22 Mai 2026
"Em síntese, a DSI é (...) uma expressão concreta do Amor incansável de Deus que nos salva integralmente (...) e amplia os horizontes de nossa filiação divina e, consequentemente, de nossas ações cotidianas. Por conseguinte, a DSI é também uma singular expressão da atenta, amorosa e materna solicitude pastoral da Igreja Católica às pessoas diante dos diferentes desafios da vida social concreta", escreve Elvis Rezende Messias, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Elvis Rezende Messias é professor-pesquisador da UEMG-Campanha, doutor em Educação pela UNINOVE, mestre em Educação pela UNIFAL, especialista em Doutrina Social da Igreja pela PUC Goiás, especialista em Ensino de Filosofia pelos Claretianos, licenciado em Filosofia pela UEMG-Campanha, bacharel em Teologia pela UCDB e assessor diocesano do Movimento Fé e Política na Diocese da Campanha. É pesquisador do GRUPEFE (CNPq, UNINOVE).
Eis o artigo.
Tendo em vista a publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, assinada em 15 de maio de 2026, exatamente no aniversário de 135 anos da encíclica Rerum novarum, de Leão XIII, temos uma ocasião especial para retomar a compreensão sobre o que é a Doutrina Social da Igreja (DSI). Muitas pessoas se perguntam: “Por que a Igreja lida com assuntos sociais?”; A Igreja não deveria se preocupar somente com questões de fé?”; “A Doutrina Social não afasta a Igreja do seu cuidado pastoral com a salvação das almas?”; “Não estaria a Igreja se desviando de sua missão ao se envolver em assuntos políticos, econômicos e sociais em geral?”. Se entendermos bem o que é a DSI, essas perguntas são consequentemente respondidas. Vejamos.
A DSI é o patrimônio doutrinal da Igreja Católica voltado para as questões sociais, iluminando a realidade social com o Evangelho de Jesus Cristo e com todas as implicações práticas e morais advindas da Palavra de Deus. A Igreja Católica também possui um ensinamento oficial – portanto, uma doutrina – sobre a vida moral das pessoas em sociedade.
A DSI é a expressão clara da fé que a Igreja Católica tem na salvação integral que Jesus conquistou para o gênero humano (para a magnífica humanidade) e do próprio compromisso eclesial de promoção da dignidade humana e de toda a criação. Essa é exatamente a expressão primeira que o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI) utiliza: salvação integral (cf. CDSI 1 e 3), superando reduções antropológico-teológicas espiritualistas e materialistas, verticalistas e horizontalistas.
Nesse sentido, a DSI é manifestação lúcida da fé cristã católica e de uma Igreja que sabe que o Evangelho tem incidência social, cabendo a ela, à Igreja, o direito e o dever de ser mãe e mestra não só do dogma, mas também da moral, da coerência entre fé e vida e da salvaguarda dos direitos humanos, dos povos e de toda a realidade criada por Deus (cf. CDSI 70).
Por isso, compreende-se que toda e qualquer situação social deve ser tocada, orientada e inspirada pela mensagem e pelas ações concretas de Jesus, recebendo dos mananciais da Escritura, da Tradição e do Magistério os princípios de reflexão, os critérios de juízo e as diretrizes de ação (cf. CDSI 7) para que, em cada realidade concreta, a pessoa humana, os diversos organismos da sociedade civil organizada e os operadores do Estado possam tomar decisões que não firam, antes respeitem e promovam, a dignidade integral das pessoas, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a participação consciente e compromissada de cada ser humano na construção de uma Civilização do Amor, à luz do Reino de Deus.
Daí que a DSI é parte integrante do ministério de evangelização da Igreja (cf. CDSI 66-67), que oferece seu patrimônio doutrinal sobre todas as dimensões da vida humana, tais como a família, o trabalho, a economia, a política, a comunidade internacional, a paz no mundo, a realidade socioambiental, a educação, a cultura, o direito, a justiça, a liberdade, a busca da verdade, a ciência, o cuidado amoroso especial com os mais pobres, a caridade etc. Nada passa despercebido à Palavra de Deus e não há um assunto sequer que não seja objeto do Amor de Deus (cf. CDSI 3).
Disso se depreende que a DSI não oferece orientações técnicas nem soluções prontas para os variados desafios sociais que a humanidade tem diante de si, mas sim uma orientação dentro do âmbito que lhe é próprio, isto é, uma orientação de fé, teológica, evangélica e pastoral, com todas as implicações concretas que decorrem desse inesgotável patrimônio espiritual e doutrinal (cf. CDSI 68).
A origem primeira e central da Doutrina Social da Igreja é o que nós podemos chamar de Doutrina Social de Deus. Ou seja, a DSI nasce do Coração de Deus, singularmente revelado na vida e nas obras de Jesus de Nazaré: Ele é, em Pessoa, a Doutrina Social de Deus, como disse o Papa Francisco no Prefácio do Docat, manual de DSI em forma de perguntas e respostas publicado em 2016.
Mas, também é comum situar a origem da DSI na data da publicação da Encíclica Rerum novarum (RN), documento de 15 de maio de 1891 escrito pelo Papa Leão XIII. De fato, a RN é aquela que pode ser chamada de Carta Magna da DSI, pois se trata de uma encíclica através da qual a Igreja Católica, pela primeira vez, lidou inteiramente sobre uma questão social específica, que foi a da condição deplorável de operários e operárias das indústrias capitalistas da Europa do século XIX. Naquele contexto, inaugurou-se a tradição de, periodicamente, os papas publicarem documentos através dos quais a Igreja pudesse oferecer uma palavra orientadora e oficial sobre questões específicas da vida em sociedade.
