A relação entre bispos e padres na Igreja atual. Artigo de Domenico Marrone

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08 Agosto 2026

"A pedagogia de Jesus é sempre pessoal. Isso não significa que as autoridades não possam propor diretrizes gerais ou denunciar fenômenos eclesiais. Certamente podem e devem fazê-lo", escreve Domenico Marrone, teólogo e padre italiano, professor no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Bari, na Itália, em artigo publicado por Settimana News, 07-08-2026.

Eis o artigo.

As reflexões a seguir foram inspiradas por um interessante artigo de Giorgio Bozza, publicado em 9 de julho de 2026 no Settimana News, intitulado "As Cinco Feridas da Igreja Local". Entre as cinco "feridas" identificadas pelo autor, a primeira é a falta de respeito nas relações eclesiais, particularmente entre o bispo e seu presbitério e entre os próprios sacerdotes.

Essa percepção me pareceu particularmente frutífera porque nos permite abordar um tema frequentemente dado como certo e raramente explorado em sua profundidade antropológica, filosófica, teológica e pastoral. A estima, de fato, não é simplesmente uma disposição psicológica, uma forma de cortesia ou uma qualidade de caráter. Ela pertence ao próprio âmago da experiência cristã, pois diz respeito à maneira como reconhecemos nos outros o mistério de sua pessoa, sua dignidade original e a graça de Deus que os precede e os acompanha.

As considerações a seguir não pretendem ser uma resenha do artigo de Giorgio Bozza, nem um comentário detalhado de seus argumentos. Em vez disso, visam desenvolver livremente sua percepção inicial, explorando o tema da estima como uma categoria crucial da comunhão eclesial. Estou convencido, de fato, de que muitos dos desafios que nossas Igrejas enfrentam hoje não decorrem apenas de problemas organizacionais ou pastorais, mas de uma crise mais profunda de reconhecimento mútuo. Onde falta estima, a comunhão se empobrece; onde a estima é preservada e cultivada, até mesmo as diferenças, os conflitos e as inevitáveis ​​tensões podem se tornar oportunidades de crescimento e de uma autêntica fraternidade evangélica.

A crise do reconhecimento

Entre as muitas fragilidades que afetam a vida eclesial hoje, uma é menos evidente que as outras, mas talvez mais profunda: a crise do respeito mútuo. Ouvimos falar frequentemente de uma crise vocacional, dificuldades pastorais, transformações culturais, declínio da prática religiosa e problemas organizacionais. Todas essas são questões reais e importantes. Mas existe uma crise mais subterrânea que afeta o tecido humano e espiritual da Igreja: a dificuldade de reconhecer o bem presente no outro.

Uma comunidade pode tolerar diferenças, opiniões divergentes e sensibilidades pastorais distintas. A história da Igreja sempre foi marcada por tensões. As Escrituras nunca apresentam uma comunidade ideal livre de conflitos.

Moisés discute com o povo. Os profetas desafiam os anciãos. Paulo confronta Pedro em Antioquia. O próprio Jesus precisa continuamente instruir seus discípulos, corrigindo seus equívocos e ambições.

O conflito, portanto, não é necessariamente algo ruim. Às vezes, é um sinal de uma comunidade vibrante. O problema surge quando o conflito perde seu horizonte de comunhão e se torna uma forma de deslegitimar o outro.

Quando você não diz mais: "Irmão, eu discordo dessa escolha", mas sim: "O problema é você ". Quando você não questiona um comportamento, mas sim a pessoa. Quando você não corrige um erro, mas elimina o mistério do outro. É aí que o respeito entra em crise.

Na linguagem cotidiana, estimar alguém significa apreciá-lo. Estimamos uma pessoa porque ela é competente, inteligente, capaz, generosa e consistente. Essa dimensão humana é certamente positiva, mas a estima cristã tem um significado mais profundo.

A estima evangélica não surge primordialmente da avaliação das qualidades dos outros, mas do reconhecimento de sua dignidade. Mesmo antes de ser bispo ou padre, pároco ou assistente pastoral, ocupar um cargo ou ser um simples crente, o outro é: uma pessoa amada por Deus; um filho do Pai; um homem ou uma mulher redimido por Cristo; uma criatura habitada pelo Espírito.

A dignidade precede a função. O papel pode mudar. A tarefa pode terminar. O prestígio pode diminuir. A capacidade pode declinar. Mas a dignidade pessoal permanece.

