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23 Junho 2021

 

“A questão de quem está no topo não será decidida por meio da política tradicional das grandes potências, mas por meio de quais poderes intervêm para proporcionar a liderança e a competência que a situação exige. Diferente do passado, uma guerra fria aceleraria, não evitaria, a destruição mútua assegurada”, escreve Joschka Fischer, foi ministro das Relações Exteriores da Alemanha e vice-chanceler de 1998 a 2005, em artigo publicado por El Economista, 21-06-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

A cúpula do G7 deste mês pareceu confirmar o que estava evidente há muito tempo: os Estados Unidos e a China estão entrando em uma guerra fria semelhante à que houve entre os Estados Unidos e a União Soviética, na segunda metade do século XX. O Ocidente já não vê a China apenas como um competidor e rival, mas como uma alternativa de civilização.

Mais uma vez, o conflito parece estar relacionado aos “sistemas” mutuamente excludentes. Em meio a um crescente choque de valores e reivindicações em concorrência pelo poder e a liderança global, um confronto militar, ou ao menos uma nova corrida armamentista, parece ter se tornado uma clara possibilidade. Mas caso se examine mais de perto, a comparação com a Guerra Fria é enganosa.

A rivalidade sistêmica entre os Estados Unidos e a União Soviética foi precedida por uma das guerras “quentes” mais brutais e catastróficas da história, e refletiu a primeira linha desse conflito. Ainda que os Estados Unidos e a União Soviética fossem os principais vencedores após a rendição da Alemanha e o Japão, já tinham sido inimigos ideológicos antes da guerra.

Se a Alemanha de Hitler e o Japão imperial não tivessem buscado o domínio mundial, através da conquista militar, os Estados Unidos e a União Soviética nunca teriam sido aliados. Assim que a guerra terminou, o enfrentamento entre o comunismo soviético e o capitalismo democrático ocidental recomeçou, sua inimizade se intensificou pela brutalidade da sovietização forçada na Europa Central e Oriental, entre 1945 e 1948.

Ao mesmo tempo, o alvorecer da era nuclear havia perturbado fundamentalmente a política do poder, ao tornar impossível qualquer guerra futura pela hegemonia global, sem a autoaniquilação. A destruição mútua assegurada manteve “frio” o confronto das superpotências, mesmo quando ameaçava toda a humanidade com uma catástrofe nuclear.

Se a União Soviética e o Pacto de Varsóvia não tivessem caído, quatro décadas depois, presumivelmente o conflito teria se prolongado indefinidamente. A situação entre o Ocidente e a China hoje é totalmente diferente. Ainda que o Partido Comunista da China chame o país de “socialista” para justificar seu monopólio político, ninguém leva esse rótulo a sério. A China não define sua diferença com o Ocidente segundo sua posição sobre a propriedade privada, ao contrário, simplesmente faz e diz o que for necessário para manter o governo de partido único.

Desde as reformas de Deng Xiaoping, em fins dos anos 1970, a China estabeleceu um modelo híbrido que se adapta tanto aos mercados como ao planejamento central, assim como à propriedade estatal e privada. O Partido Comunista da China (PCCh) é o único que encabeça este modelo de “mercado leninista”. O caráter híbrido do sistema chinês é o que explica seu êxito. A China está a caminho de superar os Estados Unidos, tanto tecnológica como economicamente, por volta de 2030, uma façanha que a União Soviética nunca teve a oportunidade de conseguir, em momento algum de seus 70 anos de história.

O “socialismo multimilionário” da China está claramente melhor equipado para competir com o Ocidente do que o antigo sistema soviético. Se a rivalidade sistêmica atual não é a mesma que a da Guerra Fria, do que se trataria, de fato, a Segunda Guerra Fria? O objetivo é obrigar a China a se tornar mais ocidental e democrática? Ou é simplesmente para conter o poder da China e o isolar tecnologicamente (ou, no mínimo, frear sua ascensão)? E se o Ocidente conseguisse algum destes objetivos, então o quê? De fato, nenhum destes objetivos jamais poderia ser conquistado a um custo razoável para as partes envolvidas.

A China é o lar de 1,4 bilhão de pessoas que podem ver que sua oportunidade histórica de reconhecimento mundial chegou. Dada a escala do mercado chinês e as interdependências econômicas que gera, a ideia de que a China possa estar isolada é absurda. Mas talvez o problema seja mais sobre o poder do que sobre a economia. Quem será o hegemon do século XXI? Ao se unir com o resto do Ocidente, podem os Estados Unidos realmente mudar a trajetória histórica de ascensão da China e o declínio relativo do Ocidente? Duvido.

O reconhecimento do Ocidente de que a China não se tornará mais democrática devido ao seu desenvolvimento econômico e sua integração na economia global é necessário e venceu há muito tempo. A cobiça manteve essa fantasia à tona por muito tempo. Mas vou me atrever a fazer uma previsão de que o século XXI não se caracterizará principalmente por um retorno à política das grandes potências, em absoluto, inclusive quando se olha para onde as coisas se dirigem agora.

A experiência da pandemia nos obriga a ter uma visão mais ampla e mais profunda. A Covid-19 foi um mero prelúdio da crise climática que se aproxima, um desafio global que obrigará as grandes potências a abraçar a cooperação pelo bem da humanidade, independentemente de quem seja o “Número um”.

Pela primeira vez, a pandemia fez da “humanidade” mais do que uma abstração, tornando esse conceito um campo material de ação. Conter o coronavírus e salvar a todos da ameaça de novas variantes perigosas exigirá mais de 8 bilhões de doses de vacinas. Supondo que o aquecimento global e a sobrecarga dos ecossistemas regionais e globais continuem em ritmo acelerado, este mesmo campo de ação global se tornará o dominante no século XXI.

Neste contexto, a questão de quem está no topo não será decidida por meio da política tradicional das grandes potências, mas por meio de quais poderes intervêm para proporcionar a liderança e a competência que a situação exige. Diferente do passado, uma guerra fria aceleraria, não evitaria, a destruição mútua assegurada.

 

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