19 Março 2026
Serão atingidos, além do petróleo e gás, os centros financeiros, portos, aeroportos e a logística global do Golfo. O futuro está em aberto, e vem aí uma grande disputa política. As corporações jogarão a conta para as sociedades. Elas aceitarão pagar?
A entrevista é de Chris Hedges, publicada por Outras Palavras, 18-0-2026. A tradução é de Antonio Martins [1].
Quanto mais tempo a guerra com o Irã se prolonga, mais a economia global entra em crise. Os iranianos bloquearam o Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do suprimento energético mundial. 40% do petróleo importado pela China passa pelo Estreito. O petróleo bruto está agora acima de US$ 100 por barril, um aumento de 45% desde o início da guerra e continua subindo. Os preços da gasolina nos EUA subiram mais de 65 centavos de dólar por galão de querosene de aviação, e o diesel teve um aumento de 25%. Em algumas partes da Ásia, incluindo Tailândia, Paquistão e Bangladesh, já há escassez e longas filas em postos de gasolina. Repartições públicas nas Filipinas adotaram a semana de trabalho de quatro dias. O governo de Mianmar impôs dias alternados para dirigir.
O Japão, que depende do Oriente Médio para 90% do seu abastecimento de petróleo, está usando um recorde de 80 milhões de barris de petróleo desuas reservas, o equivalente a cerca de 45 dias de suprimento. A Índia, embora autorizada pelo governo Trump a comprar petróleo russo anteriormente sancionado, será particularmente afetada. Já sofre com uma grave escassez de gás natural liquefeito. Cerca de 84% do petróleo bruto e 83% do gás natural liquefeito que passam pelo Estreito de Ormuz têm como destino a Ásia. O fertilizante nitrogenado, que custava entre US$ 460 e US$ 480 por tonelada antes do início da guerra, subiu para US$ 520 a US$ 620.
Isso significa aumentos expressivos nos preços dos alimentos. E, uma vez esgotadas as reservas estratégicas de petróleo, o preço do barril pode facilmente subir para US$ 200 a US$ 300, desencadeando uma inflação devastadora e uma depressão global. As economias globais entrarão em colapso neste momento, desencadeando uma onda de agitação civil. Para agravar essa crise, duas potências nucleares estão em guerra: os Estados Unidos, com cerca de 5.000 ogivas nucleares, e Israel, com cerca de 300.
Israel, pela primeira vez em sua história, está sofrendo sérios danos causados por mísseis e drones iranianos, cuja extensão não é pública devido à forte censura. Israel, especialmente se os EUA decidirem minimizarem suas perdas e se retirarem da guerra, poderá ver o governo de Benjamin Netanyahu detonar um dispositivo nuclear e desencadear uma conflagração global.
Para discutir as consequências da guerra para o Irã nos âmbitos econômico, político e militar, está comigo Yanis Varoufakis, Secretário-Geral do Movimento Democracia na Europa 2025 e ex-ministro das Finanças da Grécia.
Eis a entrevista.
Quero começar, Yanis, com as consequências da crise econômica em termos de agitação social e política. Lembro-me da minha cobertura da guerra na antiga Iugoslávia, precipitada por um colapso econômico e hiperinflação, o que acredito ter contribuído para o surgimento dessas figuras semelhantes a Trump, Radovan Karadzic, etc. Mas essa desestruturação econômica sempre teve, ao longo da história, consequências que vão muito além da sobressalto econômico. Queria saber se você pode falar sobre isso.
Claro. Você está se referindo às consequências não intencionais de uma guerra muito estúpida, na qual Donald Trump foi encurralado por Benjamin Netanyahu. Porque até agora Trump pensava estar ganhando em tudo. “Eu venci a guerra comercial, a guerra tarifária, com os europeus”. Ele teve muito sucesso em instrumentalizar as grandes empresas de tecnologia e as criptomoedas com a Lei Genius. De seu ponto de vista, ele estava vencendo.