Por essa razão, um bispo não merece respeito simplesmente por ser bispo. Um padre não merece respeito simplesmente por ser padre. Eles merecem respeito porque são pessoas em quem Deus colocou uma vocação e uma graça.

A estima cristã é, portanto, uma forma de reconhecimento do mistério de Deus presente nos outros. Não significa ignorar as limitações. Significa não permitir que as limitações se tornem a única chave para compreender uma pessoa.

Função e avaliação

Um dos grandes riscos da cultura contemporânea é a redução funcional do indivíduo. Os seres humanos são valorizados pelo que produzem. Seu valor depende de sua eficiência, suas conquistas, seu reconhecimento e o atendimento de expectativas. Esse risco também pode afetar a Igreja.

O padre pode ser avaliado pelo número de iniciativas pastorais que empreende. O pároco, por suas habilidades organizacionais. O bispo, pela eficácia de suas decisões. O padre, por sua visibilidade.

Mas a pessoa não coincide com seu desempenho. A pessoa vem antes da função. Esta é uma das grandes ideias da filosofia personalista: o homem não é um meio, mas um fim. A pessoa não possui valor porque é útil. Ela é útil porque possui valor.

Essa distinção é fundamental na vida eclesial. Um padre idoso, um padre doente, um padre menos brilhante, um ministro menos visível não perdem a dignidade por não mais atenderem aos critérios de eficiência. A Igreja deveria ser precisamente o lugar onde o homem se liberta da lógica do desempenho.

A filosofia contemporânea demonstrou uma verdade fundamental: a identidade humana surge dentro de uma relação de reconhecimento. O homem se torna ele mesmo porque alguém olha para ele e diz: "Você é importante".

O filósofo Martin Buber distinguiu a relação Eu/Tu da relação Eu/Isso. Na relação Eu/Isso, o outro torna-se uma coisa a ser usada, um papel a ser desempenhado, um problema a ser resolvido. Na relação Eu/Tu, o outro permanece um mistério a ser encontrado. Essa transformação também pode ocorrer na Igreja.

O bispo pode ver o padre apenas como um colaborador. O padre pode ver o bispo apenas como um superior. Mas quando isso acontece, a relação sacramental se empobrece. Não estamos mais lidando com um irmão. Estamos lidando com uma função. A perda de respeito muitas vezes surge justamente aqui: quando o rosto desaparece por trás do papel.

Comunhão e estima

O Concílio Vaticano II restaurou uma visão profundamente comunitária do ministério ordenado. O presbitério não é uma coleção de funcionários do bispo. Não é uma estrutura administrativa. Não é um grupo de colaboradores chamados simplesmente para implementar decisões. O presbitério é uma realidade sacramental.

O bispo e os sacerdotes participam do mesmo mistério de Cristo Pastor. A relação não é a de um líder e seus colaboradores, mas a de uma realidade orgânica em que cada membro precisa do outro.

São Paulo escreve: "O olho não pode dizer à mão: 'Não preciso de ti'" (1 Coríntios 12,21). Esta afirmação aplica-se a toda a Igreja, mas adquire uma força particular na relação episcopal. Um bispo que considera os sacerdotes apenas como executores empobrece o seu próprio ministério.

Um sacerdote que considera o bispo apenas como uma autoridade a ser criticada empobrece sua própria comunhão eclesial. O respeito mútuo é o que impede duas tendências opostas: o autoritarismo sem fraternidade e a autonomia sem comunhão.

A obediência eclesial não pode ser concebida unilateralmente, como se fosse um movimento de mão única de baixo para cima. A tradição cristã, especialmente quando adota uma perspectiva personalista, lembra-nos que toda relação autenticamente humana é recíproca: aqueles que obedecem conservam a sua dignidade como pessoas; aqueles que exercem autoridade permanecem vinculados ao dever de respeito.

No rito da ordenação sacerdotal, o sacerdote promete ao bispo "respeito e obediência filial". Esta é uma promessa profundamente eclesial, porque reconhece que o ministério ordenado não é vivido em autonomia individualista, mas dentro de uma comunhão sacramental na qual o bispo representa o princípio visível da unidade da Igreja particular.

No entanto, essa promessa não pode ser interpretada em um sentido puramente jurídico ou funcional, como se a obediência do sacerdote constituísse o único elemento moral da relação episcopal.

A obediência cristã nunca é uma humilhação do indivíduo. Não é o apagamento da consciência. Não é a renúncia à própria história. Não é uma disposição passiva de ser inserido em um mecanismo organizacional.

