Lumen Fidei, a primeira encíclica de dois Papas

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Por: André | 06 Julho 2013

É a primeira encíclica de Francisco, mas sobretudo a última de Bento XVI. A Lumen Fidei (A luz da fé), que está sendo apresentada neste momento em Roma, é a primeira escrita a quatro mãos... Mais por umas que por outras.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada no sítio Religión Digital, 05-07-2013. A tradução é do Cepat.

A autoria intelectual do texto é claramente do Papa emérito, como Francisco reconhece na introdução: “(Bento XVI) já havia completado praticamente uma primeira redação desta carta encíclica sobre a fé. Agradeço-lhe de coração por isto e, na fraternidade de Cristo, assumo seu precioso trabalho, acrescentando ao texto algumas contribuições”. A mão do novo Papa se faz notar no texto introdutório e no final, quando vincula a fé com a esperança e, especialmente, com a caridade e a construção de um mundo mais junto no meio do sofrimento.

Elaboração do documento

Ao longo de quase 90 páginas, e através de quatro capítulos, a encíclica recupera alguns dos temas clássicos de Ratzinger – que já abordara em documentos como a Dominus Iesu – sobre a unidade da fé, a salvação, os direitos e deveres da teologia e a primazia da Igreja como antídoto ao relativismo da cultura atual.

Assim, no primeiro capítulo, o texto repassa a história da fé, desde Abraão até nossos dias, e alguns dos debates que ao longo dos séculos questionaram a missão da Igreja, como a salvação pela fé ou sua eclesialidade.

O segundo capítulo é dedicado às relações da fé com a verdade, o amor, o diálogo com a ciência e a sociedade, a busca de Deus e a teologia.

O terceiro capítulo se baseia na legitimidade da instituição eclesial como base da unidade da fé, assim como a importância dos sacramentos e a sucessão apostólica como depositários da verdade dos crentes. A unidade da fé diante das diferentes ideologias é uma das bases do documento.

Finalmente, o quarto capítulo vincula a fé com a esperança e a caridade, e analisa as relações desta virtude com a família, a sociedade, o bem comum e a ordem política. O texto conclui com uma invocação à Virgem Maria, que também emanou da mão de Francisco.

Luz na escuridão

O texto começa reconhecendo que, no mundo atual, “a fé acabou por ser associada à escuridão”, como “um salto no vazio”. Diante disso, o Papa considera “urgente recuperar o caráter luminoso próprio da fé, pois quando sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam por languidescer”.

“A Igreja nunca pressupõe a fé como algo certo”, proclama Francisco na introdução, onde vincula fé, esperança e caridade num mesmo caminho para “a comunhão plena com Deus”.

Uma comunhão que, como destaca o primeiro capítulo da Lumen Fidei, provém desde os inícios da própria vida, desde Abraão, onde “a fé se coloca em relação com a paternidade de Deus”. Já nessa época havia “a tentação da incredulidade”, e a idolatria, que “não apresenta um caminho, mas uma infinidade de becos, que não levam a lugar nenhum”.

Diante disso, a encíclica propõe a fé como “um dom gratuito de Deus que exige a humildade e a confiança”, como fez Jesus, que com sua morte “manifesta a total confiança no amor de Deus à luz da ressurreição”.

Salvação pela fé

“Nossa cultura perdeu a percepção desta presença concreta de Deus, de sua ação no mundo”, critica o texto, que retoma a histórica discussão, que provém de São Paulo e que serviu a Lutero para sua Reforma, sobre se a salvação se dá pelas obras ou mediante a fé. Neste ponto, a encíclica retoma os pontos básicos da Dominus Iesu, destacando que “o que São Paulo rechaça é a atitude de quem pretende justificar-se a si mesmo perante Deus mediante suas próprias obras”. “A origem da bondade é Deus”, coloca a Lumen Fidei, que insiste na fidelidade a Deus. “A salvação mediante a fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus”.

Após explicar esta primazia, a encíclica destaca que a fé “tem uma configuração necessariamente eclesial, é confessada dentro do corpo de Cristo, como comunhão real dos crentes”. Por não ser uma questão privada, a fé deve ser vivida dentro da Igreja.

