Misericórdia como princípio da diversidade reconciliada. O Jubileu e o grande ato de misericórdia que foi o Vaticano II. Entrevista especial com Andrea Grillo

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03 Abril 2016

“O espaço da misericórdia é mais amplo do que o da justiça, sem ser com ele contraditório”, diz o teólogo.

Foto: http://catecom.blogspot.com.br/

“A misericórdia é o horizonte do perdão”, porque a “‘dependência do outro’ é a condição para se desejar, em primeiro lugar, a comunhão com o outro”, diz Andrea Grillo ao comentar o conceito que orienta o Ano Santo Extraordinário instituído pelo Papa Francisco, iniciado em 8 de dezembro do ano passado. Assim, explica, o anúncio da misericórdia “passa, inevitavelmente, por uma profunda redescoberta do ‘outro’”, no sentido de “ser capaz de ‘tirar os sapatos diante da terra sagrada do outro’”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Grillo frisa que o pontificado de Francisco pode ser entendido como “‘conversão à misericórdia de Deus’, somente se levarmos a sério o perfil ‘exigente’ desta misericórdia. Isto é, se redescobrirmos que, em face de uma renovada primazia da desproporção da misericórdia’, tantas ‘lógicas proporcionais’ devem ser relidas com grande cuidado”.

Como exemplo prático de sua reflexão, o teólogo cita a relação da igreja com as “famílias irregulares”. “Descobrir que também as ‘famílias irregulares’ devem ser capazes de perdão e de serem perdoadas exige da Igreja não só a capacidade de anunciar a misericórdia, mas também uma nova capacidade de ‘geri-la’ e ‘administrá-la’”, sugere.

Grillo lembra que o conceito teológico de misericórdia não é unívoco e ao longo da história já foi entendido “predominantemente” como “uma negação da justiça e da força” à medida que “ser misericordioso” significava “não ser suficientemente determinado na verdade, ser confuso, ser fraco, até mesmo ser injusto!”. Contudo, pontua, “misericórdia é o coração do anúncio do Evangelho, o centro da ‘nova aliança’, o significado da morte e ressurreição, o verdadeiro ‘dom’ que é o Espírito Santo”.

Andrea Grillo é teólogo italiano, leigo, especialista em liturgia e pastoral. Doutor em Teologia pelo Instituto de Liturgia Pastoral, de Pádua, é professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. Também é membro da Associação Teológica Italiana e da Associação dos Professores de Liturgia da Itália.

Confira a entrevista.

Foto: montfort.org.br

IHU On-Line - Como compreender o conceito de misericórdia? Quais seus significados para além da teologia?

Andrea Grillo - O conceito teológico de misericórdia se coloca numa "região" da consciência, rica de reflexões não unívocas. Viemos de uma longa história - antiga e moderna - que olhava a misericórdia com desconfiança, quase como uma negação da justiça e da força. Ser "misericordioso" significava - dentro e fora da Igreja - não ser suficientemente determinado na verdade, ser confuso, ser fraco, até mesmo ser injusto! Mais do que um "além" da teologia, devemos estar cientes de que há um "aquém" da misericórdia que tende a limitar seu alcance. Um reflexo deste "aquém" é facilmente encontrado em todas aquelas leituras da "misericórdia cristã", que não conseguem colher a "lógica da conversão", da proporção da justiça no primado do amor, que Deus oferece gratuitamente ao homem. Misericórdia é o coração do anúncio do Evangelho, o centro da "nova aliança", o significado da morte e ressurreição, o verdadeiro "dom" que é o Espírito Santo.

IHU On-Line - Quais são os ideais de misericórdia em que Bergoglio se apoia e qual é a novidade da abordagem da misericórdia no seu pontificado?