A obediência eclesial surge da fé de que Deus age por meio da mediação humana, mas precisamente por reconhecer a mediação divina, ela jamais poderá negar a dignidade humana daqueles por meio dos quais essa mediação se dá.

Uma analogia esclarecedora pode ser oferecida pelo quarto mandamento: "Honra teu pai e tua mãe". Tradicionalmente, esse mandamento tem sido interpretado como um convite para que os filhos reconheçam a autoridade de seus pais.

Mas uma leitura mais aprofundada, especialmente à luz da antropologia cristã, mostra que o mandamento da honra não se refere apenas a quem deve obedecer. Ele estabelece uma relação recíproca. Os filhos devem honrar seus pais. Mas os pais também, precisamente porque lhes foi confiada a responsabilidade por seus filhos, devem honrar a dignidade deles.

Um pai que exige obediência, mas humilha o filho, trai o próprio significado da sua autoridade. Um pai que usa o seu papel para dominar não está a exercer a paternidade, mas sim a distorcê-la.

A verdadeira autoridade não se mede pela capacidade de exigir obediência, mas sim pela capacidade de gerar liberdade e maturidade.

O mesmo princípio se aplica na Igreja. O sacerdote deve obediência ao bispo. Mas o bispo deve respeito ao sacerdote. O sacerdote deve reconhecer a autoridade episcopal. Mas o bispo deve reconhecer a dignidade pessoal e ministerial do sacerdote.

A relação eclesial não é uma hierarquia em que os que estão acima possuem maior valor e os que estão abaixo devem simplesmente se conformar. É uma comunhão em que diferentes papéis preservam a mesma dignidade batismal.

Poder, autoridade, equilíbrio

Creio que uma das fragilidades estruturais da vida eclesial reside na falta de um equilíbrio autêntico no exercício da autoridade. O princípio do equilíbrio de poderes, específico das democracias constitucionais, não pode ser transferido mecanicamente para a Igreja, que não é um Estado, mas um mistério de comunhão. Contudo, exige uma sabedoria antropológica que a Igreja não pode ignorar: toda autoridade humana, precisamente por ser exercida por indivíduos limitados e falíveis, necessita ser iluminada pela escuta, corrigida pelo diálogo e acompanhada de formas de corresponsabilidade.

Quando a governança eclesial se priva de qualquer possibilidade de diálogo, quando o discernimento se reduz à vontade do indivíduo, ou quando a obediência é interpretada como renúncia ao pensamento e à palavra, cria-se um terreno fértil para abusos de poder e, ainda mais grave, para abusos de consciência. Estes não são meramente erros organizacionais, mas feridas infligidas ao Corpo de Cristo, porque todo abuso de autoridade mina a confiança, mortifica a dignidade dos indivíduos e obscurece a face evangélica da Igreja.

A autoridade cristã não teme o confronto, porque não se baseia na autossuficiência daqueles que governam, mas na busca compartilhada da vontade de Deus. Quanto mais autêntica ela for, mais combinará decisão e escuta, firmeza e humildade, responsabilidade e transparência. O oposto da autoridade não é a participação, mas a arbitrariedade; e o oposto da obediência não é o diálogo, mas a submissão. Somente uma Igreja em que a autoridade esteja disposta a se purificar continuamente pela verdade e pela fraternidade pode ser verdadeiramente um sinal crível do Evangelho.

Um dos maiores riscos na vida eclesial é transformar pessoas em meras funções. O padre pode simplesmente se tornar um número no organograma diocesano, uma caixa a ser preenchida, um recurso pastoral a ser transferido, um problema administrativo a ser resolvido. Mas um padre não é um cargo organizacional.

Por trás de cada sacerdote existe uma história. Existe uma biografia vocacional. Existem anos de formação. Existem experiências pastorais. Existem feridas e crescimentos. Existem sensibilidades espirituais e humanas que não podem ser ignoradas.

Uma decisão eclesial pode ser necessária, por vezes até dolorosa, mas uma forma impessoal de exercer a autoridade corre o risco de ferir profundamente a pessoa. Não porque o sacerdote tenha direito ao seu próprio conforto ou à manutenção do seu cargo, mas porque toda pessoa tem o direito de ser tratada como pessoa. Há uma diferença crucial entre o exercício da autoridade e a forma como ela é exercida. A mesma decisão pode ser vivenciada como um ato de comunhão ou como uma experiência de humilhação, dependendo se for precedida de escuta, diálogo e respeito pela biografia do indivíduo, ou imposta de forma burocrática e impessoal.

