O Papa Francisco e a Teologia do Povo. Entrevista especial com Juan Carlos Scannone

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16 Maio 2015

"Uma característica distintiva da Teologia do Povo é sua revalorização teológica e pastoral da religião do povo, de tal modo que chegou a reconhecer uma 'mística popular'”, frisa o teólogo.

 Foto: snpcultura.org
Para críticos, o Papa Francisco se fragiliza quando a questão é o arcabouço teológico. De fato, Bergoglio não é teólogo. O que não quer dizer que não tenha profundidade teológica. É preciso que se reconheça que o Papa tem uma visão de Igreja e de mundo muito particular e que também se difere das perspectivas de seus antecessores. Talvez, seja essa visão que traz os ares de novidade para Santa Sé e surpreende muitos. Mas o que dá suporte, o que está na formação de Bergoglio? Há uma perspectiva teológica que comunga e que baseia sua própria teologia? Para o teólogo argentino Juan Carlos Scannone existe sim. E ela se chama Teologia do Povo.

Ao longo da entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, e baseada em artigo publicado na revista La Civiltà Cattolica [1], Scannone analisa o pontificado de Francisco pela perspectiva da Teologia do Povo. Ele disseca essa linha teológica, relacionando-a com a Teologia da Libertação. A partir de conceitos empregados por Francisco, demonstra o quanto está impregnado por essa corrente e o quanto isso o faz constituir sua percepção de mundo e Igreja. Scannone também analisa a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium [2] como documento orientador do pontificado, por onde também extravasa as ideias de teologia.

Juan Carlos Scannone é jesuíta, tem 83 anos de idade. Foi professor de diversas universidades latino-americanas e europeias, incluindo a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. É ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, da Universidade del Salvador. É considerado o maior teólogo argentino vivo, personagem de destaque no panorama intelectual católico do Cone Sul. Discípulo de Karl Rahner, participou como protagonista da evolução do intenso debate pós-conciliar na América Latina.

Confira a entrevista.

Foto: periodistadigital.com
IHU On-Line - Qual é a origem da Teologia do Povo?

Juan Carlos Scannone - No seu retorno do Concílio Vaticano II [3], o episcopado argentino criou, em 1966, a Comissão Episcopal de Pastoral – COEPAL [4] com a finalidade de montar um plano nacional de pastoral. Era formada por bispos, teólogos, pastoralistas, religiosos e religiosas, entre os quais se encontravam Gera [5] e Tello [6] — padres diocesanos professores da Faculdade de Teologia de Buenos Aires —, os outros diocesanos Justino O’Farrell (antes orionita) e Gerard Farrell (especialista em Doutrina Social da Igreja), o jesuíta Fernando Boasso (do Centro de Pesquisa e Ação Social), etc. Essa comissão foi o âmbito em que nasceu a Teologia do Povo, cuja marca já se fez notar na declaração do episcopado argentino em San Miguel (1969) — especialmente no documento VI, sobre Pastoral Popular —, que aplicava a Conferência de Medellín [7] ao país.

A COEPAL deixou de existir no começo de 1973. Mesmo assim, vários de seus integrantes continuaram se reunindo como grupo de reflexão teológica sob a liderança de Gera. Ele foi perito em Medellín e Puebla [8], membro da Equipe Teológico-Pastoral do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM [9] e, mais tarde, fez parte da Comissão Teológica Internacional. Sua teologia foi mais oral que escrita, embora também tenha importantes escritos e muitas de suas intervenções orais foram gravadas e depois transcritas [10]. Mais tarde, eu mesmo participei dessas reuniões, junto com Gera, Farrell, Boasso, o atual vigário-geral de Buenos Aires, mons. Joaquín Sucunza, Alberto Methol Ferré — que ia do Uruguai —, etc.

O contexto histórico

O contexto político argentino dos tempos da COEPAL incluía a ditadura militar de Onganía, a proscrição do peronismo desde 1955, a repressão do movimento operário peronista, o surgimento da futura guerrilha e um fenômeno novo, a saber, que não poucos intelectuais, professores e estudantes universitários progressistas apoiavam então o peronismo como resistência popular aos militares e movimento de protesto social, o que não havia acontecido durante as presidências de Perón. Nessa época nasceram, na Universidade de Buenos Aires, as assim chamadas Cátedras Nacionais de Sociologia, com figuras como o já mencionado O’Farrell.

Este foi o nexo entre as Cátedras Nacionais e a COEPAL, pois fazia parte de ambas. Assim é como, distanciando-se tanto do liberalismo como do marxismo, ambas as equipes de reflexão encontraram sua conceitualização na história latino-americana e argentina (real e escrita) com categorias como “povo” e “antipovo”, “povos” antagônicos a “impérios”, “cultura popular”, “religiosidade popular”, etc.

No caso de cultura própria de seu povo e da COEPAL, tratou-se principalmente do Povo de Deus — categoria bíblica privilegiada pelo Concílio para designar a Igreja — e sua inter-relação com os povos, em especial o argentino. Note-se que uma das expressões características de Bergoglio é a de “povo fiel”, cuja fé e piedade populares valoriza fortemente.

Para a COEPAL, não estava em jogo apenas “a emergência do laicato dentro da Igreja, mas também a inserção da Igreja no transcurso histórico dos povos” enquanto sujeitos de história e cultura, receptores, mas também agentes de evangelização, graças à sua fé inculturada. Foram influenciados — assim como o resto da teologia latino-americana daquela época — pela teoria da dependência, mas entenderam-na não tanto a partir do econômico, mas prioritariamente a partir da dominação política (imperial), que inclui a econômica, enquadrando ambas na libertação integral do pecado, incluindo suas consequências estruturais.

IHU On-Line - Como essa teologia compreende o conceito de povo?

Juan Carlos Scannone - A categoria “povo” é ambígua, não pela pobreza, mas pela riqueza. Pois, por um lado, pode designar o povo-nação — como nas expressões: povo argentino, povo coreano — e, por outro lado, as classes e setores sociais populares. A COEPAL o entendeu, sobretudo, na primeira acepção, a partir da unidade plural de uma cultura comum, enraizada em uma história comum e projetada para um bem comum compartilhado. Como se nota à primeira vista, a dimensão histórica é fundamental nesta concepção de “povo”, que implica também — por parte de pastores e políticos — um atento discernimento dos “sinais dos tempos” na vida do povo e dos povos, que — para os fiéis — são também indicadores da vontade providente de Deus.

Na América Latina, são os pobres que, ao menos de fato, conservam como estruturante de sua vida e convivência a cultura própria de seu povo (Puebla 414), assim como sua memória histórica, e cujos interesses coincidem com um projeto histórico comum de justiça e paz, sendo que vivem oprimidos por uma situação de injustiça estrutural e de violência institucionalizada. Por isso, na América Latina, ao menos de fato, a opção pelos pobres e pela cultura coincidem. E, provavelmente, também porque são eles que deixam transparecer melhor a cultura comum de seu povo [11].

Certa vez perguntei a Boasso [12] por que a COEPAL havia privilegiado o tema da cultura, e ele me respondeu que o havia tomado do número 53 da Constituição Pastoral Gaudium et Spes [13] - GS. Contudo, a redação do número 386 do Documento de Puebla (um dos principais responsáveis fora Gera) mostra como a GS foi lida em perspectiva latino-americana, já que são inseridas as palavras “em um povo”. Assim se deslocou o sentido conciliar mais humanista de cultura de ambos os primeiros parágrafos, para aquele que o Concílio relaciona depois com seu “aspecto histórico e social” e denomina de “sentido sociológico e etnológico”, que a GS aborda somente depois, no terceiro parágrafo.

Por conseguinte, Puebla relê GS e muda o ângulo do enfoque de sua compreensão da cultura. Em uma reunião dos professores das Faculdades de Filosofia e Teologia de San Miguel com os da Teologia da Universidade Católica Argentina - UCA, imediatamente depois de Puebla, perguntei a Gera se os redatores haviam se dado conta desse deslocamento de ótica, e ele me respondeu dizendo que não. Ou seja, tratou-se de um ato espontâneo, não reflexo, devido provavelmente ao novo lugar hermenêutico a partir de onde se interpretava o texto (a partir da América Latina), mudança de ponto de vista que também não foi percebida como tal pelos bispos, já que não houve objeção; e que se conserva na exortação Evangelii Gaudim – EG.

