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21 Julho 2015

“Sou totalmente a favor de uma liturgia digna e bonita”, diz o cardeal australiano George Pell, ex-arcebispo de Sydney e atualmente membro do Conselho dos Cardeais que assessoram o Papa Francisco.

A reportagem é de Greg Daly, publicada pelo sítio The Irish Catholic, 16-07-2015. A traduçãoéde Isaque Gomes Correa.

Em visita à cidade irlandesa de Cork para participar da oitava edição da FOTA (Conferência Litúrgica Internacional na Irlanda), o cardeal explica que o seu envolvimento no evento surgiu através de uma estreita amizade com um dos organizadores e pelo seu próprio papel como presidente do Vox Clara, comitê internacional de bispos que aconselha a Santa Sé na tradução dos textos litúrgicos para o inglês.

“E eu acho que a qualidade intelectual dos documentos que vêm sendo produzidos e publicados ao longo destes anos é de primeira linha”, continua ele. “Creio que a grande circulação destas produções é um reconhecimento deste fato, e particularmente acho que eles estão contribuindo, e muito, para o diálogo sobre o que devemos fazer e para onde devemos ir a fim de consolidar a contribuição litúrgica do Papa Bento XVI”.

“Sei que usei algumas das coisas que aprendi nessas conferências aqui e muitas pessoas acabaram, depois disso, se interessando por elas”, diz ele. “Um detalhe especial que me lembro é sobre o baldaquino, a cobertura que fica por sobre as quatro colunas nas antigas igrejas romanas: lembro que esta cobertura representa a tenda, o véu que é colocado por sobre os noivos judaicos enquanto eles pronunciam os seus votos. Este ‘baldacchino’, como é chamado em italiano, reconhece e comemora o fato de que Cristo casou-se com a Igreja. Esse é apenas um exemplo”.

A Conferência tem também reforçado a sua compreensão, diz ele, das várias coisas que fazemos para desenvolver a nossa reverência pelo sagrado, e as “defesas” que usamos para demonstrar que “a Eucaristia é um ato de adoração, e não apenas uma celebração comunitária”.

“Eu sou muito mais sensível a estas coisas. Frequentemente me vejo a falar sobre elas”, diz ele.

Quando perguntado se é preciso haver mais esforços no sentido de explicar a missa para as pessoas em geral, o cardeal gesticula para uma placa na parede da sacristia à sua frente. “Ora, por coincidência absoluta, se olharmos isso aqui”, ele diz e, em seguida, lê em voz alta: “Sem doutrina > não há vocações > não há sacerdotes > não há Igreja”.

“Nós temos – os sacerdotes têm – que tentar ensinar sobre do que se trata a Missa”, continuou Pell. “Nós celebramos a morte do Senhor e a sua ressurreição até que Ele venha de novo. Acreditamos que através de seu sofrimento, da sua morte e ressurreição ele nos redimiu. Eis o que basicamente é a missa. Nós adoramos o único e verdadeiro Deus através de Jesus Cristo, seu filho – não é uma confraternização comunitária. Não dependemos de novidade. Nós comemoramos o fato de que o que estamos fazendo tem sido feito há 2 mil anos, que o que estamos fazendo foi feito nos tempos penais aqui nas “Mass rocks” [1]: é isso o que somos e fazemos”.

Contribuição

Quando perguntado sobre se, a seu ver, a liturgia tem vindo a melhorar nos últimos anos, Pell disse que “isso depende do que significa melhorar”, acrescentando: “Acho que o Papa João Paulo II e, especialmente, o Papa Bento XVI deram um contributo muito significativo para a nossa compreensão da liturgia, da importância da adoração, da oração e do silêncio. Acho também que o Papa Francisco continuou nesse sentido”.

“O Santo Padre tem um grande respeito pela contribuição que o Papa Bento XVI deu à liturgia, e tenho certeza que ele trabalhará no sentido de preservá-la. A nomeação do Cardeal Robert Sarah como prefeito da Congregação para o Culto Divino a Disciplina dos Sacramentos é um exemplo disso.

