Que oração pela paz em tempos de guerra na Ucrânia?

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16 Março 2022

 

"Se Deus está presente no íntimo do ser e faz continuamente, se assim se pode dizer, a sua obra de Deus, que é inspirar no segredo das consciências, sem as teleguiar, o gosto e o desejo da verdade, então a única oração de pedido o que vale não é mais aquela de solicitar Deus a intervir, mas pedir a nós mesmos, pessoalmente e como comunidade, estar disponíveis às moções, pedidos, incitações (independentemente das palavras) que surgem em nós do mais profundo quando nos preocupamos em viver, sem enganar a nós mesmos e aos outros, segundo o espírito que animava Jesus", escreve Jacques Musset[1], biblista francês, em artigo publicado por Garrigues et Sentiers e reproduzido por Fine Settimana, 11-03-2022. A tradução do italiano é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Imagino que atualmente, durante as missas e cultos dominicais em todas as igrejas e templos cristãos do mundo, sejam formuladas orações de intercessão pela paz na Ucrânia. E que elas, pelo menos nas igrejas católicas, sejam expressas no estilo usual, na forma de pedidos a Deus em termos mais ou menos semelhantes a estes: "Para que a guerra na Ucrânia cesse e venha uma paz justa naquele país tão provado, oramos ao Senhor", "Para que os autores desta guerra injusta tomem consciência de sua injustiça e cessem os combates, rezamos ao Senhor", "Para que as vítimas desta guerra sejam apoiadas, ajudadas, consoladas, rezamos ao Senhor", "Deus, pai de todos os homens, rogamos para que mude os corações daqueles que oprimem o povo ucraniano", "Venha em socorro das vítimas e daqueles que sofrem cruelmente por esta guerra", ou ainda "Estimule a generosidade dos países em paz para que possam ajudar o governo e as populações que estão no local ou em fuga da guerra”…

 

Por que esses pedidos são inaceitáveis para um cristão do século XXI imerso na cultura moderna? De que forma podem desacreditar o cristianismo aos olhos dos agnósticos e dos ateus por causa da imagem de "Deus" e do homem que elas veiculam?

 

Uma primeira razão é que elas dão uma representação de "Deus" de onipotência ilimitada, arbitrária, um "Deus" que, para intervir, precisaria que as pessoas se ajoelhassem diante dele para bradar a própria miséria ou gritar para ele os próprios desejos mais ardentes. Que divindade seria essa que se alimentaria durante anos e séculos de orações incessantes para se dignar a distribuir seus favores? Imagem mesquinha do Deus cristão, mais próximo das divindades de outrora cujo poder se imaginava eficaz em relação a intermináveis orações e rituais sofisticados. O que é esse Deus de quem se proclama que é amor e que se aprazeria em receber orações para derramar sua bondade, como se fosse surdo e distante?

 

Mas há mais: até a representação do homem está em jogo nessa atitude. Esse comportamento de súplica manifesta uma inegável renúncia de responsabilidade por parte de quem o professa. O objeto desses pedidos designa na realidade tarefas que cada um dos crentes e dos seres humanos deve realizar precisamente por ser um ser humano. De fato, quem pode oferecer conforto aos que sofrem? Outros seres humanos. Quem deve criar condições de paz entre as pessoas e os povos? Cada cidadão a título pessoal e aqueles que são eleitos para desempenhar essa função.

 

Quem deve garantir que as pessoas comam o suficiente em certos países onde reina a fome endêmica? Os próprios habitantes desses países, auxiliados pelo apoio e a solidariedade desinteressada daqueles mais ricos. E essas responsabilidades devem suscitar iniciativas concretas, caso contrário permanecemos no nível de desejos piedosos que permitem que persistam as piores injustiças. Como melhorar o próprio comportamento levado à raiva ou ao egocentrismo, como desenvolver o próprio senso crítico? Isso se faz na primeira pessoa, gradualmente trabalhando em si mesmos. Poderíamos multiplicar os exemplos de pedidos a "Deus" que na realidade dependem da responsabilidade humana. Este modo de proceder não faz crescer nem Deus nem o homem.

 

Eu ouço a objeção: na Bíblia, especialmente nos Salmos, e no Evangelho, os crentes não são recomendados a invocar "Deus" para obter ajuda? “Pedi e vos será dado”, diz Jesus. O Pai Nosso que ele ensinou é uma oração urgente de pedido. O que responder? Primeiro, a forte advertência de Jesus contra a repetição de fórmulas que seriam eficazes por si mesmas. O próprio Jesus nos lembra que Deus não precisa de orações para estar presente aos homens e às suas necessidades (Mt 6, 5-8). E insiste: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai" (Mt 7,21).

