Pesquisadora e autora do livro Capitalismo Gore, lançado recentemente no Brasil, analisa como a violência contra minorias políticas resulta de um embaralhamento entre patriarcado e lucratividade midiática que transforma líderes extremistas em chefes de estado
Pensar a violência, especialmente àquela praticada contra minorias políticas, requer olhar para os processos de “naturalização” midiática da barbárie. “A questão mais central, bastante trabalhada no livro [Capitalismo Gore], foi a espetacularização da violência como mercadoria e dos corpos de pessoas assassinadas como uma espécie de reality show ao vivo, onde se transmite pessoas em situações deploráveis, assassinadas ou massacradas, o que também gera transmissões ao vivo que desumanizam os afetados e as vítimas”, ressalta Sayak Valencia em entrevista realizada por chamada de vídeo na plataforma Zoom ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
A pesquisadora mobiliza uma série de conceitos e reflexões absolutamente atuais, capazes de revigorar a semântica e o debate sobre as dinâmicas da violência contemporânea. “O ponto era pensar como isso [a divisão entre as pessoas descartáveis ou não] reforçava um patriarcado cada vez mais violento. Nesse sentido, cunhei um termo que chamo de necromasculinidade, que não se refere a todas as outras masculinidades, mas à masculinidade que exerce violência direta e indireta e que tem o poder de exercer essa violência”, explica.
“Com Trump, vemos como ideias que antes eram muito conservadoras estão se transformando, como se fossem razoáveis. Trump permanece na extremidade mais estreita, mas estamos caminhando para um maior conservadorismo, mesmo em agendas de esquerda ou mais focadas em direitos humanos. Assim, Trump seria a cristalização desse tema, dessa necromasculinidade, que é um governante orientado à ideia de um rei, à soberania em um único corpo”, complementa.
O ex-apresentador da versão estadunidense d’O Aprendiz teve sua imagem política forjada pela indústria cultural por, pelo menos, uma década, galvanizando sua imagem de líder teocrático-midiático. “Trump, acho que está caminhando nessa direção, não apenas para uma ditadura em exercício, mas para uma teocracia midiática. A mídia funcionando, neste caso, como um novo dispositivo psicopolítico, não apenas um dispositivo psicopolítico das emoções, mas um dispositivo psicopolítico colonial”, descreve Valencia.
“Vemos isso sendo usado pelo sistema tecnofeudal, com a extração de dados, a extração mineral, a extração de água e recursos. É também a tecnologização de figuras masculinas ultramachistas — não apenas egos inflados, mas supremacistas brancos — e isso está sendo vendido por dois canais. Um deles é o canal religioso, que continua a existir em nossos países e em todo o mundo. Não é ficção que instituições religiosas surgiram separadas do Estado, mas ainda coexistem com ele. Por outro lado, estão usando todas as plataformas de design digital para capturar emoções, impulsionar ainda mais esse capitalismo da atenção, que utiliza uma plataforma originalmente destinada ao entretenimento para evangelizar por meio de conteúdo direto, muitas vezes muito explícito, mas em outros casos de forma indireta e de baixa intensidade”, acrescenta.
Pensar para além das dicotomias, requer a coragem de encarar os problemas contemporâneos à altura dos desafios postos. “Quero que ultrapassemos as figuras de vítima e agressor. Quero que façamos uma espécie de síntese, por assim dizer. Estou pensando rapidamente dentro do contexto teórico de Marx, para transcender essas divisões, porque realmente precisamos unir forças e parar de nos matar uns aos outros, entre os pobres, entre homens e mulheres, entre pessoas cis e trans, porque o ódio é uma forma de governo da qual a extrema-direita está se aproveitando muito bem para nos destruir dentro de nossas comunidades”, sugere.
Diante de todo este cenário apocalíptico, há no meio do caminho a vida, como a pedra de Drummond, que nos conduz à resistência. “E acredito que temos que continuar lutando por aqueles que já se foram, que partiram, que foram levados, que nunca mais vimos, que foram assassinados. Por essas pessoas, temos que fazer um esforço dobrado para manter a vida em movimento, porque não podemos ficar presos à narrativa apocalíptica de que o mundo já acabou. O mundo não acaba até que todos nós tenhamos partido, e nós ainda estamos aqui”, afirma.
