A omissão silenciosa e o avanço da precarização trabalhista: as perspectivas do governo Dilma em 2015. Entrevista especial com Giovanni Alves

Revista ihu on-line

Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

Edição: 493

Leia mais

Financeirização, Crise Sistêmica e Políticas Públicas

Edição: 492

Leia mais

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

Mais Lidos

  • TSE considera hipótese de poupar Michel Temer

    LER MAIS
  • Na China, “a problemática da ecologia, vista como um luxo, choca-se com a do emprego, que é vita

    LER MAIS
  • “Atualmente, o mundo não cria desenvolvimento, mas mais pobreza”, afirma arcebispo argentino, a

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

16 Dezembro 2014

“Caso não tenhamos crescimento do PIB em 2015 — e muito provavelmente também em 2016 —, teremos anos difíceis devido à política de ajuste e ao cenário adverso da economia internacional”, adverte o sociólogo.

alt
Foto: Ultra Downloads

As dificuldades do próximo governo Dilma estão diretamente relacionadas com o cenário internacional, que ainda se recupera das consequências da crise econômica de 2008. Diante da instabilidade externa, a meta do segundo mandato será “crescer o PIB”, já que o crescimento da economia é a condição necessária para dar continuidade à política de aumento progressivo do salário mínimo, à manutenção dos empregos e à ampliação das políticas sociais. “O desafio do novo governo Dilma é fazer omeletes sem quebrar ovos, isto é, fazer o proclamado ajuste fiscal sem reduzir significativamente o gasto público e degradar programas sociais”, pontua Giovanni Alves, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.  

Ao enfrentar um dos “mais conservadores congressos da história da República brasileira”, o segundo mandato da presidente Dilma deverá ser marcado por uma “omissão silenciosa” ao não se empenhar para ampliar direitos trabalhistas, nem para deter “inciativas parlamentares que signifiquem o aumento da precariedade salarial”. “Provavelmente, o governo não deve apoiar a aprovação da redução da jornada de trabalho, nem colocar-se contra a ampliação da terceirização”, lamenta. E acrescenta: “A eleição para a presidência da Câmara dos Deputados é um importante elemento de conjuntura política logo no começo de 2015. Caso ganhe Eduardo Cunha, do PMDB, o governo deverá ter muitas dificuldades para fazer passar seus projetos no Legislativo”.

Giovanni Alves (foto abaixo) é professor da Faculdade de Filosofia e Ciências do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp, no campus de Marília. Livre-docente em teoria sociológica, é mestre em Sociologia e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Atualmente, desenvolve o projeto de pesquisa “A derrelição de Ícaro – Sonhos, expectativas e aspirações de jovens empregados do novo (e precário) mundo do trabalho no Brasil (2003-2013)”. É autor de, entre outras obras, Dimensões da precarização do trabalho – Ensaios de sociologia do trabalho (Bauru: Projeto editorial praxis, 2013).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como avalia a reeleição da presidente Dilma?

alt
Foto: Anamatra

Giovanni Alves - A reeleição da presidente Dilma Rousseff ocorreu num cenário político-eleitoral caracterizado, por um lado, pela pesada manipulação midiática por parte da direita organizada contra o governo e o PT; e por outro lado, por uma conjuntura política, social e econômica, interna e externa, bastante adversa para as forças progressistas de esquerda que compõem a frente política do neodesenvolvimentismo. A eleição presidencial de 2014 foi uma das eleições para presidente da República mais acirradas desde 1989. Não se tratou apenas da persistente campanha da grande mídia — rádio, TV, revistas e jornais — contra o governo e o PT, visando desgastar a sua imagem. Na verdade, desde 2003, o desgaste da imagem do PT tem sido ininterrupto. Apesar disso, pesquisas de opinião ainda consideram o PT o partido político preferido dos brasileiros — principalmente nas regiões Norte e Nordeste, tendo em vista a sua identificação com uma das lideranças políticas de esquerda mais carismática da vida nacional: Luís Inácio Lula da Silva.