 

Além disso, essas afirmações devem ser colocadas em seu contexto histórico e cultural. Para os autores dos salmos, como para Jesus, "Deus" é uma realidade transcendente, que habita o céu e é capaz de operar milagres onde o homem percebe sua impotência. É por isso que convidam a gritar para ele e solicitar sua intervenção, mesmo que se tenha certeza de sua fiel presença. Com o progresso das chamadas ciências exatas e a "libertação" das ciências humanas depois das críticas do Iluminismo, o âmbito em que até aquele momento Deus reinava como ser supremo, praticamente encolheu e se secularizou. Não há mais necessidade hoje de que Deus intervenha na explicação e gestão da natureza, na compreensão da psicologia do ser humano, dos seus comportamentos e das suas doenças, na compreensão das leis de que toda sociedade precisa para viver em um certo equilíbrio entre as forças centrífugas que a compõem... Os homens adquiriram uma autonomia na condução de sua existência pessoal e social.

 

Uma oração respeitosa de Deus e de nós mesmos

 

O que então se torna "Deus"? Talvez seja um epifenômeno que já não tenha mais sua razão de existir depois de ter sido despojado de suas prerrogativas tradicionais, ou pode designar para os crentes uma realidade misteriosamente presente no mais íntimo de cada ser humano, ali onde nasce o melhor de si: e isto é, o que tem a ver com o dom, com a arte, com a interioridade, com o conhecimento de si, com a recusa ao inaceitável, com o consenso e a apropriação do que é. É o que expressam os místicos de todos os tempos e de todas as tradições espirituais.

 

Aquelas pessoas, que vivem em um nível de extrema profundidade de seu ser, experimentam, tocam, assim dizem, uma realidade que sem serem eles mesmos está inseparavelmente ligada a eles.

 

A experiência dessas superações é comum a todos os seres humanos que procuram não trapacear com os pedidos interiores que lhes são feitos, isso não significa que possamos ler neles o rastro de Deus. Se é legítimo chamar "Deus", na falta de outras palavras, o que está no cerne de todo impulso interior de se humanizar incessantemente em todas as dimensões, então a maneira de se colocar em relação a essa fonte misteriosa não pode mais se expressar como antigamente, quando Deus era concebido como externo a si e onipotente em todos os âmbitos.

 

Então, qual é a possível oração de pedido que seja digna de "Deus" e do homem? O que permanece comum com a forma de se expressar do passado é a necessidade de recolhimento. O que, além disso, é uma necessidade para todo homem que não quer viver sua existência como um sonâmbulo ou como um cata-vento. Dedicar tempo ao silêncio, independentemente do lugar e do modo, é uma condição indispensável para estar presentes a si mesmos e ao próprio mistério.

 

Mas então, como a oração cristã de pedido, pessoal ou coletivo, pode ser expressa de maneira autêntica? Se Deus está presente no íntimo do ser e faz continuamente, se assim se pode dizer, a sua obra de Deus, que é inspirar no segredo das consciências, sem as teleguiar, o gosto e o desejo da verdade, então a única oração de pedido o que vale não é mais aquela de solicitar Deus a intervir, mas pedir a nós mesmos, pessoalmente e como comunidade, estar disponíveis às moções, pedidos, incitações (independentemente das palavras) que surgem em nós do mais profundo quando nos preocupamos em viver, sem enganar a nós mesmos e aos outros, segundo o espírito que animava Jesus.

 

Como é possível fazer isso? Mudando a forma como nos expressamos. Se é verdade que se acaba pensando como se fala, então, falamos de acordo com a verdade para que nossas palavras sejam estimulantes individual e coletivamente e não fiquem apenas como fórmulas mágicas fáceis e generosas, sem efeito sobre a realidade. Dessa forma, diante de "Deus" (reconhecido como Fonte, Sopro interior), os cristãos se comportarão como adultos e não como seres infantis.

 

Vamos tentar mostrar, no contexto atual, qual poderia ser uma oração respeitosa de Deus e de nós mesmos: "Diante de ti, ó Deus, dizemos a que nos comprometem a mensagem e o comportamento de Jesus, no momento em que a Ucrânia é vítima de uma guerra injusta e destrutiva que causa muitas mortes, que mergulha seus habitantes na insegurança e os obriga a fugir de seu país em um estado precário. Que cada um de nós, de acordo com as próprias possibilidades, participe nas ações empreendidas para ajudar os refugiados e também aqueles que permanecem no local; para demonstrar publicamente o nosso apoio aos ucranianos e a nossa condenação à agressão que sofrem; para acolher e acompanhar os refugiados na nossa região".

 

Nota

 

1.- Jacques Musset é um biblista francês, nascido em 1936. Foi capelão de escola de ensino médio, animador de grupos bíblicos e formador no acompanhamento de doentes em hospitais. Ex-presbítero, casado, escreveu vários livros sobre sua jornada espiritual. Anima encontros da Associação Cultural dos amigos de Marcel Légaut.

 

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