A Teologia do Povo não passa por alto os graves conflitos sociais vividos pela América Latina, mesmo que, em sua compreensão de “povo”, privilegie a unidade sobre o conflito (prioridade depois repetidamente afirmada por Bergoglio). Pois, embora não tome a luta de classes como “princípio hermenêutico determinante” da compreensão da sociedade e da história [14], dá lugar histórico ao conflito — mesmo de classe —, concebendo-o a partir da unidade prévia do povo. Desse modo, a injustiça institucional e estrutural é compreendida como traição a este por uma parte do mesmo, que se converte assim em antipovo.

“A categoria ‘povo’ é ambígua, não pela pobreza, mas pela riqueza”

 

 

 

 

 

IHU On-Line - De que forma os conceitos de povo e religião se articulam?

Juan Carlos Scannone - O que foi dito até aqui incide na consideração da religiosidade popular. Pois, por um lado, considera-se a religião (ou, respectivamente, a atitude negativa diante do religioso) — seguindo Puebla é considerado como autêntica continuação de Medellín [15] — como núcleo da cultura de um povo e, por outro, faz-se referência, com Paulo VI [16], à piedade “dos pobres e simples” (Evangelii Nuntiandi [17] - EN). Mas aqui também a oposição é apenas aparente se estimamos que, ao menos de fato na América Latina e provavelmente também de direito, são estes últimos que preservam melhor a cultura comum, seus valores e símbolos (inclusive religiosos), que tendem a ser compartilhados por todos, podendo ser em nossos países o germe — nos não pobres — de uma conversão ao pobre para obter sua libertação e, dessa maneira, a de todos.

Por isso, a religião do povo, se está autenticamente evangelizada, longe de ser ópio, não tem um potencial apenas evangelizador, mas também de libertação humana, como na prática mostrou a leitura popular da Bíblia. É por isso que EG o Papa refere-se duas vezes a esta., embora tenha tomado da exortação EN (1975) novas contribuições sobre a evangelização da cultura e da piedade popular. Pode-se provar que o Sínodo de 1974 os havia abordado sob o influxo da Teologia do Povo, tanto graças a bispos latino-americanos como por meio de quem depois seria o cardeal Eduardo Pironio [18]. Foi assim que Paulo VI recolheu essas contribuições em sua exortação pós-sinodal, a qual, por sua vez, foi aplicada por Puebla (1979) à América Latina e enriquecida com novas contribuições, por exemplo, a de Gera na “Evangelização da cultura” e a do chileno Joaquín Alliende, em “Religiosidade popular [19] ”.

América Latina próxima de Roma

Assim, produziu-se uma espiral virtuosa entre a América Latina e Roma. Pois, começada na Argentina, foi levada ao centro pelo Sínodo. Ali Paulo VI a aprofundou, sendo retomada em Puebla, onde foi novamente enriquecida, assim como em Aparecida. Agora retorna a Roma com o Papa Francisco, que volta a fazê-la frutificar e a oferece novamente à Igreja universal.

Uma importante novidade está na relevância que Puebla — na linha da Teologia do Povo — dá à “sabedoria popular”, nas duas seções citadas do documento, relacionando a religião do povo com o conhecimento sapiencial que não substitui o científico, mas o situa existencialmente, o complementa e o confirma. A Teologia do Povo a considera chave como mediação entre a fé do povo e uma teologia inculturada [20]. E o Papa Francisco reconhece sua importância ao falar do conhecimento por conaturalidade, seguindo Tomás de Aquino, mas também Puebla e o Pe. Gera.

O papel do encontro de Aparecida

Mais tarde, Aparecida soube discernir na piedade popular latino-americana momentos de verdadeira espiritualidade e mística populares (Aparecida [21] 258-265, em especial 262). Já Jorge Seibold, pastoralista da Teologia do Povo, o havia assinalado ao introduzir a categoria “mística popular” [22]. Como veremos, na EG o Papa refere-se duas vezes a esta. Tê-la em conta é, hoje, um novo desafio na América Latina e fora dela.

IHU On-Line – A Teologia do Povo é uma corrente ou uma atualização da Teologia da Libertação?

Juan Carlos Scannone - Em 1982, distingui quatro correntes na Teologia da Libertação latino-americana [23]. Entre elas situei a Teologia do Povo, nome que lhe foi dado por Juan Luis Segundo [24] ao criticá-la. Gutiérrez [25] a caracteriza como “uma corrente com características próprias dentro da Teologia da Libertação”. Roberto Oliveros, reconhecendo-a como uma vertente desta, denomina-a pejorativamente de “teologia populista”. Depois, a mencionada classificação — que, certamente, não é a única possível — foi aceita por teólogos da libertação, como João Batista Libanio [26], e por seus críticos ao apresentar a Instrução Libertatis Nuntius [27].

Entre as “características próprias” mencionadas por papel decisivo para o futuro teológico da América Latina, há outras de índole metodológica: o uso da análise histórico-cultural, privilegiando-a sobre a socioestrutural, sem descartá-la; o emprego — como mediação para conhecer a realidade e para transformá-la — de ciências mais sintéticas e hermenêuticas, como da História, da Cultura e da Religião, completando assim o emprego de ciências mais analíticas e estruturais; o mencionado enraizamento destas mediações científicas em um conhecimento e discernimento sapienciais pela “conaturalidade afetiva que dá o amor”, que, por sua vez, as confirma; distanciamento crítico do método marxista de análise social e das categorias de compreensão e estratégias de ação que lhe correspondem [28].

As duas Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé [29] de 1984 e 1986 ajudaram a prevenir posições extremas. João Paulo II, por sua vez, em sua mensagem de 09 de abril de 1986 aos Bispos do Brasil, deu reconhecimento eclesial à Teologia da Libertação não apenas como “oportuna, mas útil e necessária”, e como “uma etapa nova” na reflexão teológico-social da Igreja, contanto que esteja em continuidade com esta [30].

O segundo encontro de El Escorial (1992) — 20 anos após o primeiro, do qual também eu havia participado [31] — foi uma prova da fecundação mútua entre a vertente principal da Teologia da Libertação e a predominantemente argentina, pois no mesmo se deu um espaço importante às problemáticas da cultura, do novo imaginário sociocultural, da sabedoria popular, etc., por exemplo, em intervenções como as de Pedro Trigo [32] , Diego Irarrázabal [33] , Antonio González [34] , Víctor Codina [35] , entre outros [36]. Alguns anos mais tarde, em setembro de 1996, a cúpula do CELAM, com a participação das autoridades da Congregação para a Doutrina da Fé (entre elas o então cardeal Josef Ratzinger e o arcebispo Tarcisio Bertone), reuniu em Schönstatt (Alemanha) um grupo relativamente pequeno de teólogos e especialistas latino-americanos para refletir sobre “o futuro da teologia na América Latina”, pedindo-lhes o desenvolvimento de quatro temas, a saber: a Teologia da Libertação, a doutrina social da Igreja, o comunitarismo e a teologia da cultura. Eu, que também participei desse encontro, perguntei aos organizadores por que haviam escolhido estes temas; a resposta foi: porque eram considerados os temas mais relevantes para a teologia latino-americana do terceiro milênio. O primeiro deles foi encomendado a Gustavo Gutiérrez, e o quarto — por dificuldades de saúde de Gera —, ao seu discípulo Carlos Galli, com a consigna de apresentar a teologia de seu mestre. Ou seja, reconhecia-se tanto o tronco principal da Teologia da Libertação como à corrente argentina [37]. Depois da brilhante exposição de Gutiérrez, Ratzinger louvou explicitamente seu cristocentrismo e seu sentido da gratuidade.

Nesse mesmo ano, em novembro, a Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lovaina, seção de língua flamenga, convocou outro encontro em torno da questão de uma eventual mudança de paradigma na Teologia da Libertação, “de um paradigma socioeconômico a outro cultural” [38]. Desse modo, pretendia-se colocar o dedo na ferida de uma eventual alteração de eixo entre os diferentes enfoques desta teologia. Por isso, aproveitei a ocasião do encontro com Gutiérrez em Schönstatt para lhe perguntar sua opinião sobre esse assunto. Respondeu-me dizendo que o tema da cultura esteve presente desde o começo e que não houve mudança de paradigma, mas de acento. Pois bem, essa foi a resposta da maioria dos participantes do encontro de Lovaina: a premente preocupação social e econômica com a libertação não apenas continuava, senão que havia piorado, mas se havia ampliado e aprofundado com a consideração da cultura.