Portanto, apesar da campanha midiática contra Lula e Dilma e o PT, o mais paradoxal é que grande parte da população brasileira beneficiada pelos programas sociais do governo manteve-se fiel a eles, votando no governo, embora não votando necessariamente em parlamentares do PT e de esquerda. Outros problemas de conjuntura tornaram esta eleição presidencial uma das mais difíceis para o PT — pelo menos desde 2003. Primeiro, a conjuntura política mostrou um governo debilitado pela corrosão de sua base política no Congresso, com parte do PMDB se rebelando contra o governo. A frente política do neodesenvolvimentismo fraturou-se com a saída do PSB, que lançou como candidato Eduardo Campos à presidência da República. Às dificuldades com sua base parlamentar, que reclamava da falta de diálogo de Dilma com os parlamentares, somava-se a crise da economia brasileira — o baixo crescimento do PIB e as pressões inflacionárias passaram a preocupar o Palácio do Planalto.

Os aumentos contínuos da taxa básica de juros pelo Banco Central mostravam um governo disposto a ceder às pressões do capital financeiro para evitar a escalada inflacionária. Entretanto, os empresários mantinham-se indispostos a investir, não apenas pela discordância com a macroeconomia heterodoxa do Ministro da Fazenda Guido Mantega, mas principalmente pela recusa da presidenta Dilma em fazer uma Reforma Trabalhista que significasse a redução do “custo Brasil” por meio da espoliação de direitos trabalhistas. Mas o problema dos investimentos privados na economia brasileira tinha a ver também com as incertezas da economia mundial, cuja crise financeira global de 2008 reacendeu a paralisia dos investimentos produtivos, provocando a queda do PIB nos países capitalistas centrais em 2012-2014. Na última metade da década de 2010, no plano internacional o cenário da economia mundial é bastante desanimador para os países ditos “emergentes" — como o Brasil — devido principalmente à queda dos preços das commodities (incluindo o petróleo) e à desaceleração da economia da China e também da União Europeia. Ao mesmo tempo, o crescimento da economia nos EUA é medíocre, apesar dos esforços do Federal Reserve de levantá-la por meio da redução da taxa de juros.

alt

"Nos últimos dez anos, os governos neodesenvolvimentistas voltaram-se prioritariamente para atender às demandas dos ‘pobres’. Entretanto, fizeram muito pouco para melhorar a qualidade de vida das camadas médias assalariadas nas metrópoles brasileiras"

Segundo governo Dilma

Portanto, o segundo governo Dilma deverá encontrar uma conjuntura internacional bastante adversa e totalmente diferente daquela conjuntura do capitalismo global da década de 2000, que caracterizaram os governos Luiz Inácio Lula da Silva. Ao mesmo tempo, em 2014 assistimos, por conta da questão da Ucrânia, o surgimento da “nova guerra fria" (EUA X Rússia), com os EUA buscando preservar a todo custo a hegemonia do dólar no mercado mundial; como parte da disputa geopolítica mundial temos a presença na América Latina de dois modelos de protagonismo capitalista (Aliança do Pacífico versus Mercosul). Como não poderia deixar de ser, a eleição brasileira tornou-se parte da geopolítica do xadrez internacional. O que significa que a direita brasileira tornou-se mais voraz, pressionada pela nova escalada de ofensiva do capital que ocorre hoje no plano geopolítico mundial.

No plano social, acumularam-se, no Brasil, insatisfações nas camadas médias desde as jornadas de 2013. Nos últimos dez anos, os governos neodesenvolvimentistas voltaram-se prioritariamente para atender às demandas dos “pobres". Entretanto, fizeram muito pouco para melhorar a qualidade de vida das camadas médias assalariadas nas metrópoles brasileiras. Pelo contrário, o “choque de capitalismo” do neodesenvolvimentismo, o modo de vida just-in-time, vida reduzida (tempo de vida reduzido a tempo de trabalho) e os péssimos serviços públicos provocaram, nas camadas médias assalariadas, profunda insatisfação social. Apesar da inquietação social, os protestos de rua em 2014, principalmente durante a Copa do Mundo, não conseguiram repetir os fenômenos das jornadas de massa de 2013. Apesar disso, os indicadores sociais do governo Dilma mantiveram-se positivos em 2014 — o desemprego aberto nas metrópoles manteve-se baixo, apesar do crescimento medíocre da economia brasileira.