Andrea Grillo - O ministério episcopal de Francisco, Bispo de Roma, caracterizou-se, desde o início, pela "alegria de evangelizar", identificada com a "misericórdia" reservada a todos e a cada um. A Igreja torna-se, em primeiro lugar, "anúncio de misericórdia". E é evidente que esta "concentração" determina, de imediato, uma grande tensão e algum desconforto em relação ao estilo a que estavam acostumados. A igreja, agora, só pode ser ela mesma se "ouvir e proclamar", portanto, se "sair de si mesma", se renunciar a qualquer "autorreferencialidade" como "mundanidade espiritual". A palavra de misericórdia torna-se exigência da nova autoritatividade, e isso implica expropriação de poder e mediação de outro tipo de autoridade. A Igreja deve ser "mysterium lunae". Isto significa que anunciar a misericórdia precisa - essencialmente - da reforma da Igreja. Esta ligação está muito lúcida na consciência de Francisco, mas bem opaca em não poucos setores ao lado dele e no grande corpo da Igreja.

IHU On-Line - Quais as questões de fundo da proposta do Papa Francisco ao instituir um Jubileu Extraordinário que tem por tema a misericórdia?

Andrea Grillo - O Jubileu não tem a misericórdia como "tema", mas ele próprio é, acima de tudo um "ato de misericórdia". Na Bula de proclamação da Misericordiae Vultus notam-se duas coisas impressionantes. Por um lado, a continuidade explícita e direta do Ano Santo com o grande ato de misericórdia que foi o Concílio Vaticano II, relido nas palavras do Papa que o convocou - João - e daquele que o concluiu - Paulo. Isso é surpreendente.

Depois de quase duas décadas em que era quase preciso pedir desculpas antes de nomear o Vaticano II - eu tinha uma tia que fazia isso quando nomeava os "pés": pedia sempre desculpas antes -, agora ele se eleva a critério interpretativo da categoria da "misericórdia", não tanto como "tema", mas como "ato de Deus", que gera a Igreja com estilo e identidade de "misericórdia".

Em segundo lugar, esta concepção determina uma retomada potente da "gratuidade" da relação com a graça, e livra da obsessão da "disciplina". Misericórdia torna-se o princípio da diversidade reconciliada.

IHU On-Line - O que o Ano Santo da Misericórdia traz de novidade à Igreja?

Andrea Grillo - Traz, sobretudo, "estilo" e "linguagem" renovados. Claro que não faltou - mesmo em sedes oficiais - os que tentaram “não mudar nada". O uso retórico de todo "glossário de Francisco" é uma arte em que os curiais são inigualáveis. Ouvimos discursos da Cúria Romana em que a "indulgência" continuava a ser interpretada com a balança do farmacêutico, em vez de com a paixão do profeta. Mas estes são "efeitos colaterais" - ou digamos "fogo amigo" - que ninguém pode pensar em superar em três anos...

O importante é que o Ano Santo, cuja estrutura é quase milenar, relançou, de forma oficial, a radicalidade profética da misericórdia, colocando no centro não a "proporção de justiça", mas a "desproporção de misericórdia". Isso, inevitavelmente, põe em crise todas as repartições da cúria: em primeiro lugar aquela dos canonistas, aqueles que, podemos dizer, profissionalmente, se iludem de poder refrear a misericórdia nas teias de aranha da justiça, de poder encontrar "toda a misericórdia necessária" num documento do magistério.

IHU On-Line - E em que medida essa proposta impacta o mundo para além da Igreja?

Andrea Grillo - Este impacto é até mesmo "exagerado". Deixe-me explicar. É fácil ler a "campanha da misericórdia", querida pelo Papa Bergoglio, como uma esplêndida operação de marketing. E isso teve um efeito, por vezes, surpreendente. Também ajudado por leituras interessadas "internas" da Igreja. Mas é preciso distinguir. A redução simplista deste papado aos "bons sentimentos" é arriscada, e deve ser cuidadosamente evitada. Eu diria que se pode explicar este papado, como "conversão à misericórdia de Deus", somente se levarmos a sério o perfil "exigente" desta misericórdia. Isto é, se redescobrirmos que, em face de uma renovada primazia da "desproporção da misericórdia", tantas "lógicas proporcionais" devem ser relidas com grande cuidado. Para dar um exemplo: descobrir que também as "famílias irregulares" devem ser capazes de perdão e de serem perdoadas, exige da Igreja não só a capacidade de anunciar a misericórdia, mas também uma nova capacidade de "geri-la" e "administrá-la", algo que hoje é praticado com instrumentos ou ultrapassados ou injustos. A Igreja deve aprender esta arte da sua própria história - não recente - e também do Estado moderno!

