Pandemia: uma leitura bíblico-espiritual

Foto: Pixabay

26 Junho 2020

“Como as coisas vão mudar? Como seremos? O futuro ainda será marcado por hábitos que se repetem? Como será a consciência pessoal e coletiva? O que o Senhor nos pede neste tempo? Por que um bom Deus permite tudo isso a seus filhos? As perguntas dos bispos revelaram a necessidade de uma leitura espiritual e bíblica do que está acontecendo". A partir disso foi elaborado um documento da Comissão Episcopal para a doutrina da fé, o anúncio e a catequese da CEI, datada de 23 de junho de 2020, intitulada "Ele ressuscitou no terceiro dia", que publicamos na íntegra.

 

O documento é da Conferência Episcopal Italiana – CEI, publicado por Settimana News, 24-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o documento.

 

– “A certa altura, não sei dizer como, percebi que estava com meu marido e filhos em casa, sem poder sair como antes. E eu tive que me inventar professora, chef, catequista...”. (V.D., funcionária).

– “A coluna de veículos militares, que em Bergamo retira caixões no meio da noite? Quem poderá esquecer? Para mim não há dúvida: aquela é a imagem da vitória da morte”. (L.P., estudante).

– “Olho pela janela e olho para o parque. E sempre me dá vontade de descer para jogar futebol com meus amigos”. (M.B., menino).

– “Simplesmente eu queria ter podido dizer adeus ao meu pai no último momento de sua vida. Eu gostaria de pelo menos poder ter-lhe dito ‘obrigado’ ou ‘me perdoe’ ou ‘fique tranquilo, um dia nos encontraremos novamente’. Mas nem isso foi possível”. (S.F., advogado).

– “Sim, sinto falta de celebrar a missa com as pessoas todos os dias. Mas você sabe uma coisa? Senti mais falta de poder dizer uma palavra de conforto aos que estavam morrendo e poder celebrar o funeral com seus familiares”. (G.F., capelão).

– “Enquanto eu vestia a máscara e as luvas, pensava em minha esposa e meus dois filhos em casa. Mas eu disse a mim mesmo: ‘Você é médico: esses pacientes estão esperando por você, seu profissionalismo e sua humanidade’". (S.R., médico).

– " ‘Oração’ é uma palavra grande, quando você está em casa com três filhos pequenos e uma pessoa idosa para cuidar. Vamos dizer que às 7 da manhã, enquanto todo mundo ainda estava dormindo, via a missa do papa na TV e que à noite com minha mãe a gente rezava o rosário. Está bem assim? (C.L., dona de casa).

– “O dia inteiro diante tela do computador com amigos e companheiros. Mesmo que estejamos sempre juntos, posso dizer que sinto falta deles?”. (I.P., adolescente).

– “Ouvi dizer que precisavam de voluntários para o refeitório da Caritas na paróquia. Quando decidi ir, meu pai se opôs. Então eu disse a ele: ‘Mas se não forem lá os mais belos e fortes como eu, quem você acha que vai ir?’ Ele sorriu para mim e me deixou ir." (M.T., voluntário).

– “Tudo mudou: algo grande aconteceu. Vocês padres notaram isso? Se vocês voltarem a dizer as mesmas coisas e sempre da mesma maneira, dessa vez ninguém mais vai vos ouvirá”. (S.C., secretária).

– “Como as coisas vão mudar? Como seremos? O futuro ainda será marcado por hábitos que se repetem? Como será a consciência pessoal e coletiva? O que o Senhor nos pede neste tempo? Por que um bom Deus permite tudo isso a seus filhos? As perguntas dos bispos revelaram a necessidade de uma leitura espiritual e bíblica do que está acontecendo". (Concílio permanente da CEI, 16 de abril de 2020).

 

O tempo da escuta

 

"As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração" (Gaudium et spes, 1).

Assim o Concílio nos ensinou. E é com esse espírito, com abertura de coração, que queremos nos deixar questionar sobre as consequências que marcam nosso país - e não só - após as pandemias do Coronavírus.

Dirigindo-nos idealmente de crentes e não crentes, como pastores, pretendemos propor uma "leitura espiritual e bíblica" dessa experiência, que diz respeito a todos nós principalmente como pessoas humanas.

Para nós, cristãos, em particular, o olhar sobre todo evento da vida passa pelas lentes do mistério pascal, que culmina com o anúncio de que Cristo "ressuscitou no terceiro dia" (1Cor 15,4). Essas poucas palavras expressam o âmago da fé da comunidade de fé, a confiança em uma graça que nos foi doada e que continua a se expandir no espaço e no tempo. Ali, para nós, o tempo dos homens e a eternidade de Deus se encontraram, tornando-se o centro da história, o critério fundamental, a chave interpretativa de toda a realidade.

