Pesquisadora e autora do livro Capitalismo Gore, lançado recentemente no Brasil, analisa como a violência contra minorias políticas resulta de um embaralhamento entre patriarcado e lucratividade midiática que transforma líderes extremistas em chefes de estado
Pensar a violência, especialmente àquela praticada contra minorias políticas, requer olhar para os processos de “naturalização” midiática da barbárie. “A questão mais central, bastante trabalhada no livro [Capitalismo Gore], foi a espetacularização da violência como mercadoria e dos corpos de pessoas assassinadas como uma espécie de reality show ao vivo, onde se transmite pessoas em situações deploráveis, assassinadas ou massacradas, o que também gera transmissões ao vivo que desumanizam os afetados e as vítimas”, ressalta Sayak Valencia em entrevista realizada por chamada de vídeo na plataforma Zoom ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
A pesquisadora mobiliza uma série de conceitos e reflexões absolutamente atuais, capazes de revigorar a semântica e o debate sobre as dinâmicas da violência contemporânea. “O ponto era pensar como isso [a divisão entre as pessoas descartáveis ou não] reforçava um patriarcado cada vez mais violento. Nesse sentido, cunhei um termo que chamo de necromasculinidade, que não se refere a todas as outras masculinidades, mas à masculinidade que exerce violência direta e indireta e que tem o poder de exercer essa violência”, explica.
“Com Trump, vemos como ideias que antes eram muito conservadoras estão se transformando, como se fossem razoáveis. Trump permanece na extremidade mais estreita, mas estamos caminhando para um maior conservadorismo, mesmo em agendas de esquerda ou mais focadas em direitos humanos. Assim, Trump seria a cristalização desse tema, dessa necromasculinidade, que é um governante orientado à ideia de um rei, à soberania em um único corpo”, complementa.
O ex-apresentador da versão estadunidense d’O Aprendiz teve sua imagem política forjada pela indústria cultural por, pelo menos, uma década, galvanizando sua imagem de líder teocrático-midiático. “Trump, acho que está caminhando nessa direção, não apenas para uma ditadura em exercício, mas para uma teocracia midiática. A mídia funcionando, neste caso, como um novo dispositivo psicopolítico, não apenas um dispositivo psicopolítico das emoções, mas um dispositivo psicopolítico colonial”, descreve Valencia.
“Vemos isso sendo usado pelo sistema tecnofeudal, com a extração de dados, a extração mineral, a extração de água e recursos. É também a tecnologização de figuras masculinas ultramachistas — não apenas egos inflados, mas supremacistas brancos — e isso está sendo vendido por dois canais. Um deles é o canal religioso, que continua a existir em nossos países e em todo o mundo. Não é ficção que instituições religiosas surgiram separadas do Estado, mas ainda coexistem com ele. Por outro lado, estão usando todas as plataformas de design digital para capturar emoções, impulsionar ainda mais esse capitalismo da atenção, que utiliza uma plataforma originalmente destinada ao entretenimento para evangelizar por meio de conteúdo direto, muitas vezes muito explícito, mas em outros casos de forma indireta e de baixa intensidade”, acrescenta.
Pensar para além das dicotomias, requer a coragem de encarar os problemas contemporâneos à altura dos desafios postos. “Quero que ultrapassemos as figuras de vítima e agressor. Quero que façamos uma espécie de síntese, por assim dizer. Estou pensando rapidamente dentro do contexto teórico de Marx, para transcender essas divisões, porque realmente precisamos unir forças e parar de nos matar uns aos outros, entre os pobres, entre homens e mulheres, entre pessoas cis e trans, porque o ódio é uma forma de governo da qual a extrema-direita está se aproveitando muito bem para nos destruir dentro de nossas comunidades”, sugere.
Diante de todo este cenário apocalíptico, há no meio do caminho a vida, como a pedra de Drummond, que nos conduz à resistência. “E acredito que temos que continuar lutando por aqueles que já se foram, que partiram, que foram levados, que nunca mais vimos, que foram assassinados. Por essas pessoas, temos que fazer um esforço dobrado para manter a vida em movimento, porque não podemos ficar presos à narrativa apocalíptica de que o mundo já acabou. O mundo não acaba até que todos nós tenhamos partido, e nós ainda estamos aqui”, afirma.
Sayak Valencia (Foto: Sebastián Freire | UNAM)
Sayak Valencia é teórica e transfeminista mexicana, doutora em Filosofia Feminista pela Universidade Complutense (Madrid) e professora pesquisadora do Departamento de Estudos Culturais do Colegio de la Frontera Norte, Tijuana (México). É autora de Capitalismo Gore, lançado em 2025 no Brasil pela editora Sobinfluencia.
Confira a entrevista.
IHU – Gostaria de começar por seu livro Capitalismo Gore (Sobinfluencia, 2025). Poderia explicar do que se trata os termos do título do livro e como eles descrevem o capitalismo atual?
Sayak Valencia – Eu cunhei o termo há pelo menos 15 anos, mesma idade do livro (na versão original), mas comecei a pensar e trabalhar nisso em 2006. Este ano o conceito completa 20 anos e visa oferecer uma interpretação do que estava acontecendo na fronteira norte do México a partir de 2006, quando começou a guerra contra as drogas.
O que eu proponho na obra, em relação ao capitalismo, é abordar a questão de fundo a partir de uma perspectiva situada, geograficamente localizada na fronteira norte do México, especificamente o lugar onde moro, onde cresci e que conheço melhor: Tijuana. Estou bastante convencida de que falar a partir de uma perspectiva situada não tinha a intenção de explicar toda a violência do capitalismo, em todos os lugares, mas sim a violência na fronteira e, em primeiro lugar, em relação ao narcotráfico e ao contrabando de drogas. Mas eu vi uma mudança estrutural entre as décadas de 1990 e 2000 na forma como o narcotráfico estava se estruturando, não apenas como uma organização criminosa, mas também como um espetáculo.
