“Eu sou pastor e não político; nisso não sou Bergoglio”. Entrevista com Mario Poli

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Por: André | 02 Abril 2013

Dom Mario Aurelio Poli, novo arcebispo de Buenos Aires, é capelão nacional dos Escoteiros, associação que integra desde os cinco anos. Daí que, diante da proposta de seu amigo o Papa Francisco, de ser seu sucessor à frente da Arquidiocese portenha, sua resposta foi a clássica de um bom escoteiro, a de estar “sempre alerta”. Consciente de que chegará a Buenos Aires em um ano eleitoral, antecipa que procurará fazer com que a voz da Igreja seja ouvida pelos políticos não só nos atos celebrativos, mas também em outros espaços. Na quinta-feira à noite, após fazer um apelo ao diálogo e marcar como será sua relação com o governo, concedeu a seguinte entrevista à Silvina Premat, publicada no jornal argentino La Nación, 30-03-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como recebeu a nomeação para arcebispo de Buenos Aires?

Surpreendeu-me e me causou perplexidade. Vê-se que o Papa se levantou numa manhã e lhe ocorreu que seja arcebispo de Buenos Aires. Isto não estava nos meus planos, de maneira alguma. Mas, estou disposto a aceitar. Sou escoteiro desde os cinco anos e estou sempre pronto. Representa, para mim, uma renúncia, mas tenho presente a renúncia de Bento, que para mim foi virtuosa e exemplar, insólita e quase única na vida da Igreja. Um homem que tem todas as luzes, tão capaz, cujo magistério é muito luminoso, um teólogo de primeiríssima linha que deixou inspiração na Igreja. E agora ele [por Bergoglio] disse “sim” aos cardeais quando não estava em seus planos ser Papa. Eu o conheço muito bem, não tem aspirações. Então, não tenho razões para dizer que não. O que eu vou dizer, que gosto muito de La Pampa?

Com que expectativa assumirá esta responsabilidade?

Nada particular porque, na realidade, em todas as dioceses estamos assumindo as linhas apontadas por Aparecida. Trata-se da missão, da evangelização, de sair tendo presente as três notas do estilo pastoral que ele nos deixou e que os bispos assumiram: a proximidade, a alegria da fé e o entusiasmo. Não tenho expectativas nem tenho um plano pastoral. O plano já está feito. Nós temos que continuar a missão continental. O modelo que tenho é o de bispos caminhantes.

Como quem?

Como o santo de todos os bispos da América Latina, São Toríbio de Mogrovejo.

Então, seu plano é andar pela cidade.

Sim, enquanto minhas pernas aguentarem.

Continuará a usar a bicicleta em Buenos Aires?

Desde pequeno gosto muito de andar de bicicleta. Quando estava em Buenos Aires, tinha um pouco de cuidado. Os seis anos que estive em Buenos Aires andei de metrô e de trem. E Bergoglio foi exemplar nisso. Mas tem sido austero, sem trompetear. Agora aparecem muitas atitudes suas que ele fazia habitualmente com muita simplicidade.

A população de Santa Rosa diz que você é igual.

Não, bom, as pessoas agora começam a delirar.

Mas há fatos objetivos de um mesmo estilo de vida.

Depois de um exemplo tão grande, tendo a ele como Papa, que marca uma linha de austeridade...

É certo que, além de ter sido bispo auxiliar seu, Bergoglio e você são amigos?

Tive a graça de estar ao lado de dom Bergoglio, junto com outros sete bispos auxiliares de Buenos Aires. Ele dispensa sua amizade a muitos, é muito generoso. O Papa tem um milhão de amigos. A nossa amizade não é exclusiva e excludente. Entendo que há pessoas muito mais próximas. Há alguns dias, recordava que Aristóteles dizia que a amizade se dá entre semelhantes. Bom, ele salvou as dessemelhanças e ofereceu sua amizade muito generosamente. Ele não retinha os seus auxiliares. Dizia: “Quero que vão e sejam pastores”.

Você chega à capital em um ano eleitoral.

Bom, mas eu sou pastor e não político. Nisso eu não sou Bergoglio. Há um princípio na Constituição Gaudium et Spes de que gosto muito. É aquele que diz que com o Estado a Igreja se relaciona com colaboração e também distinção, as duas coisas. Não temos que nos opor por opor, mas também temos o nosso caráter profético. Quer dizer, dar o anúncio profético quando as circunstâncias se oferecerem e é necessário porque, como disse Jesus no Evangelho, “Se vocês calarem, as pedras falarão”.

Em que quis se diferenciar ao dizer que você não é Bergoglio: em sua habilidade política?

Bergoglio não deixou de ser pastor em nenhum momento. Me referi ao fato de que tem um temperamento diferente, tem mais experiência e está muito melhor preparado do que eu; foi professor de literatura e escreve muito bem, suas homilias são cativantes. Somos diferentes. Não quero me colocar em seus sapatos; tudo me parece grande, mas confio em Deus.

Promoverá uma maior intervenção pública da Igreja?

Gostaria que houvesse também outros meios e não somente a homilia dos atos celebrativos porque, às vezes, se concentrou um pouco o interesse aí. Creio que é preciso participar e entrar em um diálogo na medida em que se possa, e fazer sentir a nossa voz. Creio que os pastores não têm que perder o contato com as pessoas. E aqui recolho o que dizia dom Angelelli: “O sacerdote tem que ter um ouvido posto em Deus e outro no povo”. Angelelli é um santo para mim, um santo mártir.

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