É tempo de ouvirmos juntos a voz do Espírito, que Jesus nos entregou na cruz (cf. Jo 19,30) e no Cenáculo (cf. Jo 20,22). A tarefa do Espírito é aprofundar a verdade do que está acontecendo (cf. Jo 16, 13).

Portanto, tentaremos analisar a nossa realidade, deixando-nos guiar por sua voz, valorizando primeiro as páginas da Bíblia, que contam as últimas horas da experiência terrena de Jesus: naquelas páginas é reservado um espaço aberto, onde as pessoas de fé podem encontrar novamente o Senhor, enquanto os não crentes podem sentir suas perguntas aceitas e guardadas.

 

O drama de sexta-feira

 

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27,46). No relato do evangelho, o grito que brotou do coração de Jesus crucificado permanece sem resposta no momento. Podemos imaginar que até familiares de Jesus ou seus amigos, aqueles que permaneceram perto dele ou aqueles que foram embora, assumiram para si essas palavras: "Nosso Deus, por que nos abandaste?".

Crucifixion, obra de Titian. (Foto: Wikimedia Commons)

Nestes meses de pandemia, todos nos perguntamos o sentido de uma experiência tão imprevisível e trágica. "E houve trevas sobre toda a terra" (Mt 27,45): é como se aquelas três horas, do meio-dia às três da tarde de sexta-feira, tivessem se dilatado, envolvendo o mundo com as trevas do sofrimento e da morte.

A pandemia revelou a dor do mundo: certamente a produziu e a produzirá no futuro, com vastas e persistentes consequências econômicas e sociais. São sofrimentos profundos: como a morte de entes queridos, principalmente os idosos, sem a proximidade do afeto familiar, a sensação de impotência de médicos e enfermeiros, a desorientação das instituições, as dúvidas e as crises de fé, a redução ou a perda de trabalho, limitação de relações sociais.

A pandemia também despertou abruptamente aqueles que pensavam poder dormir em segurança no leito das injustiças e das violências, da fome e da pobreza, das guerras e das doenças: desastres causados em grande parte por um sistema econômico-financeiro baseado no lucro, que não consegue integrar a fraternidade nas relações sociais e na custódia da criação. O Coronavírus deu uma sacudida na superficialidade e na despreocupação e denunciou outra pandemia, não menos grave, frequentemente lembrada pelo Papa Francisco: aquela da indiferença. A imagem do mundo, colorida com áreas vermelhas de acordo com a propagação do vírus, faz pensar na imagem bíblica da terra "vermelha", por estar banhada no sangue do irmão que "grita" a Deus (cf. Gn 4,10).

Tudo isso é resumido pelo grito de dor lançado pelo Crucifixo em direção ao céu, quase uma acusação contra Deus, uma dramática pergunta sobre o sentido diante da morte: por que tanto sofrimento no mundo? É uma pergunta que ressoa no coração de todos, crentes e não crentes, e que pede para ser acolhida.

No Calvário, no entanto, há mais. Perto da cruz há algumas mulheres, o discípulo amado, o centurião Nicodemos, José de Arimateia: poucas pessoas, certo, mas representantes de um remanescente da humanidade capaz de "estar junto" à cruz (cf. Jo 19, 25) para fazer companhia a Jesus, acompanhá-lo até a morte, para garantir-lhe um enterro digno. A sexta-feira, portanto, revela-se um dia não apenas de violência e morte, mas também de piedade e compartilhamento.

Se olharmos para o nosso presente à luz dessa cena, não podemos deixar de reconhecer que, antes de tudo, médicos, enfermeiros e profissionais de saúde “estavam juntos” sob a cruz das pessoas infectadas. Os ministros da comunidade, colaboradores pastorais e voluntários, catequistas e atendentes da Caritas aliviaram as pobrezas materiais, psicológicas e espirituais.

Os jornalistas levaram imagens e palavras de esperança para casas, hospitais, centros para idosos e centros de detenção. As forças da ordem e muitos voluntários prestaram seu serviço à comunidade com coragem e dedicação. Os cidadãos responderam às normas restritivas ditadas pelas instituições nacionais e locais com um grande senso de responsabilidade.

