Controvérsia sobre o casamento gay: limites da revolução do Papa Francisco

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09 Junho 2015

"Em resumo, uma minoria influente e rica, controla os organismos internacionais, capaz de ditar as agendas sociais e culturais, cientemente coloca em crise a família fundada no matrimônio heterossexual e "aberta à vida", isto é, pronta para acolher os filhos, em base a uma ideia de igualdade perigosa, totalmente consumista e individualista, que anula as diferenças e sustenta uma visão potencialmente autoritária da sociedade. Uma acusação sugestiva e bem longe de ser trivial", escreve o jornalista Francesco Peloso, 28-05-2015. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo. 

A bomba do referendo irlandês esmigalhou grande parte da propaganda do Vaticano nos últimos anos. A homossexualidade, além disso, está se tornando, cada vez mais, uma constante pedra de tropeço para a igreja europeia e de todo o Ocidente. Se o catolicismo fala de fato uma linguagem universal, indubitavelmente a questão da extensão dos direitos civis, em resposta positiva às demandas do movimento gay, produziu em países da Américas do Norte e do Sul, e no velho continente (mas não na Itália), legislações que, com variações e nuances, reconheceram uniões civis ou casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Assim, todas as regras a respeito de cônjuges ou de coabitação heterossexual foram progressivamente ou parcialmente aplicadas a casais homossexuais. Há uma mudança profunda na sexualidade humana, que detecta uma variedade e diversidade de tendências não coercíveis ou corrigíveis, consideradas, ao contrário, parte integrante da identidade da pessoa.

O Vaticano, no entanto, nos últimos anos, tem apoiado uma teoria particular, segundo a qual, uma espécie de doutrinação cultural de agências internacionais - Nações Unidas, sob a pressão dos países do Norte da Europa ou da União Europeia, sempre mais influenciada pelos eurocratas laicistas de Bruxelas - teria de fato imposto mudanças coletivas na ideia de família e comportamento sexual, alterando o DNA cultural das populações em várias partes do mundo.

Em resumo, uma minoria influente e rica, controla os organismos internacionais, capaz de ditar as agendas sociais e culturais, cientemente coloca em crise a família fundada no matrimônio heterossexual e "aberta à vida", isto é, pronta para acolher os filhos, em base a uma ideia de igualdade perigosa, totalmente consumista e individualista, que anula as diferenças e sustenta uma visão potencialmente autoritária da sociedade. Uma acusação sugestiva e bem longe de ser trivial.

A aprovação de leis sobre os direitos de casais homossexuais, da parte de diversos parlamentos nacionais, com orientações políticas não homogêneas, já tinha colocado em cheque esta leitura. Mas, o caso irlandês é ainda mais diferente, e em certo sentido, faz cair definitivamente a estratégia da igreja de Roma. Entretanto tratava-se de um referendo popular, ou seja, uma consulta geral, que aprovou o casamento gay. Mas sobretudo a Irlanda não pode ser acusada de derivas protestantes ou anglicanas em seu perfil cultural, pois, mesmo que tenha sido objeto do processo de secularização e difusão da laicidade tipicamente moderna, suas raízes permanecem profundamente católicas.

Mas há ainda outro detalhe que torna o caso irlandês único no género: a educação pública foi controlada pelas ordens e congregações religiosas católicas por muito tempo.

É também em base desta última consideração que, segundo o arcebispo de Dublin, Monsenhor Diarmuid Martin, a votação representou uma revolução cultural e social. Martin - que não tinha lançado anátemas contra a consulta - quebrou um tabu quando disse que "a Igreja deve encarar de frente a realidade, não há nenhuma conspiração", e, ao contrário, foram os bispos que se recusaram a olhar de perto o que estava acontecendo. O arcebispo é, certamente, um prelado de peso, apesar de, no passado, ter alertado a Igreja contra o risco de subestimar o impacto social do escândalo dos abusos de crianças, cometidos por padres, que na Irlanda teve um de seus epicentros mais fortes.

O ocorrido tem, sem dúvida, influenciado na transformação do país: bispos pediram demissão, movimentos religiosos e dioceses acabaram sob acusação, uma série de investigações governamentais mostraram páginas obscuras e desonrosas da história da Igreja. O país já não é mais católico como antes, e neste afastamento deve ser incluído o enfraquecimento da Igreja no velho continente em geral.