E temos agora esta campanha ridícula, na qual ele foi envolvido por razões só saberemos em alguns anos. Isto terá efeitos duradouros, consequências a longo prazo. Estava lendo, no Wall Street Journal e no Financial Times, alguns artigos otimistas que comparavam o que está acontecendo agora no Irã e o “Dia da Libertação”, quando Trump anunciou o tarifaço, no ano passado.
À época houve um espasmo nos mercados, que entraram em pânico e ficaram nervosos após o anúncio das enormes tarifas. Isso suspendeu o comércio mundial por cerca de uma semana. E então o Financial Times e o Wall Street Journal, com otimismo, diziam: “Ao final, não foi tão ruim assim”. Em dois ou três meses, os mercados se recuperaram. A economia livrou-se de todas as preocupações com a recessão. E talvez possamos proclamar novamente daqui a alguns meses, se a crise atual terminar logo, que tudo foi uma bobagem: o capitalismo mundial, sediado nos EUA e dolarizado foi mais uma vez resiliente.
Não acho que isso seja possível, não só porque esta guerra não vai terminar muito rapidamente. Ninguém tem uma bola de cristal, mas acho que Donald Trump caiu na armadilha que Netanyahu preparou para ele. O ponto que quero destacar é que existe uma enorme diferença entre o que aconteceu no ano passado com as tarifas e agora.
As tarifas do “Dia da Libertação” tiveram efeitos transitórios, mas a crise poderá não ter. No ano passado, quando Trump impôs suas tarifas gigantescas, especialmente contra os chineses, ficou claro em poucas semanas que a demanda por exportações estrangeiras nos Estados Unidos era suficientemente elástica para que grande parte do ônus não recaísse sobre os consumidores norte-americanos, mas sim sobre os importadores. A segunda e importantíssima razão pela qual, no fim das contas, Trump não sofreu é que, ao mesmo tempo em que havia uma onda recessiva, havia outra, na direção oposta: uma gigantesca onda de investimentos das grandes empresas de tecnologia em IA, o que impulsionou os mercados de uma forma que satisfez o presidente. Um terceiro motivo é que as tarifas funcionaram, do ponto de vista de Trump. Elas conseguiram atrair para os Estados Unidos fluxos substanciais de capital. Conheço muitas empresas alemãs que se mudaram para os Estados Unidos, como a BASF e a Mercedes-Benz. O mesmo se deu com empresas japonesas e de Taiwan. E a quarta razão importante foi que os bancos centrais de todo o mundo, não apenas o Fed, estavam em processo de corte das taxas de juros, de afrouxamento da política monetária.
Agora, compare e contraste com o que está acontecendo agora.
Em primeiro lugar, a demanda nos Estados Unidos não é elástica em relação aos aumentos nos preços da gasolina. A grande maioria das pessoas, os trabalhadores braçais que votaram em Trump, estão sofrendo aumentos exorbitantes em seus custos de transporte. Não vamos esquecer que o eleitor médio do MAGA viaja 160 quilômetros por dia em SUVs e carros que consomem muito combustível. Isso impacta diretamente o orçamento familiar.
Em segundo lugar, a onda de investimentos em IA, que testemunhamos nos últimos 12 meses e salvou a pele de Donald no ano passado, é voraz por eletricidade. Provavelmente vai se esgotar, porque já havia reclamações sobre a lógica desse investimento. E agora a IA está se tornando muito cara para treinar e executar, o que vai reduzir substancialmente os efeitos compensatórios de mais investimentos em IA. Além disso, como os rendimentos dos títulos de 10 anos estão subindo, os bancos centrais vão aumentar as taxas de juros ou, em alguns casos, reduzi-las de acordo com o cronograma que haviam estabelecido e os mercados financeiros já haviam precificado. E, por último, no ano passado, nesta mesma época, o desemprego não estava aumentando. Nos últimos dois ou três meses, ele está em ascensão, nos Estados Unidos, no Reino Unido, e temo muito que também na União Europeia.
