Breve glossário ontológico-anarquista

Por: Ricardo Machado | 17 Janeiro 2019

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza nesse semestre o evento Ontologias Anarquistas. A estranheza do título, por sua aparente contradição entre os termos, expressa uma provocação e um tensionamento. Embora as palavras tenham uma origem etimológica grega, seus usos e apropriações divergem (sem serem opostos) nos campos de estudo, de modo que o primeiro é mais estudado pela filosofia e o segundo pela sociologia. No sentido mais geral, o termo ontologia remete àquilo que se convencionou chamar de natureza do ser, isto é, a algo que lhe é intrinsicamente dado. Já o termo anarquismo, de viés mais sociológico, diz respeito, em sentido amplo, à ausência de um governo centralizador, modelizador, isto é, o Estado, seja ele (neo)liberalconservador ou desenvolvimentista.

A expressão que nos inspira, no entanto, tem origem em uma fala de Viveiros de Castro, antropólogo brasileiro, em que ele disserta sobre a necessidade de postular um “anarquismo ontológico” em contraposição àquilo que ele chama de “santíssima trindade moderna”: “O Estado, pai; o Mercado, filho; a Razão, espírito santo” (ver vídeo a seguir). Nesse sentido, o evento Ontologias Anarquistas apresenta uma série de quatro conferências que enfrentam questões contemporâneas ligadas à políticaarte, filosofia, literatura e psicanálise, desde uma inspiração no pensamento dos povos nativos do Brasil.

 

Nosso breve glossário ontológico-anarquista tem o simples desejo de apresentar noções chaves que norteiam os debates da programação, mas sem entrar em detalhes teóricos, apenas demonstrando como tais ideias e palavras podem nos ajudar a pensar outros rumos para nossos desafios.

 

Breve glossário ontológico-anarquista

Ontologias Anarquistas: a aparente contradição entre os termos tem o objetivo de produzir tensionamento sobre seus significados. Diz respeito a perspectivas teóricas, políticas e estéticas que surgem como tensiosamento às formas hegemônicas de pensamento. Inspira-se no pensamento nativo e nas expressões culturais populares que operam em contraposição à razão de Estado e dos imperativos de Mercado.

Antropofagia: o termo ganhou fama e status teórico com Oswald de Andrade, sobretudo após a Semana de Arte Moderna e a publicação, anos mais tarde, do Manifesto Antropófago. O termo remete à expressão estética e política dos rituais praticados pelos Tupinambá, ainda no século XVI, em que os indígenas comiam os inimigos virtuosos, e tão somente os virtuosos, capturados em combate, pois acreditavam se apropriar de suas qualidades. Na versão oswaldiana o termo passou a figurar como um gesto de valorização à cultura nativa em contraposição ao beletrismo europeu, que marcou um desejo estético nas oligarquias culturais e econômicas do Brasil das primeiras décadas do século XX.

Moral enlatada: a expressão foi cunhada por Oswald em seu Manifesto Antropófago em que ele descreve a posição política de quem defende “a moral e os bons costumes”, carregada de boas doses de conservadorismo e machismo. A noção é uma crítica a ontologias morais a priori em que os sujeitos abrem mão de uma autonomia crítica, de pensar eticamente sua ações, em nome de uma moral prêt-a-porter.

Pindorama: o termo, em tupi, significa “terra das palmeiras”. Essa é a forma que muitas etnias que ocupavam o território compreendido pela Mata Atlântica se referiam ao que hoje chamamos Brasil. O termo é retomado por Oswald de Andrade ao propor o “Matriarcado de Pindorama” como alternativa ao patriarcalismo de origem europeia, que marcava (e ainda marca) as relações sociais no Brasil, que há pouco havia se tornado República.

 

Serviço - Ontologias Anarquistas

Período: 03 de abril a 30 de maio de 2019
Local: Campus Unisinos Porto Alegre
Investimento: R$ 10,00 (dez reais) por atividade
Carga horária: 10 horas

 

Eventos do IHU em 2019

 

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