“Uma importante novidade está na relevância que Puebla — na linha da Teologia do Povo — dá à ‘sabedoria popular’”

IHU On-Line – Como a Teologia do Povo aparece no pontificado de Francisco?

Juan Carlos Scannone - Desde que apareceu na sacada de São Pedro, depois da sua eleição, o Papa Francisco realizou gestos simbólicos, deu entrevistas, falou como chefe da Igreja e publicou uma espécie de “roteiro” de seu pontificado na exortação Evangelii Gaudium, que, em não poucas características, recordam a Teologia do Povo argentina. Daí a pergunta sobre as prováveis convergências da sua perspectiva pastoral com esta teologia.

Povo fiel

Chamou a atenção o gesto do Papa de pedir a bênção ao povo quase imediatamente após apresentar-se em público. Não admirou aqueles que conhecíamos o seu apreço teológico pelo “povo fiel de Deus”, que implica ao mesmo tempo uma maneira específica de conceber a Igreja, o reconhecimento do “sentido da fé” do povo e do papel dos leigos no mesmo. Nisso reside a sua predileção pela expressão “povo fiel”, que também é repetida na EG e que explicitamente reconhece como “mistério que mergulha as raízes na Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão institucional” (EG 101; cf 95) [39]. É esse povo em seu conjunto que anuncia o Evangelho.

Nesses textos podem-se ouvir ecos da Escritura e do Vaticano II, mas também da Teologia do Povo, sobretudo no que se refere aos povos, suas culturas e sua história. “Este Povo de Deus encarna-se nos povos da Terra [40], cada um dos quais tem a sua cultura própria... Trata-se do estilo de vida que uma determinada sociedade possui, da forma peculiar de vida que têm os seus membros de se relacionar entre si, com as outras criaturas e com Deus... A graça supõe a cultura, e o dom de Deus encarna-se na cultura de quem o recebe” (EG 115).

Destaco que Francisco adota a releitura feita por Puebla, seguindo a Teologia do Povo. Recordo também que, quando o padre Bergoglio era Reitor das Faculdades de San Miguel, organizou o primeiro Congresso sobre a evangelização da cultura e a inculturação do Evangelho que aconteceu na América Latina (1985). Na conferência de abertura, falou sobre a inculturação, citando o Pe. Arrupe [41], pioneiro no uso desse neologismo [42].

Por isso, o Papa Francisco, quando fala do Povo de Deus, refere-se ao seu “rosto pluriforme” (EG 116) e à sua “multiforme harmonia” (EG 117) graças à diversidade das culturas que o enriquecem. Além disso, na mesma linha da Teologia do Povo, acentua uma doutrina tradicional, quando reconhece que “Deus dota a totalidade dos fiéis com um instinto da fé — o sensus fidei — que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere sabedoria que lhes permite captá-la intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão” (EG 119). Mais ainda, “o próprio rebanho possui o olfato para encontrar novas estradas” (EG 21) de evangelização.

As quatro prioridades bergoglianas levadas ao povo

O episcopado argentino — incluído o cardeal Bergoglio —, seguindo os enfoques da Teologia do Povo e enriquecendo-os, adotou a postura da Comissão Justiça e Paz argentina, sobre passar “de habitantes a cidadãos”. Isso ilumina o que o Papa Francisco escreve na EG sobre o povo-nação: “Em cada nação, os habitantes desenvolvem a dimensão social da sua vida, configurando-se como cidadãos responsáveis dentro de um povo e não como massa arrastada pelas forças dominantes... Mas tornar-se um povo é algo mais, exigindo um processo constante no qual cada nova geração está envolvida. É um trabalho lento e árduo que exige querer integrar-se e aprender a fazê-lo até se desenvolver uma cultura do encontro com uma harmonia pluriforme”. Notemos a expressão típica sua: “cultura do encontro”.

Já como Provincial dos jesuítas, Bergoglio anunciou e, depois, como arcebispo de Buenos Aires, explicou mais detalhadamente prioridades de governo conducentes ao bem comum [43], a saber:

1) “superioridade” do todo sobre as partes,

2) a da realidade sobre a ideia,

3) a da unidade sobre o conflito,

4) a do tempo sobre o espaço.

Segundo se diz, são tomadas da carta de Juan Manuel de Rosas (governador de Buenos Aires) a Facundo Quiroga (governador de La Rioja na Argentina) sobre a organização nacional argentina, escrita na fazenda de Figueroa em San Antonio de Areco (20 de dezembro, 1834) [44], onde Rosas não as explicita, embora as tenha em conta implicitamente. Mais tarde — já como Papa — Francisco introduziu as duas últimas prioridades na encíclica a quatro mãos Lumen Fidei [45]. Finalmente, as desenvolve e articula na EG, apresentando-as como uma contribuição a partir do pensamento social cristão “para a construção de um povo”.

Sentido teológico-pastoral de tempo

A exortação começa com a prioridade do tempo sobre o espaço, pois se trata mais de iniciar “processos que construam povo” (EG 224; 223) na história, que de ocupar espaços de poder e/ou posse (de territórios ou riquezas).

Na minha opinião, o sentir espiritual do tempo propício para a acertada decisão, seja esta existencial, interpessoal, pastoral, social ou política, é parte do carisma inaciano, conectada intimamente com o discernimento dos espíritos.

Em sua teologia, Gera reconhece sua importância para profetas, pastores e políticos, e Methol [46] é conhecido por suas análises geopolíticas e por sua interpretação cristã dos sinais atuais dos tempos e da Igreja latino-americana.

Bergoglio, por sua vez, como jesuíta, participa desse carisma de discernimento e, provavelmente, conhecia as mencionadas contribuições teóricas desses pensadores. Apesar de tudo, não deixa fora o espaço, mas que o considera a partir do tempo, pois coroa suas considerações dizendo: “O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem marcha atrás” (EG 223).

 

 

 

 

“Na América Latina, são os pobres que conservam como estruturante de sua vida e convivência a cultura própria de seu povo”

Unidade plural e conflito

A Teologia do Povo pensava este a partir da unidade, mas reconhecia a realidade do antipovo, do conflito e da luta pela justiça. Também neste ponto há no pensamento do Papa não só um influxo inteligentemente recebido, mas um aprofundamento evangélico e teológico. Pois afirma que não se pode ignorar os conflitos, mas também não se pode ficar preso a eles ou torná-los a chave do progresso. Pelo contrário, trata-se de “aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. ‘Felizes os pacificadores’ (Mt 5, 9)” (EG 227), não a paz dos cemitérios, mas a paz da “comunhão nas diferenças”, “um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida” (ib. 228), “um pacto cultural”, “uma ‘diversidade reconciliada’” (ib. 230). Pois “não é apostar no sincretismo ou na absorção de um no outro, mas na resolução num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste” (ib. 228).

Recordo que Bergoglio desejava fazer sua tese de doutorado sobre Romano Guardini [47]. Consultou seus arquivos e dedicou-se à sua compreensão do dinamismo dialético (não no sentido hegeliano ou marxista!) dos contrários [48], para aplicá-la à práxis e à história. Ali está o fundamento último de sua propiciada “cultura do encontro” na não ignorância da realidade do conflito.

A realidade superior à ideia

Também entre estas existe uma tensão bipolar, pois a segunda está em função da primeira, sem se separar dela; caso contrário, existe o perigo de manipulá-la. “É preciso passar do nominalismo formal à objetividade harmoniosa” (ib. 232), afirma o Papa. Segundo ele, esse “critério leva à encarnação da Palavra e à sua colocação em prática”, pois — acrescenta — “não colocar em prática, não levar à realidade a Palavra é construir sobre a areia, permanecer na pura ideia e degenerar em intimismos e gnosticismos que não dão fruto, que esterilizam o seu dinamismo” (ib. 233).

Não vejo uma conexão imediata entre esta prioridade e a Teologia do Povo — como nos casos anteriores — a não ser na crítica que esta faz das ideologias, tanto de cunho liberal como marxista, e em sua busca de categorias hermenêuticas a partir da realidade histórica latino-americana, sobretudo dos pobres.

