Nova encíclica do Papa Francisco poderá sofrer críticas por seu título aparentemente sexista

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10 Setembro 2020

"Rezemos para que a linguagem da nova encíclica não nos distraia de seu conteúdo", escreve Thomas Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 09-09-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Posso antever as manchetes: “Encíclica papal condenada como sexista”.

Ufa!

Mês passado, o bispo italiano Domenico Pompili revelou que o Papa Francisco está preparando uma nova encíclica – a terceira de seu pontificado e a primeira em cinco anos – para enfocar a mudança econômica, ambiental e espiritual necessária na abordagem dos desafios modernos. Com lançamento marcado para 3 de outubro, véspera do Dia de São Francisco de Assis, a encíclica terá como título “Fratelli tutti” em italiano ou, traduzido estritamente, “Irmãos todos”.

A esperança é que a tradução inglesa oficial de “Fratelli tutti” seja “Brothers and sisters all” (Irmãos e irmãs todos), porém é triste ver a Igreja continuar sofrendo com feridas autoinfligidas. Seria fácil ter intitulado a encíclica “Fratelli e sorelle tutti”. A preocupação referente à linguagem no título só aumentará o foco sobre linguagem empregada em toda a encíclica.

A resposta do Vaticano será a de que “fratelli”, em italiano, é uma palavra inclusiva. Com certeza. Isso é o que dizíamos de “brothers” e “men” [irmãos e homens] em nosso idioma. A Igreja não poderia se adiantar uma vez na vida?

“A cultura italiana [e argentina] não chegou ao ponto onde a linguagem patriarcal se torna ofensiva e inaceitável”, reconhece Lisa Cahill, professora de teologia na Boston College.

Porém, notou ela, “não se pode explicar a questão da inclusão de gênero à parte das regras gramaticais, o que servia de justificativa para a linguagem exclusiva inglesa antigamente. Tecnicamente, ‘man’ e ‘he/his’ [homem e ele/dele] eram palavras inclusivas, no entanto direcionam a imaginação no sentido dos homens como sendo os referentes primários, se não exclusivos, motivo pelo qual caíram em desuso na medida em que as culturas se tornaram mais igualitárias em termos de gênero”.

Cahill fala que o clamor para com a língua inglesa nos Estados Unidos é “previsível porque o este palavreado está fora de sintonia com a cultura”.

No entanto, acrescentou, a maior parte do dano “irá recair nas culturas patriarcais onde esta terminologia simplesmente vai reforçar a posição marginal e silenciada que as mulheres sempre tiveram”.

Alguns teólogos talvez teriam preferido que Francisco empregasse o termo “solidariedade”, conceito do qual ele demonstra gostar e que é abstrato e impessoal em comparação com “fraternidade”.

“Imagino que grande parte do desejo de Francisco seja o de personalizar a solidariedade com a fraternidade”, explica Vincent Miller, professor de teologia e cultura na Universidade de Dayton. “Assim que explicamos solidariedade, muitos passam a gostar. ‘Irmão e irmã’ funcionam sem explicação”.

Francisco também considera “fraternidade” como um termo que transcende as religiões e as culturas, como no documento sobre a “A fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum”, que ele e o Grão Imam de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram em fevereiro de 2019 em Abu Dhabi.

Mas referências de parentesco, como a da fraternidade, também possuem os seus problemas específicos.

Em artigo de 2010 publicado na revista Theological Studies, o jesuíta nigeriano Agbonkhianmeghe Orobator observa que parentesco e metáforas envolvendo membros da família podem validar a lealdade tribal e grupal, o que vemos não só na África como também na política eleitoral americana de hoje. Qualquer que seja a metáfora, sempre há a necessidade de conduzirmos o nosso pensamento em direção ao universalismo.

A maior preocupação, conforme sugerem Cahill e Miller, é que toda essa discussão em torno de uma linguagem sexista distraia a imprensa daquilo que Cahill e Miller esperam ser o conteúdo excepcional da encíclica, que enfocará a maneira como o ensino social católico se relaciona com o mundo hoje.

A imprensa “se relaciona primeiramente com a alternativa mais fácil”, queixa-se Cahill, ao focar-se no tema “a Igreja Católica é sexista”.

“Não creio [dando-lhe o benefício da dúvida] que o Papa Francisco esteja tentando intencionalmente confinar a mulher a um lugar menor”, diz a professora. “Trata-se de uma inércia eclesial, limitação cultural e surdez tonal”.

Cahill, Miller e outros teólogos temem que a nova encíclica seja tratada pela imprensa como foi o Sínodo para a Amazônia, onde toda a atenção voltou-se para “quem pode ser ordenado”, com um foco limitado para as questões indígenas e na participação. Esta obsessão da imprensa ainda chateia Francisco, quem acha que as questões da Amazônia debatidas no sínodo – a devastação das florestas, os povos indígenas e suas culturas – não receberam uma cobertura apropriada.

Rezemos para que a linguagem da nova encíclica não nos distraia de seu conteúdo.

 

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