08 Agosto 2026
"A questão dos painéis em Lourdes foi levantada pelo jornal Libération, em 29 de junho último, como um “embaraço” para a Igreja, deixando a pergunta: “O que se irá fazer dos mosaicos monumentais que adornam a fachada da Basílica do Rosário, um dos principais santuários de Lourdes (Altos Pirenéus), onde o papa americano ficará hospedado nos dias 26 e 27 de setembro?”
O artigo é de Manuel Pinto, publicado por 7Margens, 07-08-2026.
Eis o artigo.
No âmbito da preparação da visita do Papa Leão XIV a França, em setembro próximo, os responsáveis do Santuário de Lurdes decidiram cobrir os mosaicos que, desde 2007, decoram a fachada, da autoria do padre e artista Marko Rupnik, acusado de abusos sexuais e de poder, sobre dezenas de religiosas.
A questão dos painéis em Lourdes foi levantada pelo jornal Libération, em 29 de junho último, como um “embaraço” para a Igreja, deixando a pergunta: “O que se irá fazer dos mosaicos monumentais que adornam a fachada da Basílica do Rosário, um dos principais santuários de Lourdes (Altos Pirenéus), onde o papa americano ficará hospedado nos dias 26 e 27 de setembro?”.
No mesmo dia, o jornal La Vie, deixava a resposta, ao deixar escapar no final de um artigo sobre os preparativos da visita, uma informação do reitor do Santuário, que referia a decisão de cobrir a totalidade dos mosaicos, durante o fim de semana da estadia de Leão XIV, medida tomada com o acordo do bispo da diocese, Jean-Marc Micas.
Nesta terça-feira, a jornalista italiana Federica Tourn, que tem acompanhado de perto o caso Rupnik e, sobretudo, algumas das suas vítimas, publicou na sua página na rede Substack, um trabalho em que contextualiza a decisão de ocultar, ainda que por dois dias, a obra monumental que lá se encontra.
De facto, o Santuário já tinha feito, desde 2023, um caminho nesta direção. O bispo Jean-Marc Micas recebeu cartas e atendeu vítimas de abusos que confessaram sentir-se incomodados com as obras de um padre abusador, quando peregrinavam a Lurdes.
O prelado acabou por criar uma comissão multidisciplinar para ponderar a razoabilidade de retirar ou não os mosaicos, que versam sobre aspetos da vida de Cristo. A solução, com o seu quê de salomónico, acabou por não seguir a via mais radical: decidiu-se ocultar algumas obras, mas, sobretudo, retirar a iluminação que sobre elas incidia, especialmente nas procissões noturnas.
O caso Rupnik tornou-se, como escreve Federica Tourn, um “elefante na sala” para o Vaticano e, tanto o Papa Francisco como, agora, o seu sucessor, são quase ‘obrigatoriamente’ confrontados com perguntas incómodas – seja da parte de vítimas, seja de jornalistas. Com o caso por deslindar e carregado da suspeição de que tem havido encobrimento e proteção ao mais alto nível, seria praticamente inevitável que Leão XIV tivesse de lidar com a “batata quente”.
Nas palavras do reitor ao La Vie, além de não perturbar o “ambiente festivo”, a medida “oculta obras que são agora inseparáveis do drama dos abusos sexuais” atribuídos a Rupnik. Tira-lhes durante aqueles dias, um certo caráter provocatório e de desafio.
Refira-se que situação análoga à de Lurdes se poderá vir a colocar em Portugal, caso se venha a concretizar a visita de Leão XIV a Fátima, aventada para 2027, já que a Basílica da Santíssima Trindade apresenta igualmente uma obra monumental do padre Rupnik.
Representando nomeadamente trono do Cordeiro, com a Mãe de Deus, os Apóstolos e todos os Santos, o gigantesco painel ocupa todo o fundo do auditório da Basílica, onde se encontra o altar, numa área de 500 metros quadrados (50 de largura por 10 de altura).
Os responsáveis do Santuário foram já consultados pelo 7Margens sobre se tinha sido já equacionada alguma medida restritiva, nomeadamente ocultação ou mesmo remoção (que alguns intervenientes no debate, na altura, defendiam) quanto a este painel. A resposta foi negativa:
“Não ponderamos a sua remoção; no entanto, desde que tomámos conhecimento das denúncias contra o padre M.I. Rupnik, suspendemos a utilização da imagem, da totalidade da obra e de pormenores, nos nossos materiais de divulgação”.
O ex-jesuíta Rupnik, cujo processo foi reaberto no Dicastério para a Doutrina da Fé, em 2023, por iniciativa do Papa Francisco, continua aparentemente a trabalhar, ainda que formalmente tenha deixado a direção do Centro Aletti, em Roma, onde funciona o atelier que criou. Perante recentes queixas de algumas vítimas sobre o que se passava com o processo, o Vaticano viu-se obrigado a fazer um pouco frequente comunicado, para desmentir que tivesse havido uma absolvição, como pretendia um boato posto a circular, e para esclarecer que o processo estava a percorrer os seus trâmites.
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