“Negociação, ou será destruição total.” Entrevista com Gaël Giraud

Foto: U.S. Embassy Kyiv Ukraine | Flickr, licença de uso comercial permitido.

06 Julho 2022

 

Em conversa com o economista jesuíta francês após as palavras do Papa Francisco no Angelus de domingo, 3 de julho: "Precisamente para evitar resultados desastrosos, que poderiam nos levar a um novo conflito mundial, é absolutamente necessário chegar a uma trégua e depois à paz."

 

A entrevista é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican News, 05-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

“Apelo aos chefes das nações e das organizações internacionais para que reajam à tendência de acentuar o conflito e a contraposição. O mundo precisa de paz. Não uma paz baseada no equilíbrio dos armamentos, no medo recíproco.” A crise ucraniana "ainda pode se tornar um desafio para estadistas sábios, capazes de construir no diálogo um mundo melhor para as novas gerações". Assim, no Angelus de domingo, 3 de julho, o Papa Francisco voltou a falar sobre a paz na Ucrânia, almejando que se passe “das estratégias de poder político, econômico e militar para um projeto de paz global: não a um mundo dividido entre potências em conflito; sim a um mundo unido entre povos e civilizações que se respeitem".

 

A do Bispo de Roma, nos últimos meses de combates e de ausência de iniciativas diplomáticas efetivas, foi uma das poucas vozes que se ergueu em favor da paz e da negociação. Uma negociação que parece impossível. Conversamos sobre isso com o jesuíta francês Gaël Giraud, economista, diretor do Programa de Justiça Ambiental da Universidade de Georgetown e pesquisador sênior do CNRS (Center national de la recherche scientifique) de Paris.

 

Eis a entrevista.

 

Padre Giraud, por que é tão difícil chegar a uma negociação?

 

Vemos a escalada militar e verbal desta guerra, os massacres que foram realizados, a destruição das cidades da Ucrânia. Mas também devemos notar a existência de lobbies belicistas que não querem o fim do conflito, não querem uma negociação que leve os governos russo e ucraniano à mesma mesa para negociar um projeto concreto, porque são lobbies interessados no rearmamento e na mudança de regime em Moscou, ou seja, eles querem o fim de Vladimir Putin. Mas, graças a Deus, está crescendo o número de pessoas que pedem a paz e acreditam na absoluta necessidade de uma solução negociada. Nos Estados Unidos, um acadêmico como Jeffrey Sachs defendeu publicamente uma trégua negociada.

 

Quem quer essa guerra?

 

Digamos que, em primeiro lugar, a Rússia a quer; agrediu a Ucrânia e comete crimes de guerra. Mas aqueles que querem usar essa guerra para derrubar Putin e colocar de joelhos a Rússia estão preparando-a desde 2014, inclusive ao custo de transformar a Ucrânia em um novo Vietnã, levando-a à destruição total. Precisamente para evitar esse desfecho desastroso, que poderia nos levar a um novo conflito mundial, é absolutamente necessário negociar, chegar a uma trégua e depois à paz...

 

Que soluções de negociação vê como possíveis?

 

A guerra hoje está em um ponto de virada, se é verdade que as tropas russas conquistaram a cidade de Lysychansk, um ponto estratégico para uma possível reconquista do norte pela Rússia. Estou convencido de que a base para negociações sérias ainda seja representada pelos acordos de Minsk 2 de 2015, que nunca foram respeitados nem pela Rússia nem pela Ucrânia.

 

A solução - esta é a minha opinião pessoal - é o reconhecimento da independência do Donbass, inclusive através de um referendo popular que ateste a vontade dos seus habitantes. O mesmo vale para a Crimeia, que até 1954 fazia parte da Rússia e onde a população já se pronunciou em referendo. Além disso, é preciso o empenho da Ucrânia de não pedir a adesão à OTAN, nem hoje nem no futuro.

 

Mas negociar com esses objetivos não sancionaria efetivamente a vitória do agressor russo?

 

Compreendo perfeitamente que o que disse representa um problema para a unidade territorial dos ucranianos. Mas eu me pergunto: qual é a alternativa e que preço comporta? A alternativa é a destruição total da Ucrânia, após uma guerra muito longa, com o país devastado e transformado em um campo de ruínas comparável à Chechênia de 2000. As consequências para todos, mas principalmente para os ucranianos, seriam muito mais devastadoras do que tem sido até agora essa guerra absurda no coração da Europa.

 

Você não acredita no fato de que o atual governo russo possa implodir, como é apresentado nas análises dos especialistas?

 

Acreditar que ao derrubar Putin a Rússia se tornará um país mais pró-ocidental é uma mera ilusão, na minha opinião. O número dois do Kremlin é - segundo os analistas mais atentos - o secretário do Conselho de Segurança, Nikolaj Patrushev. A ele teria sido confiado o poder quando Putin passou por uma cirurgia e, segundo muitos observadores, Patrushev seria aquele que poderia tomar o lugar de Putin no futuro.