Com Capitalismo Gore, o que eu queria abordar era, em primeiro lugar, a produção de um tipo de subjetividade que se concentrava muito mais na masculinidade vulnerável e precária, não apenas na masculinidade racializada, que usava essas pessoas como cavalos de Troia para fazer o trabalho sujo, o trabalho da morte. Isso se relaciona com o que [Achile] Mbembe diz sobre Necropolítica, onde os sistemas não mais organizam o Estado, mas sim gerenciam populações, especialmente populações racializadas nas ex-colônias. Devido a múltiplos fatores, como o capitalismo, a economia, o neoliberalismo e essas ficções monstruosas aplicadas às masculinidades, especialmente em territórios como o México, o Brasil ou qualquer outro lugar anteriormente colonizado, os homens dessas comunidades eram retratados como monstros violentos, desagradáveis e desumanos.
Por outro lado, temos uma espécie de ficção política medieval que chamei de “Sujeito Endriago” [personagem monstruoso dos romances da cavalaria], descrevendo um tipo de subjetividade muito obediente ao empreendedorismo, que atende à hashtag ativista do “do it yourself” [“faça você mesmo”], que tem a ver com a apropriação dos ideais do neoliberalismo ainda que por meio de condições materiais completamente precárias ou desesperadoras. Isso tudo em um contexto de fronteira, onde os jovens eram especialmente recrutados para fazer esse “trabalho de morte” e também para criar caos dentro das comunidades.
A questão mais central, bastante trabalhada no livro, foi a espetacularização da violência como mercadoria e dos corpos de pessoas assassinadas como uma espécie de reality show ao vivo, onde se transmite pessoas em situações deploráveis, assassinadas ou massacradas, o que também gera transmissões ao vivo que desumanizam os afetados e as vítimas. Independentemente do fato de as pessoas terem cometido crime ou não, cria-se um espetáculo de violência com o qual, por um lado, os Estados ganham capital simbólico sendo responsáveis pelas ações de segurança, mas que, na verdade, deveriam garantir a integridade dos cidadãos, quer sejam criminosos ou não. Essa divisão ética e humana, entre pessoas consideradas descartáveis (pessoas racializadas, indígenas, negras, feminizadas, trans e, sobretudo, homens — jovens homens contra os quais uma intensa campanha de extermínio estava sendo travada) criava uma perspectiva de criminalização e responsabilização direta para esses indivíduos, dizendo que o sistema não tem nada a ver com isso, que essas são as pessoas que estão travando guerra contra o sistema e que estão escolhendo se envolver em má conduta, o que eles chamam de “má conduta individual”.
O capitalismo sempre foi brutal, ou seja, gore [sangrento], alimenta-se de sangue. [Karl] Marx já dizia que a violência é uma forma de economia em si mesma e que o capitalismo jorra sangue e imundície, porque se alimenta da destruição. O capitalismo gore não era mais uma metáfora, mas uma realidade em constante movimento, onde a mercadoria é precisamente os povos exilados, os povos descartáveis, os povos massacrados. É isso que permite que a ética do espectador fosse influenciada e criasse menos empatia por essas pessoas, o que desencadearia não apenas um contágio muito perverso em relação a outras populações que não eram criminosas, mas sim populações empobrecidas e racializadas. No fundo, é um pouco como criar aquela imagem clichê do Velho Oeste, onde você procura o rosto do bandido porque não temos lei para compensá-lo, mas o rosto daquele bandido.
Quase todos nós que vivemos nesses territórios temos esse problema, porque o vilão sempre parece mais com pessoas racializadas, como nós [os mexicanos] do que com os conquistadores brancos. E agora temos senhores feudais que são os que criam a pilhagem, mas eles usam toda essa máquina de controle, desumanização e espetacularização da violência em favor de seu projeto político, mas também do projeto desumanizador ou subjugador, que usou o tráfico de drogas e o crime como um cavalo de Troia para introduzir todas essas questões relacionadas.
IHU – Hoje, nos EUA sob Trump e alhures, esta espetacularização nos parece mais radicalizada. Como Trump está associado a esta espetacularização? De que forma ele é uma representação dessa lógica?
Sayak Valencia – O livro Capitalismo Gore foi lançado em 2010 e eu ainda reflito sobre o que está acontecendo com a masculinidade e a violência, porque vivo em um país onde seis mulheres são assassinadas todos os dias, bem como outras tantas mulheres trans. No México — e eu entendo que o Brasil também enfrenta isso — há um nível aberrante de feminicídio. Me interessava pensar como a principal característica dos homens descritos como monstruosos é que eles se empoderam pela violência, mas nunca são brancos, nunca são os líderes brancos do Norte Global e sempre são os homens descartáveis do Sul Global.
Passei a me perguntar sobre essa outra violência que é detectada por essa masculinidade poderosa, de terno, de colarinho branco, às vezes de caráter científico, outras vezes político, frequentemente militar. Onde estão essas pessoas? A perspectiva desses homens era criar uma espécie de modelo, digamos assim, com uma ficção política oposta criada para os precários e as minorias. Comecei a pensar por meio dos Estudos Culturais, que também me influenciaram, especialmente essa violência de forma superficial e que saía impune em todas as séries de TV, em todos os videogames, etc. O ponto era pensar como isso reforçava um patriarcado cada vez mais violento. Nesse sentido, cunhei um termo que chamo de necromasculinidade, que não se refere à masculinidade que exerce violência direta e indireta e que tem o poder de exercer essa violência.
