A última entrevista do Papa Francisco: “Quero ir a Moscou”, sobre a OTAN que ladra e sobre o joelho dolorido

Foto: Vatican Media

04 Mai 2022

 

Uma entrevista cheia de informações e súplicas que Francisco concedeu ao Corriere della Sera, 03-05-2022. O desejo de encontrar Putin para parar a guerra, o confronto que teve com o Patriarca Kirill, a OTAN que ladra à porta da Rússia, os protestos que chegaram a ele dos ucranianos por causa das duas mulheres chamadas a carregar a cruz: "São um povo orgulhoso". As guerras que servem para "testar as armas", a falta de uma verdadeira "vontade de paz". O excelente trabalho do Cardeal Parolin. A resistência dos bispos italianos à mudança. Relato as principais passagens nos comentários e coloco uma nota minha no final.

 

Putin não nos respondeu. “No primeiro dia da guerra, liguei para o presidente ucraniano Zelensky. Por outro lado, não liguei para Putin. Falei com ele em dezembro no meu aniversário, mas desta vez não, não liguei para ele. Eu quis fazer um gesto claro para o mundo inteiro ver e por isso fui ao embaixador russo. Pedi que me explicassem, eu disse "por favor, parem". Depois pedi ao Cardeal Parolin, depois de vinte dias de guerra, que enviasse a Putin a mensagem de que eu estava disposto a ir a Moscou. Claro, era necessário que o líder do Kremlin abrisse algumas janelas. Ainda não recebemos uma resposta e continuamos insistindo, mesmo que eu tema que Putin não possa e não queira realizar o encontro neste momento. Mas tanta brutalidade, como se pode deixar de tentar parar? Vinte e cinco anos atrás, vivemos a mesma coisa com a Ruanda”.

 

A reportagem é de Luigi Accattoli, publicada por Il blog di Luigi Accattoli, 03-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

A OTAN que ladra

 

“Talvez o latido da OTAN à porta da Rússia tenha induzido o líder do Kremlin a reagir mal e desencadear o conflito. Uma ira que não sei se foi provocada, mas talvez tenha sido facilitada”.

 

Armas para a Ucrânia?

 

“Não sei responder, estou muito longe, a questão de saber se é certo fornecer armas para os ucranianos. O claro é que as armas estão sendo testadas naquela terra. Os russos agora sabem que os tanques são de pouca utilidade e estão pensando em outras coisas. As guerras são travadas para isso: para testar as armas que produzimos. Assim como aconteceu com a Guerra Civil Espanhola antes da Segunda Guerra Mundial".

"O comércio de armamentos é um escândalo, poucos se opõem a ele. Dois ou três anos atrás, chegou a Gênova um navio carregado de armas, que deviam ser transferidas para um grande cargueiro para transportá-las para o Iêmen. Os trabalhadores portuários não quiseram fazer isso. Eles disseram: vamos pensar nas crianças do Iêmen. É algo pequeno, mas um belo gesto. Deveria haver tantos outros assim".

Não vou a Kiev por enquanto. Enviei o cardeal Michael Czerny (prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral) e o cardeal Konrad Krajewski (esmoleiro do Papa), que foi lá pela quarta vez. Mas sinto que não devo ir. Primeiro tenho que ir a Moscou, primeiro tenho que me encontrar com Putin. Mas também sou um padre, o que posso fazer? Eu faço o que eu posso. Se Putin abrisse a porta…”.

 

Kirill clérigo de Estado

 

“Falei com Kirill por 40 minutos via zoom. Os vinte primeiros com um papel na mão ele me leu todas as justificativas para a guerra. Eu escutei e disse a ele: eu não entendo nada disso. Irmão, não somos clérigos de Estado, não podemos utilizar a linguagem da política, mas aquela de Jesus. Somos pastores do mesmo povo santo de Deus. Para isso devemos buscar caminhos de paz, para acabar com o fogo das armas. O Patriarca não pode se transformar no coroinha de Putin. Eu tinha um encontro marcado com ele em Jerusalém no dia 14 de junho. Seria nosso segundo encontro pessoal, nada a ver com a guerra. Mas agora ele também concorda: vamos parar, poderia ser um sinal ambíguo”.

 

Ucrânia, povo orgulhoso

 

“Meu alarme [sobre a guerra mundial em pedaços] não foi um mérito, mas apenas a constatação da realidade: Síria, Iêmen, Iraque, na África uma guerra atrás da outra. Há interesses internacionais em cada pedacinho. Não se pode pensar que um estado livre possa fazer guerra a outro estado livre. Na Ucrânia foram os outros que criaram o conflito. A única coisa que é imputada aos ucranianos é que eles reagiram no Donbass, mas estamos falando de dez anos atrás. Esse argumento é antigo. Claro que são um povo orgulhoso".