Sayak Valencia (Foto: Sebastián Freire | UNAM)
Sayak Valencia é teórica e transfeminista mexicana, doutora em Filosofia Feminista pela Universidade Complutense (Madrid) e professora pesquisadora do Departamento de Estudos Culturais do Colegio de la Frontera Norte, Tijuana (México). É autora de Capitalismo Gore, lançado em 2025 no Brasil pela editora Sobinfluencia.
A entrevista foi publicada originalmente pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 19-02-2026.
Confira a entrevista.
IHU – Gostaria de começar por seu livro Capitalismo Gore (Sobinfluencia, 2025). Poderia explicar do que se trata os termos do título do livro e como eles descrevem o capitalismo atual?
Sayak Valencia – Eu cunhei o termo há pelo menos 15 anos, mesma idade do livro (na versão original), mas comecei a pensar e trabalhar nisso em 2006. Este ano o conceito completa 20 anos e visa oferecer uma interpretação do que estava acontecendo na fronteira norte do México a partir de 2006, quando começou a guerra contra as drogas.
O que eu proponho na obra, em relação ao capitalismo, é abordar a questão de fundo a partir de uma perspectiva situada, geograficamente localizada na fronteira norte do México, especificamente o lugar onde moro, onde cresci e que conheço melhor: Tijuana. Estou bastante convencida de que falar a partir de uma perspectiva situada não tinha a intenção de explicar toda a violência do capitalismo, em todos os lugares, mas sim a violência na fronteira e, em primeiro lugar, em relação ao narcotráfico e ao contrabando de drogas. Mas eu vi uma mudança estrutural entre as décadas de 1990 e 2000 na forma como o narcotráfico estava se estruturando, não apenas como uma organização criminosa, mas também como um espetáculo.
Com Capitalismo Gore, o que eu queria abordar era, em primeiro lugar, a produção de um tipo de subjetividade que se concentrava muito mais na masculinidade vulnerável e precária, não apenas na masculinidade racializada, que usava essas pessoas como cavalos de Troia para fazer o trabalho sujo, o trabalho da morte. Isso se relaciona com o que [Achile] Mbembe diz sobre Necropolítica, onde os sistemas não mais organizam o Estado, mas sim gerenciam populações, especialmente populações racializadas nas ex-colônias. Devido a múltiplos fatores, como o capitalismo, a economia, o neoliberalismo e essas ficções monstruosas aplicadas às masculinidades, especialmente em territórios como o México, o Brasil ou qualquer outro lugar anteriormente colonizado, os homens dessas comunidades eram retratados como monstros violentos, desagradáveis e desumanos.
Por outro lado, temos uma espécie de ficção política medieval que chamei de “Sujeito Endriago” [personagem monstruoso dos romances da cavalaria], descrevendo um tipo de subjetividade muito obediente ao empreendedorismo, que atende à hashtag ativista do “do it yourself” [“faça você mesmo”], que tem a ver com a apropriação dos ideais do neoliberalismo ainda que por meio de condições materiais completamente precárias ou desesperadoras. Isso tudo em um contexto de fronteira, onde os jovens eram especialmente recrutados para fazer esse “trabalho de morte” e também para criar caos dentro das comunidades.
A questão mais central, bastante trabalhada no livro, foi a espetacularização da violência como mercadoria e dos corpos de pessoas assassinadas como uma espécie de reality show ao vivo, onde se transmite pessoas em situações deploráveis, assassinadas ou massacradas, o que também gera transmissões ao vivo que desumanizam os afetados e as vítimas. Independentemente do fato de as pessoas terem cometido crime ou não, cria-se um espetáculo de violência com o qual, por um lado, os Estados ganham capital simbólico sendo responsáveis pelas ações de segurança, mas que, na verdade, deveriam garantir a integridade dos cidadãos, quer sejam criminosos ou não. Essa divisão ética e humana, entre pessoas consideradas descartáveis (pessoas racializadas, indígenas, negras, feminizadas, trans e, sobretudo, homens — jovens homens contra os quais uma intensa campanha de extermínio estava sendo travada) criava uma perspectiva de criminalização e responsabilização direta para esses indivíduos, dizendo que o sistema não tem nada a ver com isso, que essas são as pessoas que estão travando guerra contra o sistema e que estão escolhendo se envolver em má conduta, o que eles chamam de “má conduta individual”.
