“Vamos nos concentrar em impedir a guerra nuclear, em vez de debater sobre a ‘guerra justa’”. Entrevista com Noam Chomsky

Fonte: Flickr

29 Março 2022

 

Os líderes da OTAN anunciaram, na quarta-feira, que a aliança planeja reforçar sua frente oriental com o envio de muito mais soldados – incluídos milhares de soldados estadunidenses – em países como Bulgária, Hungria, Polônia e Eslováquia, e o envio de “armamentos para ajudar a Ucrânia a se defender das ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares”. E embora a própria aliança da OTAN não esteja fornecendo diretamente armas à Ucrânia, muitos de seus Estados membros estão enviando armas como mísseis, foguetes, metralhadoras etc.

 

Com toda a probabilidade, em 24 de fevereiro, quando ordenou uma invasão ao país vizinho após uma longa e extensa ocupação militar na fronteira, o presidente russo Vladimir Putin acreditava que seu exército tomaria a Ucrânia em questão de dias.

 

No entanto, um mês depois, a guerra continua e várias cidades ucranianas foram devastadas pelos ataques aéreos russos. As conversas de paz pararam e não está claro se Putin ainda quer derrotar o governo ou se, ao contrário, agora pretende uma Ucrânia “neutra”.

 

Na entrevista a seguir, Noam Chomsky, intelectual de renome mundial e principal voz dissidente, compartilha seus pensamentos e percepções sobre as opiniões disponíveis para acabar com a guerra na Ucrânia, e reflete sobre a ideia da guerrajusta” e se a guerra na Ucrânia poderia provocar a queda do regime de Putin.

 

A entrevista é de C. J. Polychroniou, publicada por Ctxt, 27-03-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Noam, a guerra na Ucrânia já dura um mês e as negociações de paz pararam. De fato, Putin está intensificando a violência, enquanto o Ocidente aumenta a ajuda militar à Ucrânia. Em uma entrevista anterior, você comparou a invasão russa da Ucrânia com a invasão nazista da Polônia. Então, a estratégia de Putin é a mesma de Hitler? Quer ocupar toda a Ucrânia? Tenta reconstruir o império russo? É por isso que as negociações estão paradas?

 

Há bem pouca informação credível sobre as negociações. Algumas das informações que vazam não parecem muito otimistas. Há boas razões para supor que se os Estados Unidos aceitarem participar seriamente, com um programa construtivo, aumentariam as possibilidades de acabar com o horror.

Um programa construtivo, ao menos em linhas gerais, não é segredo algum. O principal elemento é o compromisso de neutralidade da Ucrânia: não pertencer a uma aliança militar hostil, não conter armas que apontem para a Rússia (mesmo as que tenham o enganoso nome de “defensivas”), não realizar manobras militares com forças militares hostis.

Não se trata de algo novo no cenário internacional, mesmo que não se reconheça de forma oficial. Todos entendem que o México não pode se unir a uma aliança militar dirigida pela China, colocar armas chinesas apontando para os Estados Unidos e realizar manobras militares com o Exército de Libertação Popular.

Em resumo, um programa construtivo seria totalmente o contrário da Declaração Conjunta sobre a Associação Estratégica entre os Estados Unidos e a Ucrânia, assinada pela Casa Branca no dia 1º de setembro de 2021. Este documento, que recebeu pouca atenção, declarou energicamente que a porta para que a Ucrânia entre na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) está escancarada.

Também “concluía um Marco Estratégico de Defesa que cria uma base para uma melhor cooperação estratégica em matéria de defesa e segurança entre os Estados Unidos e a Ucrânia”, que fornece à Ucrânia armas antitanque avançadas e de outros tipos, junto com um “sólido programa de treinamento e manobras, em conformidade com o status da Ucrânia como Parceiro de Oportunidades Aprimoradas da OTAN”.