Derrota para a humanidade

Se Martin disse como as coisas estão, o Secretário de Estado Pietro Parolin, geralmente muito cuidadoso com as palavras, descreveu o resultado do referendo como "derrota para a humanidade", despertando, como era óbvio, críticas e sarcasmos pela dureza dos termos utilizados. Mas por que o fez? Claro, há uma explicação elementar: a Igreja não pretende desistir de sua visão de família. Mas mesmo assim, a afirmação do cardeal, parecia forte demais. Vários problemas estão interligados aqui. O Papa Francisco tentou, desde o início de seu pontificado, tornar a Igreja menos rígida, mais aberta ao confronto com os outros, e capaz de aceitar a complexidade humana sem julgá-la, mas também, sem alterar a doutrina. Um caminho incerto, que talvez comece a revelar seus limites.

A composição de "liberais" nos quadros eclesiásticos neste momento - que também se reuniram em Roma, nestes dias, e trataram do tema da homossexualidade, fora dos holofotes -, quer romper com as postergações, dando sinais de novidade real, e não só, acenado no método. Os tradicionalistas - grupo em que se inscreve parte do catolicismo norte-americano, particularmente forte também do ponto de vista econômico e lobístico - não tem intenção de recuar um centímetro em seus princípios. Subterraneamente, ameaçam um cisma, que não são capazes de produzir, mas fazem perceber o risco de um conflito interno de alta intensidade.

Neste contexto estão inseridos os dois sínodos sobre a família convocados por Francisco, dos quais o segundo está previsto para o próximo mês de outubro. O duplo tribunal, nascido com a ideia de reabrir o diálogo entre a Igreja e a modernidade, mesmo nas questões mais delicadas, mostrou um impasse, e agora, uma distância não mais transponível entre as Igrejas da Europa Central e do Norte e algumas partes das Igrejas africanas e norte-americanas. Mas a fratura é ainda mais transversal, pois passa por dentro de cada episcopado. Talvez no projeto inicial de Francisco houvesse um excesso de confiança na capacidade da Igreja mudar, ou talvez um excesso de táticas: abramos as portas, mas não exageremos.

A intervenção de Parolin fecha, precipitadamente, todas as brechas, na questão mais controvertida, a dos casais homossexuais, e, deste modo, evita dividir a Igreja, ao menos por enquanto. Mas a afirmação decepcionou quem estava esperando por mudanças mais rápidas e profundas, também no corpo eclesial. Acima de tudo, a intervenção do Secretário de Estado é uma hipoteca sobre o Sínodo, talvez o início de uma negociação interna, em relação a várias questões pendentes. No entanto, uma coisa é certa: há mais Igrejas na Igreja de Roma, e a convivência, cada vez mais difícil.

Tabu homossexual

Por fim, parece estar se resolvendo positivamente o caso do embaixador homossexual (e crente), nomeado por Paris, para o Vaticano. Laurent Stefanini, há pouco rejeitado pela Santa Sé, provavelmente em base a uma série de golpes baixos dos aparatos eclesiásticos que querem minar Bergoglio e seu círculo, parece poder receber seu cargo, mas a história ainda não terminou. Para além das intrigas de corte, a orientação sexual está mostrando-se como elemento crítico que causa dificuldades para o pontificado. Também porque, como disse recentemente com golpe certeiro o ex-ministro das Relações Exteriores, da França, Bernard Kouchner, "o Vaticano não parece ser o lugar mais indicado para rejeitar um homossexual".

Sim, porque a homossexualidade na Igreja, não só na cidadela além do Tibre, ainda espera para ser analisada, e não escondida ou negada, do mesmo modo como o tema do celibato dos sacerdotes, já tão desgastado em todos os países onde a Igreja está presente. São questões que, em chave ecumênica, de diálogo com os ortodoxos, anglicanos e protestantes e, portanto, com as culturas do Oriente e do Ocidente, o catolicismo deverá enfrentar, se não quiser encaminhar-se para um inevitável declínio.

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