11 Setembro 2014
Quando o verão se transformar em outono [no hemisfério norte], a história mais convincente em Roma será um encontro altamente antecipado de bispos católicos de todo o mundo, que configura-se como um importante teste do quanto o status quo na Igreja tem sido abalado por um papa carismático de um terra estrangeira que conquistou o mundo.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 09-09-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
Chamado de "sínodo dos bispos", o encontro parece destinado a lidar com a controversa questão da proibição da Igreja de que católicos divorciados e novamente casados recebam a comunhão. Embora o czar doutrinal alemão do Vaticano tenha advertido que nenhuma mudança é possível, sua advertência não contribui muito para abafar o debate.
Um cardeal, considerado um leão do catolicismo liberal europeu, utiliza uma plataforma em Roma para defender uma abordagem mais compassiva, baseada no modelo ortodoxo de penitência depois de um primeiro casamento fracassado. Prelados mais conservadores insistem que qualquer liberalização iria entrar em conflito com um ensinamento que vem do próprio Jesus: "O que Deus uniu, o homem não separe".
Qualquer um que tenha prestado atenção sabe que essas linhas caem como uma luva para a preparação do sínodo dos bispos deste ano sobre a família em Roma, de 5 a 19 de outubro, convocado pelo Papa Francisco.
Na verdade, porém, elas datam de outubro de 1999, quando aconteceu o sínodo dos bispos europeus, convocado pelo Papa João Paulo II. Na época, estrelas da esquerda, como os cardeais Godfried Danneels, de Bruxelas, e Carlo Maria Martini, de Milão, pressionavam para reabrir uma questão que o Vaticano de João Paulo havia declarado encerrada cinco anos antes.
Em 1993, três bispos alemães tinham apresentado uma carta pastoral dirigida aos católicos que se divorciam e se casam novamente sem obter uma anulação, isto é, uma declaração feita por um tribunal da Igreja dizendo que o casamento nunca existiu por não cumprir um dos testes de validade, por exemplo, o consentimento expresso. Os bispos diziam que se tais católicos decidissem em sã consciência que o seu primeiro casamento tinha sido inválido, com o aconselhamento de um padre, eles poderiam receber a comunhão.
Um documento do Vaticano, de 1994, do então cardeal Joseph Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI), rejeitou a iniciativa dizendo que a proibição da comunhão é uma questão de revelação divina e não pode ser modificada por bispos individuais por sua própria conta.
No sínodo de 1999, os bispos que buscavam mudanças tentaram revisitar esse veredicto. De forma notória, Danneels pediu que o catolicismo 'roubasse' uma página dos ortodoxos, para quem os sacramentos são vistos como "remédio para a alma" ao invés de um privilégio conquistado por seguir as regras. No entanto, ao final, Ratzinger e outros defensores da tradição mantiveram a linha.
Essa breve lembrança de coisas passadas ajuda a pôr em foco o que é antigo no debate sobre o divórcio no sínodo de 2014, em oposição ao que é verdadeiramente novo.
1. Antigo: bispos discordam entre si
Não é novidade que os prelados católicos trocam golpes em público, embora eles certamente estejam acontecendo com vigor nos últimos tempos.
Em outubro de 2013, o arcebispo Gerhard Müller, czar doutrinal do Vaticano, publicou um longo ensaio no jornal do Vaticano, argumentando que o ensinamento da Igreja sobre a permanência do casamento não é uma questão em aberto, basicamente repetindo a posição de Ratzinger de 19 anos atrás. Francisco, mais tarde, elevou Müller a cardeal.
Em resposta, o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, coordenador do conselho de cardeais que assessoram o papa, rebateu dizendo que Müller "é alemão e, ainda por cima, um professor alemão de teologia, por isso em sua mentalidade só existe a verdade e a mentira".
"Mas eu digo, meu irmão, o mundo não é assim, e você deve ser um pouco flexível quando ouvir outras vozes", disse Rodriguez. "Isso significa não apenas ouvir e depois dizer não".
Em fevereiro de 2014, Francisco convocou os cardeais a Roma para pôr a mesa para o sínodo. Para ajudar no negócio, ele voltou-se para o cardeal alemão Walter Kasper. Em 1993, Kasper tinha sido um desses três bispos alemães que tentaram abrir a porta, e ele também tinha sido duramente crítico da resposta negativa de 1994 do Vaticano.
Kasper argumentou pelo relaxamento da proibição da comunhão durante o seu discurso de fevereiro, recebendo uma forte repreensão do cardeal Carlo Caffarra de Bolonha, Itália, que insistiu que até mesmo o papa "não tem poder" para alterar um ensinamento enraizado no ensino explícito de Cristo.
Continuamente, uma série de bispos tomam posições a favor ou contra a mudança da disciplina atual. No início deste mês, por exemplo, o bispo Johan Bonny de Antuérpia, na Bélgica, disponibilizou uma reflexão de 22 páginas sobre o sínodo, que, entre outras coisas, pede para a Igreja "explorar formas de conceder acesso à Eucaristia, em determinadas circunstâncias, a pessoas que estão divorciadas e casadas novamente".
2. Antigo: católicos realmente se preocupam com esta questão
Também não é novidade que a questão da comunhão para os católicos divorciados e recasados é de um enorme interesse popular.
Só nos EUA, de um total de quase 30 milhões de católicos casados, cerca de 4,5 milhões são divorciados e recasados, sem a anulação, de acordo com Mark Gray do Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado da Universidade de Georgetown. O total global inclui vários milhões de pessoas adicionais.
Além disso, o número de católicos que se casam na Igreja e o número de anulações estão em declínio constante, o que significa que um número crescente de católicos estão em casamentos "irregulares" e, portanto, tecnicamente, impedidos de receber a comunhão.
