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Walter Kasper, o teólogo de Francisco

Pouco antes do Natal, Francisco lhe tinha dito que o havia escolhido como único relator do consistório extraordinário sobre a família que abriu na manhã dessa quinta-feira no Vaticano. Afinal de contas, o cardeal Walter Kasper tinha sido o protagonista involuntário do primeiro Angelus do recém-eleito Bergoglio, no dia 17 de março passado: "Nestes dias, pude ler um livro do cardeal Kasper, um teólogo em forma, sobre a misericórdia", dissera o papa argentino, citando o livro que o purpurado alemão lhe havia presenteado na clausura de Santa Marta antes da fumaça branca – os dois eram vizinhos de quarto.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 20-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Esse livro me fez muito bem (Misericordia, Ed. Queriniana). Ele dizia que a misericórdia muda tudo. É o melhor que podemos sentir: muda o mundo. Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo". E nos últimos meses e em antecipação ao Sínodo, eminentes príncipes da Igreja – do hondurenho Oscar Maradiaga ao presidente do ex-Santo Ofício, Gerhard Ludwig Müller – e bispos diocesanos debateram sobre o significado da misericórdia. Alguns, usando esse termo como instrumento para lavar todas as culpas; outros, advertindo sobre o risco de banalizá-lo fazendo-o se tornar sinônimo de compaixão ou tolerância.

Kasper, fino estudioso que se formou na gloriosa faculdade teológica de Tübingen – onde se queria fazer teologia "no fluir aberto do tempo" –, coloca como premissa que não tem nenhuma intenção de entrar no debate sobre a readmissão aos sacramentos dos divorciados em segunda união. A tarefa que lhe foi confiada pelo papa é a de "fornecer um fundamento teológico para a discussão", nada mais.

Além disso, a sua posição sobre a questão é clara há muito tempo: "O que é possível a Deus, ou seja, o perdão, também deve valer para a Igreja", dizia ele há um mês em uma entrevista ao jornal alemão Zeit. Conceito reiterado na última quarta-feira de manhã, às margens de um evento em Roma: "Todo pecado pode ser absolvido e perdoado. Esse é o ponto de partida. Não é imaginável que alguém possa cair em um buraco negro do qual Deus não pode tirá-lo".

As expectativas são altas, mas é preciso agir com prudência, pois o risco de tropeçar quando se trata de sacramentos e pecado está sempre ao dobrar a esquina: "Ainda não temos os resultados completos dos questionários pré-sinodais. Sabemos o que se pensa em alguns países da Europa, mas e os outros? Vamos ver o que os africanos pensam". Em todo caso, diz Kasper, "a doutrina não é uma lagoa estagnada. A vida cristã é um caminho, um ponto de partida, não de chegada".

Oitenta e um anos, fora das fileiras dos cardeais eleitores em um futuro conclave, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o "bom teólogo" Kasper foi durante anos a antítese curial do compatriota Joseph Ratzinger, quando este ocupava o cargo de guardião da ortodoxia católica. Doutor em teologia em Tübingen em 1961, assistente por três anos de Hans Küng, chamado a Roma em 2001 por João Paulo II para lidar com as relações com os cristãos separados e com o mundo judaico: "Depois da temporada de Willebrands e Cassidy, de muitas partes indicava-se a Wojtyla que o ecumenismo precisava de um alemão", revelou uma velho curial. E Kasper, então secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, depois de ter renunciado à cátedra episcopal de Stuttgart, foi promovido a presidente.

Afinal, ele era um dos maiores especialistas do assunto: em 1967, foi acolhido na comissão internacional para o diálogo luterano-católico e, já então, era reconhecido como o principal teólogo da Alemanha pós-conciliar. Muitos o consideravam um dos poucos capazes de manter o debate com Ratzinger em bases teológicas. Entre os dois, as relações viveram altos e baixos, como lembrara o próprio Bento XVI em 2008, por ocasião do 75º aniversário de Kasper: "Nem sempre fomos da mesma opinião, mas sempre soubemos que estávamos juntos caminho a serviço de Cristo e da Igreja".

Entre os dois teólogos – ambos foram titulares da cátedra de teologia dogmática em Tübingen –, foram diferentes os pontos de contraste: se Ratzinger defendia o primado da Igreja universal sobre a local, Kasper reiterava a necessidade de atribuir cada vez mais autonomia às Igrejas locais, ao ponto de fazer com que elas mesmas elegessem os seus bispos. Uma posição bem presente ainda hoje em uma parte considerável do episcopado alemão.

E, ainda há um ano, na véspera imediata do conclave, Kasper destacava a necessidade de implementar "uma reforma" que criasse "um governo horizontal da Igreja para sair das águas rasas do centralismo romano". A própria interpretação do papel do pontífice havia criado um fosso entre os dois: enquanto Kasper teorizava a necessidade de repensar o ministério petrino para despojá-lo de todos os elementos anacrônicos – não por acaso ele teria elogiado em uma entrevista ao jornal Il Foglio de julho passado o abandono da corte pontifícia por parte de Francisco –, ainda na década de 1970 Ratzinger esclarecia que, "ao insistir apenas no aspecto pastoral, corre-se o risco de representar não o pastor da Igreja universal, mas sim um fantoche universal a ser manobrado à nossa vontade".

Mas é sobre o ecumenismo que o modo de ver as coisas entre os dois estava nos antípodas. Para Ratzinger, as várias Igrejas deveriam se reconhecer unidas cum e sub Petro, enquanto para Kasper o diálogo seria possível até mesmo sem esse reconhecimento. No entanto, apesar de perfis tão diferentes, Bento XVI não se privou da "inteligência do compatriota" até 2010, deixando-o na Cúria bem além dos 77 anos de idade.

De Kasper, o hoje papa emérito apreciava a prudência e o rigor teológico, também com relação à leitura daquilo que foi o Concílio Vaticano II, com o qual – o purpurado também o disse recentemente – "não se pretendia uma adaptação banal ao espírito dos tempos, mas sim o apelo a fazer falar a fé transmitida e traduzida no hoje".

O problema do mundo moderno, anotava Kasper há algum tempo atrás, desta vez em sintonia com Ratzinger, é que "Deus, para muitos, não é mais um problema. Parece que Ele não interessa mais. É intrigante que os sem Deus não são mais maus e não parecem menos felizes do que aqueles que creem".

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