No cenário eleitoral, a morte de Eduardo Campos num acidente aéreo ainda não explicado fez ascender o fenômeno político da terceira via da candidatura de Marina Silva, que ocupou a vice-presidência da chapa do PSB. Pela primeira vez, diminuíram-se, naquele momento, as chances de reeleição de Dilma Rousseff logo no primeiro turno. Entretanto, com o tempo, a candidatura de Marina Silva perdeu fôlego eleitoral para a candidatura de Aécio Neves, do PSDB. Ocorreu a polarização clássica direita x esquerda, ou seja, PSDB x PT. O discurso antipetista cresceu principalmente nos estados de hegemonia liberal — Sul e Sudeste. O recorte de classe na sociedade brasileira tornou-se nítido nas eleições de 2014: as camadas populares, a classe trabalhadora e a população mais pobre beneficiada pelos programas sociais identificavam-se com a candidatura de Dilma Rousseff; e uma parcela das novas camadas médias e a classe média tradicional e a grande burguesia industrial-financeira passaram a identificar-se com as candidaturas de Marina Silva e Aécio Neves. A disputa crucial era saber quem iria enfrentar a candidata do PT, Dilma Rousseff, no segundo turno das eleições presidenciais.

A esquerda e a incapacidade alternativa

Por outro lado, o PSOL e a esquerda socialista radical (PCB, PCO, PSTU), mais uma vez dividida politicamente, incapaz de constituir uma frente política de esquerda socialista capaz de disputar a hegemonia social com a frente política do neodesenvolvimentismo e com a direita reacionária e conservadora, demonstraram, mais uma vez, sua insignificância política. O segundo turno das eleições foi bastante disputado, com as pesquisas eleitorais indicando empate técnico entre Dilma e Aécio. Por muito pouco, Dilma Rousseff ganhou as eleições presidenciais, com o apoio da militância social e dos estados mais beneficiados pelos programas sociais do neodesenvolvimentismo. Os erros de estratégia política do PSDB também custaram caro. As eleições de 2014 demonstraram ser, na reta final, uma disputa clara entre esquerda e direita e, principalmente, uma disputa de classe.

É importante salientar o significado da vitória de Dilma Rousseff para o cenário da disputa geopolítica internacional: a vitória de Dilma Rousseff significou, no plano da política externa, a persistência do não alinhamento automático com a política externa dos EUA e o prosseguimento do projeto hegemônico dos BRICS como modelo de desenvolvimento capitalista alternativo — o que não é pouca coisa. Estamos vivendo um período de aprofundamento dos conflitos silenciosos entre os dois blocos de poder do capital (EUA-União Europeia versus Rússia-China). No cenário interno, a vitória de Dilma significou derrotar eleitoralmente a direita conservadora e reacionária que, após as eleições, frustrada em seu intento de chegar ao governo, prossegue com sua verve midiática de sangrar persistentemente a imagem do “governo do PT”.

Na verdade, devido à escalada da ofensiva do capital no plano mundial, a direita no Brasil — e na América Latina — tende a adotar a política de “guerra permanente”, buscando desgastar a imagem do governo. A vitória de Dilma mostrou, apesar dos pesares de um partido que se burocratizou e distanciou-se dos movimentos sociais e das lutas populares, a capacidade de luta da militância e dos simpatizantes do PT. A questão é saber se o governo Dilma e o PT saberão aproveitar a força da militância nesta conjuntura ímpar de reação conservadora. O que se percebe é que, diante da pressão midiática e das dificuldades da economia interna e externa, sob fogo cruzado da direita reacionária, o segundo governo Dilma vacila e titubeia, correndo o risco de paralisar-se. A vitória de Dilma representou a vitória da centro-esquerda num cenário político, social e econômico adverso, uma adversidade sistemática nunca vista pelos governos neodesenvolvimentistas. Deve-se exigir do governo Dilma o compromisso de manter conquistas da classe trabalhadora, sob pena de frustrar sua base eleitoral. Ao expor seus candentes limites e seu próprio mal-estar, o neodesenvolvimentismo acirrou as disputas internas no interior da frente política.