Esses documentos são comumente chamados de “encíclicas sociais” (embora nem todos recebam, de fato, o nome de "encíclica"), que são cartas universais que a Igreja Católica destina aos seus membros e aos povos todos. Eles marcam uma nova fase do desenvolvimento da doutrina da Igreja em matéria moral, considerando atentamente a realidade social contemporânea.
Desde então, foram publicados os seguintes documentos:
1. Rerum novarum (Leão XIII, 1891)
2. Quadragesimo anno (Pio XI, 1931)
3. Non abbiamo bisogno (Pio XI, 1931)
4. Mit brennender sorge (Pio XI, 1937)
5. Divini redemptoris (Pio XI, 1937)
6. La solennità (Pio XII, 1941)
7. Mater et magistra (João XXIII, 1961)
8. Pacem in Terris (João XXIII, 1963)
9. Gaudium et spes (Concílio Vaticano II, 1965)
10. Populorum progressio (Paulo VI, 1967)
11. Octogesima adveniens (Paulo VI, 1971)
12. Laborem exercens (João Paulo II, 1981)
13. Sollicitudo rei socialis (João Paulo II, 1987)
14. Centesimus annus (João Paulo II, 1991)
15. Compêndio da DSI (Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, 2004)
16. Caritas in veritate (Bento XVI, 2009)
17. Laudato si' (Francisco, 2015)
18. Docat (Conferência Episcopal Austríaca / Santa Sé, 2016)
19. Fratelli tutti (Francisco, 2020)
20. Laudate Deum (Francisco, 2023)
21. Magnifica humanitas (Leão XIV, 2026)
Note-se que, ao longo de 135 anos, de 1891 a 2026, de Leão XIII a Leão XIV, foram publicados 18 documentos papais, 1 documento conciliar e 2 manuais compendiados específicos da DSI. Isso demonstra uma profunda fecundidade da Doutrina Social Católica, que oferece consistentes orientações sobre a vida humana e sua dignidade integral em diversos contextos específicos de nossa sociedade contemporânea.
Em síntese, a DSI é, em primeiro lugar, uma expressão concreta do Amor incansável de Deus que nos salva integralmente – e não somente a nossa alma – e amplia os horizontes de nossa filiação divina e, consequentemente, de nossas ações cotidianas (CDSI 1 e 3). Por conseguinte, a DSI é também uma singular expressão da atenta, amorosa e materna solicitude pastoral da Igreja Católica às pessoas diante dos diferentes desafios da vida social concreta.
Por fim, a DSI é manifestação eloquente daquela fé consciente e também ciente de que a salvação que Jesus nos conquistou se realizará plenamente na Vida Eterna, mas abrange também o agora em todas as suas dimensões (cf. CDSI 1), de modo que, nesse intervalo entre a primeira vinda de Jesus e a Sua volta na plenitude dos tempos, estamos implicados e implicadas no compromisso de testemunhar com a nossa vida a fé cristã que professamos, cuidar especialmente dos/das pobres e transformar as estruturas sociais de pecado em realidades que correspondam aos planos do Coração do Criador (cf. CDSI 183), em sementes do Reino de Deus, para a Vida Eterna. Ciente disso, conheça, ame, viva e anuncie a Doutrina Social da Igreja!
Leia mais
- Um novo humanismo na era da Inteligência Artificial. Encíclica do Papa Prevost
- A encíclica do Papa Leão XIV chega em boa hora: a inteligência artificial levanta questões que só a religião pode responder
- Vaticano tem falado muito sobre inteligência artificial. Um guia introdutório antes da encíclica do Papa
- "Somos um desejo, não um algoritmo!" Papa pede aos jovens da Sapienza que transformem "sua inquietação em profecia"
- Papa apresentará pessoalmente sua primeira encíclica, ‘Magnifica humanitas’, na próxima segunda-feira
- “Magnifica humanitas”: aguardando a encíclica
- Primeira encíclica de Leão XIV, uma caminhada na corda bamba – também para a Igreja. Artigo de Katharina Goldinger
- ‘Magnifica humanitas’, a primeira encíclica de Leão XIV, será lançada em 15 de maio
- Será que a 'Magnifica humanitas', a primeira encíclica de Leão XIV, será publicada depois da Páscoa?
- Xeque-mate para o Papa antes de sua encíclica? Thiel, o tecnoligarca que financia Trump, chega a Roma com suas teorias sobre o Anticristo. Artigo de José Lorenzo
- O título e o conteúdo da primeira encíclica do Papa Leão XIV
- Encíclicas sociais: um guia de leitura. Artigo de Eliseu Wisniewski
- O trabalho de quem trabalha: pistas e desdobramentos à luz da Doutrina Social da Igreja. Artigo de Elvis Rezende Messias
- “Pacem in Terris”. Os 56 anos de uma encíclica e a dimensão social do Evangelho. Entrevista especial com Frei Carlos Josaphat
- A Doutrina Social e o magistério apresentam indicações concretas do Papa para a economia e as finanças
- Como 100 anos atrás, uma encíclica papal tenta jogar luz em um tempo de escuridão
- Fraternidade e fome. Artigo de Francisco de Aquino Júnior
- O Ensino Social da Igreja em constante atualização. O que virá depois da pandemia?
- Populorum progressio, a Encíclica da Ressurreição. Entrevista especial com Frei Carlos Josaphat
- 50 anos atrás, a Octogesima adveniens
- Laborem Exercens: 40 anos! Trabalho e dignidade humana!
- Vaticano condena 'cultura profundamente amoral' do sistema financeiro global
- O Papa: a dicotomia entre a ética das religiões e os interesses das finanças é trágica e falsa
- Bento XVI: “O amor na verdade – caritas in veritate – é um grande desafio