Sobre o futuro da Ucrânia e as guerras intermináveis da OTAN

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07 Abril 2022

 

“Embora a violação da soberania de qualquer país seja ilegal, segundo o direito internacional, e constitua uma flagrante violação da Carta das Nações Unidas, isso não significa que a única solução para a violência seja a contra-violência”, escreve Ramzy Baroud, jornalista e diretor da revista Palestine Chronicle, em artigo publicado por El Salto, 06-04-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Muito já foi dito e escrito sobre a parcialidade dos meios de comunicação e a diferença de critérios na resposta do Ocidente à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em comparação com outras guerras e conflitos militares em todo o mundo, especialmente no Oriente Médio e no Sul Global. Menos óbvio é como tal hipocrisia é um reflexo de um fenômeno muito maior que rege a relação do Ocidente com a guerra e as zonas de conflito.

 

Em 19 de março, o Iraque fez memória do 19º aniversário da invasão estadunidense que matou, segundo estimativas modestas, mais de um milhão de iraquianos. As consequências dessa guerra foram igualmente devastadoras, pois desestabilizou toda a região do Oriente Médio, dando origem a diversas guerras civis e por delegação. O mundo árabe cambaleia até hoje com essa horrível experiência.

 

Além disso, o dia 19 de março marcou o 11º aniversário da guerra da OTAN contra a Líbia e, cinco dias depois, o 23º aniversário da guerra da OTAN contra a Iugoslávia. Como todas as guerras lideradas pela OTAN, desde a criação da aliança em 1949, essas guerras provocaram uma devastação generalizada e um trágico número de mortos.

 

Nenhuma dessas guerras, começando com a intervenção da OTAN na península da Coreia, em 1950, estabilizou qualquer uma das regiões em conflito. O Iraque permanece muito vulnerável ao terrorismo e às intervenções militares externas e, em muitos sentidos, continua sendo um país ocupado. A Líbia está dividida entre várias facções em guerra, e um retorno à guerra civil é ainda uma possibilidade real.

 

No entanto, o entusiasmo pela guerra continua alto, como se mais de setenta anos de intervenções militares fracassadas não tivessem nos ensinado qualquer lição significativa. Todos os dias, as manchetes nos dizem que os Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Espanha e alguma outra potência ocidental decidiram enviar um novo tipo de “arma letal” para a Ucrânia. Os países ocidentais já destinaram milhares de milhões de dólares para contribuir com a guerra na Ucrânia.

 

Por outro lado, muito pouco foi feito para oferecer plataformas de soluções diplomáticas e não violentas. Um punhado de países do Oriente Médio, África e Ásia ofereceram sua mediação ou insistiram em uma solução diplomática para a guerra, argumentando, conforme reiterou o Ministério das Relações Exteriores da China, no dia 18 de março, que “todas as partes devem apoiar conjuntamente a Rússia e a Ucrânia para que mantenham um diálogo e uma negociação que produzam resultados e levem à paz”.

 

Embora a violação da soberania de qualquer país seja ilegal, segundo o direito internacional, e constitua uma flagrante violação da Carta das Nações Unidas, isso não significa que a única solução para a violência seja a contra-violência. Isso não poderia ser mais verdadeiro para a Rússia e a Ucrânia, já que o leste da Ucrânia está em estado de guerra civil há oito anos, ceifando milhares de vidas e privando comunidades inteiras de qualquer sensação de paz ou segurança. As armas da OTAN não podem abortar as causas profundas desta luta territorial. Pelo contrário, só podem alimentá-las ainda mais.

 

Se a resposta fosse mais armas, o conflito teria sido resolvido há anos. Segundo a BBC, os Estados Unidos já destinaram 2,7 bilhões de dólares para a Ucrânia, nos últimos oito anos, muito antes da guerra atual. Este enorme arsenal incluía “armas antitanque e antiblindagem... (rifles) de franco-atirador, munições e acessórios de fabricação estadunidense”.

 

A velocidade em que a ajuda militar adicional chegou à Ucrânia, após as operações militares russas em 24 de fevereiro, não tem precedentes na história moderna. Isso levanta questões não apenas políticas ou legais, mas também morais: a ânsia em financiar a guerra e, por outro lado, a falta de entusiasmo em ajudar os países a se reconstruir.

 

Após 21 anos de guerra e invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos, que provocaram uma crise humanitária e de refugiados, em grande medida, Cabul foi deixada sozinha. Em setembro passado, a agência de refugiados da ONU alertou que “uma grande crise humanitária no Afeganistão se aproxima”, no entanto, nada foi feito para solucionar essa “iminente” crise, que piorou muito desde então.

 

Os refugiados afegãos raramente são acolhidos na Europa. O mesmo vale para os refugiados do Iraque, Síria, Líbia, Mali e de outros conflitos nos quais a OTAN está direta ou indiretamente envolvida. Essa hipocrisia se intensifica quando consideramos as iniciativas internacionais que tem o objetivo de apoiar os refugiados de guerra ou reconstruir as economias de nações devastadas pela guerra.

 

Compara-se a falta de entusiasmo em apoiar as nações devastadas pela guerra com a euforia sem paralelo do Ocidente em fornecer armas à Ucrânia. Lamentavelmente, não demorará muito para que os milhões de refugiados ucranianos que abandonaram seu país, nas últimas semanas, se tornem um fardo para a Europa, sendo assim, alvos dos mesmos tipos de críticas da corrente dominante e dos ataques da extrema direita.

 

Embora seja verdade que a atitude do Ocidente em relação à Ucrânia é diferente de sua atitude em relação às vítimas das intervenções ocidentais, é preciso ter cuidado antes de considerar que os “privilegiados” ucranianos acabarão em melhor situação do que as vítimas da guerra em todo o Oriente Médio. Enquanto a guerra seguir, a Ucrânia continuará sofrendo, seja pelo impacto direto da guerra ou pelo trauma coletivo que certamente persistirá. O acúmulo de armas da OTAN na Ucrânia, assim como no caso da Líbia, provavelmente será contraproducente. Na Líbia, as armas da OTAN alimentaram a guerra civil do país por uma década.

 

A Ucrânia precisa de paz e segurança, não de uma guerra perpétua destinada a servir aos interesses estratégicos de certos países ou alianças militares. Embora as invasões militares devam ser totalmente rejeitadas, seja no Iraque ou na Ucrânia, transformar a Ucrânia em outra zona conveniente de perpétua luta geopolítica entre a OTAN e a Rússia não é a resposta.

 

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