alt

"A esquerda não tem quadros hábeis política e ideologicamente para administrar o país. O partido não forma quadros médios, não investe em formação e educação capazes de dar um horizonte político-ideológico às lideranças políticas"

Congresso conservador

Em seu segundo mandato, Dilma Rousseff enfrenta um dos mais conservadores congressos da história da República brasileira. Coloca-se cada vez mais a necessidade de um salto de qualidade na intervenção social dos partidos de esquerda que apoiam o governo — PT e PCdoB, principalmente no plano da comunicação social, inserção nos movimentos sociais e luta ideológica na sociedade brasileira, sob pena de a ação voraz da direita organizada pautada pela mídia hegemônica pôr em risco a própria democracia. O eleitor que vota na esquerda, em geral, é muito frágil politicamente porque historicamente o PT nunca investiu na formação política — inclusive de quadros políticos. Na verdade, a esquerda não tem quadros hábeis política e ideologicamente para administrar o país. O partido não forma quadros médios, não investe em formação e educação capazes de dar um horizonte político-ideológico às lideranças políticas. O que explica a perda da esquerda na luta pela hegemonia social. Burocratizado, afastado dos movimentos sociais, mero partido eleitoral, parte dele envolvido em escândalos de corrupção, o PT precisa renovar-se sob pena de não conseguir ir além dos limites do neodesenvolvimentismo.

A eleição para a presidência da Câmara dos Deputados é um importante elemento de conjuntura política logo no começo de 2015. Caso ganhe Eduardo Cunha, do PMDB, o governo deverá ter muitas dificuldades para fazer passar seus projetos no Legislativo. Talvez o maior desafio para a presidente Dilma seja chegar incólume em 2018, evitando, deste modo, as práticas golpistas de direita.

IHU On-Line - A presidente e sua equipe econômica anunciaram que no próximo ano serão feitos alguns cortes, incluindo cortes sociais, embora durante a campanha eleitoral o discurso fosse de manter os investimentos sociais. Como esses cortes devem repercutir em relação aos salários dos trabalhadores? Qual deve ser a tendência do governo Dilma em relação à pauta trabalho?

Giovanni Alves - O Brasil é um país capitalista, portanto, o salário dos trabalhadores é uma variável do crescimento do PIB da economia. Caso o país volte a crescer com mais pujança, haverá boas negociações coletivas no setor privado, melhores condições para se negociar salários e planos de carreira no setor público e aumento real do salário-mínimo. Entretanto, caso não tenhamos crescimento do PIB em 2015 — e muito provavelmente também em 2016 —, teremos anos difíceis devido à política de ajuste e ao cenário adverso da economia internacional. A prioridade de ajuste das contas públicas e os juros elevados contribuirão para o baixo crescimento do PIB.