“Se formos, neste momento, à Basílica de São Pedro ou a uma Jornada Mundial da Juventude, os silêncios de oração aí são muito, muito poderosos. Isso representa, penso eu, uma melhoria”, diz ele.

“Uma outra melhoria muito significativa são as novas traduções, porque elas são tão ricas”, acrescenta. “O idioma inglês é um pouco mais difícil, é uma língua sacra; não é muito diferente para a Congregação, os sacerdotes têm de ter um pouco mais de cuidado, mas cada ciclo anual que se passa as coisas ficam mais fáceis”.

“Vamos, porém, pensar nas orações que tivemos esta noite”, continuou o cardeal, referindo-se às Vésperas que tinham acabado de terminar na comunidade em que ele havia concelebrado: “Ora, há algo sobre o que rezar, meditar, pensar; elas não são do tipo: ‘faça o bem, evite o mal, todos nós queremos ir para o Céu e ninguém quer morrer’. Teologicamete, elas são ricas e belas”.

Citando o velho adágio de que “todo tradutor é um traidor”, ele diz que, embora isso não seja inteiramente verdadeiro, algumas coisas podem se perder na tradução e, talvez, ainda mais importante do que a beleza é a necessidade de precisão/acurácia, em especial tendo em conta a diminuição do número de pessoas que sabem o latim. “Não há nenhuma dúvida aqui: o ponto de partida para muitas das traduções asiáticas e africanas, exceto a África de língua francesa, é o inglês. Este pode até mesmo ser o caso na Europa oriental”, completa, deixando claro o quanto as traduções falhas para o inglês podem ter repercussões enormes, não se circunscrevendo aos países que falam este idioma.

Têm havido conversas sobre uma nova tradução do Breviário, acrescenta Pell. Já quanto às perspectivas de uma nova tradução das leituras da missa, ele diz: “Sobre o Lecionário, tem havido muita conversa, mas muito pouca ação. Eu não estou diretamente envolvido aqui, então vamos ver o que acontece”.

Desde fevereiro de 2014, o Cardeal George Pell vive em Roma, onde trabalha como prefeito da Secretaria para a Economia da Santa Sé. “O maior desafio é descobrir o que, de fato, está acontecendo”, diz ele. “Os sistemas estavam defasados”, explica ele, “e antes de começarmos – e o Santo Padre estava ciente disso –, era impossível alguém falar com precisão sobre as finanças no Vaticano, em termos de ativos e dívidas e, até mesmo, como está ficando claro agora, era impossível se obter o orçamento anual para saber se estávamos com déficit ou não. Em julho iremos publicar as contas de 2014 junto do orçamento deste ano.

“Com uma contabilidade mais eficiente e exata, descobrimos que tínhamos mais ativos do que havia sido declarado”, diz ele, ressaltando que nada incomum estava acontecendo, mas sim que se estava trabalhando com um sistema incompatível com a atualidade.

Além disso, diz ele, “em comum com quase todos os países europeus, temos agora um reconhecimento explícito do dinheiro que iremos ter de colocar em nossos fundos de pensão”.

“Podemos dizer que tudo está assegurado dentro de um período de 10 e, possivelmente, 15 anos, mas se não injetarmos uma quantia significativa de dinheiro, em 20, 25 anos pode não haver mais nada. Todas as pensões que foram prometidas serão honradas, mas os estatutos dos fundos de pensão recém foram aprovados. Portanto, estamos trabalhando no sentido de levar adiante essa iniciativa”.

Contrário às afirmações de que uma de suas maiores conquistas na Secretaria para a Economia seria a substituição de uma forma “italiana de trabalhar” por uma forma “anglo-saxã”, ele diz: “Eu não falo sobre a maneira anglo-saxã de fazer negócios, finanças. Algumas pessoas que não gostam do que estamos fazendo tentam rejeitá-lo ou minimizá-lo de alguma forma; nós apenas apelamos às normas modernas de contabilidade e ao princípio da transparência. Estamos seguindo basicamente o modelo de transparência usado pelo governo suíço. Neste momento estamos já compartilhando informações com as autoridades italianas, com as autoridades suíças, já assinamos um acordo com os Estados Unidos de forma semelhante.