Portanto, a necromasculinidade explicaria muito do que está acontecendo com Trump, porque, obviamente, ele usa o aparato político e midiático não apenas para criar uma forma de governo baseada nas emoções das pessoas, mas também para levar essa Janela de Overton ao extremo. Com Trump, vemos como ideias que antes eram muito conservadoras estão se transformando, como se fossem razoáveis. Trump permanece na extremidade mais estreita, mas estamos caminhando para um maior conservadorismo, mesmo em agendas de esquerda ou mais focadas em direitos humanos.
Assim, Trump seria a cristalização desse tema, dessa necromasculinidade, pois ele é um governante orientado à ideia de um rei, à soberania em um único corpo. É nisso que ele começa a trabalhar, dizendo que a masculinidade é um tipo de soberania concedida aos homens, mas que nem toda essa soberania é o direito de exercer violência de baixa ou alta intensidade. No caso de Donald Trump, podemos ver que não se trata apenas do governante, mas da persona de Donald Trump, e que ele construiu uma carreira política precisamente através das indústrias culturais e da mídia, especificamente com a Fox News. Ele fez campanha por dez anos antes de anunciar sua candidatura à presidência, em um programa chamado O Aprendiz.
A Fox News manteve Trump na mente dos americanos por dez anos, posicionando-o como um candidato. É preciso deixar claro que Trump não é uma exceção à regra política democrática, mas a consequência direta de uma reciclagem ou acumulação de capital, do extrativismo, do colonialismo, de ideias supremacistas, do machismo. O vazamento dos arquivos de Jeffrey Epstein acarretam não apenas uma degradação política e econômica, mas também uma degradação ética e moral, onde, de alguma forma, se cria um quadro de encarnação que se opõe a tudo o que é comum, a qualquer tipo de legislação, a qualquer tipo de ética, a qualquer tipo de respeito pelos direitos dos cidadãos, sejam direitos humanos, culturais ou políticos.
Trump seria a personificação desse herói conquistador, ou desse herói conquistador que discutimos nos artigos sobre colonialismo, como diz [Michael] Grossberg. Ele é esse herói com uma conquista, ou, como disse [Enrique] Dussel, que faleceu em 2023, esses são os escolhidos porque vivem com uma ideia muito medieval de mandato divino, quase uma divindade ancestral. É uma espécie de retorno não só a um momento medieval, mas também a uma época em que a ideia de Estado e religião eram inseparáveis.
Consideremos que isso tem sido fortemente criticado, por exemplo, em países árabes e do Oriente Médio, quando essas práticas teocráticas são discutidas. Trump, acho que está caminhando nessa direção, não apenas para uma ditadura em exercício, mas para uma teocracia midiática. A mídia funcionando, neste caso, como um novo dispositivo psicopolítico, não apenas um dispositivo psicopolítico das emoções, mas um dispositivo psicopolítico colonial. Eu falo sobre isso em alguns artigos que têm pelo menos dez anos, onde Trump tem estado na plataforma da cultura das celebridades, ao mesmo tempo em que promove a financeirização, usando um imaginário cultural das séries que estamos tão acostumados a ver. Então seria uma cristalização dos ideais supremacistas, racistas e sexistas, e também de uma perspectiva completamente extrativista, na qual vivemos os últimos 500 anos em nosso continente. Vemos, porém, que mais uma vez estão tirando suas máscaras porque criaram toda uma estratégia de baixa intensidade precisamente através da conquista das emoções, do entretenimento e da cultura das celebridades. Eles também criaram uma espécie de sistema baseado em empréstimos, onde o fascismo se tornou fascismo novamente, mas sem se declarar.
O fascismo do qual Susan Sontag falava tem a ver com o que o capitalismo gore faz, de tornar a violência fascinante e viciante, além de torná-la mais permissível. Uma das coisas que o capitalismo gore faz é estandardizar a violência e criar uma espécie de visão microscópica, ou seja, uma perspectiva acostumada a ver morte e destruição e que se torna permeável a elas. Em psicologia, existe um conceito chamado “privacidade negativa”, que significa que você é constantemente confrontado com catástrofes e, por estar tão acostumado a vê-las, o cérebro e o sistema cognitivo não reagem mais da maneira esperada, porque se torna impermeável a toda essa catástrofe. Por outro lado, é uma reação, digamos, ilógica, porque o cérebro precisa se proteger — ou melhor, a memória e todo o sistema nervoso e cognitivo precisam se proteger — porque o trauma é tão constante que não conseguimos pará-lo nem processá-lo.
Então, vemos isso sendo usado pelo sistema tecnofeudal, com a extração de dados, a extração mineral, a extração de água e recursos. É também a tecnologização de figuras masculinas ultramachistas — não apenas egos inflados, mas supremacistas brancos — e isso está sendo vendido por dois canais. Um deles é o canal religioso, que continua a existir em nossos países e em todo o mundo. Não é ficção que instituições religiosas surgiram separadas do Estado, mas ainda coexistem com ele. Por outro lado, estão usando todas as plataformas de design digital para capturar emoções, impulsionar ainda mais esse capitalismo da atenção, que utiliza uma plataforma originalmente destinada ao entretenimento para evangelizar por meio de conteúdo direto, muitas vezes explícito, mas em outros casos de forma indireta e de baixa intensidade.
IHU – Por que é importante pensar a violência a partir de uma perspectiva filosófica, como um problema propriamente filosófico?
