Prognóstico: o Sínodo dos Bispos 2015 será tão tempestuoso como da última vez

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05 Fevereiro 2015

Apenas um dia depois do maior evento esportivo anual dos EUA, o Papa Francisco definiu o palco do que seria o equivalente ao Super Bowl do Vaticano: ele confirmou 48 prelados que participarão do Sínodo dos Bispos 2015 sobre a família, depois que estes foram escolhidos pelas suas respectivas conferências episcopais ao redor do mundo.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 03-02-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Não é uma lista completa, pois outras conferências ainda precisam escolher os seus representantes. Além disso, presume-se que o papa vá nomear os chefes de dicastérios do Vaticano como membros do encontro – 4 a 25 de outubro –, além de uma lista com escolhas pessoais.

Olhando apenas os nomes confirmados neste sábado, no entanto, um aspecto já se mostra claro: não há motivo algum para acreditarmos que o Sínodo dos Bispos 2015 será menos controverso do que a edição do ano passado, que teve discussões acaloradas – e ocasionalmente desagradáveis – sobre assuntos como a homossexualidade e o divórcio.

Pelo contrário, o prognóstico para outubro parece contar com momentos tempestuosos, tão intensos quando aqueles que irromperam durante o Sínodo 2014. Se alguém imaginou que o Papa Francisco pudesse estar tentando pôr as cartas aqui, as confirmações recém feitas parecem claramente refutar esta ideia.

Um Sínodo dos Bispos não é como o Congresso americano, na medida em que ele não tem poder de decretar coisa alguma. O seu único papel é fazer recomendações ao papa, que desta vez se espera envolver um amplo leque de assuntos relacionados à vida familiar.

O Sínodo 2014 começou este processo ponderando sobre muitas questões de família. Grande parte destas não geram polêmicas: por exemplo, a necessidade de a Igreja dar um melhor acompanhamento aos fiéis casados e o desejo de se ter um maior investimento social nas famílias.

No entanto, houve também um debate fervoroso em torno de questões candentes:

• Quão acolhedora a Igreja deve ser para com os membros da comunidade LGBT?

• Quão positiva ela deve ser quanto aos relacionamentos “irregulares”, tais como o de viver juntos sem estar casados?

• Os católicos divorciados que se casaram novamente sem obter anulação deveriam poder receber a Comunhão?

Baseado nas personalidades hoje confirmadas para o Sínodo 2015, a gama de opiniões que estarão no salão debatendo estes assuntos parece ser bastante ampla.

Tal como na vez passada, os prelados africanos parecem que serão os representantes a segurar as rédeas das mudanças.

Um dos dois representantes do Quênia, por exemplo, é o Cardeal John Njue, de Nairóbi, famoso por sua franqueza em defender tanto os ensinamentos da Igreja quanto os costumes africanos. Quando o presidente Barack Obama foi à África em 2008 e manifestou o seu apoio à legalização do casamento homoafetivo, Njue contra-atacou.

“Aqueles que já arruinaram a sociedade deles (...) não deixem se tornarem os nossos mestres, dizendo o que devemos fazer”, declarou. “Penso que precisamos agir segundo as nossas próprias tradições e credos”.

O outro queniano, Dom James Wainaina Kungu, de Muranga, é conhecido por promover programas anti-AIDS em sua diocese. Estes são chamados “Faithful House”, literalmente “Casa dos fiéis”, baseado na abstinência e fidelidade em contraposição ao uso de métodos contraceptivos.

Para pegarmos um outro exemplo: Dom Charles Palmer-Buckle, de Gana, recentemente postou uma petição online promovido por uma coalizão de conservadores culturais tendo em vista o Sínodo dos Bispos. A petição, dirigida ao Papa Francisco, pede que o pontífice faça uma declaração inequívoca contra qualquer mudança na proibição da Comunhão para católicos divorciados e recasados no civil, e contra qualquer tipo de abrandamento da postura da Igreja a respeito da homossexualidade.

Dom Gervais Bashimiyubusa, presidente da Conferência dos Bispos de Burundi e mais um que será delegado sinodal, recentemente se queixou dos esforços ocidentais em promover o uso de métodos contraceptivos, chamando tais iniciativas de uma “ameaça a todas as famílias em Burundi”.

Na América Latina, a situação é mais complicada, com representantes entre os participantes sinodais para ambos os lados das contendas.

Na Argentina, Dom José María Arancedo disse ao jornal La Nacion em outubro passado que “pode haver uma abertura na questão dos divorciados e recasados”.

O Cardeal Mario Poli, sucessor do pontífice em Buenos Aires, demonstrou ter uma postura também flexível, considerando a Comunhão para os divorciados e recasados como uma “questão pastoral” que não está relacionada com assuntos como a moralidade sexual, o casamento gay.