Cultura

“Esta cultura da transparência, no Vaticano, é uma grande novidade”, diz ele, acrescentando que a publicação iminente do orçamento anual deve diminuir em certa medida a capacidade das pessoas de fazerem afirmações exageradas sobre finanças vaticanas.

O experiente comentarista do Vaticano John Allen Jr. aponta que as finanças de Roma, apesar de mitos sobre a riqueza do Vaticano, podem ser comparadas as finanças de algumas universidades em nossos países: em 2011, por exemplo, o orçamento de funcionamento da Santa Sé foi de cerca de 225 milhões de euros, enquanto que o rendimento anual da University College Dublin esteve pouco acima dos 400 milhões de euros.

O cardeal concorda que esta comparação é válida, ao mesmo tempo admitindo que alguns dos ativos da Roma são difíceis de serem quantificados: “Quanto vale a Pietà?”, pergunta-se o cardeal, deixando de lado o fato de que, sob o direito italiano e europeu, o Vaticano não poderia vender este – e outros ativos de mesma espécie –, mesmo se quisesse. “Nós não temos nada parecido com o dinheiro ou com as propriedades de um espaço como Harvard”, complementa. “Nesse sentido somos quase nada”.

“Não há muitas mudanças enormes que restam a ser feitas”, continua o religioso, explicando que os novos sistemas estão, cada vez mais, consolidados e que permitirão que as finanças vaticanas sejam executadas de forma coerente e transparente, independentemente de quem estiver no comando.

Ele cita a recente nomeação de Libero Milone – ex-presidente da Deloitte Itália – para ser o primeiro auditor geral da Santa Sé, cargo cujo ocupante se dirige diretamente ao papa, como uma “novidade radical no Vaticano”, e também diz que, a partir do próximo ano, em um dos auditores externos do Big Four [2] estará fazendo a auditoria das contas da Santa Sé.

“Tudo isso constitui, a meu ver, desenvolvimentos significativos”, diz ele. “Temos um bom trabalho a fazer ainda junto à nossa tesouraria central, com o modo como gerimos os nossos ativos. Tornamos obrigatório um conjunto de procedimentos contábeis, e estes estão sendo seguidos – com um pouco de relutância, mas estão sendo seguidos. Por isso, se tivermos sucesso aqui, creio que será muito difícil – quase impossível – voltarmos atrás, à confusão que era antes, à incerteza e opacidade que tínhamos”.

Um fator crucial em como as coisas estão ocorrendo hoje, diz ele, é o Conselho para a Economia, que define as diretrizes políticas e examina o trabalho da Secretaria para a Economia. “Temos oito cardeais e sete leigos, e os leigos são especialistas finanças vindos de todas as partes do mundo. Eles não estão aí como assessores; estão aí como membros plenos com direito a voto.

“Particularmente, acho que este é um grande desenvolvimento”, diz ele. “Quero dizer: aqui, nesta Conferência, estamos falando sobre o papel dos leigos, e esta é uma área em particular onde geralmente os leigos têm mais experiência do que os bispos e o clero. Às vezes, podemos ter sacerdotes que são homens muito bons em negócios, mas mesmo estes não teriam a riqueza de experiência ou formação que alguém que passou a sua vida inteira trabalhando com as finanças”.

Assim como o clero não deve ser tentado a assumir as funções naturais dos leigos, da mesma forma Pell é cauteloso com os leigos tomando o papel que, antes, era desempenhado unicamente pelo clero, ressaltando que este será um dos temas do trabalho que ele apresentará na Conferência.

“Você sabe, o papel dos leigos é levar Cristo para dentro mundo”, diz ele, “e não correr para dentro da zona de conforto da comunidade eclesial local, porque pode ser muito mais fácil e confortável estar com as pessoas que pensam como a gente em nossa comunidade paroquial do que, realmente, assumirmos os princípios cristãos e testemunharmos a nossa fé na vida cotidiana e nos negócios, nos clubes em que participamos, no bar...