IHU On-Line - O que a Encíclica Laudato Si’ revela acerca da misericórdia?

Andrea Grillo - Com esta encíclica, o Papa Francisco escreveu em linhas particularmente difíceis: sair da autorreferencialidade significa também simplesmente "abrir os olhos para a realidade". Nós vemos não a "terra", ou "animais", ou "árvores", mas o conceito clássico de "natureza" ou de "criação". A mediação adequada entre a realidade, que tem a primazia, e a ideia, que interpreta o real, é uma operação que requer "misericórdia" no sentido de uma atitude de escuta e disponibilidade em deixar-se desabrigar pela realidade, à qual Deus não deve ser levado, mas "reconhecido". Misericórdia é aqui, sobretudo, capacidade de sair de uma "cultura do descartável", que não é meramente um "problema ecológico", mas também um problema teológico. A teologia procede frequentemente “por descarte", bastante grosseiro e pouco inteligente. Em prejuízo do real, com categorias demasiado rígidas e autorreferenciais.

IHU On-Line - Qual o papel do laicato na construção do exercício da misericórdia dentro e fora dos muros da Igreja?

Andrea Grillo - Mais uma vez, parece-me, que o que chamamos de laicato é, antes de tudo, o produto de uma falta de misericórdia, que se tornou estrutural, e de tal modo estrutural, que já não a se vê mais. Se um "nomen infamiae", como o de "laicus", torna-se normal - e normaliza a falta de direitos e deveres – alguma coisa grande tem que mudar para responder a isto. O laicato contribui para um "início de misericórdia", não aceitando mais serem chamados assim.

IHU On-Line - Como exercitar a misericórdia nos dias de hoje? Que questões éticas e filosóficas este conceito de misericórdia suscita hoje na sociedade?

Andrea Grillo - Anunciar a misericórdia passa, inevitavelmente, por uma profunda redescoberta do “outro”. Ser capaz de "tirar os sapatos diante da terra sagrada do outro" - como o disse com palavras inesquecíveis o Papa Francisco, ecoando um tema central da filosofia no século XX -, significa também sair das categorias metafísicas da tradição grega. De certa forma, misericórdia e deselenização são caminhos paralelos e obrigatórios. Isso não pode ocorrer apenas com slogans, entretanto. Deselenizar significa deixar categorias demasiado rígidas, muito autocentradas e também logocêntricas. Da mesma forma deve-se reconhecer que, juntamente com a "deselenização" também devemos viver uma "deslatinização", ou seja, temos que sair, não só das "categorias teóricas", mas também das "reduções práticas", que têm a presunção de resolver os problemas com o "Direito Canônico". A "deslatinização" não significa "abrir mão do direito", seja claro, mas repensar também o Direito Canônico numa lógica de diálogo mais estreito e mais profundo com o Direito Civil. Trata-se de sair de uma abordagem "antimodernista" do Direito Canônico, que desde o Código de 1917 compromete a competência jurídica da Igreja.

IHU On-Line - De que forma a ideia de misericórdia se articula com o conceito de perdão?

Andrea Grillo - A misericórdia é o horizonte do perdão. A "dependência do outro" é a condição para se desejar, em primeiro lugar, a comunhão com o outro. Para isso, o "dom por excelência" - ou seja, o perdão - é a verdade de uma vida marcada pela misericórdia.

IHU On-Line - Como compreender a misericórdia e a justiça como conceitos opostos? E como superar esta oposição?