Se você considerar todos esses fatores, entenderá a conclusão de que esta guerra insensata de Donald Trump, está reverberando dentro dos Estados Unidos. Isso sem olhar para Bangladesh ou Paquistão, economias que, como você descreveu de modo muito preciso, estão em situação desesperadora. A economia dos Estados Unidos (o que realmente importa para Donald Trump) a europeia, a britânica, o Ocidente em geral, está entrando em um sério vórtice de problemas. Os iranianos estão bem cientes de sua capacidade de infligir esse tipo de dor. Imaginam que esse conflito não terminará tão cedo, prolongando-se até que essa dor seja sentida. É importante notar que perceberam: esta é uma luta existencial.
Tanto em junho passado quanto agora, quando Israel e os Estados Unidos atacaram o Irã, eles o fizeram em meio a negociações. Os iranianos dificilmente poderão confiar em outra equipe de negociação. Onde se percebe, conforme as semanas avançam, que já estamos em crise – especialmente no Sul Global ou em alguns dos países que mencionei, inclusive o Japão.
Quão terrível isso pode se tornar em algumas semanas ou meses?
É algo realmente sério porque, como você mencionou, o Japão obtém 90% de seu petróleo e gás natural, do Catar, da Arábia Saudita e das demais monarquias do Golfo. A economia japonesa é uma engrenagem significativa na máquina ocidental internacional. E veja o que está acontecendo, particularmente em Bangladesh, onde a indústria têxtil já está em ritmo lento simplesmente porque teme que seu fornecimento de gás seja afetado.
A produção de eletricidade deles vai parar abruptamente, devido à dependência total dos combustíveis no Golfo. O efeito bola de neve é o que realmente importa — não tanto os efeitos primários, os secundários e terciários. Esses vão continuar mesmo se o Estreito de Ormuz abrir amanhã, porque leva muito tempo para essas cadeias de suprimentos serem reiniciadas, como descobrimos durante a pandemia
Se levarmos em consideração que já estamos em uma trajetória macroeconômica recessiva, em conjunto com o fato de que os iranianos não estão dispostos a um acordo com Donald Trump, porque já foram enganados várias vezes. Não é, aliás, algo recente. Vocês devem se lembrar que em 2015 houve um acordo com a Casa Branca, na época com Barack Obama. Visitei a Casa Branca em abril de 2015 e tive uma reunião com ele; eu só estava interessado em falar sobre a Grécia, como vocês podem imaginar, porque estávamos em uma situação difícil. Ele não queria falar sobre a Grécia. Eu não falei sobre a Europa. Ele disse que a única coisa sobre a qual queria falar era o Irã e como ele estava ansioso para ver o país reintegrado aos circuitos financeiros mundiais. E ele concretizou esse acordo. Os iranianos ficaram muito felizes. Os europeus ficaram muito felizes.
E então Donald Trump é eleito e rasga esse acordo. Os iranianos tiveram uns bons 10, 11 anos para refletir sobre o que poderiam obter de qualquer acordo de paz com os Estados Unidos. A resposta é: não muito. O Ocidente simplesmente não é confiável durante negociações. O bombardeio do Irã começou enquanto as negociações estavam em andamento, com o Omã atuando como intermediário. Portanto, os iranianos não farão nenhum favor ao Japão, ao Canadá, à Austrália, à Grã-Bretanha, à Alemanha, à França, e muito menos aos Estados Unidos.
São todas potências que, apesar de declararem querer se tornar autônomas e soberanas em relação a Washington, disponibilizam suas bases militares para os bombardeiros americanos, que, de lá, bombardeiam o Irã até destruí-lo completamente, matando crianças em idade escolar. Vamos nos preparar para um grande tsunami que vai nos atingir, ou já está nos atingindo, sem nenhum aviso prévio.