A superioridade do todo sobre as partes e a soma das partes

O Papa conecta o princípio de superioridade do todo sobre as partes com a tensão entre globalização e localização. Quanto a esta última, ela converge com as raízes histórico-culturais da Teologia do Povo, situada social e hermeneuticamente na América Latina; e com sua ênfase na encarnação do Evangelho, inculturando-o no catolicismo popular.

Quanto à globalização, a COEPAL não a teve explicitamente em conta quando ainda era apenas emergente. Depois, fizeram-no seus continuadores, como Methol Ferré, Gerardo Farrell e os trabalhos interdisciplinares do Grupo de Pensamento Social da Igreja que tomou seu nome do último, depois de seu falecimento [49]. Farrell havia sido integrante e secretário da COEPAL, embora por sua idade seja considerado como pertencente à segunda geração da Teologia do Povo, e foi membro fundador do mencionado grupo.

Também nesse ponto, Bergoglio avança rumo a uma síntese superior que não apaga as tensões, mas que as compreende, vivifica, torna fecundas e as abre ao futuro. Para ele “o modelo não é a esfera, pois não é superior às partes e, nela, cada ponto é equidistante do centro, não havendo diferenças entre um ponto e o outro. O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade”. E, quase na sequência, acrescenta: “É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas em uma sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos” (EG 236). Sem empregar a palavra, o Papa aponta para a interculturalidade.

Anteriormente, o Papa Francisco havia oferecido a fundamentação trinitária do dito: “O próprio Espírito Santo é a harmonia, tal como é o vínculo de amor entre o Pai e o Filho. É Ele que suscita uma abundante e diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade que nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai” (EG 117). Atração da beleza: outra característica do enfoque do Papa, que não deixa de convergir com os enfoques de Methol.

IHU On-Line – A piedade é outro conceito que parece forte em Bergoglio. De que forma podemos compreender essa ideia de piedade?

Juan Carlos Scannone - Uma característica distintiva da Teologia do Povo é sua revalorização teológica e pastoral da religião do povo, de tal modo que chegou a reconhecer uma “mística popular”, como o faz também o encontro de Aparecida. Em duas ocasiões a EG refere-se a esta, por exemplo, quando exemplifica a superioridade do todo sobre as partes: “A mística popular acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro, e encarna-o em expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa” (EG 237; cf. ib. 124).

Também converge com a Teologia do Povo quando a EG relaciona a piedade popular com outros temas-chave para ambas, como são os da inculturação do Evangelho (EG 68, 69, 70) e dos “mais necessitados” e sua “promoção social” (ib. 70). Distingue as duas claramente do “cristianismo de devoções, próprio de uma vivência individual e sentimental da fé”, sem negar, contudo, a necessidade de uma ulterior “purificação e amadurecimento” dessa religiosidade, para a qual “é precisamente a piedade popular o melhor ponto de partida”, de acordo com a mesma exortação. Quando se refere às “relações novas geradas por Jesus Cristo”, conecta-as espontaneamente com a religiosidade popular, reconhecendo suas “formas próprias”.

Uma das apreciações mais ricas e profundas do Papa Francisco sobre a religião do povo foi no Rio de Janeiro, no encontro com o CELAM. Na ocasião, apresentou como expressão de criatividade, sã autonomia e liberdade laicais, no contexto de sua crítica à tentação do clericalismo na Igreja. Pois a reconheceu como uma manifestação do “católico como povo”, em seu caráter comunitário e adulto da fé, ao mesmo tempo que recomendava então instâncias características da América Latina, como são os grupos bíblicos e as comunidades eclesiais de base [50].

“Além das ideias novas que Francisco trouxe ao Papado uma radical transformação no estado de espírito na Igreja e também fora dela”

 

Um exemplo claro de convergência com a Teologia do Povo a EG oferece quando, citando Puebla (e Aparecida) [51] a conclui que, mediante sua piedade popular, “o povo se evangeliza continuamente a si mesmo”, quando se trata de povos “nos quais o Evangelho se inculturou” (EG 122; cf. 68), pois cada um deles “é o criador da sua cultura e o protagonista da sua história. A cultura é algo de dinâmico, que um povo recria constantemente, e cada geração transmite à seguinte um conjunto de atitudes relativas às diversas situações existenciais, que esta nova geração deve reelaborar em face dos próprios desafios”. Então, “no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como inculturação. Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus segundo a sua própria índole, dá testemunho da fé recebida e enriquece-a com novas expressões que falam por si”. (ib) Notemos que não fala de uma mera transmissão cultural externa, mas de um testemunho coletivo vivo. Por isso acrescenta: “Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista é o Espírito Santo” (ib).

Não vou citar in extenso esses importantes parágrafos da EG, mas observar apenas que então volta a falar de “mística popular”, como “espiritualidade encarnada na cultura dos simples”, e que, embora ela, “no ato de fé... acentua mais o credere in Deum que o credere Deum” — o que me faz recordar expressões de Tello —, contudo, “não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental”. Mais ainda, “comporta a graça da missionariedade, do sair de si e do peregrinar” (EG 124).

Um pouco adiante, quase calcando Lucio Gera e Puebla, ensina que “só a partir da conaturalidade afetiva que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos, especialmente nos pobres” (ib. 125).

Mais ainda, a exortação culmina o tratamento da religiosidade popular, aceitando, com a Teologia do Povo, sua relevância não apenas pastoral, mas estritamente teológica, pois termina dizendo: “As expressões da piedade popular..., para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização” (EG 126). O Espírito sopra quando e onde quer. Pois bem, parece-me que hoje, em ambientes secularizados do Norte, onde “Deus brilha por sua ausência” [52], oferece-se humildemente do Sul o testemunho vivido e sentido da piedade “dos pobres e simples” e de sua “mística popular”, como contribuição para a nova evangelização.

Mas o Papa não é ingênuo e não ignora “que nas últimas décadas houve uma ruptura na transmissão da fé cristã no povo católico”(EG 122). Ele já havia alertado para isso quando era arcebispo de Buenos Aires. Então não só ausculta suas causas (EG 70), mas aposta na pastoral urbana (EG71-75), já que “Deus vive na cidade” (DA 514), embora sua presença deva ser “descoberta, desvendada” (EG 71), não em último lugar, “nos ‘não-citadinos’, nos ‘meio-citadinos’ [e] nos ‘sobrantes urbanos’” (EG 72).

IHU On-Line – Bergoglio faz sua evangelização preferencial pelos pobres? O que significa e como entender essa sua opção?

Juan Carlos Scannone - Enfatizei a estreita conexão entre a opção preferencial pelos pobres e a piedade popular como é vivida na América Latina, sobretudo nos setores pobres. Pois bem, embora toda a Igreja, inclusive os Sumos Pontífices tenham feito essa opção, não há dúvida de que a Teologia da Libertação em todas as suas correntes, também a argentina, caracteriza-se por colocar nesta opção seu ponto de partida e seu lugar hermenêutico. O novo Papa, desde a escolha do seu nome, colocou de manifesto sua acentuação do amor preferencial pelo pobre, marginalizado, excluído, desempregado, doente, incapacitado, “descartado”, “sobrante”, tanto que alguns disseram que suas primeiras visitas fora de Roma, a Lampedusa [53] e Sardenha [54] . e seu encontro ali com os migrantes refugiados e com os desempregados, operaram simbolicamente como verdadeiras encíclicas.

Não somente declara que “a solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada” (EG 189), de acordo com a doutrina católica, mas que depois afirma: “Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica” (EG 198). Daí que volte a expressar o que já havia dito em outras ocasiões: “Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles” (ib).

Critica à financeirização

Francisco não deixa de ver o outro lado da mesma moeda. Por isso critica “uma economia [que] “mata (EG 35) [55] , o “fetichismo do dinheiro” e um “sistema social e econômico... injusto em sua própria raiz”, devido “às ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e [de]a especulação financeira”. Afirma que “Deus, em Cristo não redime somente a pessoa individual, mas também as relações sociais entre os homens”, de modo que os cristãos temos com que lutar, sem violência, mas com eficácia histórica, pela “inclusão social dos pobres” e contra “a economia de exclusão e iniquidade” e “o mal cristalizado em estruturas injustas”.

