Santa Marta reúne países que querem deixar os combustíveis fósseis para trás: veja como a América Latina chega à conferência

Foto: RoschetzkyIstockPhoto/Canva

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24 Abril 2026

A cidade colombiana sediará o primeiro encontro internacional com esse propósito, durante seis dias. Até 2025, a região deverá gerar 63% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis.

A reportagem é de Maria Mónica Monsalve S, publicada por El País, 24-04-2026.

A partir de hoje e pelos próximos seis dias, delegados de mais de 50 países se reúnem em Santa Marta, na Colômbia, para explorar caminhos rumo a economias e sistemas energéticos não atrelados ao carvão, gás e petróleo — os principais responsáveis ​​pelas mudanças climáticas. Esta primeira conferência internacional dedicada à transição para longe desses combustíveis fósseis ocorre em um momento crítico para o setor energético e para a política latino-americana. Enquanto a guerra no Oriente Médio expõe a volatilidade dos preços do petróleo, a região também enfrenta as eleições presidenciais no Brasil, na Colômbia e na Bolívia, que ocorrerão até o final do ano.

“A conferência acontece em um momento muito paradoxal para a América Latina e o Caribe”, afirma Ana Carolina González, diretora regional do Instituto de Governança de Recursos Naturais (NRGI). “Não apenas pela alta probabilidade de uma presença maior de nossos países no encontro, mas também pelas posições oficiais que muitos de seus governos adotaram.”

A Colômbia, coanfitriã da conferência com a Holanda e com aproximadamente 30% de suas exportações ligadas à indústria petrolífera, adotou a narrativa da eliminação gradual dos combustíveis fósseis até 2022: uma posição que, embora esteja ganhando destaque internacional, não se reflete na prática. O México, sob a presidência de Claudia Sheinbaum, cientista climática, anunciou este mês sua incursão no fraturamento hidráulico para extração de gás natural. O Brasil, que recentemente sediou a conferência internacional sobre o clima (COP30), onde foi incumbido de propor um roteiro global para o abandono dos combustíveis fósseis, insistiu na exploração de petróleo e gás, inclusive na Amazônia, para garantir os recursos necessários para financiar sua transição energética.

A essas contradições soma-se o fato de que, com a instabilidade internacional e a alta dos preços do petróleo, “alguns países latino-americanos veem uma oportunidade de entrar no mercado e suprir a lacuna na oferta global de combustível”. A questão é quais países escolher e como. Brasil e Argentina, por exemplo, poderiam ter um incentivo justificado, “já que têm capacidade para expandir sua produção rapidamente”, afirma González. Outros, como Colômbia e México, teriam que investir em mais exploração, construir infraestrutura e expandir seus campos sem qualquer garantia de que, uma vez em produção, o mercado global se mostrará tão atrativo quanto agora.

Onde a região realmente leva vantagem é na forma como produz eletricidade. Um relatório publicado recentemente pelo think tank britânico Ember revelou que, até 2025, a América Latina e o Caribe gerarão 63% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, como energia solar, eólica e hidrelétrica. Esse número é superior à média global de 34%. Embora a participação da energia hidrelétrica permaneça considerável, em 40%, a participação combinada da energia solar e eólica aumentou para 19%, percentual também superior à média global de 17%.

A tendência que se observará na região no futuro, comenta Wilmar Suárez, analista para a América Latina da Ember e coautor do relatório, “é que a geração hidrelétrica crescerá muito pouco, enquanto a geração solar e eólica crescerão a taxas muito mais elevadas, acompanhadas pelo armazenamento em baterias”.

O Chile, com 25% da sua eletricidade gerada a partir de energia solar até 2025, ocupa o segundo lugar mundial no avanço dessa fonte de energia, atrás apenas da Hungria (27%). E no Brasil, pela primeira vez, a porcentagem de eletricidade gerada por energia solar (12%) ultrapassou a de combustíveis fósseis (11%). Entre os motivos para esse sucesso, Suárez destaca que o Chile superou o dilema de como armazenar a energia — com uma capacidade de bateria que poderia armazenar até metade da geração solar alcançada em 2025 — e que o Brasil investiu em geração solar distribuída. Isso significa diversos projetos de energia em menor escala que geram sua própria energia e até vendem o excedente de volta à rede. Uruguai, El Salvador e Honduras, afirma ele, também estão “realizando implantações impressionantes de energia renovável”.

Um capítulo à parte aborda o que está acontecendo na Colômbia e no México. Embora a geração de energia renovável tenha continuado a crescer no ano passado, ficou atrás da tendência global para a combinação de energia eólica e solar, com apenas 5,3% (a média da América Latina é de 19% e a média global é de 17%). Enquanto isso, no México, a eletricidade continua fortemente dependente do gás natural, representando 62%: quase o triplo da média latino-americana (24%) e até mesmo da média global (22%). "Mais da metade da eletricidade gerada no México provém de gás natural importado dos Estados Unidos", destaca o autor do documento, evidenciando mais uma vez a vulnerabilidade dos setores energéticos de alguns países à geopolítica cada vez mais instável.

A América Latina chega à Conferência de Santa Marta ainda lutando para superar suas inconsistências inerentes. A sociedade civil continua a exigir um multilateralismo mais horizontal e reformas em um sistema financeiro que considera obsoleto em meio à crise climática. “O modelo atual pressiona nossos países a permanecerem focados em indústrias extrativas e atrasa o plano de transição energética”, afirma Carola Mejía, da Rede Latino-Americana e Caribenha para a Justiça Econômica, Social e Climática.

Chegando também à cidade caribenha está uma região que sempre terá povos indígenas em algum nível, e que espera ter um papel mais central nesta conferência. “Viemos à COP30 acreditando que daria certo, mas não deu”, lembra Alana Manchineri, da Coordenadoria Conjunta de Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). “O que acontecer em Santa Marta só será legítimo com a participação dos povos indígenas”, afirma sobre os próximos dias. Esses dias começam nesta sexta-feira com diálogos acadêmicos; continuarão com conversas entre indígenas, sindicatos, parlamentares e governos locais, e terminarão com um painel de ministros de diferentes países. As contribuições de todo o processo, disse o ministro interino do Meio Ambiente da Colômbia ao El país em outra ocasião, serão compiladas em um relatório que esperam finalizar e entregar em junho, um mês antes das eleições presidenciais colombianas.

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