Experiência cristã e contingência histórica diante da injustiça. Artigo de Riccardo Saccenti

Pier Giorgio Frassati | Foto: Luciana Frassati/Wikimedia Commons

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15 Janeiro 2026

"A leitura da figura de Frassati feita por La Pira revela, portanto, não apenas uma comemoração ou uma busca por um modelo. O que emerge é quase um diálogo entre dois homens tão diferentes em seus perfis sociais e culturais, quanto unidos por uma forma de catolicismo que, ao longo do século XX, descobre sua própria vocação social que traduz a fé na história e repensa a política como forma de empreender uma transformação das instituições e da ordem civil, posicionando-se, como recordava o futuro prefeito de Florença, 'do lado daqueles que choram, que sofrem, que padecem opressão e injustiça'".

O artigo é de Riccardo Saccenti, filósofo e medievalista italiano, pesquisador do King’s College, de Londres, e da Fundação para as Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, publicado por L’Osservatore Romano de 12-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

Em 5 de julho de 1939, L’Osservatore Romano publicou um artigo em memória de Pier Giorgio Frassati, falecido aos 24 anos em 4 de julho de 1925. O jovem universitário, membro da Federação das Universidades Católicas Italianas (FUCI) e militante do Partido Popular Italiano, era lembrado por sua forte coerência entre fé e ação, que o tornava quase um modelo de vida cristã. Acima de tudo, a atenção pelos pobres e a escolha em estar ao lado dos últimos, para sentir-se pobre com os pobres, emergia não apenas como uma instância de caráter moral.

Frassati tornava-se a testemunha de um cristianismo capaz de afirmar a dignidade da pessoa humana em uma época que parecia dominada pela violência. "Rezar, mas amar e atuar", escrevia o artigo; "meditar, mas orientar e resplendecer; o cristianismo é fermento; deve ser colocado nas estruturas mais íntimas do corpo social para sustentá-las, corroborá-las e, se necessário, quebrá-las e renová-las. Não é fácil compreender essas coisas; encontrar esses nexos últimos que unem a graça e a sociedade; contudo, a obra renovadora do Evangelho é uma obra destinada a construir e aperfeiçoar a cidade de Deus, o reino de Deus, o reino do Pai, a Igreja de Cristo."

Quem descrevia com essas palavras o valor da experiência cristã de Frassati no jornal da Santa Sé era Giorgio La Pira, que naquele verão de 1939, paralelamente ao ensino universitário, já se dedicava a uma pluralidade de iniciativas de solidariedade cristã, desde a Missa dos Pobres em San Procolo à Conferência de San Vincenzo, e oferecia uma refinada elaboração cultural nas páginas da revista Principi. Seu conhecimento de Frassati não era direto, mas provinha da mediação dos ambientes da Ação Católica e da FUCI, onde a memória do jovem estudante de engenharia ainda era viva e exemplar não apenas no plano religioso.

Além disso, as palavras de La Pira revelam uma clara consciência de como, em Frassati, a experiência da fé, vivida tão profundamente a ponto de se tornar radical nas escolhas, resultou naturalmente no cuidado pelo ser humano e seus sofrimentos, conduzido pelo questionamento das estruturas sociais e políticas. Nisso se evidencia o entrelaçamento das personalidades desses dois homens, tão diferentes entre si por origem social, sensibilidade cultural e experiências de vida. Para Frassati, assim como para La Pira, a fé cristã é a raiz da qual brota uma visão das coisas e da história que assume como parâmetro aquele Sermão da Montanha que anuncia um futuro que subverte as feridas do presente, quase como se ser cristão obrigasse ao exercício da profecia.

O entrelaçamento dessas duas vidas cristãs foi o tema central dos trabalhos do encontro "La Pira, Frassati e a Política", realizado no Palazzo Vecchio, em Florença, em 9 de janeiro com a presença do arcebispo Gherardo Gambelli e autoridades municipais, organizado pela Prefeitura de Florença, pela Fundação Giorgio La Pira e pelo grupo florentino MEIC. Com contribuições de Patrizia Giunti, Ernesto Preziosi e Luca Rolandi, e moderação de Stefano Zecchi, o encontro focou na dimensão política de La Pira e Frassati e em como esse âmbito da experiência humana assumiu um papel central em suas existências.

Apesar das suas diferenças, ambos vivenciaram a dimensão cívica como parte integrante da sua biografia enquanto crentes, de forma que a tradução da fé em história, tanto para Frassati como para La Pira, passa também pelo seu engajamento nas estruturas e dinâmicas políticas: a do PPI de Sturzo para o jovem de Turim, a da candidatura nas listas da DC para La Pira, que o leva a se empenhar como constituinte, parlamentar, subsecretário e prefeito de Florença.

Traçar um paralelo entre essas duas figuras revela toda a complexidade e riqueza produzidas pelo entrelaçamento entre experiência cristã e contingência histórica. Em dois momentos históricos profundamente distintos — o início da década de 1920 para Frassati, a Itália da guerra e da construção da democracia republicana para La Pira — o Evangelho, vivido nas dobras da vida dos seres humanos, fomenta uma forma de realismo na compreensão das coisas. Para ambos, aliás, o tema dos últimos e do exercício da caridade para com eles não se reduzem a uma questão pessoal e a uma instância meramente moral. Em vez disso, tornam-se a marca distintiva de uma consciência social e civil capaz de reconhecer não apenas o mal, mas todas aquelas estruturas e dinâmicas que alimentam a desigualdade e a divisão entre os seres humanos.

Trata-se de um realismo da fé, nutrido por uma espiritualidade que o próprio La Pira reconheceu como "savonaroliana", ou seja, marcada pelo radicalismo de uma escolha pelos últimos que não aceita compromissos, que é central para a vida cristã do prefeito de Florença e do estudante da FUCI. E é significativo que, para ambos, essa integralidade do cristianismo se manifeste em contextos - a cidade de Turim nas primeiras décadas do século XX e Florença nas décadas centrais do século - onde há uma forte presença das orientações culturais laicas e suas demandas. E para ambos, isso também significa amadurecer uma escolha muito clara contra o autoritarismo político, visto como uma negação da dignidade da pessoa, que é, ao contrário, o que alimenta a sensibilidade social e civil do cristianismo praticado nos ambientes da Ação Católica.

A leitura da figura de Frassati feita por La Pira revela, portanto, não apenas uma comemoração ou uma busca por um modelo. O que emerge é quase um diálogo entre dois homens tão diferentes em seus perfis sociais e culturais, quanto unidos por uma forma de catolicismo que, ao longo do século XX, descobre sua própria vocação social que traduz a fé na história e repensa a política como forma de empreender uma transformação das instituições e da ordem civil, posicionando-se, como recordava o futuro prefeito de Florença, "do lado daqueles que choram, que sofrem, que padecem opressão e injustiça".

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