O tema dos pobres segundo o Papa Francisco é ponto essencial de convergência entre seu magistério, o ensino social da Igreja e a Teologia do Povo. Nesses três casos não se trata de uma mera teoria, mas de sua encarnação em práticas existenciais e sociais (inclusive estruturais), que fazem realidade a “encarnação do Evangelho” e a “revolução da ternura” (EG 88).

“Karl Rahner, embora não tenha conhecido pessoalmente a América Latina, tinha um fino sentido da atualidade teológica”

IHU On-Line – De que forma a “teologia latino-americana” pode contribuir para a Igreja de hoje, diante dos desafios da contemporaneidade?

Juan Carlos Scannone - Karl Rahner [56], embora não tenha conhecido pessoalmente a América Latina, tinha um fino sentido da atualidade teológica. Por isso, percebeu já naquela época como contribuições importantes da Igreja e da teologia latino-americanas à Igreja e teologia universais, dois âmbitos característicos de sua vida e reflexão: a teologia libertadora e a religião do povo [57]. Pois bem, ambas caracterizam a Teologia do Povo e fazem também parte do ar fresco do Sul, que irrompeu na Igreja graças ao Papa vindo “do fim do mundo”.

Como a realidade é superior à ideia, penso que, além das ideias novas que Francisco trouxe ao Papado, há algo ainda mais importante contribuído pela realidade de sua pessoa e seu carisma, a saber, uma radical transformação no estado de espírito na Igreja e também fora dela. Com Ricoeur [58] aceito que a história, inclusive a da Igreja e sua relação com o mundo, pode ser interpretada como um texto [59]. Faz parte do significado de um texto não apenas o que nele se diz, mas também o momento pragmático de como se diz, com que atitude existencial e ânimo espiritual, que tom afetivo e vivência o acompanham. Disso se encontram índices objetivos no estilo do texto ou na reiteração das palavras.

Pois bem, o último ano de Pontificado tomado como texto e o próprio texto da EG me parecem refletir um novo ânimo na Igreja, tanto nas intervenções do Papa, como na resposta criativa do Povo fiel. Tal estado de espírito transparece na reiteração textual, gestual e vivida de leitmotiv como “gozo do Evangelho”, “revolução da ternura”, “cultura do encontro”, etc. Eles se opõem a atitudes de acedia, desencanto e isolamento individualista; e, sobretudo, testemunham e transparentam a alegria de evangelizar e ser discípulos-missionários, o despojo gozoso, o amor preferencial pelos pobres, a misericórdia de Jesus, a esperança do Reino e de “outro mundo possível”. Mas, não se trata de tonalidades separadas, mas que configuram um harmônico “sistema de atitudes” (EG 122) que transluzem e contagiam o gozo do Evangelho.

Por João Vitor Santos | Tradução: André Langer

 

NOTAS

[1] O artigo Papa Francesco E la Teologia Del Popolo foi publicado em La Civiltà Cattolica, número 3930 (2014), páginas 571-590. (Nota da IHU On-Line)

[2] Evangelii Gaudium: Alegria do Evangelho, é a primeira Exortação Apostólica escrita pelo Papa Francisco. Foi publicada no encerramento do Ano da Fé, no dia 24 de novembro do ano de 2013. Como a maioria das exortações apostólicas, foi escrita após uma reunião do Sínodo dos Bispos, neste caso, a XIII Assembleia Geral Ordinária sobre A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã. O tema principal é o anúncio missionário do Evangelho e sua relação com a alegria cristã, mas fala também sobre a paz, a homilética, a justiça social, a família, o respeito pela criação (ecologia), o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, e o papel das mulheres na Igreja. Ainda critica o consumo da sociedade capitalista, e insiste que os principais destinatários da mensagem cristã são os pobres. A íntegra da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium publicada pelo sítio do Vaticano está disponível em http://bit.ly/1FbJOBc. (Nota IHU On-Line)

[3] Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-11-1962 pelo Papa João XXIII. Ocorreram quatro sessões, uma em cada ano. Seu encerramento deu-se a 08-12-1965, pelo Papa Paulo VI. A revisão proposta por este Concílio estava centrada na visão da Igreja como uma congregação de fé, substituindo a concepção hierárquica do Concílio anterior, que declarara a infalibilidade papal. As transformações que introduziu foram no sentido da democratização dos ritos, como a missa rezada em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos diferentes países. Este Concílio encontrou resistência dos setores conservadores da Igreja, defensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Concílio Vaticano I. O Instituto Humanitas Unisinos - IHU produziu a edição 297, Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de 15-6-2009, disponível em http://bit.ly/o2e8cX, bem como a edição 401, de 03-09-2012, intitulada Concílio Vaticano II. 50 anos depois, disponível em http://bit.ly/REokjn, e a edição 425, de 01-07-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail Bakhtin e seu Círculo, disponível em http://bit.ly/1cUUZfC. Na próxima semana, o IHU realiza o evento O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade; mais informações em http://bit.ly/VaticanoII. (Nota da IHU On-Line)

[4] Comissão Episcopal de Pastoral - Coepal: comissão constituída por bispos argentinos após o Concílio Vaticano II. Sobre a COEPAL cf. Sebastián Politi, Teología del pueblo. Una propuesta argentina a la teología latinoamericana 1967-1975, Buenos Aires, 1992, cap. 4; Marcelo González, Reflexión teológica en Argentina (1962-2010). Aportes para un mapa de sus relaciones y desafíos hacia el futuro, Buenos Aires, Docencia, 2010, cap. 2. (Nota do entrevistado)

[5] Lucio Gera (1924–2012): teólogo, imigrante italiano que chegou à Argentina quando criança. Foi líder da Comissão Episcopal de Pastoral (Coepal), constituída pelos bispos argentinos no rescaldo do Concílio Vaticano II. Por isso é considerado um dos pensadores da Teologia do Povo (Nota da IHU On-Line)

[6] Rafael Tello: teólogo argentino. Ao longo de 40 anos, trabalhou a importância da cultura e do povo para o a evangelização da América Latina, sendo um dos teólogos fundadores da linha conhecida como Teologia do Povo. (Nota da IHU On-Line)

[7] Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano: realizou-se em Medellín, na Colômbia no período de 24 de agosto a 6 de setembro de 1968. A Conferência foi convocada pelo Papa Paulo VI para aplicar os ensinamentos do Concílio Vaticano II às necessidades da Igreja presente na América Latina. A temática proposta foi “A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”. A abertura da Conferência foi feita pelo próprio Papa, que marcou a primeira visita de um pontífice à América Latina. Ver “Documento do CELAM”. São Paulo: Paulus (2005) (Nota da IHU On-Line)

[8] Conferência de Puebla: a Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizou-se em Puebla de los Angeles, no período de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. Os bispos afirmam optar por uma “Igreja-sacramento de comunhão”, que “oferece energias incomparáveis para promover a reconciliação e a unidade solidária dos nossos povos”; uma “Igreja servidora”, “que prolonga no decorrer dos tempos o Cristo-Servo de Javé através dos diversos ministérios e carismas”; uma “Igreja missionária”, “que anuncia alegremente ao homem de hoje que ele é filho de Deus em Cristo”. “Documento do CELAM”. São Paulo: Paulus (2005). (Nota da IHU On-Line)

[9] Conselho Episcopal Latino-Americano - Celam: trata-se de um organismo da Igreja Católica fundado em 1955 pelo Papa Pio XII a pedido dos bispos da América Latina e do Caribe, cuja sede está localizada na cidade de Santa Fé de Bogotá, na Colômbia. A entidade presta serviços de contato, comunhão, formação, pesquisa e reflexão às 22 conferências episcopais que se situam desde o México até o Cabo de Hornos, incluindo o Caribe e as Antilhas. Seus dirigentes são eleitos a cada quatro anos por uma assembleia ordinária que reúne os presidentes das conferências episcopais da América Latina e do Caribe. (Nota da IHU On-Line)

[10] Veja uma seleção de suas obras: Virginia R. Azcuy-Carlos María Galli-Marcelo González (Comité Teológico Editorial), Escritos Teológico-Pastorales de Lucio Gera. I: Del preconcilio a la Conferencia de Puebla (1956-1981), Buenos Aires, Ágape-Facultad de Teología UCA, 2006; II: De la Conferencia de Puebla a nuestros días, ibid., 2007. Se están publicando los inéditos de Tello, v.g. La nueva evangelización. Escritos teológico-pastorales I, Buenos Aires, Ágape, 2008; id., Pueblo y cultura, Buenos Aires, Patria Grande, 2011. (Nota do entrevistado)

