''Kasper possui uma grande teologia: justiça e misericórdia unidas''

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10 Março 2014

O historiador Paolo Prodi avalia a conferência de Kasper sobre a família no recente consistório como "uma ótima plataforma para abrir uma discussão, como nunca tinha acontecido até agora". Mas devem ser diferenciados dois planos do discurso: o mais específico sobre a readmissão dos divorciados em segunda união e o mais geral da família na história humana e na história da salvação.

A reportagem é de Marco Burini, publicada no jornal Il Foglio, 05-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O primeiro – explica Prodi – tem um caráter eminentemente pastoral e diz respeito sobretudo a uma certa extensão do casamento religioso a todas aquelas pessoas que não participam ativamente da vida da Igreja. É preciso se perguntar o porquê dessa situação e o que significa celebrar o casamento religioso hoje em uma sociedade secularizada. Observo, no entanto, que, entre os divorciados em segunda união, aqueles que desejam voltar plenamente para a Igreja são uma minoria. Não é exatamente um fenômeno de massa".

Segundo o historiador da Universidade de Bolonha, a reflexão de Kasper contém intuições importantes que superam, de partida, algumas objeções que vêm dos ambientes ultraconservadores. "Roberto de Mattei gostaria de remeter a questão aos tribunais eclesiásticos, mas a Penitenciaria, a Signatura e a Sacra Rota nasceram – não nos esqueçamos – apenas em torno do século XIV e, portanto, julgaram a validade do matrimônio em uma determinada época. Anteriormente, estavam em vigor outras formas de julgamento, a partir dos caminhos penitenciais das primeiras comunidades cristãs. Em suma, há todo um desenvolvimento que leva a pensar como esse modo de emitir juízos por parte da Igreja muda ao longo do tempo. Ninguém nega que é preciso um pronunciamento público por parte da Igreja, mas esse pronunciamento, ao longo da história, assumiu diversas formas. E, acima de tudo, como lembra Kasper, na Igreja oriental, manteve um caráter de conscientização pública, de pertencimento à comunhão eclesial".

Portanto, é errado falar de divórcio na Igreja? "Não estamos diante de uma desvalorização, mas sim de um modo diferente de formular o juízo. O juízo continua, mas está ligado evangelicamente à misericórdia, assim como à situação particularmente desastrosa da sociedade contemporânea. É bem diferente de uma 'promoção'".

Depois, há o plano mais geral da conferência de Kasper, o estado de saúde da família. Segundo Prodi, "o ponto de fundo que emerge é a relação entre direito natural, tradições históricas e Evangelho. É uma tensão dialética, feita de entrecruzamento e contraposição. Kasper defende que a família precede o Estado, mas a família, assim como o Estado, também não é um conceito imutável. Há uma evolução do viver entre os homens que assume, cada vez mais, ao longo da história, a forma de sociedades complexas e, portanto, a forma de Estado como o conhecemos até agora".

A própria Escritura vive na história, não é um repertório de hipóstases. "De fato, a Bíblia registra a evolução das formas sociais, seguindo passo a passo a aventura do povo eleito. O conceito de família cresce com o crescimento da estrutura: a propriedade, a herança, a relação homem-mulher etc. E, precisamente nesse plano, o Evangelho expressa o seu porte revolucionário. Repensemos as palavras de Paulo sobre o matrimônio como figura do amor entre Cristo e a Igreja: este grita contra a realidade histórica, coloca-a em um plano radical".

Talvez seja por isso que os discípulos, diante das palavras de Jesus sobre a união entre homem e mulher ("Quem repudiar sua mulher comete adultério"), objetam que "então é melhor não se casar?".

Segundo Prodi, "a palavra outra do Evangelho não afirma um direito abstrato, mas é profecia que se entrelaça com uma instituição humana". Na palestra de Kasper também há essa veia profética. "É um discurso a ser levado adiante e aprofundado", observa Prodi. "Tomemos o Concílio de Trento: no início da modernidade, ele coloca em relação o texto evangélico com o nascimento da família nuclear. Afirma-se o matrimônio como sacramento, mas também como contrato idôneo para superar as incrustações da sociedade medieval, em que o matrimônio ainda estava estreitamente ligado à estirpe, e vigia o direito romano com o pater famílias, que tinha o direito de vida e de morte sobre sua mulher e filhos. Com relação às grandes potências da época, que apoiavam essa ideologia nobiliária, os decretos tridentinas são inovadores, sancionam o matrimônio como expressão do amor de casal e, portanto, como liberdade entre homem e mulher". Vem em mente Os Noivos... "A grandeza de Manzoni está justamente em contar essa virada epocal", concorda Prodi.

Autor de uma fundamental Storia della giustizia (Ed. Il Mulino, 2000), Prodi conhece como poucas as aventuras do direito ao longo dos séculos. Portanto, pode se dar ao luxo de olhar para a frente. "Hoje, desaparecida a família nuclear com os seus pressupostos políticos e econômicos, o nexo sacramento-contrato está em crise, deve ser repensado sobre bases novas. Não enfraquecendo o sacramento, mas, ao contrário, reforçando-o, ou seja, propondo nesta sociedade o modelo da família como Igreja doméstica".

Kasper traça esse caminho recuperando, dentre outras coisas, a experiência das comunidades de base nascidas na América Latina. Segundo Prodi, "isso não significa ser condescendentes, ceder ao espírito mundano, mas sim relançar a qualidade requintadamente cristã do matrimônio em um tempo em que o contrato vitalício não é mais contemplado. É preciso manter unidas tolerância e radicalidade, justiça e misericórdia, diante da crise da relação sacramento-contrato que dominou o Ocidente nos últimos séculos".

Em sentido propriamente cristão, é o retorno ao Evangelho como interpretação concreta do viver.

"É isso já aconteceu no passado", lembra o historiador. "Não se trata de descer a pactos com o século, mas sim de reencontrar a liberdade da Igreja, tomando distância de um modelo, o do contrato de casal, que não funciona mais. Agora, está nascendo outra coisa, que não sabemos bem o que é. Neste momento, o que importa é alavancar a radicalidade do Evangelho que celebra o homem e a mulher iguais diante de Deus. Não sabemos para onde vai essa família ampliada, mas justamente essa reviravolta implica uma libertação da mensagem evangélica da forma contrato em que ela ficou amarrada nos últimos séculos passados".

Parece que estamos em uma virada histórica para a Igreja, como foi em Trento. "Sim, é necessário fazer o Evangelho interagir com as estruturas ou, melhor, com aquela realidade ainda desestruturada que está nascendo, e isso não para ceder, mas sim para proclamar a radicalidade do Evangelho".

Não é a época de saldos, em suma. "O mais equivocado seria interpretar essa tentativa como cedência diante do espírito dos tempos", reitera Prodi. "Ao contrário, é preciso recuperar com força a mensagem cristã. Se conseguirmos".

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