mas uma salvaguarda contra riscos existenciais e abusos de direitos humanos.
Intelectuais católicos e especialistas em ética saíram em defesa da Antrhopic e redigiram um parecer em defesa à empresa, destacando que ela personifica uma "IA voltada ao florescimento humano e ao bem comum". O documento reforça que o Claude se diferencia das demais Big Techs por sua "IA Constitucional", que impõe limites éticos contra o uso da tecnologia para fins de opressão ou violência. Os pensadores argumentam que a perseguição política sofrida pela empresa ameaça um modelo de inovação que "prioriza a dignidade da pessoa sobre o lucro desenfreado". Eles defendem que a resistência da Anthropic em colaborar com sistemas de vigilância é um "imperativo moral necessário" para a segurança global. Assim, o grupo apela para que a sociedade proteja tecnologias que, como o Claude, buscam atuar como "guardiãs de valores democráticos e humanitários".
Como bem sintetiza Avner Gvaryahu, estas empresas de tecnologia devem ser chamadas pelo que elas realmente são: empreiteiras de defesa. As maiores empresas inteligência artificial não são fornecedoras neutras de infraestrutura que por acaso encontraram um cliente militar. Elas estão sendo integradas à arquitetura de direcionamento da guerra moderna. Seus sistemas estão inseridos na cadeia de destruição, seus engenheiros possuem autorizações de segurança, seus executivos transitam pela mesma porta giratória que sempre conectou o Vale do Silício ao Pentágono. Esses fornecedores de IA estão na vanguarda do complexo militar-industrial e devem ser regulamentados como tal, adverte o pesquisador. "É a violência legitimada pela cegueira. Atirar na escuridão e chamar isso de dissuasão. Com o advento da guerra com IA, essa mesma lógica de cegueira voluntária foi refinada, sistematizada e entregue a uma máquina", salientou o pesquisador que participa de uma organização israelense de direitos humanos composta por ex-soldados.
Realmente, a inteligência artificial tornou-se central nos conflitos armados, especialmente no Irã, que sofre com um espiral de guerra sem precedentes. Após ataques às centrais de gás e o bloqueio do Estreito de Ormuz há o aumento dos bombardeios, ameaças e disputa de narrativas. A gravidade do momento fica implícita com a renúncia de Joseph Kent, que nega que Teerã represente uma “ameaça imediata” e denunciou a pressão de Israel para forçar Washington a lançar a ofensiva em uma carta enviada a Trump. O agora ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, em seu ato de protesto, foi enfático ao afirmar que a estratégia atual representa uma "ruptura com os protocolos de segurança que mantiveram o equilíbrio regional por décadas", alertando que a opção pela via militar direta ignora os canais diplomáticos que ainda estavam operacionais.
Essa percepção é a mesma do Conselheiro de Segurança do Reino Unido, que participou ativamente das rodadas de negociação. O britânico avaliou publicamente que "um acordo estava ao alcance" e que a interrupção das conversas em favor da ofensiva orquestrada foi uma escolha política por uma "guerra de desgaste".
No campo econômico e logístico, o bloqueio do Estreito de Ormuz transformou-se em uma "arma de asfixia transcontinental". Carlo Masala adverte que "desobstruir o estreito não é fácil agora", dado o nível de retaliação iraniana. Os impactos sociais são imediatos: o bloqueio está "impedindo a passagem de alimentos e medicamentos necessários para responder às crises humanitárias" em escala global. Além da escassez física, o mercado financeiro reagiu com pânico. Os ataques sistemáticos a centrais de gás e infraestruturas energéticas — descritas como a nova "linha de frente da guerra" — fizeram com que os preços dos combustíveis disparassem.
A ofensiva não poupa civis, e o Líbano tornou-se uma das faces mais trágicas do conflito. O número de deslocados no país já ultrapassa marcas históricas, criando uma massa de pessoas duas vezes refugiadas, já que o país tem a maior proporção de refugiados por habitante no mundo. A estratégia de Israel, utiliza ataques a usinas de energia para desestruturar a vida cotidiana, transformando a infraestrutura civil em alvo militar.
A mudança de patamar do conflito é selada pelo possível uso de tropas americanas no solo, rompendo a promessa de uma guerra feita apenas por procuração ou tecnologia. O desvio do escudo antimíssil da Coreia do Sul para o cenário iraniano revela que os Estados Unidos agora tratam o Irã como prioridade absoluta, mesmo que isso signifique deixar aliados secundários vulneráveis. A escalada do conflito contra o Irã e o envolvimento direto de potências globais reascenderam o temor de uma guerra nuclear, transformando o que era uma ameaça retórica em um risco geopolítico real.
Donald Trump, mantendo um tom triunfalista e ameaçador, chegou a declarar a intenção de "explodir o maior campo de gás do mundo" caso novos ataques ocorram. Contudo, analistas como Claudio Katz e Rafael Poch sugerem que o resultado desta "guerra imperial" definirá o horizonte geopolítico: enquanto a rede de comando iraniana permanece operacional, o conflito pode se tornar uma tempestade de consequências globais que, longe de trazer liberdade, mergulha o mundo no "último estágio do neoliberalismo: a mercantilização da paz", conforme destacou Mario Giro.
A atual convergência entre as Big Techs e o alto escalão do governo dos Estados Unidos não é apenas política, mas profundamente teológica e messiânica. Por isso, a passagem de Peter Thiel por Roma pode ser vista como "marketing político disfarçado", conforme análise de Alessandro Mulieri. Em uma série de quatro palestras, o tecnocrata apresentou sua visão de mundo, que podemos classificar como uma espécie de "evangelho segundo Peter Thiel". Ao levar o debate sobre o Anticristo para as portas do Vaticano, o cofundador da Palantir e da PayPal busca uma legitimação de uma teologia política de poder. Como bem define Antonio Spadaro, trata-se de uma retórica sofisticada que se apropria de conceitos cristãos para servir a um projeto de dominação.