“Creio que um dos grandes desenvolvimentos, nos últimos 20 ou 30 anos, nos países de língua inglesa”, segundo ele, “tem sido o desenvolvimento das capelanias universitárias em nossas universidades seculares, especialmente nos Estados Unidos, onde esmagadoramente elas já não dependem apenas de um único sacerdote, e sim contam com equipes de jovens, homens e mulheres. Temos equipes em Sydney, nas nossas universidades seculares, nos últimos 10, 12 anos; temos 30 vocações, homens e mulheres… Não estou dizendo que todas elas, estas vocações, foram iniciadas aí, mas que se deram através do nosso sistema de capelania”.

Ele também acrescentou que “especialmente para as outras pessoas”, uma maneira diferente de levar Cristo ao mundo é por meio de movimentos como o Catholic Voices, como aquele representado pelo “Catholic Comment”, na Irlanda.

“Temos de fazer com que os jovens falem aos jovens”, diz ele. “Os jovens esperam que os cardeais antigos como eu tenham algo a dizer e, como sabemos, eles ouvem, em geral, mas ouvem com certeza aos seus pares quando estes se apresentam”.

“Então, o movimento Catholic Voices é um desenvolvimento muito, muito bem-vindo, uma verdadeira contribuição. Quero dizer, eles deram uma grande contribuição antes e durante a visita de Bento XVI à Inglaterra, e especialmente nos meios de comunicação social onde ideias equivocadas, imprecisas e que expressavam certo ódio podiam se espalhar rapidamente… Havia jovens prestando atenção a estas coisas na internet, jovens bem preparados, capazes de falar e apresentar outros pontos de vista. Eis o verdadeiro evangelismo”.

Se o Papa Bento XVI foi, muitas vezes, incompreendido por ser apresentado através de uma “lente” que o fazia parecer “um vilão”, da mesma forma uma outra lente, diferente, distorce o Papa Francisco de outra maneira, pensa o cardeal.

“Muitos aprovam o papado de Francisco”, diz ele. “Ele tem grandes qualidades. Durante anos ele, de fato, viveu na simplicidade. Isso é atraente para muitas pessoas. Ele possui uma enorme compreensão da importância dos símbolos públicos, sabe bastante dos momentos certos para ensinar... Ele está morando na residência papal de Santa Marta, onde conta com companhia de outras pessoas”.

“Agora”, continuou o prelado australiano, “se Bento XVI tivesse dito algumas das coisas que o Papa Francisco tem falado, ele teria sido severamente castigado. Quero dizer, o papa tem se posicionado explicitamente contra o aborto, contra a eutanásia, tem falado contra o casamento homoafetivo, sobre o Diabo, sobre o espírito do mal, mas às vezes estas coisas são filtradas da mensagem que sai para o mundo”.

Independentemente de filtros midiáticos, o cardeal agradece a Deus pela popularidade do Papa Francisco e diz que o seu apoio às reformas econômicas em Roma é “absolutamente essencial”, de tal modo que “não seria possível fazê-las sem este apoio”. Ele tem grandes esperanças também para com as reformas recentemente anunciadas pelo papa relativas às diversas operações de mídia do Vaticano. Descrevendo as reformas propostas como “muito, muito promissoras”, o cardeal diz “que elas receberão forte oposição, mas que se conseguirmos colocá-las em vigor, elas representarão uma outra contribuição significativa”.

No geral, ele diz, “não podemos compreender o Santo Padre sem lembrarmos que ele é um jesuíta à moda antiga, e um jesuíta sul-americano”.

Sublinhando como a abordagem do papa à economia é fortemente influenciada pela sua experiência de vida na Argentina e, em particular, nas favelas de Buenos Aires, onde ele fez questão de colocar sacerdotes extras, Pell descreve a situação em que, durante uma visita a Assis, o papa passou mais de uma hora abraçando de 50 a 100 pessoas deficientes físicas.

“A sua compaixão”, diz ele, “é absolutamente genuína”.

Veja mais aqui.

Nota:

[1] Uma “Mass rock” era uma rocha usada, na Irlanda do século XVII, como um local onde se celebravam missas.

[2] “Big Four é a nomenclatura utilizada para se referir às quatro maiores empresas contábeis especializadas em auditoria e consultoria do mundo.

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