É claro que os piores efeitos serão sentidos no Sul Global e em países como o Japão, que não produzem petróleo. É um enorme benefício para a Rússia, sem dúvida. Trump não conseguiu suspender as sanções rápido o suficiente, por todos os problemas que já ocorrem na cadeia de suprimentos na Índia. E a Europa vai pagar por isso. A tentativa do governo Trump, de fazer com que os aliados europeus forneçam navios em uma espécie de missão suicida pelo Estreito do Ormuz, depois de essencialmente descartar e até insultar esses aliados, é apenas mais um exemplo de como vivemos as ruínas do império americano. Os Estados Unidos, sendo exportadores de petróleo, provavelmente sofrerão menos danos diretos no curto prazo. Mas à medida que a economia global se desfaz, haverá uma espécie de impacto secundário negativo sobre os EUA.
Vamos falar sobre os diferentes níveis de países que serão afetados, começando pelo Sul Global, passando pela Europa e depois talvez para os Estados Unidos.
Vou começar pelos Estados Unidos, porque fiquei impressionado com a fala de Trump. Ele disse, corretamente, que os Estados Unidos são um exportador líquido de energia após a “revolução” do fracking. E, portanto, continuou, o preço da energia sobe, o petróleo sobe, o gás sobe – nós, americanos, ganhamos mais dinheiro.
Isso só demonstra a completa falta de compreensão que Trump compartilha com a maior parte da imprensa tradicional. Não existe algo como os Estados Unidos. Há os americanos da classe trabalhadora, os americanos da classe alta, os financistas, os corretores de imóveis. Não há dúvida de que, se os Estados Unidos fossem um país comunista e cada cidadão fosse acionista da USA, o argumento de Trump se sustentaria, mas não são. São as companhias de petróleo que estão lucrando. Desde a última vez que verifiquei, elas já lucraram cerca de 80 bilhões com o aumento do preço do petróleo. Mas se você é um operário braçal que precisa dirigir até um emprego de merda, num carro que consome gasolina como água, você está acabado. Você não consegue fechar as contas.
Não é preciso ir a Bangladesh para ver quem vai sofrer. Não vamos esquecer que essas guerras, sejam comerciais ou reais são guerras de classe, no final das contas. Não se trata de quem vai se beneficiar, os Estados Unidos, a Alemanha, o Japão ou a Rússia. As classes trabalhadoras vão perder em todos os lugares. E talvez a classe trabalhadora no Missouri e no Mississippi perca ainda mais do que a classe trabalhadora em Bangladesh. Porque não podemos esquecer que países como Bangladesh têm redes sociais muito fortes. Têm unidades familiares e unidades comunitárias e cuidam uns dos outros. Há um certo grau de solidariedade. Não sofreram o deslocamento da classe trabalhadora, da classe trabalhadora nômade do seu país.
Vamos ao Japão, União Europeia e Sul Global. Existem dois tipos de países do Sul Global: aqueles que foram abençoados com um grande acordo de investimento da China e os demais. Estou falando de países como Gana ou Quênia e algumas nações asiáticas, onde já nos últimos dois ou três anos, painéis solares e baterias chinesas de altíssima qualidade proporcionaram autonomia em relação à indústria de combustíveis fósseis.
Da mesma forma que nunca desenvolveram suficientemente sua telefonia fixa, estes países pularam a revolução das comunicações indo direto para telefones celulares. Há muitos países no sul global que não precisam mais de combustíveis fósseis porque, nos últimos anos, houve um aumento substancial em produção e armazenamento autônomos de energia limpa.