Mesmo que às vezes não tenham faltado, as dificuldades as famílias se revelaram espaços para novos relacionamentos, verdadeiras "igrejas domésticas", nas quais floresceram a oração, a celebração no tempo da Páscoa, a reflexão e as obras de caridade. Assim, se redescobriram naquele "sacerdócio batismal" e naquele "culto espiritual", que nem sempre recebem o espaço adequado na vida de nossas paróquias.

As denominações cristãs se reuniram por alguns momentos de oração, aprofundando os tradicionais laços ecumênicos; e algumas comunidades muçulmanas e de outras religiosas expressaram proximidade e solidariedade.

Olhando bem, a Sexta-Feira Santa da história humana traz consigo o abismo da dor, mas também novos gestos de e caridade, aderindo à fragilidade e atentos às relações pessoais. Nunca como agora os apelos do Papa Francisco na Evangelii gaudium soam como um verdadeiro programa pastoral: "A realidade é superior à ideia" (n. 231); "prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças" (n. 49); "Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã" (n. 169).

 

O silêncio do sábado

 

"E foi sepultado" (1Cor 15,4). Após a morte, Jesus deixou-se depor da cruz, deitar no chão, embrulhar nos lençóis, colocar dentro do sepulcro, obscurecer por uma grande pedra. O que o corpo de Jesus sofre é uma passividade preciosa, que revela nossa própria passividade: viemos ao mundo porque quistos e acolhidos por outros, somos nutridos, alimentados e vestidos por outros e, no final, não seremos mais donos do nosso corpo, entregue a outros e à terra.

Quer queiramos ou não, somos "dependentes", somos limitados.

O vírus causou um golpe fatal na ilusão da onipotência, no cientismo autossuficiente, na tendência prometeica do homem contemporâneo. Criou uma profunda inquietação, quase um trauma planetário, especialmente nas áreas ricas e industrializadas da terra: uma desorientação espelhada pela sensação de segurança que facilmente se tornava arrogância. De repente, mesmo essa parte da humanidade teve que lidar com o limite, com sua entrega nas mãos de outro de si, com uma grande pedra na entrada do sepulcro.

E percebemos, como o Papa Francisco lembrou, que "estamos no mesmo barco" (27 de março de 2020): não existem navios seguros e jangadas quebradas, mas uma única grande balsa na qual poucos acreditavam poder reservar compartimentos privilegiados. Agora - pode-se dizer - "estamos no mesmo sepulcro": compartilhamos medo e morte, ansiedade e pobreza. Todos, sem distinção, estamos com pressa de sair do sepulcro. Gostaríamos de ressuscitar logo depois o Gólgota. Mas nessa pressa esconde-se a tentação: a de considerar a pandemia um parêntese ruim, em vez de uma prova para crescer; um chrónos para fazer escorrer o mais rápido possível, em vez de um kairós para ser acolhido e pelo qual se deixar ensinar.

 


(Foto: Vatican News)

 

O dia seguinte à morte de Jesus é marcado pelo silêncio. Não é um silêncio vazio, mas cheio de espera e de compartilhamento.

Jesus "aprendeu a obediência por aquilo que padeceu" (Hb 5,8). O sofrimento, que como tal nunca deve ser buscado e procurado, pode se tornar uma escola. Nos eventos dramáticos de um evento que não escolhemos, nos é dada a oportunidade de entrar com humildade para purificar nosso olhar e a nossa própria fé.

Nos últimos meses, infelizmente, também foram relançadas interpretações teológicas enganosas sobre as origens da pandemia, apresentadas como punição ou flagelo de Deus pelos pecados dos homens. São interpretações que têm o gosto amargo das palavras dos amigos de que, presumindo dar uma explicação "lógica", acabam por não sentir a dor dos sofredores e, portanto, não pensam de acordo com o Deus da Bíblia.

No silêncio do sábado, surgiu outra atitude desordenada: a tentação do milagre. Alguns gestos, que pouco têm a ver com a humilde pureza da liturgia, revelam mais o esforço de permanecer no sepulcro, compartilhando as perguntas e as ansiedades de cada pessoa diante da morte, aceitando se dirigir com maturidade e tons contidos a Deus que é onipotente no amor.

A experiência deste tempo propôs com força outro aspecto importante do Sábado Santo: o jejum eucarístico. Surgiu um apego sincero de muitos presbíteros e fiéis à liturgia da Missa e à comunhão. A estreita ligação entre o corpo eucarístico e o corpo eclesial - do qual a famosa expressão "a Eucaristia faz a Igreja" - mais uma vez se mostrou verdadeira, embora vivida na forma de falta. Mas a cena era insólita: por um lado, o corpo eucarístico era representado no altar pelos presbíteros; por outro, o corpo eclesial em sua forma de assembleia era obrigado a permanecer longe do altar, da mesa e da comunidade.