Aqui, o problema não é meramente pastoral, mas toca em questões éticas e, em alguns casos, até mesmo em direitos humanos fundamentais. Mesmo dentro da Igreja, podem surgir situações em que o direito de ser ouvido, o respeito à própria reputação, a proteção da dignidade, a capacidade de expressar opiniões ou de conhecer as razões por trás de certas decisões são efetivamente comprometidos ou negligenciados.

Não se trata de transpor para a vida eclesial categorias específicas de litígios jurídicos ou do conflito entre direitos e deveres, mas sim de reconhecer que a dignidade da pessoa, da qual derivam todos os direitos autênticos, precede qualquer função, ministério ou estrutura institucional. Precisamente por essa razão, a Igreja, ao proclamar o Evangelho da dignidade humana ao mundo, é chamada a salvaguardar essa dignidade com particular rigor nas suas relações internas.

Além disso, o Magistério contemporâneo tem insistido veementemente que a dignidade humana é o fundamento de todos os direitos autênticos. Enquanto a Igreja promove incansavelmente os direitos humanos na sociedade, denunciando as violações da dignidade dos trabalhadores, dos migrantes, dos pobres e das pessoas vulneráveis, ela é chamada, com ainda maior coerência, a garantir que, em suas relações internas, ninguém seja tratado como mero meio, procedimento administrativo ou posição no organograma.

A credibilidade da mensagem do Evangelho também depende disso: da capacidade de combinar autoridade com respeito, governança com escuta, tomada de decisões com cuidado pessoal. Só assim a autoridade eclesial se torna verdadeiramente um sinal da paternidade de Deus que nunca sufoca a liberdade de seus filhos, mas a promove na verdade e no amor.

Obediência e experiência

Por vezes, corremos o risco de confundir obediência com disponibilidade absoluta. Mas a obediência cristã não exige que o sacerdote deixe de ser ele mesmo. Deus não chama pessoas anônimas. Chama Abraão com a sua história. Moisés com os seus medos. Pedro com o seu caráter. Paulo com a sua experiência. A graça não apaga a pessoa: assume-a e transforma-a. Por esta razão, a autoridade eclesial deve também reconhecer que o sacerdote não é meramente um receptor de decisões, mas um sujeito eclesial.

Suas experiências devem ser ouvidas. Sua sensibilidade deve ser considerada. Sua história deve ser respeitada. Isso não significa que todos os desejos pessoais devam ser atendidos. Significa que todas as pessoas devem ser ouvidas.

A autoridade cristã não se mede pela distância que cria, mas pela comunhão que gera. Uma autoridade que diz: "Vocês devem obedecer porque eu ordeno" é uma autoridade frágil. Uma autoridade que diz: "Caminhamos juntos porque somos chamados pelo mesmo Senhor" é uma autoridade evangélica.

O bispo não é simplesmente chamado para obter obediência do presbitério. Ele é chamado para gerar um presbitério. E gerar significa conhecer, acompanhar, encorajar, corrigir e valorizar. Um pai não ama seus filhos apenas quando eles lhe obedecem. Ele os ama mesmo quando precisa corrigi-los. E precisamente porque os ama, ele os corrige sem humilhá-los.

Onde falta respeito, a obediência torna-se uma forma externa e burocrática. Obedece-se, mas não se cumpre. Cumpre-se uma ordem, mas não se experimenta comunhão.

Pelo contrário, quando o sacerdote percebe que sua dignidade é respeitada, até mesmo um pedido difícil pode ser aceito como uma expressão de corresponsabilidade eclesial.

A correção sem reconhecimento corre o risco de se transformar em humilhação. A denúncia sem reconhecimento corre o risco de gerar apenas desânimo. Antes da repreensão, há confiança. Antes da correção, há reconhecimento. Antes da conversão, há a certeza de que essa pessoa continua a pertencer ao plano de Deus.

A pedagogia ensina que uma pessoa cresce quando alguém acredita em seu potencial. Isso também se aplica a um sacerdote. Um sacerdote não se torna melhor porque é constantemente definido por aquilo que lhe falta.

Uma das formas mais graves de perda do respeito mútuo na vida eclesial é a fofoca, que a tradição espiritual chama de detractio. Não se trata simplesmente de falar mal dos outros, mas sobretudo da maneira como se constroem os relacionamentos quando falta a coragem de viver a verdade em fraternidade.

A correção fraterna dirige-se ao outro. A detração dirige-se ao outro. A correção surge da responsabilidade da comunhão. A detração surge, muitas vezes, do distanciamento da comunhão.