Sayak Valencia – Bem, em primeiro lugar, acho que a violência, às vezes, era vista como muito instrumental. Por exemplo, podemos pensar em Maquiavel ou em Hobbes, quando ele falava do "homem como lobo do homem", que propõem teorias de Estado para governar populações que se presumem ingovernáveis. Com isso cria-se uma espécie de necropolítica, que não faz parte da necropolítica formulada por Mbembe, mas continua inerente ao Estado. A violência da gestão autônoma, a luta pelo poder, teve uma origem sutil: guerras ou conflitos políticos direcionados para o exterior. Mas agora que a violência se tornou quase uma condição sine qua non para a governança, não apenas em assuntos externos ou para defesa, como uma forma de governo sobre as populações, e onde a violência não é mais apenas uma prática isolada ou excepcional, mas sim cotidiana – devemos considerar isso sob uma perspectiva filosófica. Creio que na América Latina já consideramos a violência uma questão filosófica há muito tempo, porque a vivenciamos de forma direta. Devemos também considerá-la como uma episteme. O que quero dizer com isso? Uma forma de senso comum, uma forma de governo que parece aceitável, uma maneira de abordar o mundo, não apenas através da violência em si, mas também através da estética, do espetáculo, do mercado e de uma forma de trabalho.
A violência é uma ferramenta de trabalho, portanto, esse tipo de questão deve nos preocupar sob as perspectivas da filosofia, da sociologia, da psicologia e de outros campos afins. De um ponto de vista filosófico, deve ser de suma importância a abordagem, porque a violência está destruindo a estrutura de significado que compreendemos a partir de uma perspectiva ética e humanística. Claramente, o que entendemos como violência é aplicada seletivamente apenas a certas populações, que entendemos serem quase sempre pessoas brancas ou não racializadas em todo o mundo. No entanto, agora que a violência se tornou episteme, ou senso comum, devemos refletir profundamente sobre ela, pois está mudando radicalmente a forma como nos relacionamos uns com os outros, seja por meio da violência direta, da desumanização ou de uma espécie de indiferença programada e cotidiana. Nesse contexto, a violência como forma de governança não surpreende mais ninguém, tornando-se simplesmente uma triste e constante notícia do dia a dia.
Agora que Gaza está nos mostrando o genocídio que vivenciamos no continente nos últimos 500 anos, testemunhando ao vivo, midiaticamente, que governar pela violência não é uma exceção à regra democrática, mas sim sua forma de governo, no momento em que eles querem que todas as formas contemporâneas de governo sigam deste modo. Por exemplo, pensando no sequestro do presidente da Venezuela por Trump, ainda que concordemos ou não com Maduro, pois acho que é complexo demais para discutir em uma única frase. O que é 100% verificável é que foi o sequestro de um chefe de Estado, onde toda a soberania internacional e todos os princípios políticos foram violados. Trata-se de um ato de violência de uma superpotência que está dizendo: não vamos mais permitir que a democracia exista, não vamos endossar nada disso, agora queremos governos totalitários ou plutocráticos, que é como eu chamo isso. Trata-se de autoritarismos regionais concretos, que infelizmente conhecemos muito bem no continente: no Brasil com a ditadura que tiveram ou no Chile e na Argentina, sabemos bem como o totalitarismo e a ditadura funcionam, que não é uma brincadeira, não é divertido, não é um videogame, não é algo trivial.
Temos que pensar nisso de uma perspectiva filosófica, em um nível epistemológico, em um nível político, até mesmo em um nível estético, também em um nível ético, para que a moralidade não se sobreponha à ética. Agora que tudo é moralizado e se torna um circuito fechado onde só existem argumentos muito superficiais e polarizados entre o bem e o mal, quando não há nuances, a filosofia faz o nobre trabalho de pensar nessas nuances estéticas e políticas, de pensar nas consequências de um avanço como esse do reacionarismo, um avanço do ultraconservadorismo, porque as filosofias da América Latina, do continente americano, já faz algum tempo que estão pensando eticamente.
Precisamos continuar pensando nisso em termos de uma ética que não se submeta a pressupostos anglo-europeus, mas que, ao contrário, crie condições de vida onde a ética emana da comunidade e da cooperação, não como uma palavra bonita, mas como algo que nos permitiu sobreviver em nossas comunidades sitiadas por tanto tempo, onde somos nós os que morremos e eles [os supremacistas] os que disparam os tiros. Precisamos pensar em filosofia, a partir de nossos contextos, mais do que nunca, porque acredito que, em meio às nossas falsas dicotomias, há muito a perder.
IHU – Como esta violência e este imaginário machista, patriarcal, se converte em espetacularização e como isso circula atualmente?
Sayak Valencia – A genealogia desses imaginários violentos e sexistas é muito diversa, mas vamos pensar em como o feminicídio se tornou visível a partir dos anos 1990 devido ao surgimento de mulheres que diziam: "Estão assassinando nossas filhas", e então começamos a denunciá-lo. E então, claro, o feminicídio já existia há muito tempo, mas não é algo que sempre existiu, algo que não podemos rastrear no passado. Feminicídio e capitalismo têm uma raiz comum. O livro de Silvia Federici, O calibã e a bruxa (Elefante, 2023), narra quando começou o domínio dos territórios, a invasão e cercamentos das terras. Não sei se isso soa familiar, mas graças às lembranças do que aconteceu durante a Idade Média — o cercamento de terras, a expropriação de territórios, o avanço e o massacre das populações que habitavam certos lugares — percebeu-se que as mulheres desempenhavam um papel político muito importante nas comunidades. Não havia divisão de gênero como a entendemos hoje, nem era tão rígida. Pode ter havido uma divisão sexual do trabalho. Havia cooperação e papéis específicos. Não é que não existissem mulheres e homens, mas o fato é que nossa perspectiva sobre mulheres e homens é moderna, da segunda onda da Modernidade.