Esses países serão menos afetados e sua dependência da produção chinesa, particularmente de painéis solares e baterias, aumentará muito. Já outros países, que não tiveram a vantagem de sistemas de energia autônomos, sofrerão mais. Quem está numa situação terrível é Europa. Não é simplesmente uma maré baixa. Examinei os preços da eletricidade hoje na Europa e vi que na Espanha um quilowatt-hora valia 35 euros, algo como 40 dólares, na Alemanha 98 e no meu maldito país, a Grécia, 144 euros. As assimetrias se devem ao poder relativo das oligarquias locais. A razão pela qual um quilowatt-hora na Grécia custa 144 euros, enquanto na Espanha custa apenas 35, é porque temos regimes diferentes. Na Grécia, temos um regime totalmente oligárquico, que está totalmente nas mãos de Donald Trump e de Israel.
A Grécia se tornou um satélite de Israel e da OTAN. Na Espanha, você tem Sánchez, com quem tenho muitas divergências de opinião. Mas pelo menos quando se trata da Palestina, dos Estados Unidos, Israel, Gaza, Irã e também da geração e distribuição de eletricidade, o governo foi contra os interesses dos cartéis, dos cartéis oligopolistas
Depois de 20 anos de austeridade, fomos atingidos por outra onda recessiva, prejudicial aos interesses da classe trabalhadora, mas não aos dos cartéis, que lucram enormemente. O que também temos na Europa é a fragmentação. Antes, era uma divisão norte-sul; agora, também temos uma divisão leste-oeste. Já se pode ver isso nos governos e nas autoridades dos Estados bálticos – até mesmo de lugares que costumavam ser civilizados, como a Finlândia e a Suécia. Estão pressionando muito por mais guerra, por mais gastos militares, por maior apoio a um conflito na Ucrânia que não está levando a lugar nenhum para os ucranianos, apenas para criar maiores tensões com a Rússia.
Temos, por outro lado, Espanha, Irlanda e em menor grau Portugal, que estão caminhando em direção completamente diferente. Portanto, a União Europeia, fragmentada, tornou-se uma desunião – e é por que ninguém a leva a sério, muito menos Donald Trump. Essa fragmentação se tornará ainda pior como resultado da guerra no Irã.
E em nível regional? Até que ponto isso abala a hegemonia dos Estados Unidos, com o Irã atacando Estados do Golfo que possuem bases norte-americanas, mas na verdade construíram suas economias em torno das finanças internacionais – lugares como Dubai?
O Golfo tem desempenhado um papel substancial nos últimos 10 a 15 anos, no apoio ao setor financeiro, que está ligado ao dólar americano, que por sua vez está ligado a grandes data centers que proliferaram por toda a região. O investimento em microchips, como o da Nvidia, rendeu uma fortuna por lá. E de repente, com o ataque liderado por Israel contra o Irã, no qual Donald Trump se deixou enredar, este modelo de negócios entrou em colapso total. Olhe para as melhores companhias aérea do mundo, que estão lá. Qatar Airways, Emirates, Etihad. Todas estão paradas, esses aviões maravilhosos, novos e reluzentes estão no chão, acumulando bilhões de dólares em dívidas todos os dias. Essencialmente, o que estou dizendo é que, com a guerra ridícula em que Trump se deixou envolver, o circuito financeiro e tecnológico que une a economia dolarizada ocidental foi sacrificado. Foi para o ralo.
A inflação já avança. Qual a probabilidade de hiperinflação e quais serão as consequências?
Não estou preocupado com a hiperinflação, nos Estados Unidos ou na Europa – mas com algo pior: a estagflação. Os bancos centrais do mundo ocidental — o Fed, o Banco Central Europeu, o Banco do Japão – não são controlados por parlamentos, nem estão minimamente interessados no bem-estar das pessoas comuns que lutam para sobreviver, para comprar comida ou o que seja necessário para a subsistência. Eles não permitirão que a inflação ultrapasse um certo nível, mesmo que isso signifique aumentar as taxas de juros da mesma forma que Paul Volcker fez no início dos anos 80 — para 20, 21, 22%.
