As peças ferozes do mosaico. Um mundo de guerras e de silêncio

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23 Março 2022

 

"Arquivada a era dos grandes embates entre exércitos e do equilíbrio do terror do mundo bipolar, em que o baricentro bélico era relegado às margens diplomáticas do planeta, o conflito acerta as contas com o desmoronamento do Estado-nação e de seu monopólio da força. O mercado bélico tornou-se cada vez mais competitivo, enquanto o limiar da guerra baixou até incluir grupos privados: das máfias transacionais às redes terroristas. Camuflada em um poliedro de crises aparentemente isoladas, a Terceira Guerra Mundial estende sua sombra sinistra por todo o globo", escreve Lucia Capuzzi, jornalista italiana, em artigo publicado por Avvenire, 22-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

“Estamos em um mundo em guerra, em todos os lugares! Alguém me disse: 'Sabe, padre, que estamos na Terceira Guerra Mundial, mas em pedaços? Entendeu. É um mundo em guerra,” Era 18 de agosto de 2014 quando, no avião de volta da viagem à Coreia do Sul, respondendo ao jornalista japonês Yoshimori Fukushima do 'Mainichi Shimbun', o Papa Francisco propôs um original ângulo de visão para observar a geopolítica contemporânea. Tendo chegado ao trono de Pedro vindo "quase do fim do mundo" há pouco mais de um ano, o pontífice traçava uma linha vermelha entre os muitos conflitos que estavam dilacerando o planeta: 154 na época, segundo o Upssala conflict data program (Ucdp). Desde então, aumentaram ainda mais: 169 em 2020, o último registro disponível do Ucdp.

Desde 24 de fevereiro, a ferocidade bélica dilacera a própria Europa, por muito tempo 'distante' dos teatros de confrontos abertos. É difícil não repensar as palavras do Papa agora que, dentro e fora dos debates midiáticos, ecoa a questão da iminência de um terceiro conflito mundial. Será que realmente vai estourar? Desconfiar da futurologia na geopolítica é sempre uma boa regra, contudo pode ser muito útil tentar ler o presente, em versão integral, para além dos compartimentos estanques de determinada narrativa.

Quando alargamos o olhar para todo o mapa-múndi, percebemos que a 'Terceira Guerra Mundial', infelizmente, já está em ato há tempo. Só que até agora foi combatida longe dos centros estratégicos da política internacional. E, consequentemente, dos holofotes midiáticos.

Por que não conseguimos perceber isso? É claro que a guerra passou por uma profunda mutação genética desde o século XX até o presente milênio.

Arquivada a era dos grandes embates entre exércitos e do equilíbrio do terror do mundo bipolar, em que o baricentro bélico era relegado às margens diplomáticas do planeta, o conflito acerta as contas com o desmoronamento do Estado-nação e de seu monopólio da força. O mercado bélico tornou-se cada vez mais competitivo, enquanto o limiar da guerra baixou até incluir grupos privados: das máfias transacionais às redes terroristas. Camuflada em um poliedro de crises aparentemente isoladas, a Terceira Guerra Mundial estende sua sombra sinistra por todo o globo.

Uma característica distintiva é a obstinação feroz contra os civis desarmados, como afirma a cientista política Mary Kaldor e o número crescente de vítimas civis e pessoas deslocadas. A terrível tragédia dos ucranianos em fuga se sobrepõe e se soma aos êxodos da Síria, da África em chamas, do jihadismo, da violência bélica latino-americana.

Abrir os olhos, a cabeça e o coração diante de cada um dessas peças cruentas sem perder de vista o todo - ajuda a decifrar o mosaico bélico para além da contingência. Decifrar as chaves escondidas por trás da retórica. Para evitar a corrida, tão frenética quanto vã, da última emergência. E ter a coragem de imaginar soluções de longo prazo para curar as feridas do mundo despedaçado.

Menos de um mês depois de seu retorno de Seul, ao especificar a categoria de 'Terceira Guerra Mundial em pedaços', no Santuário de Redipuglia, o Papa mais uma vez ofereceu um ponto de partida interessante: “As vítimas são tantas... Como isso é possível? É possível porque também hoje nos bastidores existem interesses, planos geopolíticos, ganância por dinheiro e poder, existe a indústria armamentista, que parece ser tão importante! E esses planejadores do terror, esses organizadores do confronto, assim como os empresários de armas, escreveram em seus corações: ‘Pouco me importa'”. Sempre que voltamos nosso olhar para a injustiça feroz, para a opressão de minorias e maiorias, para a corrupção graças à qual os gigantes econômicos realizam negócios que devastam o planeta e seus povos, a corrida ao rearmamento, tornamo-nos cúmplices involuntários dos planejadores de terror.

A catástrofe ucraniana merece muito mais do que a emoção de um instante. Que esta tragédia "desumana" e "sacrílega", tão próxima, nos ajude a rasgar o véu do silêncio. E da indiferença.

 

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