Além disso, ela afirma, a dominação dessas pessoas, dessas comunidades, foi alcançada por meio de massacres e especificamente a domesticação das mulheres foi alcançada por meio da caça às bruxas, que podemos entender como ocorreu o feminicídio em massa ou femigenocídio, tal como descrito por Rita Segato. Então, entendemos que o que está em jogo no feminicídio não são apenas os relacionamentos românticos, como muitos tentam retratar, como se dizia no México das décadas de 1930 e 1940, quando se tratava de um crime passional, mas também o poder. O poder que é tomado dos homens sobre suas terras e entregue às mulheres como propriedade. Consideremos também como essa construção de uma masculinidade muito violenta — não todas as masculinidades, mas uma masculinidade muito violenta — precisa estar acima de suas emoções, precisa estar acima das mulheres ou de pessoas que consideramos minorias, como crianças, pessoas com menos privilégios sociais e assim por diante.
Como nos dirigimos a uma masculinidade que, quase por direito de nascimento, recebeu a soberania de dizer "você é um homem", implicando que você deve ter mais pessoas ao seu redor, uma esposa, filhos, alguém para governar? Lembremos que a palavra "família" vem de "famulus" [latim], que designava conjunto de escravos. Podemos redefinir o termo, e para nós, em nossos territórios, isso é muito importante, mas etimologicamente não significa "boa casa", significa um grupo de escravos governado por um homem. Então, na medida em que se retira o poder de matar do homem, você tira a sua masculinidade, de modo que qualquer desobediência será direcionada contra as mulheres e não contra o sistema. Acredito que, se canalizássemos toda a violência expressiva e excessiva contra as mulheres para a criação de um sistema contra os poderes que nos massacram, teríamos uma revolução em curso.
Acho isso muito importante porque acredito que grande parte dessa frustração individual está sendo expressa explicitamente contra um bode expiatório, que seriam os desinformados ou as crianças, mas, neste caso, o lar também é uma forma de expressão. Essa confusão que vemos com o menino, juntamente com outras teorias, reside na relação entre o capitalismo e a pilhagem, o extrativismo, e a constituição do capitalismo de gênero. Não como mulheres e homens fisiologicamente entendidos, mas com performances de gênero onde os dois são muito separados, porque um tem poder sobre o outro, quase um estatuto divino ou uma performance social que está ligada a uma soberania masculina entendida em abstrato e é ensinada pelo aparato social. Acho muito importante que vejamos isso, porque enquanto pensarmos que é um problema entre indivíduos, não vamos resolver a estrutura subjacente dessa forma de governo. Quero dizer, Donald Trump é um patriarca – ou um necropatriarca – que está exercendo seu direito de matar indiscriminadamente, e também vimos por tudo o que foi mostrado que ele é alguém que não tem medo de matar para satisfazer seus caprichos, nem mesmo seus desejos.
Portanto, precisamos ser muito precisos, porque também entendemos que há algo que já mencionei e vou repetir: precisamos trabalhar com as masculinidades para entendermos que não se trata dos pequenos privilégios que conflitam com os meus direitos como mulher, mas sim de criar um sistema de equivalências sociais em nome da justiça, porque, basicamente, os homens também estão sendo deixados de lado. O movimento entre as novas gerações, de jovens assexuados, de pessoas que dedicam seu tempo a odiar os outros on-line, a prejudicar os outros busca criar uma espécie de salvação efetiva por meio da agressão, seja física, simbólica ou midiática. É esse sistema que está devorando a todos. Mas continua a obedecer ao patriarcado ou necropatriarcado a partir de uma perspectiva masculina específica, uma obediência que se voltará contra nós, enquanto outros massacram pessoas inocentes.
O feminicídio também aumenta quando as crises sociais aumentam, quando o desemprego e o abuso de substâncias crescem — tudo isso também faz parte dos mecanismos de controle de mercado deste mesmo sistema. E não podemos simplesmente chamá-lo de capitalista. É um sistema que vai muito além do que entendíamos como capitalismo em sua versão marxista. Ele se diversifica em suas manifestações e também cria outras formas, mais sutis, de governar populações através da emoção. Mas acredito que há algo a ser feito com a educação emocional para as pessoas em geral, mas especificamente para os homens e entre os homens, que precisam criar uma comunidade onde nem tudo gire em torno do empoderamento econômico para governar os outros, ou da criação de sistemas de agressão absoluta para, digamos, exorcizar todo esse desconforto ou mal-estar que existe na visão de mundo predominante.
Sinto que muitas visões de mundo contemporâneas vivem em uma espécie de afasia, incapazes de articular o que está acontecendo com elas e que não se pode falar sobre isso, porque às vezes parece que elas não conseguem conversar entre si, nem com outras pessoas e que demonstrar fraqueza é a regra número um que não se pode jamais quebrar. Não choramos, não reclamamos e simplesmente seguimos em frente.
