A mercantilização da paz é o último estágio do neoliberalismo. Artigo de Mario Giro

Foto: Sunguk Kim | Unsplash

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17 Março 2026

"Estamos no último estágio do neoliberalismo: depois de ocupar a economia e a política, agora é a vez da governança global. Mais do que uma escolha tradicionalista, soberanista ou nacionalista, trata-se de uma aceleração em sentido cosmopolita e globalista. Mas, acima de tudo, privado. Quem mandará não será uma ideologia, uma nação ou um ditador, mas simplesmente o dinheiro".

O artigo é de Mario Giro, publicado por Domani, 13-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em nosso mundo, tudo está sendo progressivamente privatizado, até mesmo a guerra com mercenários e empreiteiras. Não deveria surpreender que se tente privatizar a paz. O Conselho de Paz de Gaza é um exemplo disso, e seus criadores são protagonistas da privatização desenfreada.

Em primeiro lugar, claro, está o próprio presidente Donald Trump, mas não é o único: há nações inteiras que apostaram na privatização globalizada, líderes do passado que se converteram à privatização das relações internacionais, ricos financistas privados e assim por diante. Trump respeita o dinheiro e aceita envolver aqueles que o possuem: muito dinheiro será necessário para reconstruir a Faixa.

A privatização não é apenas uma questão de dinheiro: é uma alternativa ao multilateralismo e à ONU. Uma primeira tentativa já havia sido feita com a reunião de 50 países sobre questões críticas em Washington no mês passado. A Itália estava presente. Em resumo, trata-se da construção de um novo sistema: onde a política das relações entre os Estados falhou, o setor privado liderado pelos EUA tem certeza que terá sucesso, pois se baseia em interesses pragmáticos. "Quem recusaria a prosperidade?", de fato perguntou Trump ao projetar o futuro dos palestinos.

Estamos no último estágio do neoliberalismo: depois de ocupar a economia e a política, agora é a vez da governança global. Mais do que uma escolha tradicionalista, soberanista ou nacionalista, trata-se de uma aceleração em sentido cosmopolita e globalista. Mas, acima de tudo, privado. Quem mandará não será uma ideologia, uma nação ou um ditador, mas simplesmente o dinheiro.

Como escreve Stefano Stefanini no La Stampa, essa arquitetura (supondo que se sustente) candidata-se a concorrer com o G7, o G20, a OCS liderada pela China e os BRICS. O monopólio da força está sendo duplicado com um método favorável ao dinheiro privado ou administrado por entidades privadas (não o dinheiro controlado pelo Estado, como na China).

Trump revela sua verdadeira natureza: um magnata, de fato, e não tanto um ideólogo apegado aos valores da tradição estadunidense, mesmo que os utilize como moeda de troca política. Por ora, a invenção é frágil e se baseia unicamente sobre a vontade do presidente estadunidense: quando ele se for, quem assumirá a liderança do processo? Mas o interesse do Conselho reside no modelo proposto: muitos acreditam que a privatização é a resposta certa para os fracassos da política internacional, assim como são numerosos — e continuam sendo — aqueles que acreditam que seja a resposta certa para a economia pública. Essas pessoas não acreditam na política e têm uma certa justificativa para tanto, pois está dando má prova de si: os conflitos se multiplicam e se eternizam.

O Conselho não agrada nem aos democratas nem a muitos autoritários: ambos acreditam no valor da política, ainda que o expressem de maneiras muito diferentes. A vantagem da proposta reside no que Jacques Charmelot escreve em "La guerra é merda": "O aspecto mais interessante é que nem a democracia nem a ditadura têm condições de gerir a deriva ruinosa rumo à desagregação da sociedade causada pelos conflitos". Em suma: as guerras corroem aqueles que as travam e não oferecem outra solução, exceto sua própria perpetuação.

Que cenário melhor demonstra essa premissa do que aquele entre Israel e Palestina? Quase oitenta anos de ódio e sofrimentos sem qualquer resultado: os palestinos não têm o Estado, os israelenses não têm a segurança. Pelo contrário, quanto mais tempo isso se prolonga, mais os dois povos são esmagados pelo trauma do medo e do ódio.

É por isso que a hipótese do Conselho encontra amplo apoio. Não pode agradar àqueles que acreditam no diálogo democrático e no multilateralismo, na ONU, no direito internacional e nas regras entre os Estados. Mas o fracasso desse arranjo de referência, com suas constantes distorções e padrões duplos, oferece um espaço de oportunidade para o poder anônimo do dinheiro.

Não é essa a lógica do neoliberalismo radical que, nos últimos 20 ou 30 anos, multiplicou a riqueza financeira global, transformando completamente a economia e tirando de cena a presença pública? Se a política dos estados se limita a retornar à época da força e das armas para resolver as disputas, então o dinheiro joga na mesa sua carta. Não vai funcionar, mas, nesse interim, é a única proposta nova.

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