Interessante notar que os bispos argentinos escolheram Dom Héctor Rubén Aguer, da Arquidiocese de La Plata, apenas como substituto, já que este é conhecido como um linha-dura que batia de frente com o futuro papa em debates dentro da conferência episcopal do país.

Da mesma forma aconteceu no Chile: o Cardeal Ricardo Ezzati Andrello tem se mostrado um moderado a respeito de assuntos relacionados ao matrimônio e a família em geral. Entre outras coisas, ele apoiou as uniões civis para casais do mesmo sexo, ainda que não com plenos direitos de casamento.

Por outro lado, Dom Antonio Arregui Yarza, do Ecuador, é membro da Opus Dei tendo liderado os bispos do país na oposição às medidas de saúde reprodutiva e uniões homoafetivas, medidas incluídas na nova constituição federal adotada em 2008.

A maior parte dos quatro delegados mexicanos do Sínodo também parece se alinhar no campo mais conservador, incluindo Dom Rodrigo Aguilar Martínez, de Tehuacán, que tem se manifestado contra as “ideologias que minam precisamente o conceito de família”.

Dos Estados Unidos, a maioria dos quatro que vão participar do Sínodo parece que irá votar “não” contra toda tentativa de se alterar as posturas tradicionais da Igreja.

Eles incluem Dom Joseph Kurtz, de Louisville, presidente da Conferência; Cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, vice-presidente; Dom Charles Chaput, da Filadélfia, que receberá o Papa Francisco em setembro para o Encontro Mundial das Famílias; e Dom José Gómez, de Los Angeles, o hispânico de alto escalão na hierarquia americana.

Numa entrevista ao sítio Crux durante o Sínodo 2014, Kurtz disse que os bispos americanos desconfiam, em geral, da ideia de se mudar as regras relativa aos divorciados e recasados, acrescentando que eles têm uma “grande preocupação com a manutenção do vínculo matrimonial, da integridade deste vínculo”.

Alguns dos prelados asiáticos confirmados por Francisco, entretanto, parecem mais abertos para um repensar.

Dom Paul Bùi Văn Đọc, do Vietnã, por exemplo, disse em entrevista no ano passado que a questão dos divorciados e recasados sublinha uma tensão entre a “verdade e a caridade”, e falou que não há uma resposta óbvia, considerando “complicado” o problema.

Da mesma forma, há posturas fortemente contrastantes entre vários dos bispos europeus que se farão presentes no evento.

Dom Georges Pontier, de Marselha, na França, sinalizou uma abertura a novas abordagens sobre algumas questões de família, dizendo – durante uma coletiva de imprensa no Vaticano ano passado – que o Sínodo não deveria simplesmente repetir a linguagem já conhecida concernente ao ensinamento da Igreja sobre o matrimônio.

“Não é isso o que o Santo Padre quer”, disse Pontier.

O Cardeal Vincent Nichols, de Westminster, Inglaterra, disse, no ano passado, que apoiaria a Comunhão para divorciados que casaram pela segunda vez depois do que ele chamou de um “período penitencial exigente”.

Por outro lado, há também fortes conservadores culturais entre os europeus, incluindo o Cardeal Wim Eijk, da Holanda, e o Cardeal Audrys Bačkis, da Lituânia, que bem podem se juntar aos esforços contrários a tais propostas.

Até mesmo da Oceania, é difícil saber como as coisas podem se dar.

A pequena conferência episcopal da Nova Zelândia, por exemplo, poderia enviar o Cardeal John Dew, que tem um histórico de apoio à Comunhão aos divorciados e recasados. Mas, em vez disso, Dew foi escolhido como substituto e o delegado é Dom Charles Drennan, de Palmerston no Norte, quem tem assumido uma postura mais contraída em relação ao tema.

Em artigo recente, Drennan advertiu que as soluções propostas com base na misericórdia não deveriam vir à custa do “reconhecimento daquilo que é verdadeiro”, aparentemente sinalizando, ao menos, alguma dúvida sobre possíveis reformas.

A questão de fundo é que estas confirmações e escolhas não permitem dizer que haverá um claro consenso sobre assuntos controvertidos no Sínodo, e que um organismo assim dividido dificilmente dará ao papa um sinal positivo para seguir adiante nas alterações concernentes à família e os ensinamentos da Igreja.

Em vez disso, é provável que os participantes apresentem um retrato de suas divisões internas e que deixem as decisões finais para o papa tomar por si mesmo. Francisco não indicou ainda quanto tempo depois do término do Sínodo ele planeja esperar antes de tomar alguma decisão sobre assuntos tais como a Comunhão para os divorciados e recasados. Presume-se que este tempo vai depender, em certa medida, do que ele ouvir durante aquelas três semanas.

Assim, o drama pode não recair sobre o que os bispos dirão enquanto estiverem em Roma, mas sim sobre o que o Papa Francisco decidirá depois que eles forem para casa.

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