Esse capitalismo gore está matando-as, mas também está, literalmente, partindo seus corações. Estamos vendo ataques cardíacos ou problemas de saúde que os homens têm ou vícios, porque eles não conseguem falar sobre essas questões, que não são menores, mas sim coisas que moldam o mundo. Estou falando disso, que é muito pequeno e muito concreto, porque não estou interessada em encontrar vítimas e agressores. Quero que ultrapassemos as figuras de vítima e agressor. Quero que façamos uma espécie de síntese, por assim dizer. Estou pensando rapidamente dentro do contexto teórico de Marx, para transcender essas divisões, porque realmente precisamos unir forças e parar de nos matar uns aos outros, entre os pobres, entre homens e mulheres, entre pessoas cis e trans, porque o ódio é uma forma de governo da qual a extrema-direita está se aproveitando muito bem para nos destruir dentro de nossas comunidades.
IHU – Quais são as consequências políticas da conversão dos corpos em mercadoria?
Sayak Valencia – Em primeiro lugar é preciso considerar que os corpos são dignos de cidadania, cuidado, valores, do reconhecimento do Outro como um igual, mesmo que não gostemos dele. Que sejamos capazes de ver este outro rosto, quer seja um amigo um arqui-inimigo, e a partir desta interação ver as coisas se moverem se transformarem. Quando os corpos se tornam mercadorias, eles se tornam desumanizados, objetos, e quando vemo-nos como objetos eles deixam de ser tratados como pessoas e passam a mercadorias, são descartáveis. E quais são as consequências políticas quando vemos a expansão de guerras de alta e baixa intensidade dentro das comunidades, mas também fora delas? Deixamos de ser humanos ou nos tornamos mercadorias, como o que acontece com o genocídio em Gaza, as pessoas lá não se tornam mercadorias em si mesmas, mas se tornam objetos a serem descartados.
Em minha pesquisa sobre capitalismo gore, venho explorando isso há algum tempo. Trabalho há muitos anos com o conceito de política snuff, como no cinema snuff, que se concentrava precisamente em exibir assassinatos ou mortes de pessoas ao vivo, especialmente mulheres com intenções ou excitação sexual. Originalmente, a palavra "snuff" (em inglês) significa apagar, remover, livrar-se de algo, coisas assim. A política snuff, portanto, consiste em transformar corpos em mercadorias. Trata-se da forma institucionalizada de criar um genocídio, como o que aconteceu em Gaza ou o que está acontecendo agora, com os Estados Unidos ameaçando metade do mundo com invasões de território, violência e ataques aos “cânceres do México”.
Aqui reside uma diferença muito importante, algo que não menciono no Capitalismo Gore, mas que abordo alguns anos depois: o perigo de transformar corpos em mercadorias é dar poder à política institucional para legislar por meio da violência explícita e deixar suas populações queimarem, para se apropriar de territórios, para impor cidadanias, para romper com a solidariedade, para criar fronteiras onde bem entenderem. O desejo de invadir países, desvalorizar moedas, matar pessoas de fome, por meio de uma lei que possa ser implementada por qualquer presidente (seja Donald Trump ou Javier Milei – que também já tentou fazer isso –, e não sei como será com José Antonio Kast no Chile) transforma os corpos em mercadorias, beneficiando o mercado da violência. Junto a todos seus derivados, criam-se séries de televisão espetaculares, mas também abre as portas para a realpolitik, que é o que acontece nos congressos, nos senados, dentro do Estado, para governar pela violência, não como algo excepcional, mas como uma forma de usar a força.
O Estado também é regido por direitos e obrigações e sua prerrogativa é proteger seus cidadãos, e ele não está fazendo isso quando lhe damos permissão para nos transformar em mercadorias. Governando pela lógica financeira e não pela lógica da governança cidadã ou humanista, passamos de pessoas a objetos, e objetos podem se tornar descartáveis. Quando há superprodução de objetos, a fábrica, digamos, aquela que os produz, pode se livrar deles para reequilibrar a economia. Quando os corpos também são mercadorias, damos a Schumpeter, com sua destruição criativa, permissão para nos eliminar porque estamos criando um custo para o Estado, um custo que ele não pode arcar, porque existimos apenas para o mundo financeiro e não para a cidadania. Esse é um dos perigos. E também, quando nos tornamos mercadorias, pensemos em como estamos tirando de nossas famílias ou comunidades o direito de existir e quando nos desmantelam, quando nos despedaçam por meio de massacres e quando nos fazem desaparecer, estamos dando ao Estado permissão para manter até mesmo nosso direito à memória, nosso direito ao luto, nosso direito à lembrança.
IHU – De modo mais específico, qual o papel das redes sociais na violência contra as mulheres?
Sayak Valencia – Havia muita cautela na década de 1990 em relação à enorme influência da mídia, especialmente da mídia tradicional. Mas agora vemos que existe um imaginário social em torno da violência contra as mulheres: o feminicídio. Podemos também considerar algo que agora podemos comprovar. Entre 2003 e 2007, nos perguntávamos muito: como apresentar a violência contra as mulheres sem usá-las como signo de violência? Porque para o espectador a quem se transmite a mensagem, quem surge como vitorioso é o perpetrador da violência, ao passo que a vítima é reduzida a apenas mais um dado estatístico. O que podemos afirmar agora, e o que está comprovado, é que a mídia, especificamente as mídias sociais, cria conteúdo que busca reforçar preconceitos referentes às minorias. E se você acha que a violência contra mulheres é algo que vemos o tempo todo — afinal existe uma quantidade enorme de conteúdo com mulheres nuas e de violência contra mulheres —, saiba que as redes sociais estão se tornando disseminadoras, amplificando ainda mais discursos de extrema-direita e também discursos extremamente sexistas.