Já que você mencionou a Iugoslávia e viveu essa experiência, vale lembrar que Paul Volcker, o secretário do Teseouro dos EUA, foi quem, na verdade, destruiu o país, elevando as taxas de juros. No início dos anos 70, a economia iugoslava era muito bem-sucedida, baseando-se em cooperativas. Era um experimento de empresas socialistas autogeridas. Teve tanto sucesso que os banqueiros americanos apostaram nele e emprestaram dinheiro a empresas iugoslavas. Elascometeram um grande erro ao. Tomaram empréstimos a 3,5%. Quando Paul Volcker elevou as taxas de juros para 22%, é claro que faliram.
O resto é história. Eles farão a mesma coisa. O Federal Reserve, o BCE, se necessário, para proteger os ativos das classes dominantes, vão aumentar as taxas de juros, mas isso vai gerar efeitos deflacionários gigantescos e efeitos que vão dobrar o desemprego. Teremos inflação, não hiperinflação, combinada com desemprego.
Por que isso acontece?
Antes da década de 1970, os economistas costumavam pensar que havia dois monstros que deveríamos temer. Mas ao menos não precisamos nos preocupar com os dois ao mesmo tempo.
Um monstro era a inflação, ou seja, os preços subindo cada vez mais. O outro era o desemprego. E a convicção da minha profissão, até a década de 1970, era de que não se pode ter os dois. Ou os preços disparam porque a economia está superaquecida, ou, se a economia está em recessão, esfria, há desemprego – mas não inflação.
E eis que na década de 1970 tínhamos ambos. Agora temos mais um episódio de dois monstros ao mesmo tempo. Na década de 1970, a economia política global, passou por uma grande transformação. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram o único país credor, o único país com exportações líquidas — se excluirmos a Suíça, que é insignificante. O sistema de Bretton Woods era baseado na noção de que os Estados Unidos manteriam seus superávits, suas exportações líquidas, dolarizando a Europa e o Japão, que estavam devastados após a guerra.
Os americanos dolarizaram a Europa e o Japão, enviando dinheiro para que comprassem as exportações norte-americanas. Enquanto os Estados Unidos tivessem um superávit com a Europa e o Japão, uma parte de cada avião Boeing ou geladeira Westinghouse vendida aos europeus retornava aos Estados Unidos. Esse foi o mecanismo de reciclagem no qual se basearam as duas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial.
Mas, no final dos anos 60, os Estados Unidos não tinham mais superávit, tinham déficit. O sistema não podia funcionar porque injetava mais dólares e os enviava para a Europa e o Japão, criando lagos de dólares que eventualmente minaram o valor do dólar. O presidente Nixon implodiu com isso, com o choque 15 de agosto de 1971. Houve pessoas muito importantes por trás: alguém como Paul Volcker e Henry Kissinger em sua equipe.
A ideia desses homens, que de fato funcionou, foi: agora que temos um déficit, não vamos seguir o exemplo da Alemanha, apertar os cintos e impor austeridade a nós mesmos. Isso significaria queda nos investimentos, fim da hegemonia dos Estados Unidos. O que vamos fazer é aumentara o déficit e obrigar os capitalistas da Alemanha, França, Itália e Japão – e mais tarde a China – a pagar por isso.
O déficit comercial americano tornou-se o aspirador de pó que sugava as exportações líquidas da Alemanha, do Japão e, mais tarde, da China. Essas exportações eram pagas com promissórias chamadas dólares americanos. O que os japoneses, alemães e chineses fizeram com os dólares? Enviaram de volta para os Estados Unidos através de Wall Street. Esse dinheiro comprou títulos da dívida pública americana. Em outras palavras, o déficit comercial dos Estados Unidos foi subsidiado pelo governo americano, pelas forças armadas americanas.
