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Dilma deu autonomia a Joaquim Levy

Joaquim Levy ficou surpreso positivamente com a liberdade oferecida pela presidente Dilma Rousseff para a sua gestão à frente do Ministério da Fazenda. Ela não impôs condições ao futuro ministro. Deu-lhe garantias e reconheceu que a política econômica precisa passar por um "bom ajuste". A conversa animou Levy, que retorna oito anos depois à Fazenda, onde, sob o comando de Antonio Palocci, ajudou a promover, entre 2003 e 2006, o maior ajuste fiscal já realizado no país.

O comentário é de Cristiano Romero, jornalista, publicado no jornal Valor, 26-11-2014.

Primeiro nome convidado pela presidente, Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, estava disposto a assumir o cargo que há mais de oito anos é ocupado por Guido Mantega. Antes de ser convidado e vendo seu nome circular na imprensa, o executivo dizia a quem lhe perguntasse que não poderia aceitar o convite.

Dilma telefonou para Trabuco na quarta-feira da semana passada, depois de acertar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que faria o convite. O presidente do Bradesco ficou feliz com a oferta e consultou imediatamente seu superior hierárquico - Lázaro Brandão, presidente do conselho de administração do banco. Para seu desgosto, Brandão reagiu mal à convocação.

Foi assim que Trabuco se sentiu: convocado pela presidente da República. "Se for para valer, não dá para dizer não", comentou ele com os mais íntimos antes de ser chamado por Dilma. Como Brandão não gostou da investida, Trabuco sugeriu ao Palácio do Planalto que ele participasse da conversa com a presidente. E assim foi: os dois principais integrantes da cúpula do Bradesco se reuniram com Dilma, em Brasília, no fim da tarde de quarta-feira.

Durante o encontro, Lázaro Brandão explicou que Trabuco não poderia deixar a diretoria executiva do banco neste momento. Ato contínuo, indicou outro subordinado seu para a Fazenda: Joaquim Levy, presidente da Bradesco Asset Management (Bram).

O nome do ex-secretário do Tesouro na já havia circulado como uma possibilidade para o Ministério da Fazenda durante a campanha eleitoral. Seus principais defensores foram o ex-presidente Lula e Palocci, seu antigo chefe.

Na ocasião, Dilma não ficou muito entusiasmada.

A presidente conhece Levy desde o primeiro mandato de Lula (2003-2006). Levy foi um secretário do Tesouro marcante, na linha de Murilo Portugal, que ganhou a alcunha de "Dr. No" (título e personagem do primeiro filme da série James Bond) por ter conduzido a instituição, nas gestões dos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, com grande austeridade.

No governo Lula, Levy era odiado pela maioria dos ministros. Os petistas nutriam especial rejeição por ele. Consideravam-no "neoliberal". Mas o então secretário era adorado por Lula e mantinha boas relações com a então ministra Dilma. Em 2007, quando ele já havia deixado o Tesouro, Lula o indicou ao governador Sérgio Cabral (PMDB) para comandar as contas do governo fluminense.

No exercício daquela função, Levy foi o maior adversário da mudança, patrocinada por Lula e Dilma, do regime de exploração de petróleo no Brasil - de concessão para partilha. Foi ele quem deu argumentos a Cabral para tentar convencer Lula a desistir da alteração, principalmente, das regras de distribuição de royalties do petróleo, uma vez que, no regime anterior, o Rio, como maior produtor, era o principal beneficiário.

A concordância de Dilma em convidar Levy mostra sinais importantes para seu segundo mandato. A presidente estaria convencida, dada a gravidade das contas públicas e da proximidade de uma severa crise econômica caso nada seja feito, de que precisa mudar seu estilo centralizador na área econômica. "Ela percebeu que é melhor dar autonomia à equipe econômica", comentou um aliado.

Na entrevista que deu a oito jornalistas pouco depois da eleição, Dilma falou como ministra da Fazenda. Disse o que precisa ser feito e o que não pode ser feito antes mesmo de escolher e anunciar o nome do novo ministro. E repetiu o mantra que enfraqueceu sua atual equipe, especialmente, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini.

"Nós vamos fazer uma política de inflação que leva em conta o fato também de que nós não vamos desempregar neste país. Ponha isso na cabeça", disse Dilma na entrevista. Um jornalista lembrou que essa (o emprego) é uma variável que independe do governo. "Você é que acha", reagiu a presidente. Na conversa com Levy, ela mudou inteiramente o tom, segundo apurou o titular desta coluna.

Outro sinal importante é que Dilma pretendia nomear Nelson Barbosa para a Fazenda, mas não o fez.

Ex-secretário-executivo daquele ministério, Barbosa se aproximou da presidente no segundo mandato de Lula, ao defender ideias como a redução do superávit primário das contas públicas para estimular o crescimento econômico. "Desenvolvimentista" como Dilma, ele se tornou o economista mais ligado a ela.

A nomeação para o Ministério do Planejamento pode sugerir a ideia de que Barbosa, com o apoio tácito da presidente, fará um contraponto à esperada gestão conservadora de Levy na Fazenda. Quem conhece Brasília sustenta, entretanto, que não há como isso ocorrer graças à proeminência da Fazenda, ao contrário do que se observava no passado - de fato, nos governos militares os ministros do Planejamento eram bastante fortes.
Nem quando Palocci comandou a Fazenda e Mantega, o Planejamento, houve essa dicotomia. O primeiro a não permiti-la foi o então presidente Lula.

Dilma teria nomeado Nelson Barbosa, nas palavras de um interlocutor privilegiado, para "não desagradar a gregos e troianos". De fato, os petistas não gostaram nem um pouco da nomeação de Levy para a Fazenda e muito menos de Kátia Abreu para a Agricultura. Mas é bom que eles saibam que quem conhece Barbosa na nova fase assegura: "O 'Nelsão' vai surpreender à direita. Em assuntos fiscais, ele está bem conservador".

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