A nova encíclica de Francisco nascida do diálogo com o Islã e do Covid. Artigo de Alberto Melloni

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17 Setembro 2020

"A encíclica é o ato típico com o qual nos últimos dois séculos o papado assume posição teológica ou política. Com uma encíclica, o pontífice pode marcar uma virada, pode anunciar temporadas de repressão, pode marcar uma ruptura, ou tornar-se o lugar onde eram justapostas as teses divergentes de todos aqueles que adoram se citar, sempre com a premissa 'como diz o papa'", escreve Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por Domani, 15-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Omnes fratres, ou seja, Fratelli tutti: esse será o nome da encíclica que o Papa Francisco assinará no dia 3 de outubro de Assis. Formalmente é a terceira, mas (excluindo Lumen Fidei, assinada em respeito ao antecessor, Joseph Ratzinger, que a havia quase concluído) é apenas a segunda vez que Jorge Bergoglio recorre a esse gênero literário. E, como no caso da Laudato Si', pede emprestado o incipit a São Francisco: desta vez da Admoestação VI, datada por volta de 1221 e contida no código 338 da biblioteca do Sagrado Convento.

A encíclica é o ato típico com o qual nos últimos dois séculos o papado assume posição teológica ou política. Com uma encíclica, o pontífice pode marcar uma virada, como aconteceu com a Rerum Novarum em 1891. Pode anunciar temporadas de repressão como aquela aberta pela Pascendi de Pio X em 1907 (mesmo que o padre Olinto Morella, uma de suas vítimas, seja beatificado em 4 de outubro) ou a da Humani Generis de 1950, uma das quarenta e uma encíclicas de Pio XII que, em nome de um totalitarismo doutrinário, puniu os teólogos católicos (como von Balthasar, Congar, Daniélou, De Lubac, Grillmeier, Ratzinger que se tornariam cardeais após o Concílio). Pode marcar uma ruptura como foi em 1969 para Paulo VI a Humanae vitae sobre a contracepção, ou tornar-se o lugar onde, como Karol Wojtyla costumava fazer, eram justapostas as teses divergentes de todos aqueles que adoram se citar, sempre com a premissa "como diz o papa".

Bergoglio se moveu diante desse gênero literário com liberdade. Ele não fez uma "encíclica programática", mas assinou a extraordinária exortação apostólica Evangelii Gaudium. Publicou a Laudato Si', que é uma encíclica verde, mas na qual acolheu a teologia escatológica da criação do patriarca ecumênico Bartolomeu. E agora preparou a mais longa, "sobre a fraternidade e a amizade social". Não será a encíclica que vai agitar a bandeira branca diante do Islã, como sussurram os sites reacionários órfãos de Steve Bannon, o profeta de uma conversão fundamentalista antipapal do catolicismo, agora na prisão. Mas será a encíclica que defende a unidade da família humana, princípio que as pessoas de fé não podem permitir que seja corroído pelo cinismo metafísico, que considera os males do mundo global muito vistosos para serem levados a sério, e pelo racismo disfarçado de quem considera fatal a miséria de meio mundo.

A montante desta encíclica existem dois eventos.

O primeiro é a declaração sobre a fraternidade humana, assinada em 4 de fevereiro de 2019 em Abu Dhabi junto com o grande imã da mesquita de al-Azhar, figura de respeito a quem todos perdoam algumas declarações durante a intifada e que não tem para todos os muçulmanos a representatividade que os católicos lhe atribuem. Ato importante para fazer dos Emirados um lugar de diálogo, a declaração é piegas em algumas passagens, como quando explica que a crise no mundo é causada por um "afastamento dos valores religiosos" derivados das "filosofias materialistas", propõe dar uma "moral sólida" para as crianças e repete o fácil refrão sobre a violência fundamentalista como "desvio" e "abuso político" da religião.

Mas tem um incipit fulgurante, profético e comovente com a qual as pessoas de fé tomam a palavra não em nome de um genérico "deus único", insuportavelmente abstrato para a tradição bíblica e corânica, mas em nome da igualdade e da liberdade de cada membro da família humana, dos povos vítimas da guerra e dos alicerces da justiça para os pobres e torturados, para os fugitivos e os assassinados. Tornar aquele incipit um pensamento completo é a origem e o desafio da Fratelli tutti.

Rezar todos juntos?

O segundo acontecimento é a pandemia e o desafio de uma ameaça em que a opulência se descobriu frágil e as ditaduras menos eficazes das democracias: foi precisamente ao pregar uma passagem do profeta Jonas em meados de maio que Francisco relançou a ideia de uma comunhão em oração dos fiéis. E respondeu a quem prevenia que lhe seria contestado que não se pode rezar juntos porque isso implicaria um "relativismo religioso". E ele respondeu: “Mas como não seria possível, orar para o Pai de todos? Somos todos unidos como seres humanos, como irmãos, orando a Deus. Segundo a própria cultura, segundo a própria tradição, segundo as próprias crenças: mas irmãos”.

A questão era delicada porque tocava em um daqueles pontos doutrinários em que o magistério católico não muda de posição, mas de paradigma. De fato, existe todo um magistério que o integrismo reacionário levantará contra a encíclica de Francisco: lhe será oposto Pio X que atacava a "construção puramente verbal e quimérica" em que via "brilhar em confusão sedutora as palavras de liberdade, justiça, fraternidade e amor, igualdade e exaltação humana, tudo baseado em uma dignidade humana mal compreendida ”(Notre charge apostolique, 1910); lhe será contraposto Pio XI, que em 1928 havia zombado do diálogo com "os infiéis de todas as gradações, cristãos e mesmo aqueles que apostataram de Cristo ou que com obstinada persistência negam a divindade de sua Pessoa e de sua missão"; e se recordará que Bento XVI tinha escrito em 2005 que “deve ficar claro que não existem as religiões em geral, que não existe uma ideia comum de Deus e uma fé comum nele, que a diferença não afeta apenas o âmbito das imagens e formas conceituais mutáveis, mas as próprias escolhas últimas”.

No meio, porém, houve o Vaticano II, a declaração Nostra aetate e a descoberta do Judaísmo como sacramento de toda alteridade, que ensina à igreja que em tudo o que é irredutível a toda assimilação existe a raiz de uma compreensão de si diferente, naquela linha indicada pelo Papa João que, aos que o criticavam por ter mudado demais, respondia "não é o Evangelho que muda, somos nós que começamos a compreendê-lo melhor".

Talvez não seja por acaso que o Fratres sumus que ele tomava do episódio bíblico em que José encontra os irmãos que o haviam vendido (Gênesis 42,13), fosse um leitmotiv, também citado no famoso discurso de "façam uma carícia em seus filhos", que hoje retoma sabor nas palavras do Papa Francisco e na recepção do Vaticano II. Uma recepção "crescente", isto é, que apreende pontos de forças do magistério conciliar e os leva à sua realização, em vez de se contentar com citações (que) nunca faltaram numa época que acreditava que o Vaticano II fazia parte do passado remoto da Igreja.

O tema da fraternidade humana estava no centro da histórica declaração, assinada em 4 de fevereiro de 2019 em Abu Dhabi pelo papa juntamente com o grande imã da mesquita de al-Azhar.

 

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