O capitalismo sempre foi brutal, ou seja, gore [sangrento], alimenta-se de sangue. [Karl] Marx já dizia que a violência é uma forma de economia em si mesma e que o capitalismo jorra sangue e imundície, porque se alimenta da destruição. O capitalismo gore não era mais uma metáfora, mas uma realidade em constante movimento, onde a mercadoria é precisamente os povos exilados, os povos descartáveis, os povos massacrados. É isso que permite que a ética do espectador fosse influenciada e criasse menos empatia por essas pessoas, o que desencadearia não apenas um contágio muito perverso em relação a outras populações que não eram criminosas, mas sim populações empobrecidas e racializadas. No fundo, é um pouco como criar aquela imagem clichê do Velho Oeste, onde você procura o rosto do bandido porque não temos lei para compensá-lo, mas o rosto daquele bandido.
Quase todos nós que vivemos nesses territórios temos esse problema, porque o vilão sempre parece mais com pessoas racializadas, como nós [os mexicanos] do que com os conquistadores brancos. E agora temos senhores feudais que são os que criam a pilhagem, mas eles usam toda essa máquina de controle, desumanização e espetacularização da violência em favor de seu projeto político, mas também do projeto desumanizador ou subjugador, que usou o tráfico de drogas e o crime como um cavalo de Troia para introduzir todas essas questões relacionadas.
IHU – Hoje, nos EUA sob Trump e alhures, esta espetacularização nos parece mais radicalizada. Como Trump está associado a esta espetacularização? De que forma ele é uma representação dessa lógica?
Sayak Valencia – O livro Capitalismo Gore foi lançado em 2010 e eu ainda reflito sobre o que está acontecendo com a masculinidade e a violência, porque vivo em um país onde seis mulheres são assassinadas todos os dias, bem como outras tantas mulheres trans. No México — e eu entendo que o Brasil também enfrenta isso — há um nível aberrante de feminicídio. Me interessava pensar como a principal característica dos homens descritos como monstruosos é que eles se empoderam pela violência, mas nunca são brancos, nunca são os líderes brancos do Norte Global e sempre são os homens descartáveis do Sul Global.
Passei a me perguntar sobre essa outra violência que é detectada por essa masculinidade poderosa, de terno, de colarinho branco, às vezes de caráter científico, outras vezes político, frequentemente militar. Onde estão essas pessoas? A perspectiva desses homens era criar uma espécie de modelo, digamos assim, com uma ficção política oposta criada para os precários e as minorias. Comecei a pensar por meio dos Estudos Culturais, que também me influenciaram, especialmente essa violência de forma superficial e que saía impune em todas as séries de TV, em todos os videogames, etc. O ponto era pensar como isso reforçava um patriarcado cada vez mais violento. Nesse sentido, cunhei um termo que chamo de necromasculinidade, que não se refere à masculinidade que exerce violência direta e indireta e que tem o poder de exercer essa violência.
Portanto, a necromasculinidade explicaria muito do que está acontecendo com Trump, porque, obviamente, ele usa o aparato político e midiático não apenas para criar uma forma de governo baseada nas emoções das pessoas, mas também para levar essa Janela de Overton ao extremo. Com Trump, vemos como ideias que antes eram muito conservadoras estão se transformando, como se fossem razoáveis. Trump permanece na extremidade mais estreita, mas estamos caminhando para um maior conservadorismo, mesmo em agendas de esquerda ou mais focadas em direitos humanos.
Assim, Trump seria a cristalização desse tema, dessa necromasculinidade, pois ele é um governante orientado à ideia de um rei, à soberania em um único corpo. É nisso que ele começa a trabalhar, dizendo que a masculinidade é um tipo de soberania concedida aos homens, mas que nem toda essa soberania é o direito de exercer violência de baixa ou alta intensidade. No caso de Donald Trump, podemos ver que não se trata apenas do governante, mas da persona de Donald Trump, e que ele construiu uma carreira política precisamente através das indústrias culturais e da mídia, especificamente com a Fox News. Ele fez campanha por dez anos antes de anunciar sua candidatura à presidência, em um programa chamado O Aprendiz.