Tratava-se de uma separação não natural, embora as transmissões televisivas pudessem supri-la parcialmente, complementada por celebrações domésticas. No entanto, mesmo o prolongado jejum eucarístico pertence à experiência de morar no sepulcro no aguardo da ressurreição. Ao compartilhar a situação à qual muitas comunidades cristãs ao redor do mundo são forçadas, devido à perseguição ou escassez de sacerdotes, pode-se aprender a apreciar mais a celebração eucarística e o mandato de caridade que nos entrega: a comunhão eucarística tem como finalidade, de fato, à comunhão eclesial e o serviço prestado aos irmãos (cf. 1Cor 11, 17-29).

Ficar em paz e com coragem no sepulcro não é nada fácil: é, no entanto, um passo necessário em direção à escuta atenta dos irmãos, para um profundo compartilhamento das fragilidades, para a recuperação de um silêncio de oração, para uma autêntica entrega ao Senhor.

 

A esperança do domingo

 

"Ele ressuscitou ... e apareceu" (1 Cor 15,5). O anúncio do "terceiro dia", lançado por São Paulo no kérygma da Carta aos Coríntios, ressoa na forma de hinos e narrações em todo o Novo Testamento: as chamadas "aparições" são experiências únicas, capazes de renovar a vida em profundidade. Ao atravessar pela morte, Jesus realmente mudou a direção da história. Não se trata de um seu privilégio exclusivo: ele ressuscitou como "as primícias dos que dormem" (1Cor 15, 20), como "primogênito dos mortos" (Ap 1,5), como o primeiro de todos, porque escancara o sepulcro de cada um de nós.

Jesus ressuscita apenas no terceiro dia, quando a morte já parecia tê-lo tragado para sempre, quando a pedra parecia tê-lo enterrado definitivamente. Somente no terceiro dia, porque a ressurreição é verdadeira e credível quando abraça a morte e o sepulcro: o corpo do Jesus ressuscitado é totalmente "transfigurado", porque anteriormente ele havia aceitado ser completamente "desfigurado". Sua glória resplendece, porque passou por uma plena solidariedade com os homens: ele tece experiência de tudo que é humano, mesmo em seus aspectos mais horríveis.

A pandemia colocou à prova o anúncio da esperança cristã, a "beata esperança" de que fala a liturgia. Talvez também tenha revelado os limites de uma pregação abstrata demais sobre a vida eterna, apressadamente preocupada, se não simplesmente silente, de adiar para o além sem parar o tempo certo no Gólgota e no sepulcro. Apesar das tentativas de renovar o anúncio da esperança cristã (cf. Bento XVI, Spe salvi), ficamos ancorados a um conceito segundo o qual a imortalidade e a ressurreição são temas "pós": ou seja, eles dizem respeito apenas ao que seremos depois da morte. Na cultura ocidental, temas como o fim e o além foram, em boa parte, removidos. A morte, embaraçosa e incômoda, sofreu duas tentativas de neutralização: com o silêncio ou, pelo contrário, com a espetacularização. A vida eterna, com todos seus vieses - juízo, paraíso, purgatório, inferno, ressurreição - é banalizada ou relegada à prateleira da evocação simbólica: duas tentativas de excluí-la do horizonte terreno, das coisas humanas nas quais vale a pena pensar.

Resurrection, obra Luca Giordano. (Foto: Wikimedia Commons)

Para nós, cristãos, é sim uma questão de linguagem, mas acima de tudo, é uma questão de experiência e testemunho. A linguagem deve certamente ser atualizada, não apenas no nível teológico, mas também na prática pastoral e na pregação; mas, acima de tudo, é necessário saber captar os sinais da vida eterna na vida terrena de todos os dias.

O Evangelho de João anuncia muitas vezes a vida eterna e a ressurreição no presente, por exemplo, com as palavras lapidárias de Jesus a Marta: "Eu sou a ressurreição e a vida" (cf. Jo 11, 25). Quem caminha em direção a uma meta desejável também aceita as dificuldades do percurso sem desanimar; quem caminha na esperança da vida eterna encontra traços da eternidade, até mesmo no gesto de dar um copo de água a um pequeno (cf. Mt 10, 42). Evangelho na mão, o formulário final do exame será muito simples: "Você me ajudou quando eu estava com fome e sede, eu estava nu e pobre, eu era estrangeiro, doente e preso?" (cf. Mt 25: 31-46). Por fim, "no entardecer da vida seremos julgados sobre o amor" (São João da Cruz).

