Formação de padres: O tempo é desafiador

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01 Dezembro 2022

"A desconstrução de um modelo faz-se imperativo para o surgimento de algo, que embora 'desafiador', não comporta alternativas medíocres e anacrônicas", escreve Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR. 

Eis o artigo. 

Li e reli, não apenas duas vezes, o texto do padre Jean L`Hour, exímio exegeta e formador, publicado no jornal Le Monde agora em novembro passado. É um grito. Um grito no deserto. Mas, as suas ondas sonoras de tão potentes, chegam aos ouvidos dos que ainda não desistiram de ver mudanças substanciais no processo formativo dos padres. Que o atual não corresponda mais, tem sido sobejamente denunciado e é fato constatado a olho nu! Estamos formando padres para um mundo que não existe mais e o pior: os empurramos para um outro que já existiu e eles nunca viveram! O saudosismo e a nostalgia de modelos de igreja do passado, reflete uma formação equivocada e contraproducente para o que Francisco nos tem apresentado em seu pontificado. O Congresso Internacional sobre a problemática dos seminários católicos, intitulado «Erguendo os olhos e vendo», realizado entre os dias 16 a 19 de novembro em Braga, assim foi traduzido pelo cônego Vítor Novais, reitor do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo: “que este seja um evento decisivo para a Igreja. Com este congresso não queremos dar respostas de ontem às perguntas de hoje”. Por conseguinte, o cerne da questão está exatamente em buscar respostas adequadas às perguntas do aqui e agora da história! E quais são as perguntas do momento?

O processo sobre sinodalidade da Igreja em sua fase continental, já nos inunda de questões que exigem, senão respostas, ao menos atenção redobrada! “O documento agora publicado assinala que os participantes no processo sinodal pedem mais transparência na vida da Igreja e denuncia “uma cultura clerical” que “isola as pessoas e fragmenta as relações entre sacerdotes e leigos”, diz-nos o padre Paulo Terroso, que é membro da Comissão de Comunicação do Sínodo e integrou a equipe de 50 pessoas que redigiu o DEC. Aliás, o mesmo sacerdote português, considera que a este documento poderá haver reações e tensões no interior da Igreja, mas salienta que isso pode ajudar a uma “discussão saudável”. “Não tenhais medo”, já nos dizia o papa S. João Paulo II na virada do ano 2000. Encarar a problemática que chegará ao Sínodo dos bispos já no próximo ano e dar-lhe o encaminhamento necessário, será não só um ato de coragem, mas acima de tudo, de abertura ao Espírito. Porém é bom nos atermos às palavras do cardeal Jean-Claude Hollerich: Alguns tem uma agenda para a reforma da Igreja; sabem muito bem o que precisa ser feito e querem usar o sínodo para esse fim: isto é instrumentalizar o Sínodo. Isto é politização. Do lado oposto estão os "indietristas" que não entendem que uma verdadeira tradição católica evolui mesmo permanecendo tradição em seu tempo. Também eles gostariam de colocar os freios no processo do Sínodo. Nós, por outro lado queremos poder entrar em um verdadeiro discernimento, um discernimento apostólico, missionário, para que a Igreja sinodal possa realizar a sua missão no mundo. O processo de sinodalidade não é um detalhe, no momento em que a Igreja procura mudanças para a formação dos padres. Se elas acontecerem, terão nesse processo, a sua raiz e fundamentação!

Os nossos Seminários, embora tendo sido renovados tanto quanto possível, à luz do último Concílio e da sua nova eclesiologia expressa na Lumen Gentium e em vários outros documentos, continuam refletindo sobremaneira o Concílio de Trento. Alguém perguntará como é possível preparar sacerdotes no século XXI, embalados pela eclesiologia que presidiu um Concílio do século XVI, que teve como uma das suas prioridades, organizar os Seminários e preparar neles homens para o confronto com a Reforma, claramente numa permanente apologética. Na época, isso por óbvio, se deu com um reforço da dimensão intelectual dentro da esfera eclesiástica, tendo a filosofia como “Serva da Teologia”. Não podemos nem devemos criticar aqui a escolástica aristotélico tomista, pois de S. Tomás a Igreja só tem a agradecer e a louvar e não é o que está em causa quando falamos de renovação. Pelo menos não apenas isso! Trento trouxe a Igreja até à Revolução Francesa. Os séculos XIX e XX não foram pacíficos para um clero que teimava em se relacionar com o mundo nos moldes tridentinos. O anticlericalismo das novas repúblicas maçônicas e depois de regimes totalitários de extrema esquerda e extrema direita, induziram a Igreja a reforçar a preparação do seu clero para o confronto, nos meios acadêmicos, científicos, políticos e sociais. Nos dois séculos referidos, tendo o Concílio Vaticano I em seu bojo, a eclesiologia vigente, mantinha o clero apto a dar todas as respostas às perguntas que surgiam. “Perguntem ao padre”, poderia muito bem ser o lema para as relações eclesiais na maioria dos países católicos do ocidente! Não nos é estranho o fato de que até há 70 anos atrás, o analfabetismo atingia índices assustadores e mantinha a comunidade católica totalmente dependente do padre, em muitas regiões o único “letrado”! Consequentemente, a Bíblia era um livro invisível para a Igreja Católica. A doutrina se impunha na catequese sacramental e as fórmulas conciliares da fé eram decoradas, contudo não entendidas.