Uma fé vivida na eclesialidade e na verdade, pois, como afirma o texto, “a fé, sem verdade, não salva, não dá segurança aos nossos passos”. Neste ponto, a Lumen Fidei clama por “recuperar a conexão da fé com a verdade”, diante da tese vigente na cultura contemporânea “que tende muitas vezes a aceitar como verdade apenas a verdade tecnológica (...) é verdade porque funciona”. Uma verdade “pretendida pelos grandes totalitarismos do século passado”, denuncia o texto.

Deus é fiel e verdadeiro

“Somente enquanto está fundado na verdade, o amor pode perdurar no tempo”, insiste a encíclica que aponta que “se o amor necessita da verdade, também a verdade tem necessidade do amor”. É que “amor e verdade são inseparáveis”, assim como também a verdade e a fidelidade. “O Deus verdadeiro é o Deus fiel, aquele que mantém suas promessas”.

A fé e a razão, outro eixo do pensamento de Ratzinger, estão presentes na encíclica. Neste ponto, o texto assinado por Francisco considera que “a luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas de nosso tempo quanto à verdade”, e que “a verdade de um amor não se impõe com a violência, não esmaga a pessoa”, pois “o crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade o torna humilde”.

A Lumen Fidei considera que “a fé desperta o senso crítico” e faz com que “o homem religioso esteja a caminho e disposto a deixar-se guiar” pela Igreja e pela verdade da fé. Também pela teologia que, recorda a encíclica, “é impossível sem a fé”, o que requer que “a teologia esteja a serviço da fé dos cristãos”.

Teologia fiel ao Magistério

“A teologia, posto que vive da fé, não pode considerar o Magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele como algo extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um momento interno, constitutivo, enquanto o Magistério assegura o contato com a fonte originária, e oferece, portanto, a certeza de beber da Palavra de Deus em sua integridade”, conclui a encíclica.

“A Igreja, mãe da nossa fé”, é outra apreciação do texto, que destaca como “a fé se transmite, por assim dizer, por contato, de pessoa para pessoa, como uma chama acende outra chama”.

“É impossível cada um crer por sua conta”, acrescenta o texto, que aponta a necessidade de viver os sacramentos – especialmente o batismo e a eucaristia – e o decálogo “dentro da comunidade da Igreja se inscreve em um ‘nós’ comunitário”.

Unidade e integridade da fé

A Lumen Fidei, finalmente, se detém em definir a unidade e a integridade da fé. Após assumir que “é muito difícil conceber uma unidade na mesma verdade”, o documento recorda que “dado que a fé é uma só, deve ser confessada em toda a sua pureza e integridade”. Por isso, acrescenta, “é importante ter a vigilância para que se transmita todo o depósito da fé”.

Quem se ocupa disso? A Igreja, pois “o Senhor deu à Igreja o dom da sucessão apostólica”.

Após o repasse da história da fé no interior da Igreja e no caminho da humanidade, a Lumen Fidei se detém para apontar que “a luz da fé se coloca a serviço da concretização da justiça, do direito e da paz”. Isto é: que a fé há de encontrar-se em todos os âmbitos onde o homem vive e sofre.

“A fé não afasta do mundo, nem é alheia aos afãs concretos dos homens de nosso tempo”, assinala o texto, que incide em que “a fé é um bem para todos, é um bem comum”, que “ajuda a edificar as nossas sociedades, para que avancem rumo ao futuro com esperança” e que irradia “luz para a vida em sociedade”.

“A fé nos ensina que cada homem é uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão”, o que permite, além disso, respeitar mais a natureza; “ensina-nos a identificar formas de governo justas” e nos obriga a praticar a “paciência e o compromisso”.

Sofrimento e amor

“O cristão sabe que sempre haverá sofrimento, mas que também pode dar sentido a ele, pode convertê-lo em ato de amor”, acrescenta a encíclica, que recorda os exemplos daqueles que não se esqueceram das pessoas que sofrem, como São Francisco de Assis ou a beata Teresa de Calcutá.

Finalmente, o texto recorda que “a fé anda de mãos dadas com a esperança”, e insta os crentes para que “não se deixem roubar a esperança, não permitam que a banalizem com soluções e propostas imediatas que obstruem o caminho”.

Nota da IHU On-Line:

A íntegra da Encíclica Lumen Fidei pode ser lida, em português, aqui.

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