Outra parte foi para o mercado imobiliário. É por isso que pessoas como Donald Trump ficaram ricas. E uma terceira parte foi para a compra de ações na Bolsa de Nova York. Esse foi o modelo. Para que isso acontecesse, era necessária uma desvalorização significativa do dólar americano. Nixon desvalorizou o dólar em 30%, o que significou inflação. Também significou reduzir os custos salariais nos Estados Unidos, suprimir os sindicatos. Ronald Reagan completou isso mais tarde, suprimindo os salários reais, o que significou uma combinação de queda na demanda (porque os trabalhadores tinham menos dinheiro para comprar), queda no investimento, desemprego e inflação juntos.
O preço que as classes trabalhadoras americana, da Europa e do resto do mundo tiveram que pagar para que os Estados Unidos se transformassem, pela primeira vez na história da humanidade, um império deficitário, foi tremendo. Isso nunca havia acontecido antes. O choque de Nixon significou estagflação. Agora, temos outro caso semelhante. Começou no ano passado com as tarifas.
A equipe de Trump queria emular o choque de Nixon. Privatizaram o dólar, através da Lei Genius, – com criptomoedas, ou melhor, stablecoins como o Tether. Estão usando as grandes empresas de tecnologia e o investimento em inteligência artificial com o objetivo de atrair para os Estados Unidos os fluxos líquidos de capital do resto do mundo. O déficit comercial americano não foi reduzido tanto assim. O aspirador de pó ainda funciona. Seguiram a mesma estratégia de reduzir o valor do dólar americano em 20 a 30%, como Nixon.
Então, tínhamos todos os elementos do momento de estagflação da década de 1970 retornando. Agora a guerra no Irã está piorando a situação. Você paga mais pela gasolina para ir trabalhar, a inflação está presente e, ao mesmo tempo, a demanda por bens e serviços – e, portanto, por mão de obra – também está caindo.
Você acha que o agravamento desta crise, reforça as tendências autoritárias de governos da Índia à Alemanha e aos Estados Unidos?
Sempre! O fascismo é o que acontece com o capitalismo quando não consegue lidar com uma crise que ele mesmo criou. Quando a classe capitalista perde o controle, puxa as alavancas e elas não funcionam mais, o fascismo é a ideologia e as práticas que lhes permite permanecer no poder. Os fascistas sempre foram úteis para a classe dominante, quando ela fez bagunças e não conseguiu conter a crise que criou.
E nós já estamos vendo as liberdades civis sendo destruídas nos Estados Unidos. O Departamento de Justiça é apenas uma máquina de vingança para o governo Trump. Ordens judiciais são ignoradas. Foram emitidas 96 ordens de restrição em Minneapolis, contra o ICE – todas sem efeito algum.
O que vocês viram em Minneapolis, o assassinato de cidadãos americanos, o ICE se transformando nas tropas de choque de Donald Trump – tudo isso aconteceu enquanto ele estava ganhando. Imagine o que aconteceria quando perdesse. Vimos o que aconteceu quando perdeu a eleição e se recusou a reconhecer. Nem quero começar a imaginar o que vai acontecer nas eleições de meio de mandato em novembro, quando vir seus números caindo. Haverá eleições? Ele tentará impedi-las? É bem possível que sim, ou que depois do ocorrido conteste o resultado.
E a esquerda, nós que estamos na esquerda, como reagimos ao que está acontecendo?
Organizem-se e se organizem ainda mais! Vejam: não há alternativa senão o árduo trabalho de organização política para derrubar nossos governos. É a boa e velha política. Nenhum de nós consegue resolver esses problemas de forma atomística, individualmente, por meio de discursos inflamados ou artigos maravilhosos. Tudo isso é importante para organizar as pessoas de forma que possamos, de fato, assumir o controle do poder. Parece uma tarefa muito difícil. E é mesmo! Mas, como disse Hannah Arendt, toda revolução parecia impossível antes de acontecer e inevitável depois de acontecer.
Notas
[1] Para facilitar a compreensão, a transcrição da entrevista (em vídeo) foi editada, eliminando-se repetições e oralidades exageradas.
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