O teólogo Severino Dianich pergunta: “Quem poderia negar a um povo agredido o direito de se defender inclusive com armas?” Aqui estão suas reflexões à luz da doutrina católica

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09 Março 2022

 

"Pode-se pensar que tudo só terminará em uma lição a ser dada à Rússia de Putin, uma obra de dissuasão de seus projetos imperialistas. Tudo isso, é claro, à custa de milhares de mortes e imenso sofrimento do povo da Ucrânia. Um modelo que tristemente se repete: os grandes que fazem guerra no território às custas dos pequenos", escreve o teólogo e padre italiano Severino Dianich, cofundador e ex-presidente da Associação Teológica Italiana e professor da Faculdade Teológica de Florença, em artigo publicado por Il Sismografo, 08-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Antes de iniciar estas reflexões, gostaria de declarar minha consciência de estar diante de uma massa de problemas tão complexos que pretender ter o às na manga para resolvê-los seria fruto de uma inaudita presunção: não sou estrategista nem político, não tenho competência no assunto. Eu só quero expressar em voz alta pensamentos que andam na minha cabeça, nada mais.

 

Impressiona-me que hoje, numa ampla condenação da guerra e de quem a quis, com a injusta agressão de um povo vizinho e irmão, persista na opinião pública uma certa mística da defesa armada: quanto é ardente a sacrossanta indignação pela invasão da Ucrânia pela Rússia, tanto torna-se exaltante a reação heroica dos ucranianos e um dever sagrado de apoiar sua defesa armada. Quem poderia negar a um povo agredido o direito de se defender, inclusive com armas? No entanto, não posso deixar de me perguntar: quando? sempre? a que custo? com que previsões? São essas questões que não podem ser ignoradas. Fui rever o Catecismo da Igreja Católica e observo que se recomenda de “considerar com rigor as condições estritas que justificam uma legítima defesa com a força militar. Tal decisão, pela sua gravidade, está sujeita a rigorosas condições de legitimidade moral”. Entre estas, esclarece-se uma: "Que existam condições bem fundamentadas de sucesso" (n. 2309). Acredito que não seria fácil contestar o bom senso e a razoabilidade dessa condição. A Ucrânia agredida realmente tem “condições bem fundamentadas de sucesso” à sua frente? A imolação coletiva de um povo por uma causa que, se teme, com boas razões, esteja fadada ao fracasso, não pode ter nenhuma justificação. Quando se justificou ao longo da história, isso aconteceu graças a uma obra de sacralização de um ideal político divinizado que se tornou objeto de fé.

 

Perante a gravíssima flagrante injustiça de uma agressão armada é irreprimível, para qualquer consciência sã, a explosão de indignação, protesto e vontade de tomar todas as medidas possíveis para restabelecer a justiça. Não é igualmente razoável o surgimento de um certo triste entusiasmo, que vem cercar a defesa armada com a áurea de uma justiça que paira em sua transcendência, mesmo além de qualquer preço, a ser paga em vidas humanas e inúmeros sofrimentos, para vê-la reafirmar-se soberana. Parece ouvir o antigo ditado ressoar: "Fiat iustitia, pereat mundus!" O acender de tal paixão pode ser compreensível. Por outro lado, não é compreensível um projeto político que queira acriticamente satisfazê-la.

 

Para além das proclamações propagandísticas de futura vitória de ambos os lados, é muito difícil pensar que o exército ucraniano possa prevalecer sobre o enorme poder militar da Rússia. Os Estados Unidos e a Comunidade Europeia estão fornecendo armas à Ucrânia, mais do que alimentos, medicamentos, hospitais de campanha, contribuindo assim, sem dúvida, a prolongar o conflito e aumentar o número de mortos, de ambos os lados, e com muitas dúvidas sobre o resultado da guerra. Também é previsível, de fato, que não se consiga salvar a Ucrânia da ocupação russa, e que a atual guerra se transforme em uma guerrilha destinada a durar décadas. Com grande satisfação dos fabricantes de armas. Os dez anos de ocupação russa e vinte anos de ocupação norte-americana do Afeganistão, com sua litania de mortes, ferimentos e destruição sem fim, ensinam isso. Pode-se pensar que tudo só terminará em uma lição a ser dada à Rússia de Putin, uma obra de dissuasão de seus projetos imperialistas. Tudo isso, é claro, à custa de milhares de mortes e imenso sofrimento do povo da Ucrânia. Um modelo que tristemente se repete: os grandes que fazem guerra no território às custas dos pequenos.

 

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