Gaël Giraud no IHU: Reabilitar os bens comuns é uma resposta política, social, jurídica e espiritual às crises ecológicas e das democracias

​Economista e jesuíta francês ministra videoconferência nesta terça-feira, 28-04-2026, em evento promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Arte: Mateus Dias | IHU

Por: Patricia Fachin | 25 Abril 2026

“Há 40 anos há um movimento de absolutização da propriedade privada. Pode-se privatizar tudo: o clima, a saúde, o corpo das mulheres. (…) O desafio para nós é como limitar a propriedade privada, por exemplo, para enfrentar o desafio ecológico. Por isso, precisamos pensar, dentro da tradição cristã, na possibilidade de que a propriedade privada não seja abençoada por Deus”. 

À primeira vista, a declaração do economista e jesuíta francês Gaël Giraud pode ser mal interpretada até mesmo entre os cristãos. Leituras apressadas da teologia política formulada por ele correm o risco de acusá-lo de comunista, tese que não se sustenta, dado o enraizamento de sua perspectiva nas Sagradas Escrituras.

Entretanto, uma pergunta nesse sentido já lhe foi dirigida diretamente por Marco Ventura, professor de direito canônico e eclesiástico da Universidade de Siena: “Tem certeza de que sua ‘teologia política’ não é um convite ao comunismo?”

A questão deu a Giraud a oportunidade de explicitar a tese dos bens comuns e dissipar confusões teóricas mescladas com posições político-partidárias. O economista tem propagado esse debate em diversas universidades, institutos e organismos governamentais e não governamentais. “O comunismo”, esclareceu, “é a absorção da sociedade como um todo na esfera pública. Tudo se torna público. É Herodes. É o totalitarismo. Os bens comuns são uma terceira via. Não é o Estado que é proprietário. O comunismo não tem nada a ver. As comunidades de energia que visitei na Itália não são comunismo. São comunidades da sociedade civil que reúnem determinados recursos. O verdadeiro ator da res communis é a sociedade civil, não o Estado. Qualquer um que me criticasse por apoiar um cristianismo criptocomunista não estaria entendendo justamente a questão. O que proponho é uma terceira via: nem tudo privado, nem tudo público, mas a sociedade civil na linha de frente para a invenção dos ‘comuns’”.

Os bens comuns, segundo o economista, são aqueles compartilhados por todos: os recursos naturais, a água, a terra, as florestas, os alimentos, os oceanos, a energia. A fundamentação dessa posição não emerge da economia, da sociologia, da matemática ou da filosofia, mas da teologia. “As Escrituras não condenam a propriedade privada em si, mas a apropriação exclusiva que nega o acesso a bens fundamentais aos mais necessitados. Deus criou o mundo como um dom gratuito para todos, não como um privilégio para poucos. Quando a propriedade privada se torna absoluta, desumaniza e destrói a fraternidade”, observa. 

Entre as referências bíblicas constantemente citadas por Giraud, destaca-se o livro dos Atos dos Apóstolos, onde o evangelista Lucas descreve a Igreja primitiva. No texto, menciona o economista, sobressai a ideia de que os primeiros cristãos “colocavam tudo em comum”, “compartilhavam tudo”. “Esse aprendizado de compartilhar é, em última análise, o aprendizado do compartilhamento do poder com Deus. E é também o aprendizado da democracia, das regras da convivência que nos damos, mas que também são submetidas à deliberação”, pontua. 

Ciclo de estudos Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais

Gaël Giraud é o próximo palestrante do Ciclo de estudos “Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais”, promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com Instituto Humanitas Unisinos – IHU. O professor do Programa de Justiça Ambiental da Georgetown University, nos Estados Unidos, apresentará uma leitura sistêmica da ecologia integral em tempos de colapso ambiental. O evento será aberto ao público para assistir na Página inicial IHUYouTubeFacebook e Twitter nesta terça-feira, 28-04-2026, às 10h. A programação completa do ciclo e as demais conferências estão disponíveis aqui

O Ciclo de estudos está refletindo sobre “a conexão entre o extrativismo predatório, que atenta ao equilíbrio da Ecologia Integral, e os graves desafios globais, como as guerras entre os povos e com a natureza, a crescente voracidade energética e a irrupção da inteligência artificial”. 

Atento aos efeitos dessa realidade, no mês passado o Vaticano lançou a "Plataforma de Desinvestimento em Mineração”, que incentiva instituições católicas a não investirem no setor minerador, que tradicionalmente tem gerado inúmeros impactos socioambientais nas regiões em que atua. A iniciativa está baseada nos estudos desenvolvidos pela rede ecumênica Igrejas e Mineração da América Latina, que congrega comunidades cristãs, religiosos, religiosas, leigos, leigas e bispos que acompanham as violações de direitos humanos provocados pela mineração nos territórios latino-americanos. “Nossa opção preferencial pelos pobres e pela defesa da criação não pode se deixar intimidar pelas seduções do dinheiro”, disse dom Vicente de Paula Ferreira, bispo da diocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, e membro da Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração.

Construir um mundo comum

No ano passado, Giraud publicou parte da tese de doutorado desenvolvida na Faculdade Loyola Paris, antigo Centre Sèvres. O livro, intitulado Costruire un mondo comune: e Dio non benedisse la proprietà privata (Construir um mundo comum: e Deus não abençoou a propriedade privada, em tradução livre), é, segundo o jesuíta, “um convite a repensar a propriedade como serviço ao bem comum, não como domínio”. Neste ponto, a tese apoia-se na noção de res communis do Direito latino clássico. “A res communis era considerada a forma mais elevada de propriedade, enquanto a res privata constituía a sua forma mais baixa. Hoje, nossa sociedade subverteu completamente essa ordem hierárquica”, menciona.