[11] Sobre a inter-relação entre povo e pobres segundo COEPAL, ver: F. Boasso, ¿Qué es la pastoral popular?, Buenos Aires, Patria Grande, 1974. (Nota do entrevistado)

[12] Fenando Boasso (1921): padre jesuíta, é formado em Filosofia pela Escola dos Jesuítas, de San Miguel, e em Teologia pela Faculdade de Teologia da Companhia de Jesus, San Miguel. Conduziu estudos especializados em teologia bíblica no Instituto Católico de Paris. (Nota da IHU On-Line)

[13] Gaudium et Spes: Igreja no mundo atual. Constituição pastoral, a 4ª das Constituições do Concílio do Vaticano II. Trata fundamentalmente das relações entre a igreja e o mundo onde ela está e atua. Trata-se de um documento importante, pois significou e marcou uma virada da Igreja Católica "de dentro" (debruçada sobre si mesma), "para fora" (voltando-se para as realidades econômicas, políticas e sociais das pessoas no seu contexto). Inicialmente, ela constituía o famoso "esquema 13", assim chamado por ser esse o lugar que ocupava na lista dos documentos estabelecida em 1964. Sofreu várias redações e muitas emendas, acabando por ser votada apenas na quarta e última sessão do Concílio. O Papa Paulo VI, no dia 7 de dezembro de 1965, promulgou esta Constituição. Formada por duas partes, constitui um todo unitário. A primeira parte é mais doutrinária, e a segunda é fundamentalmente pastoral. Sobre a Gaudium et spes, confira o nº 124 da IHU On-Line, de 22-11-2004, sobre os 40 anos da Lúmen Gentium, disponível em http://bit.ly/9lFZTk, intitulada A igreja: 40 anos de Lúmen Gentium. (Nota da IHU On-Line)

[14] Ver a Instrução da Congregação para Doutrina da Fé Libertatis Nuntius (1984) X, 2, cf. IX, 2. (Nota do entrevistado)

[15] Paul Tillich (1886-1965): teólogo alemão, que viveu quase toda a sua vida nos EUA. Foi um dos maiores teólogos protestantes do século XX e autor de uma importante obra. Entre os livros traduzidos em português, pode ser consultado Coragem de Ser (6ª ed. Editora Paz e Terra, 2001) e Amor, Poder e Justiça (Editora Cristã Novo Século, 2004). (Nota da IHU On-Line)

[16] Papa Paulo VI: nascido Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, Paulo VI foi o Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica de 21 de junho de 1963 até 1978, ano de sua morte. Sucedeu ao Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, e decidiu continuar os trabalhos do predecessor. Promoveu melhorias nas relações ecumênicas com os Ortodoxos, Anglicanos e Protestantes, o que resultou em diversos encontros e acordos históricos. (Nota da IHU On-Line)
[17] Evangelii Nuntiandi: exortação apostólica publicada em 8 de dezembro de 1975 pelo Papa Paulo VI. Afirma o papel de cada cristão (não só os ministros ordenados, sacerdotes, diáconos e, ou religiosa, ou do pessoal da igreja profissional) na difusão do Evangelho de Jesus Cristo. (Nota da IHU On-Line)

[18] Eduardo Francisco Pironio (1920-1998 ): cardeal, foi o sexto argentino adicionado ao Colégio dos Cardeais , foi o primeiro latino-americano a exercer um cargo na Cúria Romana. (Nota da IHU On-Line)

[19] J. Alliende se refere elogiosamente ao que chama “escuela argentina de pastoral popular” en: “Diez tesis sobre pastoral popular”, Religiosidad popular, Salamanca, Sígueme, 1976, p. 119. (Nota do entrevistado)

[20] Sobre essa mediação, ver meu livro: Evangelización, cultura y teología, Buenos Aires, Guadalupe, 1990 (2a ed., con Introducción: ib., Docencia, 2012). (Nota do entrevistado)

[21] Documento de Aparecida. São Paulo: Paulus (15ª ed. 2014). (Nota da IHU On-Line)

[22] CF. Jorge R. Seibold, La mística popular, México, Buena Prensa, 2006. (Nota do entrevistado)

[23] Refiro meu artigo: “La teología de la liberación. Características, corrientes, etapas”, Stromata 48 (1982), 3-40; foi escrito para obra: Karl Neufeld (ed.), Problemi e prospettive di teologia dogmatica, Brescia, Queriniana, 1983. No texto do mesmo parágrafo faço menção a: Juan Luis Segundo, Liberación de la teología, Buenos Aires, Lohlé, 1974, p. 264; al libro de S. Politi; a G. Gutiérrez, La fuerza histórica de los pobres. Lima, CEP, 1988, p. 372; y a R. Oliveros, Liberación y teología. Génesis de una reflexión (1966-1077), Lima, CEP, 1977. (Nota do entrevistado)

[24] Juan Luis Segundo (1925-1996): uruguaio e jesuíta, um dos mais importantes teólogos da libertação. É autor de uma vasta obra. Citamos, entre os seus livros, Teologia aberta para o leigo adulto (São Paulo: Loyola, 1977-1978), em 5 volumes (Essa comunidade chamada igreja; Graça e condição humana; A nossa ideia de Deus; Os sacramentos hoje; e Evolução e culpa). (Nota da IHU On-Line)

[25] Gustavo Gutiérrez (1928): padre e teólogo peruano, um dos pais da Teologia da Libertação. Gutiérrez publicou, depois de sua participação na Conferência Episcopal de Medellín de 1968, Teologia da Libertação (Petrópolis: Vozes, 1975), traduzida para mais de uma dezena de idiomas. Uma década mais tarde participou da Conferência Episcopal de Puebla (México, 1978), que selou seu compromisso com os desfavorecidos e serviu de motor de mudança na Igreja, especialmente latino-americana. Alguns dos livros de Gustavo Gutiérrez são: Em busca dos pobres de Jesus Cristo. O pensamento de Bartolomeu de Las Casas (São Paulo: Paulus, 1992) e Onde dormirão os pobres? (São Paulo: Paulus, 2003). (Nota da IHU On-Line)

[26] João Batista Libanio (1932-2014): padre jesuíta, escritor e teólogo brasileiro. Ensinou na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - ISI–FAJE, em Belo Horizonte, e foi vigário da paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Vespasiano, na Grande Belo Horizonte, até sua morte. A edição número 394, de 28-05-2012, da IHU On-Line trouxe como tema de capa a trajetória de JB Libanio. Confira a versão digital em http://bit.ly/1EKv6N7 (Nota da IHU On-Line)

[27] Libertatis nuntius: documento de 1984, assinado pelo então Cardeal Ratzinger, membro da Congregação para Doutrina da Fé, trata da Teologia da Libertação em 14 apontamentos que tentam explicar sua motivação. (Nota da IHU On-Line) / Falo, respectivamente, de: J.B. Libânio, Teologia da libertação. Roteiro didático para um estudo, São Paulo, Loyola, pp. 258 ss.; A. Quarracino, Presentación de LN, L’Osservatore Romano (ed. sem. en español: OR), No 819 (9 sept. 1984), p. 567. (Nota do entrevistado)

[28] Cf. meu trabalho: “Situación de la problemática del método teológico en América Latina (con especial énfasis en la teología de la liberación después de las dos Instrucciones)”, en: El método teológico en América Latina, Bogotá, CELAM, 1994, pp. 19-51. (Nota do entrevistado)

[29] Congregação para a Doutrina da Fé: a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos do Vaticano. Fundada pelo Papa Paulo III, em 21 de julho de 1542, com o objetivo de defender a Igreja da heresia. É historicamente relacionada com a Inquisição. Até 1908, era denominada como Sacra Congregação da Inquisição Universal quando passou a se chamar Santo Ofício. Em 1967, uma nova reforma, durante o pontificado de Paulo VI, mudou para o nome atual. (Nota da IHU On-Line)
[30] Cf. ese mensaje en: OR No 904 (1986), párrafo 5. (Nota do entrevistado)

[31] Eu havia feito minha exposição desde o ponto de vista da Teologia do Povo, cf. “Teología y política. El actual desafío planteado al lenguaje teológico latinoamericano de liberación”, Instituto Fe y Secularidad, Fe cristiana y cambio social en América Latina. Encuentro de El Escorial, 1972, Salamanca, Sígueme, 1973, pp. 247-281. (Nota do entrevistado)