A preocupação do governo é que isso implique em aumento dos índices de desemprego e crescimento da precarização salarial. A adoção de políticas de austeridade faz o governo Dilma correr o risco de corroer sua base social e seu capital político. Por outro lado, visando garantir a retomada dos investimentos, o novo governo Dilma deve evitar confrontar os empresários — pelo contrário, a crise das contas públicas tornou-se motivo das pressões do capital para reduzir direitos dos trabalhadores. Provavelmente, o governo não deve apoiar a aprovação da redução da jornada de trabalho, nem colocar-se contra a ampliação da terceirização. A regra é a omissão silenciosa — não se empenhará para ampliar direitos trabalhistas, nem deterá iniciativas parlamentares que signifiquem o aumento da precariedade salarial (seria difícil imaginar Dilma vetando a PL 4330, o projeto de lei que amplia a terceirização do trabalho no país, caso passe pelo Congresso Nacional — só se houver ampla mobilização popular — o que é improvável). Provavelmente Dilma adotará a política clássica do lulismo, um lulismo de crise — o que é pior. Entretanto, não acredito que a política macroeconômica ortodoxa a ser adotada pelo novo governo não tenha freios que possam evitar que programas sociais historicamente vitrines dos governos neodesenvolvimentistas sejam prejudicados. Numa situação de crise externa e ofensiva interna da Direita, o governo deve manter-se na defensiva, visando preservar trincheiras sociais (eis, por exemplo, o equilíbrio dinâmico entre Joaquim Levy na Fazenda e Nelson Barbosa no Planejamento).

O novo governo deve operar no interior daquilo que chamei de limites do neodesenvolvimentismo. O governo encontra-se refém do Estado neoliberal que ele próprio preservou como estratégia de governabilidade. Diante do esgotamento das forças vivas do neoliberalismo no sentido de incapacidade de conduzir novos avanços sociais por conta do gasto público, é preciso colocar no horizonte as reformas sociais que, para serem efetivadas, pressupõem a reforma política capaz de resgatar a representação popular e construir uma nova institucionalidade democrática. Uma reforma política progressista torna-se indispensável para a tradição política das demandas dos movimentos sociais ascendentes e o resgate da representação política do povo brasileiro. É preciso mudar o Estado brasileiro caso o governo neodesenvolvimentista queira avançar, senão tornar-se-á não apenas refém de seus limites, mas cairá irremediavelmente para a direita neoliberal.

alt

"O tema da valorização do salário-mínimo deve ser mais um elemento de disputa interna no governo"

IHU On-Line - Será possível continuar aumentando progressivamente o valor do salário mínimo?

Giovanni Alves - Existe um acordo entre o governo e as Centrais Sindicais pela valorização do salário-mínimo. Nesse caso, o salário-mínimo é reajustado de acordo com o índice de crescimento do PIB da economia mais um percentual real. Portanto, a valorização do salário-mínimo depende, deste modo, do crescimento do PIB da economia brasileira. Em 2015 deve ocorrer uma nova negociação entre governo e centrais sindicais, num cenário de fragilização política e social do sindicalismo brasileiro. Enfim, não vai ser fácil manter a Política de Valorização do Salário-mínimo tal como está, devido a pressões da direita ortodoxa que incrustou-se no Ministério da Fazenda. Por outro lado, a valorização do salário-mínimo tornou-se um trunfo para as forças progressistas do governo Dilma. Portanto, em 2015, o tema da valorização do salário-mínimo deve ser mais um elemento de disputa interna no governo. Mais uma vez teremos a disputa política no interior do governo entre as duas almas do neodesenvolvimentismo (entre aqueles que cultuam o ajuste das contas públicas a qualquer custo e aqueles que priorizam o crescimento e desenvolvimento social).

IHU On-Line - O senhor concorda com as análises que afirmam que o governo está preparando uma “minirreforma da previdência”, sem utilizar esse nome para não assustar os trabalhadores? Em que consiste essa minirreforma? 