O estudo desenvolvido por Gaël Giraud contrapõe as teses de Tomás de Aquino e John Locke sobre a propriedade. O economista crítica a teoria de que a propriedade privada faz parte do direito natural. “Isso é uma invenção de John Locke; não tem relação com a tradição cristã. Seu argumento é muito interessante no Segundo Tratado sobre o governo civil. John Locke disse que quando eu trabalho arduamente, o produto do meu trabalho é meu porque eu trabalhei muito. Segundo ele, esse é o fundamento da propriedade privada – que não tem nada a ver com a tradição cristã e é um pouco louco. Quando penso que eu trabalho, percebo que não trabalho sozinho. Penso com uma língua que não inventei. A língua é um bem comum, que tem instrumentos que eu não fabriquei. Foi inventada por outro. Por isso, eu sou dependente do outro para quase tudo no meu trabalho. Como posso dizer que o trabalho é meu e que esse trabalho é minha propriedade privada absoluta? Não tem sentido”, reitera.

Do ponto de vista magisterial, comenta o jesuíta, a Carta Encíclica Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII em 1891, elabora uma síntese a partir das teses do teólogo dominicano e do pai do liberalismo. O texto, argumenta Giraud, precisa de uma interpretação. Na avaliação do economista, “o Papa Francisco, mesmo sem o dizer explicitamente, tentou promover novamente os ‘comuns’ nos grandes textos, como Laudato si', Fratelli tutti, Laudate Deum e Querida Amazônia”. 

Para Giraud, a Igreja e a sociedade estão avançando na promoção dos comuns “não para substituir a propriedade privada, certamente não para aboli-la, mas para dar aos ‘comuns’ aquele lugar que nos permita resolver os grandes problemas de hoje”. Garantir que a água e a Amazônia se tornem bens comuns globais, exemplifica o jesuíta, é um desafio atual. “Reabilitar os bens comuns, os ‘comuns’, é uma resposta política, social, mas também jurídica e, em última análise, espiritual à crise ecológica e à crise da própria democracia”, acrescenta.

Antes de se tornar jesuíta, Giraud estudou matemática e economia e trabalhou como consultor de bancos, com especialização em mercados financeiros. Hoje, como jesuíta, problematiza as consequências socioambientais do atual modelo econômico na perspectiva da justiça socioambiental. “Ser padre e jesuíta significa interessar-se por todo o ser humano, por toda a humanidade, por toda a criação. E hoje a economia assumiu um lugar muito importante. Não posso, como padre e como jesuíta, deixar de me interessar também pelas questões econômicas”, afirma. 

Transição energética 

Gaël Giraud também tem defendido a transição energética e o investimento público e privado de 2% do PIB até 2050 para realizar mudanças que possam permitir a redução das emissões de gases de efeito estufa. “Não é uma competição entre os dois setores, mas sim uma colaboração porque, caso contrário, será impossível concretizar o caminho para uma sociedade sustentável”, adverte.

Enquanto o mundo continua se dividindo entre esquerda e direita e a extrema-direita cresce em algumas regiões, o economista enfatiza que um projeto de transição energética precisa ultrapassar essas divisões. “A transição ecológica não é de direita nem de esquerda. Muitos amigos italianos me confidenciam a sua frustração: seja qual for a orientação política do governo eleito, é implementada a mesma política. Enquanto não engajarmos seriamente a Europa para um futuro sustentável, continuaremos a correr para o abismo, estejamos à direita ou à esquerda”, conclui. 

Entrevistas e artigos de Gaël Giraud no IHU

Gaël Giraud esteve presencialmente no IHU em 2016, quando ministrou três conferência: 

1. Financeirização e suas estruturas: a transição ecológica para uma sociedade dos comuns?

2. O capitalismo vindouro e a sustentabilidade

3. O Ensino Social da Igreja à luz do Pontificado do Papa Francisco 

Ainda em 2016, o professor e economista Robert Iturriet Ávila, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou a obra Ilusão financeira, do jesuíta francês.

Durante a pandemia de Covid-19, Giraud participou dos ciclos de estudo "Renda Básica Universal. Para além da justiça social" e "Emergência Climática. Ecologia integral e o cuidado da casa comum", promovidos pelo IHU. Ele refletiu sobre os fundamentos econômicos, éticos e teológicos da renda universal e da justiça socioambiental num contexto de mudanças climáticas, destacou os desafios da transição ecológica e criticou a “grande fantasia do transumanismo californiano, que acredita que daqui a alguns anos teremos máquinas que farão todo o trabalho humano”. A conferência está disponível abaixo. Uma síntese pode ser lida na cobertura publicada pelo IHU. 

Abaixo, listamos algumas entrevistas e artigos do conferencista, publicados na página eletrônica do IHU:

Sobre o evento

O quê: Videoconferência “Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Uma leitura sistêmica” | Ciclo de Estudos – Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental Profecia, resistência e propostas pastorais.

Quando: 28-04-2026.

Quem: Prof. Dr. Gaël Giraud, do Programa de Justiça Ambiental da Georgetown University, nos Estados Unidos.

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU.

Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ecologia-integral.

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