E vamos falar, por exemplo, sobre redes incels (termo que designa, em inglês, celibatário involuntário), o Reddit, o 4chain e outros espaços onde, como já mencionei, é possível consumir imagens de violência contra mulheres que incitam o feminicídio em larga escala. Acho que esses casos, que não são excepcionais, são exemplos de incels que fazem manifestos dizendo: "Vou matar mulheres porque a culpa de todos os meus problemas é delas". Não se trata mais apenas de feminicídio localizado em uma pessoa com motivações puramente sexuais, ou um sequestro, ou o assassinato de uma parceira. Tornou-se uma espécie de campo de batalha aberto onde eles podem extravasar certas frustrações. Assim, as redes sociais também têm grande responsabilidade pela forma como retratam os corpos das vítimas de feminicídio. Mariana Berlanga, estudiosa desse fenômeno, fala sobre a estrutura patriarcal e o que isso significa: mesmo ao investigar feminicídios, técnicos e criminologistas tendem a retratar o corpo assassinado de forma desumanizada, sem mostrá-lo com dignidade.
Pensei sobre isso por muitos anos e me perguntei por que o feminicídio não causa tanta indignação entre pessoas que não são sensíveis ao movimento feminista e percebi, muito tempo depois, que se o que vemos nas mídias são sacos de lixo cheios de corpos descartados, esses corpos se tornam descartáveis. É difícil para qualquer pessoa se solidarizar com isso porque ninguém quer acabar em um saco de lixo. Se mostrarmos uma pessoa com seu rosto, com sua alegria, com sua vida, estaríamos mudando a narrativa, mas entendemos e falhamos, e acho que é isso que causa o problema — não sei se a mídia faz isso de propósito, simplesmente pela velocidade com que se comunica, por alguma política editorial ou o que seja.
Precisamos começar a representar o feminicídio, e não apenas o feminicídio, mas também os assassinatos de outras pessoas, como mulheres, pessoas negras, pessoas racializadas ou migrantes, de forma digna, para que possamos criar uma conexão de significado ético com essas pessoas e uma empatia radical. Dificilmente alguém que se vê dentro de um saco de lixo se consideraria um ser humano. Além disso, há tudo o que foi deixado para trás, que é a criminalização de pessoas que sofrem injustiças, ou pessoas más que são injustiçadas porque, basicamente, devem ter feito algo errado e cai sobre elas a constante suspeita em torno de seus corpos que não são tratados com dignidade. Sim, existe uma responsabilidade ética e social da mídia e do Estado na forma como o feminicídio é representado, e precisamos mudar a maneira como o representamos.
Não deveriam ser imagens ultraviolentas que representam o feminicídio, mas sim histórias de vida, um trabalho aprofundado, uma memória coletiva. Acho que isso já foi feito e está sendo feito cada vez mais, porque havia uma espécie de paradoxo entre representar e denunciar a violência contra a mulher mostrando mulheres que sofreram abuso. Talvez fosse a ideia mais lógica, mas não era a melhor maneira de representá-las, porque a representação, em um mundo onde as imagens agora constituem 95% da realidade, diz muito.
Portanto, vamos considerar também que nossos códigos de leitura ou nossas estruturas escópicas mudaram bastante. Minha geração têm códigos que nos ajudam a entender o que é ficção e o que é realidade, mas nestes tempos, em que tanta coisa é gerada on-line, em que as notícias falsas são tão prevalentes, em um mundo onde a pós-verdade faz parte do ecossistema do significado, as imagens devem ser tratadas com muita cautela, pois o que é mostrado às vezes é tomado literalmente como realidade.
Como alguém já disse, é preciso entender que o capitalismo de plataforma, ou tecnofeudalismo, cria um cerco através da estética e também da visão de mundo da violência. Assim, tudo o que mostram vende algo, mas também vende mensagens: "Isso não é desprezível", "Isso é normal", "Isso está tudo bem", ou simplesmente criam consensos ambíguos onde sua ética e circunstâncias podem ou não gerar algum tipo de conexão com essas imagens. Não podemos, porém, presumir que todos se identificarão com as imagens. Precisamos entender que as imagens de denúncia também devem ser imagens dignas, imagens agradáveis, para que possamos criar, entrar num circuito de discussão diferente, não no mesmo proposto pela mídia.
IHU – Como podemos construir uma economia – incluindo uma economia das imagens – que não esteja baseada na violência, mas em outros valores? Quais são os valores que devemos construir?
Sayak Valencia – Penso que uma economia feminista teria muitos seguidores se não tivesse a palavra "feminista" no título, porque sabemos que feminismo afasta muitas pessoas. Isso porque há uma lógica imaginária de que o feminismo quer “castrar” os homens e assim por diante. Nem todas as lésbicas odeiam homens. Algumas de nós, mulheres, somos lésbicas e nem todas odeiam os homens. Se rotulássemos a economia feminista como “economia circular” ou “neoeconomia”, só para mudar a marca e usar uma estratégia de marketing, talvez houvesse muito mais seguidores.
Pensando na economia feminista simplesmente porque é assim que se chama e como tem sido praticada, a questão é não deixar de lado a produção. O problema é que entendemos o capitalismo como um sistema de produção de mercadorias quando ele também contém uma construção cultural integrada onde a violência faz parte da riqueza, e também precisamos entender que o problema do capitalismo é a regulação, a desigualdade, a destruição, não a produção de bens, mas a superprodução e a acumulação de bens.
Então, vamos considerar que o objetivo da economia feminista é uma forma de distribuição não apenas da atividade econômica, ou seja, a produção de bens ou serviços, ou a economia como a conhecemos, que, aliás, "economia" vem de oikonomia, palavra grega que significa administrar a casa. Então, era uma tarefa que parecia ser uma tarefa feminizada. Mas a questão é que Amaia Pérez Orozco, na Espanha, Verónica Gago, na Argentina, ou muitas outras economistas, incluindo Silvia Federici, que não é economista, mas trabalha extensivamente nesse tema, afirmam que existem maneiras de organizar a justiça social com o dinheiro e os recursos existentes.