[32] Pedro Trigo: teólogo , jesuíta de origem espanhola, cidadão venezuelano. Formou-se em Filosofia da Universidade Católica de Quito , Equador (1966) e doutorado em Teologia (1980). Desde 1974 que pertence a Gumilla Centro . Centro de Acção da Investigação e Social Companhia de Jesus na Venezuela , fundada em 1969. De 2000 a 2005, participou como especialista em Concílio Plenário da Venezuela, que foi realizada em Caracas , Venezuela. Atualmente é Professor de Teologia e Filosofia na América Latina em Caracas, Venezuela, anfitriã de grupos cristãos populares, que vivem em uma área popular, entregues à vida consagrada na Venezuela. Confira entrevista concedia à IHU On-Line, publicada em Notícias, em 08-09-2012, no sítio IHU disponível em http://bit.ly/1PnAlgV (Nota da IHU On-Line)

[33] Diego Irarrázaval (1942): religioso chileno e teólogo da Libertação. Na década de 1970 esteve envolvido em perseguição política pelo regime de Augusto Pinochet . Depois de forçado a deixar o Chile, até 2004, atuou como missionário em Chucuito no do Peru. Dirigiu o Instituto de Aymara Estudos em Peru. De 1995 a 2001 foi Vice-Presidente e de 2001 a 2006 Presidente da EATWOT , a Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo. Atua no Departamento de Religião da Universidade Católica Silva Henríquez (UCSH) no Chile, com foco no diálogo inter-religioso e antropologia cultural. (Nota da IHU On-Line)

[34] Antonio González: frei carmelita, foi missionário em Goma, na República Democrática do Congo, na dura época dos refugiados que vinham de Ruanda. É especialista em pastoral juvenil e em ecumenismo, dirige grupos de oração. Foi nomeado secretário geral do V Centenário do nascimento de Santa Teresa, celebrado no ano de 2015. (Nota da IHU On-Line)

[35] Víctor Codina: jesuíta, licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona, em Teologia pela Universidade de Innsbruck, e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Desde 1982 reside na Bolívia, onde alternou a tarefa de professor de Teologia na Universidade Católica Boliviana de Cochabamba com o trabalho de formação de leigos e na pastoral popular. Entre suas últimas publicações, destacamos: Para comprender la eclesiología desde América Latina (Estella: Navarra, 2008), No extingáis el Espíritu (Santander: Sal Terrae, 2008), Una iglesia nazarena (Santander: Sal Terrae, 2010) e Diario de un teólogo de postconcilio (Bogotá: Paulinas, no prelo). Dentre seus livros publicados em portugués, citamos O credo dos pobres (São Paulo: Paulinas, 1997). Ele estará na Unisinos participando do Congresso Continental de Teologia, com a conferência “As Igrejas no Continente 50 anos depois do Vaticano II: questões pendentes”. Saiba mais em http://bit.ly/q7kwpT. Codina também foi entrevistado na edição número 404 da IHU On-Line. Confira http://bit.ly/1cDsmue (Nota da IHU On-Line)

[36] Cf. os trabalhos destes e de outros autores, en: Joseph Comblin-José Ignacio González Faus-Jon Sobrino (eds.), Cambio social y pensamiento cristiano en América Latina, Madrid, Trotta, 1993. (Nota do entrevistado)

[37] Cf. G. Gutiérrez, “Una teología de la liberación en el contexto del Tercer Milenio” y C.M. Galli, “La teología latinoamericana de la cultura en las vísperas del Tercer Milenio”, en: Mons. Luciano Mendes de Almeida (et al.), El futuro de la reflexión teológica en América Latina, Bogotá, CELAM, 1996, respectivamente pp. 97-165 y 245-362. A mí se me pidió el tema: “El comunitarismo como alternativa viable”, ibid., pp. 195-241. (Nota do entrevistado)

[38] Ver: Georg De Schreijver (ed.), Liberation Theologies on Shifting Grounds. A Clash of Socio-economic and Cultural Paradigms, Leuven, University Press-Peeters, 1998. (Nota do entrevistado)

[39] O próprio Bergoglio remete, em seus estudos teológicos a sua admiração sobre que “el pueblo fiel es infalible ‘in credendo’ -en el creer-“, e o fez dessa forma para sua própria lembrança: “cuando quieras saber lo que cree la Iglesia, andá al magisterio”, “pero, cuando quieras saber cómo cree la Iglesia, andá al pueblo fiel”, cf. Jorge Mario Bergoglio, Meditaciones para religiosos, San Miguel, Ed. Diego de Torres, pp. 46 s. (ver: EG 124). (Nota do entrevistado)

[40] Lembro-me da tese de doutorado de Carlos Maria Galli, liderada por Gera, lamentavelmente, como inédito em sua totalidade, tem o título: El Pueblo de Dios y los pueblos del mundo. Catolicidad, encarnación e intercambio en la eclesiología actual (1993). Um de seus capítulos foi publicado como: “La encarnación del Pueblo de Dios en la Iglesia y en la eclesiología latinoamericanas”, Sedoi 125 (1994). (nota do entrevistado)

[41] Pedro Arrupe (1907-1990): sacerdote católico espanhol, da Companhia de Jesus. Depois de estudar quatro anos medicina, a contragosto de muitos professores e colegas entrou no noviciado da Companhia de Jesus, em Loyola. Sempre teve grande desejo de ir para o Japão. No Japão, logo aproximou-se das pessoas, e chegaram a pensar que Arrupe seria um espião americano. Saindo de Yamagushi, foi para o noviciado do Japão, em Hiroshima, como mestre de noviços. Aí se destacou pelo seu serviço incondicional quando da queda das bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial. Criou um hospital improvisado nas instalações semidestruídas do noviciado e foi com os noviços à cidade resgatar os sobreviventes, entre outros atos heroicos. Em seguida foi eleito provincial do Japão e em 1963 Superior Geral da Companhia de Jesus, posto que ocupou até 1983. O centenário de Pedro Arrupe foi lembrado nas Notícias do Dia 14-11-2007, na nossa página eletrônica. O material está disponível em (www.unisinos.br/ihu). (Nota da IHU On-Line)

[42] Cf. Jorge Mario Bergoglio, “Discurso inaugural”, en: Congreso Internacional de Teología “Evangelización de la cultura e inculturación del Evangelio”, Stromata 61 (1985) Nro. 3-4, pp. 161-165; la alusión a la intervención de Pedro Arrupe en el Sínodo de 1974, está en la p. 164. (Nota do entrevistado)

[43] Na Congregação Provincial XIV (SI Província da Argentina, 18 de fevereiro de 1974) fala, como Provincial, destes três critérios, sem falar explicitamente da superioridade da realidade sobre a ideia.. Ver a obra citada: Meditaciones para religiosos, pp. 49-50; la presentación y el desarrollo de los cuatro lo ofrece en su Conferencia como Arzobispo de Buenos Aires en la XIII Jornada Arquidiocesana de Pastoral Social (2010): “Hacia un bicentenario en justicia y solidaridad 2010-2016. Nosotros como ciudadanos, nosotros como pueblo”, sobre todo en el apartado 4; todo el documento ilustra su concepción del “pueb”, cf. www.arzbaires.org.ar/inicio/homilias/homilias2010.htm#XIV_Jornada_Arquidiocesana_de_Pastoral_Social. (Nota do entrevistado)

[44] Cf. Enrique Barba, Correspondencia entre Rosas, Quiroga y López, Buenos Aires, Hyspamérica, 1984, p. 94. (Nota do entrevistado)

[45] Lumen Fidei: Luz da Fé (em português), é o nome da primeira encíclica do Papa Francisco, assinada em 29 de junho de 2013, na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, publicada a 05 de julho de 2013, quase quatro meses depois do início do seu pontificado. A encíclica centra a sua temática na fé e conclui uma trilogia de seu predecessor, o Papa Bento XVI, que já havia escrito sobre a esperança e a caridade, as outras virtudes teologais, nas encíclicas Deus Caritas Est, Spe Salvi e Caritas in Veritate. Francisco assumiu o trabalho de Bento XVI que, antes de sua renúncia ao papado, já tinha completado o primeiro rascunho do texto, ao qual foram adicionadas algumas contribuições do papa argentino. (Nota da IHU On-Line)