No entanto, é preciso reconhecer uma outra dimensão: o estilo de autoridade também pode criar um clima em que a fofoca se torna mais fácil ou até mesmo inconscientemente incentivada.

Quando aqueles que exercem um serviço governamental na Igreja comunicam-se predominantemente por meio de alusões, generalizações, denúncias coletivas, categorias abstratas ou apelos públicos desacompanhados de um diálogo pessoal, pode surgir um clima em que todos tentam interpretar a quem essas palavras são dirigidas.

Cultura da comunicação

A palavra que deveria convocar pode então se tornar uma palavra que divide. O chamado que deveria fomentar a conversão pode se transformar em um clima de suspeita: "A quem ele se referia?" "Quais são os padres que estão sendo criticados?" " Qual grupo está sendo acusado?"

Assim, paradoxalmente, uma comunicação talvez nascida com a intenção de corrigir pode produzir o efeito oposto: não um confronto evangélico, mas uma multiplicação de comentários indiretos.

Nesse sentido, é possível falar do risco de um estilo "carbonaro" na vida eclesial, um estilo caracterizado por: mensagens indiretas; comunicações não totalmente transparentes; juízos expressos sem um interlocutor claro; uma pedagogia baseada mais na suspeita do que na confiança; um contraste entre um suposto "nós fiéis" e um "eles problemáticos".

Quando a autoridade se expressa em categorias gerais sem correr o risco de estabelecer relações pessoais, pode surgir uma situação paradoxal: pede-se aos membros da comunidade que evitem julgar os outros, mas, ao mesmo tempo, cria-se uma linguagem na qual o julgamento se torna quase inevitável.

A autoridade evangélica não teme encontros pessoais. Jesus nunca ensinou seus discípulos por meio de mensagens anônimas. Quando precisou corrigir Pedro, o fez olhando-o nos olhos. Quando precisou purificar a mente dos Doze, caminhou com eles. Quando precisou confrontar a traição de Judas, não a transformou em uma denúncia genérica do grupo.

A pedagogia de Jesus é sempre pessoal. Isso não significa que as autoridades não possam propor diretrizes gerais ou denunciar fenômenos eclesiais. Certamente podem e devem fazê-lo.

Mas uma palavra pública genuinamente evangélica deve sempre deixar transparecer uma coisa: por trás da correção, há um coração que ama, não um julgamento que rotula.

O risco de uma pedagogia eclesial predominantemente negativa é que ela cria uma comunidade que não se engaja mais livremente, mas se defende. Quando a autoridade se comunica principalmente por meio da suspeita, os membros da comunidade aprendem a se proteger.

Quando se comunicam com respeito, aprendem a assumir responsabilidades. A diferença é enorme. A suspeita gera estratégias. A confiança gera conversão. A suspeita produz silêncios cautelosos ou palavras veladas. A confiança gera diálogo.

A fofoca não surge apenas dos corações maldosos das pessoas. Às vezes, ela também nasce de um contexto relacional que carece de transparência, proximidade e confiança. Portanto, as autoridades da Igreja têm uma responsabilidade especial: não apenas corrigir comportamentos, mas também preservar o clima espiritual no qual as pessoas vivem seus relacionamentos.

Os que detêm autoridade e desejam construir comunhão devem evitar qualquer estilo que possa transformar o diálogo eclesial numa espécie de "assembleia dos ausentes", onde todos falam de alguém que não está presente.

O caminho evangélico é diferente: não uma Igreja em que nos vigiamos uns aos outros, mas uma Igreja em que nos reconhecemos mutuamente. A Igreja deve ser o lugar onde a competição se transforma em comunhão. A verdadeira grandeza não está em ser superior aos outros, mas em ser capaz de reconhecer o bem nos outros.

A estima é a forma madura da caridade. A estima é uma virtude humana, porque possibilita a convivência autêntica. É uma virtude moral, porque ensina uma perspectiva justa. É uma virtude espiritual, porque reconhece a presença da graça nos outros.

Mas, acima de tudo, trata-se de uma dimensão ontológica: diz respeito ao que o outro é antes mesmo do que ele faz. Antes do bispo vem o irmão. Antes do sacerdote vem o filho de Deus. Antes do cargo vem a pessoa. Uma Igreja pode ter programas, estruturas, estratégias e projetos. Mas, sem respeito mútuo, corre o risco de perder a face mais autêntica de Cristo: a de uma comunidade na qual cada pessoa pode dizer à outra: "Você é um dom de Deus antes mesmo de ser uma resposta às minhas expectativas".

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