Giovanni Alves - Não sei se o governo está preparando uma minirreforma da Previdência Social para 2015. Há muita especulação política. O próprio ministro Guido Mantega desmentiu que isso pudesse ocorrer, embora o certo é que ocorra um ajuste fiscal. A nova equipe da economia brasileira, visando acalmar o mercado, pode propor algo neste sentido. Não me estranharia caso o fizesse — governos capitalistas nas condições de crise estrutural do capital devem adequar-se aos parâmetros sociorreprodutivos da ordem burguesa. Tendo em vista as novas tendências demográficas, redução da base contributiva e aumento da expectativa de vida, o capital tende a pressionar pelo aumento da faixa etária para a aposentadoria e aumento da alíquota de contribuição, ao mesmo tempo, que reduz progressivamente benefícios e direitos para os novos (e precários) trabalhadores assalariados — principalmente do setor público. É uma tendência mundial do novo capitalismo flexível: precarizar as condições de vida e trabalho de jovens e idosos que cada vez mais não conseguem se liberar do trabalho estranhado. O aumento da expectativa de vida, que poderia ser considerado uma conquista civilizatória para a humanidade, nas condições do capitalismo do século XXI, quando o tempo de vida se reduz cada vez mais a tempo de trabalho, tende a tornar-se um flagelo humano, pois não implica em qualidade de vida principalmente num país como o Brasil, que não está preparado no campo da saúde pública para dar conta do aumento de idosos que trabalham, submetido às novas condições de superexploração da força de trabalho, com impactos na saúde da pessoa que trabalha.

IHU On-Line - Como recebeu a notícia de que o aumento salarial despencou no Brasil e ficou abaixo da média mundial, considerando o aumento progressivo que vinha sendo feito desde o governo Lula? Esse aumento foi sustentável?

Giovanni Alves - Não acredito que o aumento salarial tenha despencado no Brasil, ficando abaixo da média mundial. Em 10 anos ocorreu a valorização do salário mínimo e mesmo no governo Dilma preservaram-se os rendimentos salariais médios. Muitas categorias assalariadas fizeram acordos coletivos com reposição salarial acima da inflação. Mas como salientamos, para o Brasil, como economia capitalista, a chave é o crescimento do PIB, que não ocorreu porque o gasto público não foi acompanhado do investimento privado; além disso, tivemos os constrangimentos nada desprezíveis da economia mundial salientados acima. Pela lógica do capital, apenas com o crescimento da economia e a melhoria da produtividade do trabalho, os aumentos salariais serão sustentáveis, dinamizando, deste modo, o mercado de consumo interno e produzindo um ciclo virtuoso — na perspectiva da acumulação de capital.

alt

"O governo Dilma tenta contornar, no mar revolto da economia global, a profunda crise dos mercados, procurando manter – e inclusive ampliar - programas sociais e, ao mesmo tempo, manter o crescimento - mesmo que mínimo - da economia brasileira"

Como dissemos, a conjuntura da economia mundial da década de 2010 inverteu-se totalmente. Nos governos Lula, a conjuntura mundial era totalmente outra — o preço das commodities no mercado mundial estava elevado e as contas do governo estavam melhor organizadas. Ao eleger-se em 2010, Dilma elege-se sob o estigma da crise mundial e seu aprofundamento na década de 2010. O governo Dilma tenta contornar, no mar revolto da economia global, a profunda crise dos mercados, procurando manter — e inclusive ampliar — programas sociais e, ao mesmo tempo, manter o crescimento — mesmo que mínimo — da economia brasileira. Ao mesmo tempo, acirra-se a ofensiva política da direita reacionária e conservadora. Poderíamos dizer que o governo Dilma, por adotar um lulismo sem Lula, buscava conciliar interesses antagônicos entre o Capital e o Trabalho num cenário de conflito distributivo por conta das taxas medíocres de crescimento do PIB. Entretanto, manter gastos públicos em cenário de desaceleração da economia e boicote do investimento privado desajustou as contas públicas do país (em 2014, o Brasil não conseguiu cumprir a meta do superávit primário), assustando investidores e ameaçando a credibilidade do país nas agências de rating. Para evitar um ataque especulativo contra o real, o governo Dilma recém-eleito rende-se à macroeconomia ortodoxa no Ministério da Fazenda (Joaquim Levy, homem das finanças), mas sem deixar de colocar contrapeso na Secretaria do Planejamento (Nelson Barbosa, economista de perfil desenvolvimentista). É um jogo complexo de equilíbrio dinâmico buscando navegar por águas turvas.