[46] Alberto Methol Ferré : historiador, geopolítico, teólogo, filósofo e docente. Falecido em 2009, foi um duro contestador da Teologia da Libertação. Foi um crítico áspero da obra teológica de Juan Luís Segundo, jesuíta uruguaio, um dos grandes expoentes da Teologia da Libertação. Por suas oposições à esta Teologia era um consultor muito ouvido e respeitado em círculos da Igreja Latino-Americana, como o CELAM nos tempos de López Trujillo, que lutavam arduamente contra a Teologia da Libertação. (Nota da IHU On-Line)

[47] Romano Guardini (1885-1968): teólogo, filósofo, pedagogo e literato italiano. Lecionou na Universidade de Bonn e na Universidade de Berlim, onde permaneceu até a década de 1930, quando o Terceiro Reich impediu suas atividades docentes. Em 1945, reassumiu na Universidade de Tübingen, passando, pouco depois, à de Munique. Escreveu muitas obras, entre elas, De La Mélancolie, traduzida por Jeanne Ancelet-Hustache, Paris: Points, 1953, e La Fin des temps modernes. Paris: Seuil, 1952. (Nota da IHU On-Line)

[48] Cf. R. Guardini, Der Gegensatz. Versuche zu einer Philosophie des lebendig Konkreten, Mainz, Mathias Grünewald, 1955. (Nota do entrevistado)

[49] Cf. Gerardo Farrell (et al.), Argentina: alternativas frente a la globalización, Buenos Aires, San Pablo, 1999; asimismo ver: A. Methol Ferré-Alver Metalli, El Papa y el filósofo, Buenos Aires, Biblos, 2013 (Nota do entrevistado)

[50] Ver a alusão do papa em seu encontro do CELAM (28 de julio, 2013), en: Mons. Víctor M. Fernández (et al.), De la Misión Continental (Aparecida, 2007) a la Misión Universal (JMJ Río 2013), Buenos Aires, Docencia, 2013, p. 287. (Nota do entrevistado)

[51] Conferência de Aparecida: V Conferência Geral Do Episcopado Latino-Americano E Do Caribe - Aparecida, 13-31 de Maio De 2007 - Documento Final - http://bit.ly/1B1i0dM. V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, ou Conferência de Aparecida, foi inaugurada pelo Papa Bento XVI, em Aparecida, no dia 13 de maio e encerrou no dia 31 de maio de 2007. O tema da Quinta Conferência foi: “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”, inspirado na passagem do Evangelho de João que narra “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Sobre essa Conferência leia a edição 224 da revista IHU On-Line, de 20-06-2047, intitulada Os rumos da Igreja na América Latina a partir de Aparecida. Uma análise do Documento Final da V Conferência e disponível em http://bit.ly/gGMpe4. (Nota da IHU On-Line)
[52] Quero dizer expressões convergentes de fenomenólogos da religião como os europeus Bernhard Welte (cf. su obra: Das Licht des Nichts. Von der Möglichkeit neuer religiösen Erfahrung, Düsseldorf, Patmos, 1980, pp. 54 ss.) y Jean-Luc Marion (ver su artículo: “Métaphysique et Phénoménologie: une relève pour la théologie”, Bulletin de Littérature Ecclesiastique 94 (1993), 189-206, en especial p. 203). (Nota do entrevistado)

[53] Lampedusa: Para saber mais sobre Lampedusa, confira a Conjuntura da Semana especial sobre o tema, em http://bit.ly/ihulampedusa Veja também nossa reportagem especial sobre refugiados, intitulada Mundo em Fuga, publicada na edição 429 da IHU On-Line, em 15-10-2013. (Nota da IHU On-Line)

[54] Sardenha: é uma ilha do mar Mediterrâneo ocidental e uma região autônoma da Itália com população é de 1,65 milhão de habitantes e cuja capital é Cagliari. Em setembro de 2013 o Papa Francisco visitou a região para ver a situação da população desempregada. Leia o artigo Da encíclica de Lampedusa à de Sardenha publicado nas Notícias do Dia do IHU, disponível em http://bit.ly/1A4PcGc. (Nota da IHU On-Line)

[55] Recentemente foi publicado o livro de Andrea Tornielli – Giacomo Galeazzi, Papa Francesdco. Questa economia uccide. Con un' intervista esclusiva su capitalismo e giustizia sociale (Milano, Edizioni PIEMME, 2015). (Nota da IHU On-Line)

[56] Karl Rahner (1904-2004): importante teólogo católico do século XX. Ingressou na Companhia de Jesus em 1922. Doutorou-se em Filosofia e em Teologia. Foi perito do Concílio Vaticano II e professor na Universidade de Münster. A sua obra teológica compõe-se de mais de 4 mil títulos. Suas obras principais são: Geist in Welt (O Espírito no mundo), 1939, Hörer des Wortes (Ouvinte da Palavra), 1941, Schrifften zur Theologie (Escritos de Teologia). Em 2004, celebramos seu centenário de nascimento e a Unisinos dedicou à sua memória o Simpósio Internacional O Lugar da Teologia na Universidade do século XXI. Veja Karl Rahner. A busca de Deus a partir da contemporaneidade, edição 446 da IHU On-Line, de 16-06-2014, nossa edição mais recente sobre o assunto. Dez anos atrás, a edição número 102, da IHU On-Line, de 24-05-2004, dedicou a matéria de capa à memória de seu centenário, em http://bit.ly/maOB5H. Neste meio tempo, a edição 297, de 15-06-2009, Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, também retomou o tema e está disponível para download em http://bit.ly/o2e8cX. Além de diversos artigos sobre o pensamento do teólogo ao longo do tempo, destacamos também o Cadernos de Teologia Pública n° 5, Conceito e Missão da Teologia em Karl Rahner, do Prof. Erico Hammes, disponível em http://bit.ly/18XbPcU. Em 2014 a IHU On-Line publicou a edição 446 intitulada Karl Rahner. A busca de Deus a partir da contemporaneidade, disponível em http://bit.ly/112CjfG. (Nota da IHU On-Line)

[57] Ver: K. Rahner et al. (eds.) Befreiende Theologie. Der Beitrag Lateinamerikas zur Theologie der Gegenwart, Stuttgart-Berlin-Köln-Mainz, Kohlhammer, 1977; id., Volksreligion – Religion des Volkes, ibid, 1979. O mesmo Rahner o prólogo da primeira obra “Einleitende Überlegungen zum Verhältnis von Theologie und Volksreligion” (pp. 9-16), para a segura. Tive a honra de participar dos dois. (Nota do entrevistado)

[58] Paul Ricoeur (1913-2005): filósofo francês. Sobre ele, conferir o artigo intitulado Imaginar a paz ou sonhá-la?, publicado na edição 49 da IHU On-Line, de 24-02-2003, disponível para download em http://bit.ly/ihuon49 e uma entrevista na edição 50 que pode ser acessada em http://bit.ly/ihuon50. A edição 142, de 23-05-2005, publicou a editoria Memória sobre Ricoeur, em função de seu falecimento. Confira o material em http://bit.ly/ihuon142. A formação de Ricoeur se dá em contato com as ideias do existencialismo, do personalismo e da fenomenologia. Suas obras importantes são: A filosofia da vontade (primeira parte: O voluntário e o involuntário, 1950; segunda parte: Finitude e culpa, 1960, em dois volumes: O homem falível e A simbólica do mal). De 1969 é O conflito das interpretações. Em 1975 apareceu A metáfora viva. O sentido do trabalho filosófico de Ricoeur deve ser visto em uma teoria da pessoa humana; conceito - o de pessoa - reconquistado no termo de longa peregrinação dentro das produções simbólicas do homem e depois das destruições provocadas pelos mestres da "escola da suspeita". (Nota da IHU On-Line)

[59] Cf. Paul Ricoeur, “Le modèle du texte: l’action sensée considérée comme un texte” y “Expliquer et comprendre. Sur quelques connexions remarquables entre la théorie du texte, la théorie de l’action et la théorie de l’histoire”, en: id., Du texte à l’action. Essais d’herméneutique II, Paris, Seuil, 1986, respectivamente, pp. 183-211 y 161-182. (Nota do entrevistado)

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O Papa Francisco e a Teologia do Povo. Entrevista especial com Juan Carlos Scannone - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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