Andrea Grillo - A oposição entre misericórdia e justiça depende de um inevitável endurecimento da ideia de justiça, que tende a se identificar com a observância de uma "lei imutável". É importante notar que esta "redução da justiça à lei," a Igreja aprendeu com Napoleão! O espaço da misericórdia é mais amplo do que o da justiça, sem ser com ele contraditório. A misericórdia implica uma justiça, ou seja, um "sistema proporcional de direitos e deveres". Mas, na raiz deste "sistema", há uma "relação", que é desproporcional, e que abriga o "dom originário". Cada homem e cada mulher encontram o melhor de si mesmos quando podem não só honrar todos os seus direitos e deveres, mas, sobretudo, este "dom imerecido". Não raro, para honrar o dom, é preciso redimensionar e, às vezes, até mesmo, negar direitos e deveres. A relação entre misericórdia e justiça não é de oposição, mas conhece tensões, dramas, conquistas, negações do outro e negações de si mesmo. É não apenas uma "teodramática", mas uma "antropodramática".

IHU On-Line - Qual é o lugar da misericórdia enquanto núcleo fundamental da essência divina e da revelação cristã?

Andrea Grillo - Os termos "essência divina" e "revelação" afligem-se pela dificuldade de pensar a misericórdia "no centro" do sistema. Por outro lado, como já reconhecemos, se ocorrer um sistema, a proporção tende a prevalecer sobre a desproporção, e a misericórdia será cada vez mais "administrada" e "controlada". Um Deus pensado como "ser perfeitíssimo", e uma revelação pensada como "proposições coerentes a respeito deste ser", podem tornar-se obstáculos intransponíveis, com relação a uma verdadeira "escuta da palavra", que se faça sacramento e vida. A misericórdia torna-se, portanto, "método teológico", com o qual a tradição se coloca na escuta de Deus que fala, sem engaiolá-lo previamente em categorias "helênicas" e "latinas", onde ele aparece reduzido a um conceito ou a uma lei.

IHU On-Line - Em que medida o conceito teológico de misericórdia pode inspirar e reorientar a perspectiva econômica, considerando, por exemplo, o perdão de dívidas?

Andrea Grillo - A "justiça econômica" - depois da revolução industrial – procede segundo regras impessoais. Nisto nem tudo é mal. A "personalização da economia" era o terreno fértil para todas as formas pré-modernas de exploração, injustiça, discriminação, marginalização e escravidão. Então, olhando para trás, há pouco para se consolar. Mas, para olhar para a frente, é preciso recuperar uma "relevância supraindividual" dos comportamentos econômicos. Este será o calvário das próximas décadas. Que a dívida não seja uma condenação de povos inteiros, e que a lógica do "consumo" não dependa apenas da renda individual, são profecias sociais, psicológicas e relacionais, não só e não, sobretudo, de "conteúdo doutrinário". E eu acrescentaria: a profecia de uma "ligação estrutural entre matrimônio e patrimônio" - sem cair na armadilha de ideologizar o primeiro e relativizar o segundo - pode ajudar a devolver o primado da realidade sobre a ideia, também no cuidado pastoral das uniões familiares.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Andrea Grillo - Uma última coisa: a misericórdia não tolera qualquer forma de "idealização". Papa Francisco, numa de suas primeiras entrevistas, disse que "em qualquer idealização se oculta uma agressão", citando o próprio Freud! Também a misericórdia, se idealizada, torna-se violenta e injusta. Ela deve anunciar o "primado da desproporção", mas sempre conjugando-se com uma proporção necessária, embora sempre insuficiente. Misericórdia se funda sobre um reconhecimento difícil da própria não autossuficiência. A misericórdia se inscreve, sobretudo, na renúncia. Se ela se tornar uma ideologia, parte logo com o pé errado.

Entrevista de João Vitor Santos. Edição de Patricia Fachin. Tradução de Ramiro Mincato

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