O sacerdote era necessária e literalmente o elo entre os fiéis e o sagrado! O padre era da esfera do sagrado. O sacerdócio comum tinha definhado completamente, em favor do ministerial! Os santos no altar, a maioria esmagadora era do âmbito clerical – padres, bispos ou monges. O padre se ordenava, vivia a sua vida inteira numa única paróquia e nenhuma questão o perturbava! Dizia-se no Brasil: “O padre, o Prefeito e o Delegado”! Havia paz na vida do clérigo, que com a sua formação de Seminário, longe das Universidades laicas, era cultuado como sabedor de praticamente tudo que a vida impunha. A sua figura de autoridade – em não poucos casos, não conquistada – remeti-o para a mesa dos “grandes deste mundo”!

Alguns entendidos, dizem que esse modelo veio até ao Concílio Vaticano II. Eu discordo. Ele caiu de maduro no pós-Concílio e visa se reconstruir agora, sob um anacrónico saudosismo de quem não aceita uma dessacralização da figura do clérigo! Pois é disto que estamos falando. Voltando ao Congresso mencionado, o Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro adjetivou o tema do encontro como “desafiador”, referindo que “se o tempo que estamos a viver é duro e árduo, é porque algo de novo está a nascer”. E está mesmo. Não podemos ter medo nem pudor, de dizer com todas as letras que a figura do sacerdote, construída ao longo da idade média e reforçada após Trento, unindo o poder à sacralidade e à mediação e sendo detentor da “dispensa” dos sacramentos, excluindo as mulheres e sublinhando o celibato obrigatório, como fator inerente ao próprio sacerdócio ministerial, não subsiste mais! Ou melhor, sobrevive voltado para trás; para uma instituição que muitos gostam de ver recriada, mas que o mundo ignora completamente. A reflexão sobre a Igreja como ente relevante na história dos homens do século XXI, apresentando-lhes a eterna novidade do Evangelho, deve obrigatoriamente incluir a coragem da renovação radical do modelo de formação e dos Seminários em si.

Impossível combater o clericalismo, sem desclericalizar os leigos infelizmente abduzidos por padres com uma mentalidade pré-conciliar. Precisamos de fato, renovar não só os Seminários, mas as próprias comunidades. Com referiu com maestria o colega padre Fernando Calado num artigo do Jornal de Notícias do dia 20 de Novembro, se o objetivo for levar as pessoas a encontrarem-se com Cristo, transformar as suas vidas e promover a vivência da fé com outros, então serão precisos homens e mulheres que tenham feito essa experiência. Que se sintam chamados a ajudar outros a trilhar esse caminho. Que se disponibilizem para congregar os fiéis e servir as comunidades. Os seminários, nesta hipótese, mais que um espaço - parafraseando Bento XVI - devem converter-se num tempo que promova e aprofunde nos futuros líderes a intimidade com Cristo. Assim garantirão a formação inicial, e a sua atualização, para melhor desempenharem essa missão. Grandes mudanças na Igreja, chegam geralmente acompanhadas pelo exaurimento completo do que antes era cultuado e depois tolerado. Sem exceções! E por via de regra, a mudança sempre traz uma maior fidelidade ao Evangelho e otimiza a missão primeira, que é evangelizar! E mais: também por via de regra, os nossos medos de mudança e empenho na preservação, revelam um aprisionamento dos Mistérios em fórmulas humanas petrificadas. Seria como investir na talha, em detrimento do precioso vinho!

Jean L`Hour, foi duro com os bispos franceses sem, porém, ser ofensivo. Ele fez uma denúncia tanto peremptória quanto profética: não basta pedir perdão por erros cometidos, se não mudamos “nosso jeito de ser Igreja, de ser bispo, padre etc.”, perante uma sociedade desacreditada, contudo, sedenta de Cristo e da sua Verdade. A formação de futuros padres passa por aqui. Envolvê-los e protegê-los num líquido amniótico chamado clero, como proteção e ponto de partida, devolvendo-os depois ao mundo, a “ser convertido”, não me parece mais razoável hoje. Vários autores fizeram escorrer tinta para provar que este não é o modelo que havia no coração de Jesus sobre seus discípulos mais próximos. Bem pelo contrário. Nos assemelhamos sobremaneira aos sacerdotes do Antigo Testamento! E bem sabemos, que nas cartas paulinas, a figura dos bispos, diáconos e presbíteros está longínqua desta que conhecemos hoje. Isto não é irrelevante e nem justificável pela elaboração histórica da figura deste Ministério ordenado! A desconstrução de um modelo faz-se imperativa para o surgimento de algo, que embora “desafiador”, não comporta alternativas medíocres e anacrônicas.

Sem a conclusão do processo da sinodalidade, que exatamente como processo, se arrastará além do previsto, não temos como montar qualquer arcabouço que substitua os atuais Seminários! É uma questão de honestidade eclesial, acima de tudo! O Sínodo não é um exercício de democracia, mas sendo de escuta do Espírito na voz do povo de Deus, abrirá sem dúvida nenhuma, alguns caminhos e trará coragem para trilhá-los! Os ventos que sopram de todos os cantos do mundo e das dioceses mais recônditas, já nos dão conta nesta primeira fase, que o sensus fidei fidelis caminha para a abertura aos sinais dos tempos, como recomenda o próprio Jesus. O papel das mulheres e a noção de autoridade, bem como questão do celibato obrigatório, estão no radar e com certeza na mesa dos bispos em 2024!

Não sabemos o que teremos. Porém, já sabemos o que não queremos. É um ótimo começo!

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