A forma de criar trabalho, emprego e estabilidade seria construir um sistema de bem-estar e comunidade, de modo que a economia não dependesse tanto da violência e da desigualdade. Para ser sustentável, claro, talvez não tenhamos multimilionários com milhões e milhões de dólares ou bitcoins, mas a acumulação não seria o objetivo da economia, em vez disso, seria a sustentabilidade da vida. E acredito que o conceito de “sustentabilidade da vida” é algo que podemos refletir profundamente, não apenas sob a perspectiva da economia feminista, mas também sob outras formas de organização social, onde parece que o que precisamos são bons anunciantes para vender qualquer coisa. O que precisamos não é isso, mas sim mudar valores e criar um senso de comunidade. Não devemos pensar em comunidade como um ideal hippie onde todos se dão bem e tudo é perfeito. Não, haverá atritos. Nem tudo precisa ser amigável, nem tudo precisa ser um mar de rosas, e também não é glamoroso. Será um tipo de economia sustentável que implica a responsabilidade social das pessoas que participam dela. E acho que isso é algo com que não estamos acostumados, mas precisamos pensar nos valores da participação ativa em comunidades e sociedades.
Assim como pensamos em democracia representativa com governos hoje, essas empresas estão indo para o buraco porque basicamente escolhemos o modelo de democracia representativa onde existe uma figura carismática, o presidente, que está acima de tudo — o que não é verdade. É por isso que pensamos em economia participativa, pensamos em alguns modelos que não são impraticáveis, mas sim modelos baseados na comunidade. Por exemplo, a economia habitacional. Acho que existem alguns coletivos habitacionais que são contra a gentrificação, claro, mas eles também conseguiram criar moradia para todos por meio de cooperativas. Em Barcelona, recentemente, construíram um lugar chamado La Morada, um prédio construído por muitas pessoas que agora têm um lugar para morar, mas que não pertence a ninguém. Estão desenvolvendo esses tipos de economias onde não há propriedade privada, apenas propriedade individual. Então, eu digo, esses são esforços muito pequenos, mas tenho certeza de que isso pode acontecer no Brasil. Aconteceu no México, um pouco antes e durante a pandemia, em Veracruz, a criação de uma nova moeda em uma pequena cidade que começou a trabalhar com essa moeda e funcionou muito bem. Alguém pode dizer, “parece a Era da Pedra”, mas por que temos tanto amor pelo passado quando ele é fascista e tanto medo quando é igualitário?
Por que não podemos viver com alegria? Já existe tragédia demais, violência demais. Por que não podemos viver como vivemos neste continente por tanto tempo? Com aquela alegria que vem de estar vivo e de ter vindo de culturas populares e racializadas. Penso em música, penso em você do Brasil, penso no Carnaval, no samba, na cumbia, em tudo — tudo é música. Eu estive recentemente no Brasil, em uma comunidade um tanto complexa, porque havia algumas crianças que já estavam envolvidas com o sistema de responsabilização judiciária, e no final do que estamos falando, elas começaram a tocar tambores e, não sei o quê, começaram a dançar, e eu pensei, claro, estamos em um lugar que, visto de uma perspectiva colonial, poderia ser um lugar muito difícil, e o que estou vendo aqui é que, mesmo assim, a vida sempre encontra um caminho, e acho que também precisamos praticar a alegria, mesmo nessas condições de devastação absoluta, e não estou dizendo que precisamos fugir, mas criar alegria juntos, fazer coisas juntos, corpos juntos, mas também na interação e em outras formas de organização e imaginação. Claro, existem outras comunidades que também se manifestam. Em Ciudad Queznań e Aguilar, há uma linguista que fala de nações sem Estado. Por exemplo, dizem que os povos indígenas deste país, no México, tinham nações, mas não tinham um Estado. E, claro, não é que eu não queira um Estado.
Também precisamos — e acho isso muito importante — nos libertar da anestesia social e do medo em que vivemos, nos desapegar um pouco dessas coisas, da tecnologia. Nosso vício nisso é brutal. Somos viciados em drama e tragédia e não vemos essas pequenas coisas. Quando você sai por três minutos e guarda o celular, percebe que coisas fantásticas estão acontecendo, não em alguma epopeia masculina de guerra e violência em um território, mas há uma pessoa na rua que não tem nada, mas alimenta o cachorro ao lado porque ele é sua família. E uma criança pequena te dá um sorriso e você está lá e pensa: “Uau!”. Quero dizer, mesmo em condições precárias ou difíceis – e aqui quero citar um poeta chamado Raúl Zurita – “a vida é muito bonita, mesmo agora”.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Sayak Valencia – Sim, quero dizer que, embora o capitalismo continue brutal (gore) e cada vez mais fragmentado, as ruas e as redes também são nossas, e temos que continuar, especialmente agora que tudo é novo. Temos que continuar lutando no nosso dia a dia, porque eles não podem nos tirar nada. Se tirarem nossas vidas, terão tirado tudo. E acredito que temos que continuar lutando por aqueles que já se foram, que partiram, que foram levados, que nunca mais vimos, que foram assassinados. Por essas pessoas, temos que fazer um esforço dobrado para manter a vida em movimento, porque não podemos ficar presos à narrativa apocalíptica de que o mundo já acabou. O mundo não acaba até que todos nós tenhamos partido, e nós ainda estamos aqui.