A declaração foi outra manobra para provocar a fera. Trata-se de mais uma contribuição a um processo que a OTAN (ou seja, Washington) veio aperfeiçoando desde que, em 1998, Bill Clinton violou o firme compromisso realizado por George H. W. Bush de não estender a OTAN ao Leste, uma decisão que gerou sérias advertências de diplomatas de alto nível como George Kennan, Henry Kissinger, Jack Matlock (atual diretor da CIA), William Burns, e muitos outros, e que quase levou o secretário de Defesa, William Perry, a renunciar em sinal de protesto, junto com uma longa lista de pessoas que sabiam muito bem o que faziam. A isso deve-se acrescentar, é claro, as ações agressivas que atacavam diretamente os interesses da Rússia (Sérvia, Iraque, Líbia e crimes menores), realizados de forma que maximizaram a humilhação.

Não é difícil suspeitar que a declaração conjunta foi um fator que fez com que Putin e o reduzido círculo de “homens duros” que o cercam decidissem aumentar sua mobilização anual de forças na fronteira ucraniana, em um esforço para chamar a atenção para suas preocupações em matéria de segurança, neste caso, com a agressão criminosa direta, que, de fato, podemos comparar com a invasão nazista da Polônia (junto com Stalin).

A neutralização da Ucrânia é o principal elemento de um programa construtivo, mas há mais. Seria necessário avançar para algum tipo de acordo federal para a Ucrânia que envolva um grau de autonomia para a região de Donbass, de acordo com as linhas gerais do que resta de Minsk II.

Mais uma vez, isso não significaria nada de novo no âmbito internacional. Não existem dois casos idênticos e nenhum exemplo real se aproxima em absoluto, mas existem estruturas federais na Suíça e Bélgica, entre outros casos, e mesmo nos Estados Unidos até certo ponto. Esforços diplomáticos sérios poderiam encontrar uma solução para este problema ou ao menos conter as chamas.

E as chamas são reais. Calcula-se que nesta região, desde 2014, cerca de 15.000 pessoas morreram no conflito.

Isso nos leva à Crimeia. Em relação à Crimeia, o Ocidente tem duas opções. Uma é reconhecer que, de momento, a anexação russa é simplesmente um fato, que seria irreversível sem ações que destruíssem a Ucrânia e possivelmente muito mais. A outra é ignorar as consequências muito prováveis e fazer gestos heroicos sobre como os Estados Unidos “nunca reconhecerão a suposta anexação da Crimeia pela Rússia”, conforme proclama a declaração conjunta, acompanhados de inúmeras declarações eloquentes de pessoas que estão dispostas a condenar a Ucrânia a uma catástrofe total, enquanto apregoam sua bravura.

Gostemos ou não, são essas as opções.

Putin quer “ocupar toda a Ucrânia e reconstruir o império russo”? Seus objetivos anunciados (principalmente a neutralização) diferem bastante, inclusive sua declaração de que seria uma loucura tentar reconstruir a antiga União Soviética, mas pode ser que tenha algo assim em mente. Sendo assim, é difícil imaginar o que ele e seu círculo estão fazendo. Para a Rússia, ocupar a Ucrânia faria sua experiência no Afeganistão parecer um piquenique no parque. A esta altura, isso está muito claro.

Putin tem a capacidade militar – e a julgar pela Chechênia e outras incursões, a capacidade moral – para deixar a Ucrânia em ruínas. Isso significaria o fim da ocupação, o fim do império russo e o fim de Putin.

Nossa atenção se concentra, como é lógico, no aumento dos horrores provocados pela invasão da Ucrânia por Putin. No entanto, seria um erro esquecer que a declaração conjunta é apenas um dos deleites que as mentes imperialistas estão compactuando em silêncio.

Há algumas semanas, falamos da Lei de Autorização de Defesa Nacional do presidente Biden, tão pouco conhecida como a declaração conjunta. Este brilhante documento – citando novamente Michael Klare – defende “uma cadeia ininterrupta de Estados sentinelas armados pelos Estados Unidos – que se estende do Japão e Coreia do Sul, no norte do Pacífico, à Austrália, Filipinas, Tailândia e Singapura, no Sul, e à Índia, no flanco oriental da China -”, com a intenção de cercar a China, incluindo Taiwan, “de uma forma bastante execrável”.

