A consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria

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22 Março 2022

 

O Papa Francisco decidiu consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.

 

O comentário é de Robert Mickens, publicado por La Croix International, 19-03-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

O brutal ataque militar da Rússia na Ucrânia continua. E a cada dia o Papa Francisco aparenta estar mais frustrado, porque ele e seus ajudantes do Vaticano não podem fazer nada para impedir.

Sem dúvida, eles estão cada vez mais irritados por suas contínuas ofertas para mediar ou facilitar as discussões entre os dois países, as quais, o cardeal secretário de Estado repete todo dia, têm sido rejeitadas pelo Kremlin com um sonoro “nyet!”.

O papa de 85 anos é um homem mundialmente famoso pela paz e diálogo. Durante seus nove anos no cargo ele emergiu como um dos mais persistentes defensores das relações fraternais e harmoniosas entre os povos e as nações.

E usando o púlpito moral que é singular do papado romano, ele tem superado o Patriarca Ecumênico de Constantinopla (frequentemente chamado de “Patriarca Verde”) como o líder religioso global sobre assuntos ecológicos, ambientais e da vida humana.

Mas agora parece que não há nada que o papa possa fazer em relação à abominável situação na Ucrânia, exceto promover esforços humanitários pela doação de dinheiro e de equipe de ajuda. E, óbvio, ele pode rezar e exortar aos outros para que rezem pela paz.

 

Embora rejeitado, o Papa Francisco não desiste

 

Francisco é o mestre dos gestos simbólicos. E um dos primeiros que ele fez depois da invasão ordenada por Putin em 24 de fevereiro foi ir pessoalmente à Embaixada da Rússia na Santa Sé.

Muitos louvaram isso como uma quebra de protocolo (algo que o papa jesuíta claramente aprecia) e uma forma de enfatizar sua insatisfação com Moscou pelo ataque.

Mas outra versão do que aconteceu diz que ele primeiro tentou telefonar para Putin e depois para o embaixador. Quando eles não atenderam a sua chamada, ele foi e bateu na porta da embaixada, a qual está localizada em um prédio vaticano a poucas quadras da Praça São Pedro.

Francisco, embora rejeitado, não desiste. Ele continua apelando por paz, cuidando para não gritar com a Rússia e “manter as portas abertas” para negociações, presumivelmente envolvendo o Vaticano nas suas capacidades.

Ainda nada, apesar de seus comentários cuidadosamente redigidos para não ofender os russos. Empregando acrobacias linguísticas, o papa tem sido cada vez mais crítico e direto em seus apelos, não deixando dúvidas de que está irritado e angustiado com o ataque implacável de Putin.

 

Chegando a lugar nenhum com Putin ou o Patriarca de Moscou

 

Três semanas após a invasão, Francisco finalmente se voltou para o chefe da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca Kirill de Moscou. Ou Kirill se voltou para ele?

Não está claro quem iniciou a conversa em vídeo que os dois líderes cristãos tiveram na quarta-feira passada.

O patriarca também teve uma reunião semelhante no mesmo dia com o arcebispo de Canterbury, antes ou depois de seu encontro online com o papa.

O Patriarcado de Moscou e o Vaticano emitiram comunicados separados com informações gerais sobre a conversa que Kirill e Francisco tiveram. O fato de que eles não emitiram uma declaração única e conjunta – seja porque falharam ou nem tentaram – não é um sinal promissor.

O governo russo e a Igreja Ortodoxa Russa há muito desconfiam do Vaticano e da Igreja Romana. O encontro que o papa e o patriarca tiveram em 2016 em Cuba foi de fato um momento extraordinário e histórico. Mas foi apenas isso – um momento.

Kirill está evidentemente mais interessado em promover o imperialismo russo do que a unidade cristã.

Ninguém deve esperar que ele faça qualquer coisa para sugerir a Putin que Francisco e seus assessores do Vaticano podem ajudar a acabar com o que está acontecendo na Ucrânia de maneira satisfatória para o Kremlin ou o Patriarcado de Moscou.

 

O “último esforço” do papa

 

Isso é o que deixa um papa desejoso a ajudar em nome de toda a humanidade com poucas opções, exceto continuar rondando a porta da Rússia e continuar fazendo gestos simbólicos.

Francisco decidiu que é hora de fazer um passe “Ave Maria”, uma frase de futebol americano cunhada em 1975 que significa “um último esforço” do quarterback a muitas jardas de distância do touchdown.

Ele anunciou que pretende consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria durante uma liturgia de 25 de março na Basílica de São Pedro. E ele quer que todos os bispos do mundo também realizem esse mesmo ato piedoso simultaneamente com ele.

De acordo com crianças visionárias das aparições marianas que supostamente ocorreram em 1917 em Fátima (Portugal), a Virgem Maria teria chamado o papa e todos os bispos do mundo a consagrar a Rússia ao seu “coração imaculado” como condição para paz mundial.