 

Certamente a Rússia não será diferente com ele, mas existe o risco que ocorra uma instabilidade, e a instabilidade sempre leva a novas guerras, não à paz. Aos que sonham com a mudança de regime, aconselho prudência e um olhar atento à história recente: olhem para Saddam Hussein ou Kadafi. Eu sei que a comparação é forte e as situações são muito diferentes porque a Rússia não é o Iraque nem a Líbia, mas vamos pensar no que aconteceu com esses países depois da mudança forçada de regime.

 

Você concorda em enviar armas pesadas e mísseis para a Ucrânia sob ataque?

 

Se me posso exprimir com toda a sinceridade, permitam-me que diga que considero essa atitude um tanto hipócrita, sobretudo por parte da Europa. Por um lado, as armas estão sendo enviadas para ajudar o exército ucraniano a combater aquele russo, por outro lado, o gás e o petróleo russos estão sendo comprados pagando em rublos e, assim, se financia a guerra travada pelo Kremlin. Por enquanto, a Alemanha não pretende abrir mão do gás russo, nem mesmo a longo prazo. Se a transição ecológica tivesse sido implementada com seriedade, o que representaria uma grande oportunidade para as economias dos países, não viveríamos esse dilema.

 

Mas, de fato, o gás russo é necessário, e é necessário em especial para alguns países europeus...

 

Sim, e ainda não estamos percebendo as consequências dessa guerra no futuro próximo. A Ucrânia é um país capaz de produzir o trigo necessário para alimentar 600 milhões de pessoas, possui jazidas minerais muito importantes e fazia parte da nova Rota da Seda, um dos maiores planos de infraestrutura e investimentos para conectar a China a outros 67 países. Já vemos como a guerra está tendo consequências pela falta de trigo de que os países do norte da África precisavam. Há muitos interesses em jogo.

 

A continuação da guerra significará uma tragédia alimentar para algumas partes da África e a continuação da inflação global, impulsionada principalmente pela falta de petróleo russo. E essa inflação pode, por sua vez, causar uma nova crise financeira devido ao aumento das taxas dos bancos centrais. Enquanto isso, as sanções contra a Rússia estão tendo um efeito misto. O caos da década de 1990 alimentou o ódio antiocidental de alguns russos e levou Putin ao poder. Mais caos russo não ajudará nem a paz nem a democracia russa. Nós realmente queremos que os ucranianos derramem seu sangue por isso?

 

Falamos sobre a Europa: o que deveria fazer?

 

Parece-me que se deva reconhecer a falta de iniciativas diplomáticas fortes e partilhadas por parte da Europa, que teria todo o interesse em alcançar a paz o mais rapidamente possível. Pelo menos Alemanha, França e Itália deveriam falar a uma só voz e propor um Plano Marshall para a reconstrução sustentável da Ucrânia, de acordo com a transição ecológica. Uma paz negociada, que assegure os russos sobre as futuras fronteiras da OTAN, que desde a queda da União Soviética não é mais uma aliança defensiva.

 

O Papa, citando um chefe de Estado que recebeu em audiência, falou dos "latidos da OTAN" nas fronteiras russas, palavras que provocaram discussão. Uma agressão como o que está em curso nunca tem justificativas. Mas se não pararmos nos últimos meses, e considerarmos os contextos olhando para a história dos últimos trinta anos, isso ajuda a compreender melhor a situação e, sobretudo, a não repetir erros e subestimações...

 

A agressão russa contra a Ucrânia, uma verdadeira guerra, mesmo que chamada de "operação militar especial", não tem justificativa e o Papa a condenou repetidamente. No entanto, as palavras que você citou ajudam a entender o contexto e nos lembram o que aconteceu após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Está documentado que, no início da década de 1990, os países ocidentais garantiram a Moscou que a Aliança Atlântica não se expandiria para incluir os antigos estados satélites do Pacto de Varsóvia. O descumprimento desses compromissos verbais ofereceu a Putin, até então considerado um aliado do Ocidente, a oportunidade de anunciar publicamente - durante a Conferência de Segurança de Munique de fevereiro de 2007 - sua rejeição ao mundo unipolar sob domínio dos Estados Unidos.

 

O Papa Francisco definiu a corrida do rearmamento de loucura. O que você pensa sobre disso?

 

Ele está certo, é uma verdadeira loucura, porque significa direcionar-se a grandes passos para a Terceira Guerra Mundial. Mesmo continuando esta guerra estamos caminhando para o Apocalipse, com a fome aumentando nos países africanos e o risco de uma escalada militar com armas nucleares. O Papa, em entrevista à agência Telam na sexta-feira, 1º de julho, também observou que as Nações Unidas não se manifestaram durante esse conflito. E também neste caso, como não concordar com ele?

 

Infelizmente, as Nações Unidas são filhas dos equilíbrios da Segunda Guerra Mundial. Elas não fizeram nada pela pandemia, não fazem nada por esta guerra. Juntos, precisamos repensar um sistema de relações internacionais mais justo e multilateral, onde não sejam apenas os poderosos a tomar as decisões. Como disse no último Angelus: devemos passar das estratégias de poder político, econômico e militar para um projeto de paz global. Na minha opinião, isso requer a criação de instituições internacionais que tratem dos nossos bens comuns globais: saúde, clima, biodiversidade, paz.

 

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