Para que o mundo sobreviva. Hans Küng e a bioética

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22 Abril 2021

 

Desde os primeiros anos do seu ensino na Faculdade Teológica Católica de Tübingen, Hans Küng se interessou pelos temas da moral sexual, alguns dos quais hoje podemos considerar como “de fronteira” em relação aos estritamente bioéticos.

A opinião é de Salvino Leone, médico italiano, professor de Teologia Moral e de Bioética na Faculdade Teológica da Sicília e vice-presidente da Associação Teológica Italiana para o Estudo da Moral (Atism, na sigla em italiano). É co-organizador, em português, do “Dicionário de bioética” (Ed. Santuário, 2001).

O artigo foi publicado em Moralia, 15-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A morte de Hans Küng aos 93 anos de idade marca, de algum modo, o fim de uma era. Independentemente de como se queira avaliar a sua teologia, verdadeira “fonte de contradição”, ele constituiu um grande testemunho de paixão pela pesquisa teológica no rastro de um Vaticano II que ele considerava não implementado ou até traído.

Na sua copiosa reflexão, não faltam também, obviamente, os temas da bioética, ainda que inseridos no âmbito mais amplo de uma corajosa e profética renovação da teologia moral.

Nas origens do seu interesse bioético

Desde os primeiros anos do seu ensino na Faculdade Teológica Católica de Tübingen, ele se interessou pelos temas da moral sexual, alguns dos quais hoje podemos considerar como “de fronteira” em relação aos estritamente bioéticos. Refiro-me às questões ligadas ao uso dos anticoncepcionais e, mais genericamente, àquela que hoje chamamos de ética da procriação.

Por outro lado, são conhecidas as suas críticas à promulgação da Humanae vitae por Paulo VI (1968) e a consequente publicação do seu livro “Infalível? Uma pergunta” (1970).

Precisamente naqueles anos, o oncologista australiano Van Rensselaer Potter publicava o seu artigo “Bioethics, the science of survival” [Bioética, a ciência da sobrevivência], ao qual se seguiria, em 1971, o livro “Bioethics, bridge to the future” [Bioética, ponte para o futuro], no qual ele “lançava” o neologismo em nível mundial.

Na realidade, muitos, como Küng, já haviam lidado com isso sem chamá-lo por esse nome. Não esqueçamos, aliás, que precisamente a partir da decepção que se seguiu à publicação da Humanae vitae, decepção da qual Küng havia sido intérprete, nasceria o centro mais renomado de bioética mundial. O seu fundador, André Hellegers, era um embriologista holandês, presidente da comissão desejada por Paulo VI para o estudo dos problemas relativos à natalidade. Depois que o papa acolheu o chamado “parecer minoritário”, ele decidiu instituir um centro que continuasse a elaborar uma ética independente da teologia.

Foi assim que, em 1971, com a ajuda da família Kennedy, ele fundou o Joseph and Rose Kennedy Center for the Study of Human Reproduction and Bioethics, que mais tarde se tornou o Kennedy Institute of Ethics.

Como se vê, o desconforto manifestado por Küng no plano teológico se conjugava com uma nova instituição destinada a ter um futuro brilhante.

O projeto de uma ética mundial

Se a visão de Potter se caracterizava pela sua interdisciplinaridade e pelas responsabilidades intergeracionais, o mesmo aconteceria com uma nova perspectiva de Küng, isto é, o projeto de uma ética mundial (“Projeto de ética mundial. Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana”, Ed. Paulinas, 1998).

Na sua articulação, mesmo que não sejam tratadas de forma temática, são mais do que evidentes algumas sujeitualidades da bioética. Acima de tudo, no próprio fato de propor uma ética mundial que inclua, portanto, todas as problemáticas que a ética enfrenta nas várias religiões, nas várias culturas, nas várias épocas: um bioética geo-histórica, se assim podemos defini-la.