A Fox News manteve Trump na mente dos americanos por dez anos, posicionando-o como um candidato. É preciso deixar claro que Trump não é uma exceção à regra política democrática, mas a consequência direta de uma reciclagem ou acumulação de capital, do extrativismo, do colonialismo, de ideias supremacistas, do machismo. O vazamento dos arquivos de Jeffrey Epstein acarretam não apenas uma degradação política e econômica, mas também uma degradação ética e moral, onde, de alguma forma, se cria um quadro de encarnação que se opõe a tudo o que é comum, a qualquer tipo de legislação, a qualquer tipo de ética, a qualquer tipo de respeito pelos direitos dos cidadãos, sejam direitos humanos, culturais ou políticos.
Trump seria a personificação desse herói conquistador, ou desse herói conquistador que discutimos nos artigos sobre colonialismo, como diz [Michael] Grossberg. Ele é esse herói com uma conquista, ou, como disse [Enrique] Dussel, que faleceu em 2023, esses são os escolhidos porque vivem com uma ideia muito medieval de mandato divino, quase uma divindade ancestral. É uma espécie de retorno não só a um momento medieval, mas também a uma época em que a ideia de Estado e religião eram inseparáveis.
Consideremos que isso tem sido fortemente criticado, por exemplo, em países árabes e do Oriente Médio, quando essas práticas teocráticas são discutidas. Trump, acho que está caminhando nessa direção, não apenas para uma ditadura em exercício, mas para uma teocracia midiática. A mídia funcionando, neste caso, como um novo dispositivo psicopolítico, não apenas um dispositivo psicopolítico das emoções, mas um dispositivo psicopolítico colonial. Eu falo sobre isso em alguns artigos que têm pelo menos dez anos, onde Trump tem estado na plataforma da cultura das celebridades, ao mesmo tempo em que promove a financeirização, usando um imaginário cultural das séries que estamos tão acostumados a ver. Então seria uma cristalização dos ideais supremacistas, racistas e sexistas, e também de uma perspectiva completamente extrativista, na qual vivemos os últimos 500 anos em nosso continente. Vemos, porém, que mais uma vez estão tirando suas máscaras porque criaram toda uma estratégia de baixa intensidade precisamente através da conquista das emoções, do entretenimento e da cultura das celebridades. Eles também criaram uma espécie de sistema baseado em empréstimos, onde o fascismo se tornou fascismo novamente, mas sem se declarar.
O fascismo do qual Susan Sontag falava tem a ver com o que o capitalismo gore faz, de tornar a violência fascinante e viciante, além de torná-la mais permissível. Uma das coisas que o capitalismo gore faz é estandardizar a violência e criar uma espécie de visão microscópica, ou seja, uma perspectiva acostumada a ver morte e destruição e que se torna permeável a elas. Em psicologia, existe um conceito chamado “privacidade negativa”, que significa que você é constantemente confrontado com catástrofes e, por estar tão acostumado a vê-las, o cérebro e o sistema cognitivo não reagem mais da maneira esperada, porque se torna impermeável a toda essa catástrofe. Por outro lado, é uma reação, digamos, ilógica, porque o cérebro precisa se proteger — ou melhor, a memória e todo o sistema nervoso e cognitivo precisam se proteger — porque o trauma é tão constante que não conseguimos pará-lo nem processá-lo.
Então, vemos isso sendo usado pelo sistema tecnofeudal, com a extração de dados, a extração mineral, a extração de água e recursos. É também a tecnologização de figuras masculinas ultramachistas — não apenas egos inflados, mas supremacistas brancos — e isso está sendo vendido por dois canais. Um deles é o canal religioso, que continua a existir em nossos países e em todo o mundo. Não é ficção que instituições religiosas surgiram separadas do Estado, mas ainda coexistem com ele. Por outro lado, estão usando todas as plataformas de design digital para capturar emoções, impulsionar ainda mais esse capitalismo da atenção, que utiliza uma plataforma originalmente destinada ao entretenimento para evangelizar por meio de conteúdo direto, muitas vezes explícito, mas em outros casos de forma indireta e de baixa intensidade.
IHU – Por que é importante pensar a violência a partir de uma perspectiva filosófica, como um problema propriamente filosófico?