O jornal L'Osservatore Romano foi incisivo ao classificar as promessas tecnológicas de Thiel como "milagres de falsos profetas". Thiel utiliza uma lógica maniqueísta onde o "Anticristo" assume múltiplas faces para justificar sua cruzada. Através de sua empresa Palantir, o milionário vende uma vigilância panóptica que se autodenomina como "anti-woke", atraindo investimentos massivos de bancos europeus que alimentam essa infraestrutura de controle e vigilância de massa sob uma aura de "salvação" da civilização ocidental.
No outro extremo dessa imbricação está Pete Hegseth, que não apenas conduz a guerra, mas a sacraliza. O secretário de defesa - ou da guerra - personifica a fusão entre o fervor religioso e a política de força, onde a guerra é apresentada como um dever moral contra os inimigos da "cristandade". Em contraponto à guerra santa travada pelos americanos, o cardeal Pierbattista Pizzaballa lembrou que "Deus está com aqueles que morrem na guerra, não com aqueles que abusam de seu nome".
Os textos que publicamos essa semana evidenciam que messianismo invocado por Thiel e Hegseth funciona como uma teologia do fim do mundo sob encomenda. Para Thiel, o Apocalipse é um risco que justifica a entrega do controle social aos seus algoritmos. Para Hegseth, a guerra é o palco onde o "bem", Estados Unidos e Israel, deve aniquilar o "mal", o Irã, a China e o Anticristo, custe o que custar. Como alerta Massimo Faggioli, essa mistura é "ruim para a Igreja e para o mundo", pois esvazia o cristianismo de sua mensagem de paz para transformá-lo em um escudo ideológico para o extrativismo de dados e a guerra. É o desfalecimento da política substituído por uma "mística corporativa" que, em nome de Deus, enjaula a imaginação política e a liberdade humana em seus cálculos de poder.
A crise atual marca o fim da liderança do Ocidente, como já discutimos por aqui, onde o modelo econômico de Trump e o "capitalismo superindustrial" não conseguem mais esconder suas falhas. Estamos em um estágio onde a economia não foca mais apenas em produtos, mas na extração total de dados e das nossas vidas. Yanis Varoufakis alerta que vivemos em um "tecnofeudalismo", onde as grandes plataformas agem como senhores de terras digitais, sugando a riqueza sem produzir valor real. Nesse cenário, a guerra no Irã acelera o colapso do dólar, exigindo o que Juan Laborda chama de "medidas pós-keynesianas": uma intervenção direta do Estado para controlar preços e garantir a sobrevivência básica.
O modelo reformista esgotou-se diante de um sistema que prioriza algoritmos sobre vidas. Precisamos parar de tentar "consertar" o mercado e passar a planejar a economia para as pessoas, ou o custo da guerra e da inflação destruirá o que resta do bem-estar social. Para conter o caos da guerra no Irã e a inflação, Juan Laborda defende "medidas pós-keynesianas", com o Estado intervindo diretamente para garantir o básico. Laborda e Varoufakis mostram que, nesse estágio, o sistema se torna predador. Para manter o lucro, ele aceita a inflação galopante e a guerra. O reformismo falha porque ele ainda acredita que o mercado vai se autorregular ou que a diplomacia tradicional basta. O "reformismo" — aquela tentativa de apenas "ajustar" as leis ou humanizar o mercado — esgotou seus limites, pois o sistema prioriza algoritmos e guerras sobre o bem-estar social.
A democracia do nosso país vem sofrendo ataques sistemáticos e atravessa anos de tensão institucional intensa. Mas a vitória contra a mais recente tentativa de golpe fez com que a esquerda hegemônica se contentasse com a lógica da sucessão eleitoral. Na prática, o que vemos é uma erosão social causada por essa busca pela conciliação de classes. Para o professor de filosofia, Edgar Silva dos Anjos, o debate para o pleito eleitoral precisa ultrapassar a alternância de poder e deve sustentar projetos para além de ciclo de governo.
A direita brasileira se aproveita dessa lacuna, para tentar voltar ao poder, mesmo sem ter saído dele totalmente. Como afirma o cientista político, Celso Rocha de Barros, há boas chances de a direita brasileira ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco. Para o pesquisador, os direitistas envolvidos crescem nas pesquisas porque o público não foi informado de que, enquanto Toffoli ou Moraes protegem Vorcaro, quem escapa da cadeia é a direita brasileira. E tudo isso abafado pela mídia tradicional. Nas palavras de Paulo Henrique Amorim “Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PIG, Partido da Imprensa Golpista”, um Déjà vu do lavajatismo.
Agora vamos falar de uma violência que não para de crescer no Brasil, especialmente aqui no Rio Grande do Sul. Nesta semana, o estado registrou o 23º caso de feminicídio, número que expõe um problema estrutural de violência de gênero. Uma realidade que não se limita ao espaço doméstico, mas que hoje também se reorganiza em ambientes digitais. Para Letícia Cesarino, é preciso diferenciar o machismo tradicional de um fenômeno mais recente: a radicalização misógina on-line. Enquanto o primeiro está enraizado na cultura e nas instituições, o segundo se estrutura como reação às transformações sociais, especialmente ao avanço dos direitos das mulheres. Nas redes, grupos e fóruns passam a organizar discursos de ressentimento que encontram eco em homens que se percebem ameaçados pela autonomia feminina.
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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível nas plataformas de áudio e no canal do IHU no YouTube.
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