Poderíamos nos perguntar como a China se sente diante do fato de que, segundo se informa, o comando indo-pacífico dos Estados Unidos está planejando reforçar o cerco, dobrando o seu gasto no ano fiscal 2022, em parte para desenvolver “uma rede de mísseis de ataque de precisão, ao longo da chamada primeira cadeia de ilhas”.

 

Há poucas dúvidas de que a agressão de Putin contra a Ucrânia ignora a teoria da guerra justa, e que a OTAN também é moralmente responsável pela crise. Mas o que acontece com o fato de que a Ucrânia arme os civis para que lutem contra os invasores? Não é moralmente justificável pelos mesmos motivos da resistência contra os nazistas?

 

A teoria da guerra justa, lamentavelmente, tem a mesma relevância no mundo real que a “intervenção humanitária”, a “responsabilidade de proteger” e a “defesa da democracia”.

À primeira vista, parece óbvio que um povo em armas tem o direito de se defender de um agressor brutal. Mas como sempre, neste triste mundo, quando se pensa um pouco nisso, surgem questionamentos.

Por exemplo, a resistência contra os nazistas. Dificilmente poderia ter existido uma causa mais nobre.

Pode-se, certamente, entender e simpatizar com os motivos de Herschel Grynspan, quando assassinou um diplomata alemão, em 1938, ou com os partisans treinados pelos britânicos que mataram o assassino nazista Reinhard Heydrich, em maio de 1942. E é possível admirar sua coragem e paixão pela justiça, sem reservas.

No entanto, a coisa não para por aí. O primeiro [fato] serviu de pretexto aos nazistas para as atrocidades da Kristallnacht [Noite dos Cristais] e estimulou ainda mais o plano nazista para alcançar seus espantosos resultados. O segundo deu lugar aos impactantes massacres de Lidice.

Os fatos têm consequências. Os inocentes sofrem, talvez terrivelmente. As pessoas com valores morais não podem fugir destas questões. É inevitável que surjam perguntas quando consideramos armar àqueles que resistem corajosamente à agressão assassina.

Isso é o de menos. No caso atual, também temos que nos perguntar que riscos estamos dispostos a assumir de uma guerra nuclear, que não significará apenas o fim da Ucrânia, mas muito mais, até o verdadeiramente impensável.

Não é animador que mais de um terço dos estadunidenses sejam a favor de “empreender ações militares [na Ucrânia], mesmo que se corra o risco de iniciar um conflito nuclear com a Rússia”, talvez inspirados por comentaristas e líderes políticos que deveriam pensar duas vezes antes de imitar Winston Churchill.

Talvez exista o modo de proporcionar as armas necessárias aos defensores da Ucrânia para repelir os agressores e, ao mesmo tempo, evitar as graves consequências. Mas não devemos nos enganar acreditando que se trata de um assunto simples, que se resolve com declarações audaciosas.

 

Você prevê uma evolução política dramática dentro da Rússia, caso a guerra dure muito mais tempo ou os ucranianos resistam, mesmo após terminarem as batalhas oficiais? Afinal, a economia russa já está acossada e pode acabar com em um colapso econômico sem paralelo na história recente.

 

Não sei o suficiente sobre a Rússia, sequer para se aventurar em uma resposta. Uma pessoa que, sim, conhece o suficiente ao menos para “especular” – e só isso, como ele mesmo nos lembra – é Anatol Lieven, cujas análises têm sido um guia muito útil a todo momento. Considera muito pouco provável que surjam “acontecimentos políticos dramáticos” devido à natureza da dura cleptocracia que Putin construiu cuidadosamente.

Entre as suposições mais otimistas, “o cenário mais provável”, escreve Lieven, “é uma espécie de semigolpe, que em sua maior parte jamais se tornará público, pelo qual Putin e seus colaboradores imediatos renunciarão voluntariamente em troca da garantia de sua imunidade pessoal em relação à prisão e a riqueza de sua família. Quem seria o sucessor do presidente, nestas circunstâncias, é uma questão que fica totalmente aberta”.

E não é necessariamente uma questão fácil de digerir.

 

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