Com certeza, alguns desses católicos são não-praticantes e não se importam com a proibição. Com certeza, também, outros foram discretamente incentivados por seu pároco local para receber a comunhão, apesar das regras. No entanto, o número de católicos, pelo menos potencialmente afetados excede largamente a maioria das outras questões que o sínodo parece que provavelmente irá discutir.
3. Antigo: os argumentos são familiares
Os argumentos dessa vez são basicamente os mesmos do passado, em parte porque praticamente são as mesmas pessoas que os definem.
Para os da esquerda, é uma questão de misericórdia, juntamente com o benefício ecumênico de levar o catolicismo para mais perto da prática ortodoxa.
Para os da direita, é uma questão de fidelidade à tradição, com o benefício político de não mostrar fraqueza no momento em que eles acreditam que o casamento tradicional está sob ataque secular.
1. O que há de novo? Adivinha quem?
Então, o que é diferente em 2014? Em uma palavra, é Francisco, porque, pela primeira vez, o coração do papa parece estar com os reformadores.
Francisco tomou a bola, respondendo uma pergunta sobre os divorciados que voltaram a casar durante uma coletiva de imprensa no seu retorno do Brasil para Roma, em julho de 2013.
"Eu acredito que esse é um tempo de misericórdia", disse ele. "A Igreja é mãe, ela deve sair e curar os feridos, com misericórdia". Ele também citou a prática ortodoxa de permitir um segundo casamento após um período de penitência.
Isso não significa que o papa queira mudança, mas a resposta deixou a impressão de que ele está aberto a ela.
Desde então, ele deu outras dicas, incluindo a decisão, em fevereiro, de apontar Kasper para preparar a mesa.
Outra dica veio em abril, quando o Vaticano minimizou, mas nunca negou que Francisco tivesse telefonado para uma mulher argentina chamada Jacquelina Lisbona cujo marido é divorciado e em segunda união, sem anulação, e cujo padre local se recusou a dar-lhe a comunhão. Lisbona escreveu ao pontífice, que supostamente aconselhou-a a encontrar um sacerdote mais compreensivo.
As expectativas tornam-se tão inquietantes que, em outubro de 2013, um porta-voz do Vaticano teve que suplicar aos líderes da Igreja para não adiantarem-se ao papa, pedindo-lhes para esperar por uma mudança de política a ser anunciado em Roma antes de implementá-la localmente.
2. O que há de novo? Ninguém sabe o que vai acontecer
Diante de tudo isso, a principal diferença do sínodo dos bispos de 2014 é que, pela primeira vez, o resultado da discussão parece genuinamente incerto.
Em uma nota relacionada, a outra diferença é o interesse da mídia que o sínodo está gerando.
Isso porque o cabo-de-guerra sobre os católicos divorciados e recasados alimenta a maior pergunta que muitas pessoas têm sobre o Papa Francisco, que é a natureza exata da mudança que ele parece querer.
É tudo uma questão de tom e estilo, juntamente com uma preocupação mais ardente pelos pobres? Ou em algum momento, Francisco também começará a rever o ensino e a disciplina católica?
Na maioria das questões polêmicas, Francisco já tirou tais movimentos de cima da mesa. Sua disposição de, pelo menos, entretê-los no que diz respeito aos divorciados e recasados, portanto, testa quão profundas serão suas reformas.
Não vamos obter uma resposta imediata, porque este sínodo está, na verdade, projetado para ser uma preparação para um maior sobre o mesmo assunto no próximo ano. É difícil avaliar as chances de um avanço no final da estrada, em parte porque Francisco disse que quer atuar em conjunto com os bispos do mundo, e alguns desses bispos parecem determinados a resistir.
Em uma série de entrevistas ao jornal Boston Globe, em fevereiro, três importantes cardeais norte-americanos: Sean P. O'Malley, de Boston, Timothy Dolan, de Nova York e Thomas Collins, de Toronto - manifestaram-se contra qualquer mudança. Dolan reiterou sua posição em uma entrevista recente ao Crux, dizendo que relaxar a proibição da comunhão "vai contra o ensinamento da Igreja".
Alguns bispos africanos também têm manifestado reservas quanto a relaxar a proibição da comunhão, acreditando que isso prejudicaria os esforços para romper o domínio da poligamia em suas sociedades. Se a Igreja for percebida como estar afrouxando suas regras sobre o casamento de divorciados, eles se preocupam, o que iria impedir os polígamos de também querer atenção especial?
No nível político, observadores esperam que a maioria dos norte-americanos presentes no sínodo a opor-se a qualquer alteração nas regras atuais, unindo-se a muitos africanos. Os europeus, latino-americanos e asiáticos parecem ser os mais divididos, mas em qualquer caso, a maioria dos analistas não antecipam um forte consenso de uma forma ou de outra.
Além disso, Francisco pode ser persuadido de que há opções para ajudar os divorciados que voltaram a se casar sem que se derrube a proibição da comunhão, como a racionalização do processo de anulação e através do investimento de recursos nos tribunais da Igreja em regiões do mundo que atualmente não têm.
Os bispos também poderiam basicamente decidir que esses são julgamentos pastorais individuais e não qualquer coisa que possa ser resolvida no nível da regulamentação, bem como quando um congresso dividido decide deixar algum assunto polêmico para que os Estados resolvam individualmente.
Embora esses fatores tornam difícil prever o que Francisco poderá fazer, eles também aumentam o drama do sínodo. Seja qual for o caminho que as coisas tomarem, por duas semanas em outubro, todos os olhos estarão em Roma.