IHU On-Line - Quais serão os principais desafios do governo Dilma em relação à manutenção ou aumento do emprego, e aumento do salário mínimo, tendo em vista a estagnação econômica e o baixo crescimento para o próximo ano?

Giovanni Alves - O desafio é crescer o PIB. A estagnação da economia brasileira significa impossibilidade de manter o estoque de emprego, o que significa aumento do desemprego total; e também impossibilidade de manter a valorização do salário mínimo. Enfim, o desafio do novo governo Dilma é fazer omeletes sem quebrar ovos, isto é, fazer o proclamado ajuste fiscal sem reduzir significativamente o gasto público e degradar programas sociais. Por um lado, recuperar a confiança dos investidores e fazê-los investir; e, ao mesmo tempo, promover a recuperação do gasto público visando à retomada do crescimento do PIB em 2016 ou 2017, às vésperas da próxima eleição presidencial. Pode-se supor que Dilma deixe para seu sucessor, em 2018, a economia brasileira com fundamentos macroeconômicos mais sólidos do que ela recebeu no final de seu primeiro governo. Mas o cenário mundial não é nada desprezível. A economia brasileira está bastante integrada no mercado mundial. Como salientamos acima, a economia mundial voltou a apresentar instabilidades sistêmicas — queda de investimentos produtivos, aumento da capacidade industrial ociosa, aumento do endividamento público, etc. — e os efeitos sobre países capitalistas ditos “emergentes" são deveras difíceis.

A direita reacionária e conservadora no Brasil não dará trégua ao segundo governo Dilma. O cerco midiático será permanente. Por um lado, apostam no golpismo do impeachment da presidente Dilma Rousseff, caso a crise econômica e social se aprofunde; e, por outro lado, investem no sangramento paulatino do PT visando debilitá-lo como direção política, degradando, ainda mais, sua identidade de classe, isolando, deste modo, o governo refém de sua tibieza pragmática. Não me iludo: a precariedade do mundo do trabalho deve aumentar por conta das pressões empresariais pela ampliação da terceirização — o que significa que aumentará a pressão parlamentar pela corrosão de diretos trabalhistas e pelo esvaziamento da Justiça do Trabalho. O governo mantém-se indiferente ao lobby empresarial no Congresso pela ampliação da terceirização. A situação de crise da economia brasileira coloca dificuldades para a negociação coletiva no setor privado — e principalmente no setor público. Não vai ser fácil atender reivindicações dos trabalhadores que implique aumento do gasto público com pessoal.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

alt

" O último governo Dilma opera nos limites do neodesenvolvimentismo, gerando um verdadeiro mal-estar"

Giovanni Alves - Deve-se entender que o último governo Dilma opera nos limites do neodesenvolvimentismo, gerando um verdadeiro mal-estar. Limite não é esgotamento, mas dificuldades crescentes para cumprir o programa social do neodesenvolvimentismo; o governo encontra-se cada vez mais refém do Estado neoliberal; o governo é refém de si mesmo, incapacidades do reformismo e a reposição contínua da direita voltar diante da incompetência da esquerda social-democrata. A saída é um salto de qualidade na organização sindical e popular e na capacidade de luta política e ideológica disputando a hegemonia social numa nova frente política e social de esquerda visando ao aprofundamento da democracia.

Nesse momento de crise do neodesenvolvimentismo, torna-se mais clara a necessidade crucial da Reforma Política como patamar de nova institucionalidade democrática capaz de traduzir politicamente as demandas sociais e a luta de classes do trabalho. Faz falta ao Brasil uma institucionalidade democrática sensível às demandas populares, assim como faz falta partidos e movimentos sociais capazes de expô-las hegemonicamente. A Reforma Política é a mãe de todas as reformas de base, embora, mais importante do que ela, é a capacidade de resgatar o partido político capaz de representar os interesses da classe trabalhadora. Ao lado do pessimismo da razão temos o otimismo da vontade. Enfim, é importante continuar avançando apesar das dificuldades da nova conjuntura de ofensiva do capital no plano mundial. 

(Por Patricia Fachin)