Sayak Valencia – Bem, em primeiro lugar, acho que a violência, às vezes, era vista como muito instrumental. Por exemplo, podemos pensar em Maquiavel ou em Hobbes, quando ele falava do "homem como lobo do homem", que propõem teorias de Estado para governar populações que se presumem ingovernáveis. Com isso cria-se uma espécie de necropolítica, que não faz parte da necropolítica formulada por Mbembe, mas continua inerente ao Estado. A violência da gestão autônoma, a luta pelo poder, teve uma origem sutil: guerras ou conflitos políticos direcionados para o exterior. Mas agora que a violência se tornou quase uma condição sine qua non para a governança, não apenas em assuntos externos ou para defesa, como uma forma de governo sobre as populações, e onde a violência não é mais apenas uma prática isolada ou excepcional, mas sim cotidiana – devemos considerar isso sob uma perspectiva filosófica. Creio que na América Latina já consideramos a violência uma questão filosófica há muito tempo, porque a vivenciamos de forma direta. Devemos também considerá-la como uma episteme. O que quero dizer com isso? Uma forma de senso comum, uma forma de governo que parece aceitável, uma maneira de abordar o mundo, não apenas através da violência em si, mas também através da estética, do espetáculo, do mercado e de uma forma de trabalho.
A violência é uma ferramenta de trabalho, portanto, esse tipo de questão deve nos preocupar sob as perspectivas da filosofia, da sociologia, da psicologia e de outros campos afins. De um ponto de vista filosófico, deve ser de suma importância a abordagem, porque a violência está destruindo a estrutura de significado que compreendemos a partir de uma perspectiva ética e humanística. Claramente, o que entendemos como violência é aplicada seletivamente apenas a certas populações, que entendemos serem quase sempre pessoas brancas ou não racializadas em todo o mundo. No entanto, agora que a violência se tornou episteme, ou senso comum, devemos refletir profundamente sobre ela, pois está mudando radicalmente a forma como nos relacionamos uns com os outros, seja por meio da violência direta, da desumanização ou de uma espécie de indiferença programada e cotidiana. Nesse contexto, a violência como forma de governança não surpreende mais ninguém, tornando-se simplesmente uma triste e constante notícia do dia a dia.
Agora que Gaza está nos mostrando o genocídio que vivenciamos no continente nos últimos 500 anos, testemunhando ao vivo, midiaticamente, que governar pela violência não é uma exceção à regra democrática, mas sim sua forma de governo, no momento em que eles querem que todas as formas contemporâneas de governo sigam deste modo. Por exemplo, pensando no sequestro do presidente da Venezuela por Trump, ainda que concordemos ou não com Maduro, pois acho que é complexo demais para discutir em uma única frase. O que é 100% verificável é que foi o sequestro de um chefe de Estado, onde toda a soberania internacional e todos os princípios políticos foram violados. Trata-se de um ato de violência de uma superpotência que está dizendo: não vamos mais permitir que a democracia exista, não vamos endossar nada disso, agora queremos governos totalitários ou plutocráticos, que é como eu chamo isso. Trata-se de autoritarismos regionais concretos, que infelizmente conhecemos muito bem no continente: no Brasil com a ditadura que tiveram ou no Chile e na Argentina, sabemos bem como o totalitarismo e a ditadura funcionam, que não é uma brincadeira, não é divertido, não é um videogame, não é algo trivial.
Temos que pensar nisso de uma perspectiva filosófica, em um nível epistemológico, em um nível político, até mesmo em um nível estético, também em um nível ético, para que a moralidade não se sobreponha à ética. Agora que tudo é moralizado e se torna um circuito fechado onde só existem argumentos muito superficiais e polarizados entre o bem e o mal, quando não há nuances, a filosofia faz o nobre trabalho de pensar nessas nuances estéticas e políticas, de pensar nas consequências de um avanço como esse do reacionarismo, um avanço do ultraconservadorismo, porque as filosofias da América Latina, do continente americano, já faz algum tempo que estão pensando eticamente.
Precisamos continuar pensando nisso em termos de uma ética que não se submeta a pressupostos anglo-europeus, mas que, ao contrário, crie condições de vida onde a ética emana da comunidade e da cooperação, não como uma palavra bonita, mas como algo que nos permitiu sobreviver em nossas comunidades sitiadas por tanto tempo, onde somos nós os que morremos e eles [os supremacistas] os que disparam os tiros. Precisamos pensar em filosofia, a partir de nossos contextos, mais do que nunca, porque acredito que, em meio às nossas falsas dicotomias, há muito a perder.
IHU – Como esta violência e este imaginário machista, patriarcal, se converte em espetacularização e como isso circula atualmente?
Sayak Valencia – A genealogia desses imaginário