Entrando nas questões específicas, detectamos como a primeira assunção da primeira parte, relativa às convicções básicas, o fato de que nenhuma sobrevivência no nosso planeta é possível sem um ethos global. O fato de ter ligado o tema da “sobrevivência” ao do ethos é exatamente aquilo que Potter afirmava no seu artigo, em que ele fala precisamente da bioética como “ciência da sobrevivência”.

Na segunda parte, Küng analisa a “regra de ouro” nas várias religiões. Conectando-se com o principialismo bioético clássico, podemos dizer que se trata de uma revisitação inter-religiosa do princípio da não maleficência.

É particularmente interessante a perspectiva do budismo, que afirma: “Não trate os outros de maneiras que você mesmo consideraria prejudiciais” (Udana-Varga, 5.18), ou do hinduísmo, em que se diz: “Não deveríamos nos comportar com os outros de um modo que seria desagradável para nós mesmos”, afirmando depois: “Essa é a essência da moral” (Mahābhārata XIII.114.8).

Enfim, na parte relativa à Declaração de uma Ética Mundial, Küng afirma como primeiro princípio (tipicamente bioético) o “compromisso com uma cultura da não violência e do respeito diante de toda vida”.

A ética de morrer

Mas há um texto, “A dignidade da morte. Tese sobre a eutanásia” (2007, posteriormente reeditado e ampliado com outro título), no qual ele aborda sistematicamente um tema bioético – aliás, de grande atualidade – como o do morrer e das intervenções sobre o moribundo.

Obviamente, este não é o lugar para abordar completamente a sua análise. Limito-me a sublinhar alguns dos elementos mais significativos. Começando pelo termo “eutanásia” (Euthanasie), raramente utilizado, porque, no âmbito da cultura alemã, evoca fortemente a eutanásia praticada nos campos de concentração nazistas. Este é mais frequentemente substituído por Sterbehilfe (ajuda a morrer), embora possa ser, em si mesmo, uma fonte de equívocos.

Em todo o caso, digamos sem meios termos que a proposta de Küng é a de poder escolher livremente como e quando morrer, para poder deixar este mundo serenamente, em plena consciência, cercado pelo afeto dos próprios entes queridos.

Como mencionado acima, a reedição do primeiro texto intitula-se “Morrer feliz” e é de 2014, quando Küng, já avançado em anos, sentia que a morte se aproximava e, portanto, estava envolvido não apenas no nível da reflexão moral, mas também existencial.

Na sua perspectiva, essa morte que poderíamos definir como “autocompassiva” nada teria a ver com a eutanásia e não entraria em conflito com os princípios de uma ética modal. Se assim fosse, diz ele, ele a teria rejeitado decisivamente.

Além disso, referindo-se aos princípios formulados na Declaração Iura et bona (na realidade, interpretados com uma certa liberdade) e ao subsequente Catecismo da Igreja Católica, ele considera que há várias modalidades de implementar meios considerados extraordinários que, como tais, poderiam ser suspensos.

O debate, para o leitor, pode se tornar particularmente articulado e interessante neste ponto, e, portanto, remetemos aos fóruns mais apropriados para o seu aprofundamento.

Limito-me, em conclusão, a compartilhar duas considerações autobiográficas às quais a estimulante produção teológica de Hans Küng poderia nos levar. Elas dizem respeito a uma experiência minha do passado, feita na Universidade de Tübingen como professor visitante.

Quando cheguei ao patamar que dava acesso à Faculdade de Teologia, fiquei impressionado com o fato de que, à direita, havia o acesso à Faculdade de Teologia Católica e, à esquerda, à Protestante: uma espécie de “ecumenismo arquitetônico” em que dois universos teológico-culturais se confrontavam também materialmente.

A segunda diz respeito a um clergyman do Prof. Joseph Ratzinger que havia sido colocado em um quadro, para lembrar os anos em que ele lecionado naquela universidade, chamado justamente por Hans Küng. Dois modos diferentes de viver a dialética das diversidades e a convivialidade das diferenças em uma substancial unidade de fé e de amor pela Igreja.

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