Faça deste o que quiser. Como salientou o cardeal Joseph Ratzinger no “comentário teológico” da Congregação para a Doutrina da Fé, as alegadas aparições e a mensagem de Fátima são consideradas uma “revelação privada”.

“Tal mensagem pode ser uma ajuda genuína para entender o Evangelho e vivê-lo melhor em um determinado momento; portanto, não deve ser desconsiderado”, disse ele.

Mas depois acrescentou: “É uma ajuda que se oferece, mas que não se é obrigado a usar”.

 

Os fanáticos de Fátima

 

No entanto, aqueles que usam esta mensagem – e, diferente de Ratzinger, acreditam que todos os católicos são obrigados a segui-la – acreditam que a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria é essencial para a paz mundial e a preservação da fé católica.

Embora a consagração já tenha sido realizada inúmeras vezes por vários papas (Pio XII, Paulo VI e João Paulo II), os fanáticos de Fátima sempre alegaram que elas não eram válidas.

Eles até se recusaram a acreditar nas palavras da última testemunha sobrevivente – irmã Lúcia – que disse que a consagração que João Paulo realizou em 25 de março de 1984 “foi feita exatamente como Nossa Senhora pediu”.

Nenhum dos papas nomeou especificamente a Rússia por razões políticas (e ecumênicas), dada a situação geopolítica da era pós-Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria em que viviam.

Mas João Paulo II deixou claro em 1984 que a Rússia estava de fato sendo consagrada. E ele insistiu que isso fosse feito de uma vez por todas.

 

A Rússia faz parte de “todas as nações”

 

“O poder desta consagração dura para sempre e abrange todos os indivíduos, povos e nações. Vence todo o mal que o espírito das trevas é capaz de despertar, e de fato despertou em nossos tempos, no coração do homem e em sua história”, disse o papa polonês na oração.

O “ato de entrega” e consagração ocorreu durante o Ano Santo da Redenção, que marcou o 1950º aniversário da morte e ressurreição de Cristo. O Jubileu começou na festa da Anunciação (25 de março) de 1983 e foi concluído no domingo de Páscoa (22 de abril) de 1984.

“De uma maneira especial, confiamos e consagramos a ti aqueles indivíduos e nações que particularmente precisam ser confiados e consagrados”, disse João Paulo II – e todos os bispos do mundo – em 25 de março de 1984.

“Da fome e da guerra, livra-nos. Da guerra nuclear, da autodestruição incalculável, de todo tipo de guerra, livra-nos”, dizia um trecho da oração.

Mas os fanáticos de Fátima – e é isso que eles são – não aceitaram isso. Eles veem as supostas aparições e sua mensagem como uma profecia mágica do que acontecerá se certas coisas – como consagrar a Rússia – não forem meticulosamente realizadas.

 

Fé e razão

 

Mas Ratzinger rejeitou esse tipo de absurdo.

“Deve-se ter em mente que a profecia no sentido bíblico não significa prever o futuro, mas explicar a vontade de Deus para o presente e, portanto, mostrar o caminho certo a seguir para o futuro”, disse ele.

“Uma pessoa que prevê o que vai acontecer responde à curiosidade da mente, que quer retirar o véu do futuro”, acrescentou.

E quando o Vaticano finalmente revelou o chamado “terceiro segredo” de Fátima, o ex-prefeito da CDF e futuro papa disse o seguinte:

 

Os diversos acontecimentos, na medida em que lá são representados, pertencem já ao passado. Quem estava à espera de impressionantes revelações apocalípticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro desenrolar da história, deve ficar desiludido.

Fátima não oferece tais satisfações à nossa curiosidade, como, aliás, a fé cristã em geral que não pretende nem pode ser alimento para a nossa curiosidade.

O que permanece – dissemo-lo logo ao início das nossas reflexões sobre o texto do 'segredo' – é a exortação à oração como caminho para a 'salvação das almas', e no mesmo sentido o apelo à penitência e à conversão.

 

“Permita-me acrescentar aqui uma lembrança pessoal”, disse Ratzinger em um ponto da explicação teológica.

“Em uma conversa comigo, a irmã Lúcia disse que lhe parecia cada vez mais claro que o propósito de todas as aparições era ajudar as pessoas a crescerem cada vez mais na fé, na esperança e no amor – tudo o mais pretendia levar a isso”, ele disse.

O Papa Francisco provavelmente reiterará isso nesta semana, quando consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. E, esperançosamente, ele insistirá que este ato é simbólico, assim como as palavras e imagens que os pastorinhos de Fátima supostamente ouviram e viram.

Isso não é um truque de mágica ou troca comercial – uma consagração em troca de paz.

Os sumos sacerdotes do nosso tempo, incluindo o Bispo de Roma, devem se concentrar principalmente em conduzir o povo cristão na oração e ajudá-lo a crescer mais firmemente na fé, na esperança e no amor.

Todo o resto está nas mãos de Deus.

 

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