"Por exemplo, quando para a Via Sacra estavam presentes duas mulheres, uma russa e outra ucraniana, que tinham que ler juntas a oração, fizeram disso um escândalo. Então liguei para o Krajewski que estava lá e ele me disse: pare, não leia a oração. Eles estão certos, mesmo que não consigamos entender plenamente. Então elas permaneceram em silêncio. Eles têm uma suscetibilidade, se sentem derrotados ou escravos porque na Segunda Guerra Mundial pagaram muito. Tantos homens mortos, é um povo mártir. Mas também precisamos estar atentos ao que pode acontecer agora na Transnístria”.

 

Vontade de paz, estou procurando

 

“Não há vontade suficiente para a paz, a guerra é terrível e devemos gritar isso. Por isso quis publicar um livro com Solferino que tem como subtítulo A coragem de construir a paz. Orbán, quando o encontrei, me disse que os russos têm um plano, que no dia 9 de maio tudo terminará. Espero que seja assim, assim se entenderia também a velocidade da escalada destes dias. Porque agora não é só o Donbass, é a Crimeia, é Odessa, é tirar o porto do Mar Negro da Ucrânia, é tudo isso. Estou pessimista, mas devemos fazer todo gesto possível para parar a guerra”.

 

Bem com Mario Draghi

 

“A Itália está fazendo um bom trabalho. A relação com Mario Draghi é boa, é muito boa. No passado, quando ele estava no Banco Central Europeu, eu lhe pedi um conselho. Ele é uma pessoa direta e simples. Eu admirava Giorgio Napolitano, que é ótimo, e agora admiro muito Sergio Mattarella. Respeito muito Emma Bonino: não compartilho suas ideias, mas ela conhece a África melhor do que ninguém. Diante desta mulher tiro o chapéu”.

 

Mentalidade pré-conciliar na Itália

 

“Muitas vezes encontrei uma mentalidade pré-conciliar que se disfarçava de conciliar. Em continentes como América Latina e África foi mais fácil. Na Itália talvez seja mais difícil. Mas há bons padres, bons párocos, boas freiras, bons leigos. Por exemplo, uma das coisas que tento fazer para renovar a Igreja italiana é não mudar [transferir, nota de Accattoli] muito os bispos. O Cardeal Gantin dizia que o bispo é o esposo da Igreja, todo bispo é o esposo da Igreja por toda a vida. Quando há um hábito, é bom. É por isso que tento nomear os padres, como aconteceu em Gênova, Turim, na Calábria [em vez de transferir os bispos de uma sede para outra: nota de Accattoli]. Acredito que esta seja a renovação da Igreja italiana. Agora a próxima assembleia terá que escolher o novo presidente da CEI, eu tento encontrar alguém que queira fazer uma boa mudança. Prefiro que seja um cardeal, que tenha autoridade. E que tenha a possibilidade de escolher o secretário, que pode dizer: quero trabalhar com essa pessoa”.

 

Joelho doido

 

“Desculpe-me se não posso levantar-me para cumprimentar, os médicos disseram-me que tenho que ficar sentado por causa do joelho. Estou com um ligamento rompido, vou fazer [hoje] uma infiltração e vamos ver como vai ficar. Estou assim há tempo, não consigo andar. Antigamente os papas usavam a cadeira gestatória. Também é preciso um pouco de dor, de humilhação…”.

 

Eu confio em Parolin

 

"O cardeal Pietro Parolin é realmente um grande diplomata, na tradição de Agostino Casaroli, sabe como se movimentar naquele mundo, confio muito nele".

 

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Minha nota

 

Com esta entrevista, Francisco sai das cautelas diplomáticas e tenta desbloquear o processo de paz recorrendo a uma plena liberdade de expressão, como nunca havia sido visto em um papa em meio a uma guerra. Até ontem havia tentado aceitar a sugestão da Secretaria de Estado de não citar Putin e a Rússia e conseguiu pelo menos em relação a Putin, porque a Rússia até a havia consagrado a Nossa Senhora.

 

Mas agora, querendo dar um impulso a uma negociação que não decola, deixa claro tudo o que está fazendo, dizendo e pensando. Ele também se mostra atento e mordaz sobre elementos secundários: como no caso dos tanques que agora “servem a pouco”, ou o das incógnitas que “agora” pairam sobre a Transnístria. Conta backgrounds, revela projetos e motivações.

 

Para parar a matança, pega o touro pelos chifres, aliás, os muitos touros que batem os cascos na arena ucraniana. Ele tenta expor Putin denunciando que nem responde ao seu pedido para encontrá-lo. Ele não se limita a informar que não compartilha o apoio de Kirill "à operação militar especial", mas declara que os pastores da Igreja não podem abençoar as guerras.

 

Com a mesma franqueza ele destaca as duas provocações que vieram do Ocidente: a OTAN que “ladra às portas da Rússia” e a feira de armas que devem ser “testadas” no incrível polígono de tiro que é hoje a Ucrânia. Por fim, o elogio ao cardeal Parolin, a quem desobedece em tudo com esta entrevista: agradece, diz que confia nele e o compara a Casaroli. O agradecimento e a comparação são certamente sinceros, mas devem ser completados: assim como Casaroli não foi suficiente para Wojtyla, Parolin não é suficiente para Bergoglio.

 

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