O anúncio da esperança cristã (Rm 5, 5) é tudo menos que alternativo à esperança humana: apresentá-la às vezes como uma coleção de verdades abstratas, desvinculadas da existência terrena e de suas expectativas, expôs um flanco à acusação de alienação, ilusão ou fantasia compensatória. A escatologia cristã é na verdade uma antropologia que reivindica plenitude, uma caridade que começa a tomar forma no presente e se orienta para sua realização. Sem esse horizonte, todo germe de amor, todo projeto, todo desejo e sonho seriam inexoravelmente destruídos: nossa vida na Terra seria realmente um embuste, se bastasse um vírus ou um terremoto, uma distração de carro ou um momento de desespero para que tudo acabe para sempre.

A esperança cristã é baseada na experiência que a comunidade de pessoas de fé faz do Ressuscitado. De fato, oito dias após a ressurreição de Jesus, os discípulos se encontram no Cenáculo, em uma casa, a portas fechadas (cf. Jo 20, 19). Eles têm uma percepção angustiada do risco que correm fora daquele ambiente, o que agora percebem como reconfortante mas que, a longo prazo, sabem que será muito apertado. O Ressuscitado os alcança no ambiente fechado em que se refugiaram: o encontro ocorre no primeiro dia após o shabat, ou seja, no primeiro dia útil após o descanso e a festa. O Ressuscitado vem para ativar processos da vida evangélica no tempo cotidiano dos discípulos.

Não se fala quanto tempo ele ficou com os discípulos: pode-se presumir que ele o tenha feito pelo tempo necessário para reconforta-los, apresentar-lhes uma catequese sobre os mistérios da fé e motivá-los a um novo estilo de vida.

Se, por um lado, o trauma da morte violenta de Jesus havia desorientado os discípulos e os havia feito se fecharem sobre si mesmos, por outro, havia paradoxalmente solicitado perguntas como aquela de Tomé: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei"(Jo 20,25) - que encontram agora uma resposta no Ressuscitado.

O evento da ressurreição de Jesus coloca nosso desejo de vida em um horizonte de possibilidade real. Sua ressurreição envolve a transfiguração definitiva do corpo, a entrada da carne na dimensão divina. Seu corpo terreno foi investido pelo Espírito e glorificado, antecipando a ressurreição final de cada um de nós: “A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas vezes parece que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e crueldades que não cedem. Mas também é certo que, no meio da obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invencível. Haverá muitas coisas más, mas o bem sempre tende a reaparecer e espalhar-se. Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada através dos dramas da história. Os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis. Esta é a força da ressurreição, e cada evangelizador é um instrumento deste dinamismo" (Evangelii gaudium, n. 276).

 

Por um caminho criativo

 

Uma leitura pascoal da experiência da pandemia não pode prospectar o simples retorno à situação anterior, na esperança de retomar o arado no ponto onde havíamos sido obrigados a largá-lo.

A experiência de Sexta-feira e do Sábado - a permanência na cruz e no sepulcro - não pode mais ser vivida pelos cristãos como um parêntese para ser fechado o mais rápido possível: deve se tornar uma parênese, ou seja, uma exortação, um convite para amadurecer. uma existência diferente. As palavras do Papa Francisco ainda ecoam: "A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral ‘fez-se sempre assim’. Convido todos a serem ousados e criativos nessa tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades" (Evangelii gaudium, n. 33).

A cruz e o sepulcro podem tornar-se cátedras que ensinam a todos a mudar, a se converter, a prestar ouvidos e coração aos dramas causados pela injustiça e pela violência, a encontrar coragem para colocar gestos divinos nas relações humanas: paz, equidade, mansidão caridade. Estes são os germes da ressurreição, os lampejos do Domingo, que tornam concreto e credível o anúncio da vida eterna.

Se aprendermos que tudo é um dom, se disso surgir um novo estilo pessoal e comunitário, que renuncia à lamúria e à arrogância e adota o compartilhamento, o agradecimento e o louvor, então a pandemia nos terá ensinará algo de importante. Nós a teremos vivida, lida e elaborada ouvindo o Espírito e participado do mistério da Páscoa de Jesus Crucificado e Ressuscitado.

Vamos recomeçar, então, como comunidade eclesial nos passos do homem de nosso tempo, animados por ternura e compreensão, por uma esperança que não decepciona.

 

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