16 Março 2026
Entrevista com o principal especialista militar da Alemanha: "Trump cometeu um grande erro. Ele achou que conseguiria subjugar os aiatolás em dois ou três dias. O caos atual é o resultado disso."
Carlo Masala é professor na Universidade de Munique e é considerado o maior especialista militar da Alemanha.
A entrevista é de Tonia Mastrobuoni, publicada por La Repubblica, 16-03-2026.
Eis a entrevista.
O Irã afirmou estar pronto para bombardear países árabes em defesa de Kharg. Os iranianos, no entanto, não parecem temer as ameaças de Trump.
A estratégia do Irã nas últimas duas semanas está longe de ser estúpida. Eles se prepararam bem e o que estão fazendo é bem planejado.
Desestabilizar toda a região e fazer os preços da energia dispararem?
Exatamente. O objetivo deles é que a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e outros países, em algum momento, pressionem os Estados Unidos a interromper a campanha militar.
E o que Trump quer?
Quem sabe? Trump já mencionou de tudo: destruir o programa nuclear, destruir mísseis balísticos, mudança de regime. Todo dia ele quer algo novo. Alguns dizem que é uma estratégia: deixar o adversário na incerteza. Mas isso é um absurdo: as tropas deveriam saber o que ele quer alcançar. E o caos no Estreito de Ormuz aconteceu porque Trump achou que com dois ou três dias de bombardeio intenso, tudo entraria em colapso e a calma retornaria. Um erro crasso.
Segundo o New York Times, os americanos presumiram que o Irã reagiria como reagiu na Guerra dos Doze Dias. Ou seja, não reagiu de forma alguma. Aconteceu o oposto.
E os iranianos dizem que não vão negociar. Agora estão indecisos sobre lutar até o fim. Não há nada que os Estados Unidos possam usar como moeda de troca neste momento. Eles só negociariam se os alicerces do regime estivessem em risco.
Mas Trump só conseguiu uma sucessão dinástica. No topo do Irã está o filho de Khamenei.
Sim. É exatamente esse o ponto. Corre o boato de que os 460 quilos de urânio enriquecido foram retirados de Isfahan e transferidos para uma instalação subterrânea de pesquisa nuclear com segurança ainda maior. Ainda mais protegida contra possíveis bombas. Os americanos conseguiram — é preciso reconhecer — um Irã militarmente enfraquecido. Mas existe uma liderança política que se mobilizará ainda mais rapidamente para construir armas nucleares.
Quais são as chances de desbloquear o Estreito de Ormuz?
Entretanto, se os iranianos garantiram livre passagem para indianos, chineses e russos, não creio que o estreito esteja minado. Para desminá-lo, a primeira opção é escoltar navios militares. Contudo, estes devem ser fragatas equipadas com capacidades adequadas de defesa aérea. E há o problema de que o ponto mais estreito do estreito não fica longe do continente. Os iranianos podem disparar artilharia dali. Em suma, se os Estados Unidos querem libertar o estreito, também precisam limpar a costa.
Agora, Trump parece querer usar o bombardeio da ilha de Kharg, rica em petróleo, como forma de pressionar os iranianos a manter a passagem aberta. Mas Teerã ainda tem uma opção, a mais catastrófica de todas: afundar navios no estreito, paralisando-o completamente.
E então surge o dilema russo. Embora um aliado histórico tenha sido enfraquecido, Moscou parece estar se aproveitando da situação, dos preços da energia e dos erros americanos. Será que a Rússia poderia desempenhar algum papel nas negociações entre iranianos e americanos?
No momento, é uma ideia que não existe. Os russos abandonaram brutalmente os iranianos. Teerã pediu ajuda a Moscou. E Lavrov disse algo absurdo: o tratado de amizade russo-iraniano foi assinado por Khamenei pai. E ele está morto. Portanto, não acho que os russos tenham muita influência sobre a liderança iraniana atualmente.
O que essa guerra significa para a Ucrânia?
Esta é uma notícia muito ruim. Para os cofres de guerra russos, que estão se enchendo com o dinheiro do petróleo. E porque os Estados Unidos precisam priorizar a defesa aérea de seus aliados no Golfo. Mas também é uma má notícia para a Europa: os russos perderam influência na Venezuela e na Síria, e estão prestes a perdê-la também no Irã. Portanto, a Europa é seu último campo de atuação restante. Por essa razão, espero que Moscou intensifique a guerra híbrida.
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