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05 Outubro 2013

Ao longo de todo o diálogo entre Francisco e Scalfari, não há um único tom equivocado. Pode-se apenas esperar que esse diálogo continue sendo um exemplo para o diálogo entre crentes e não crentes.

A opinião é do teólogo suíço-alemão Hans Küng, professor emérito da Universidade de Tübingen, Alemanha. O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 02-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O último livro de Hans Küng, em português é A Igreja tem salvação? (Paulus, 2012). Na Alemanha, acaba de ser lançado seu último livro Erlebte Menschlichkeit. Erinnerungen (em tradução livre: Humanidade vivida. Memórias), Pieper Verlag. O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 02-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu acredito que é um evento de grande valor e para se alegrar muito o fato de que o diálogo entre o Papa Francisco e Eugenio Scalfari não terminou com uma troca de cartas, mas tenha continuado com uma entrevista.

A entrevista publicada no dia 1º de outubro no jornal La Repubblica é o documento extraordinário de um encontro de homem para homem com uma intensa e profunda vontade recíproca de prosseguir e aprofundar o diálogo.

Uma das coisas que chama a atenção no início do colóquio é que eles também souberam encontrar a dimensão do humor: ambos dizem ter sido advertidos e alertados pelos seus colaboradores para não se deixar converter um pelo outro, nem à fé cristã nem ao laicismo. E ambos – eu acho isso extraordinário também no plano da comunicação – reagiram rindo e assegurando que nenhum dos dois tinha essa intenção.

Mas, depois, passando com desenvoltura ao discurso sério, enfatizaram que o seu colóquio tinha e teria o objetivo de aumentar o conhecimento com um esforço recíproco. Eles se propunham a fazer isso e souberam fazer isso encontrando pontos significativos de convergência e pontos de desacordo leal.

Um debate ainda mais extraordinário porque nenhum dos dois queria fazer proselitismo. Um dos pontos interessantes da entrevista é o juízo sobre o comunismo. Francisco afirma que nunca aderiria ao materialismo, mas que, apesar disso, através dos professores que teve e conheceu na universidade, ele aprendeu muito com essa doutrina. Aprendeu e entendeu muito sobre as questões sociais das quais os comunistas falavam. Não é por acaso que Francisco sublinhou a importância de alguns temas levantados pelo movimento (que era tanto político quanto de fé) da Teologia da Libertação.

Depois, há a questão da Cúria, ou, digamos, também da Corte romana. O papa usou palavras muito duras, palavras que eu não esperava, palavras que poderiam ter causado um extremo desconforto até para mim se eu as tivesse usado: "A Corte é a lepra do papado". Naquele momento do seu diálogo, Francisco e Scalfari realmente captaram o ponto essencial, isto é, que a Cúria romana deve ser posta novamente a serviço do gênero humano, e não a serviço de um sistema romano que não tem nada a ver com a lição do Evangelho. E que, de um ponto de vista verdadeiramente católico, o Vaticano não pode se tornar a necessidade suprema, mas, ao contrário, todas as estruturas da Igreja, mesmo as da Cúria, devem se pôr a serviço do Povo de Deus.

E, por fim, o papa recusou-se a pronunciar uma hierarquia dos santos: ele disse que é possível fazer uma classificação dos melhores jogadores de futebol argentinos, mas não dos Santos. Depois, manifestou-se a favor de São Paulo, como interpretação do cristianismo que permaneceu válido por milênios, de Santo Agostinho e de Francisco de Assis.

Ao longo de todo o diálogo entre Francisco e Scalfari, não há um único tom equivocado. Pode-se apenas esperar que esse diálogo continue sendo um exemplo para o diálogo entre crentes e não crentes.