''Não é mais possível admitir que uma luta popular tenha como meta a eleição de algum representante''. Entrevista especial com Bruno Lima Rocha

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21 Junho 2013

"Há 10 anos vivemos um cogoverno de centro-esquerda, vivemos melhor no mundo do consumo, mas estamos desorganizados como povo. Setores inteiros do movimento popular estão desarticulados ou têm relações complicadas – subordinadas – para com o governo”, avalia o cientista político e jornalista.

Confira a entrevista.

Foto de www.ebc.com.br

“Ninguém atura mais ser reprimido durante o exercício democrático de livre expressão e demanda por direitos”, diz Bruno Lima Rocha à IHU On-Line, ao avaliar as manifestações que tomaram as ruas das capitais brasileiras nos últimos dias. Na avaliação do jornalista e cientista político, as manifestações demonstram que, apesar da agenda social brasileira, “é visível a distribuição de poder no país, e que mesmo tendo memória dos tempos em que vivíamos pior, já não é possível conviver sem o direito à cidade e à mobilidade”.

Segundo ele, “a agenda social não processou um vigoroso movimento popular, foi justo ao contrário. Assim, o Estado cumpre a tarefa da agenda social, mas não redistribui poder e não tolera algum poder de exigência e mobilização”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Lima Rocha avalia que a manifestação está dividida entre aqueles que “nunca se organizam e trazem a bandeira e o hino nacional” e os que estão a mais tempo organizados em lutas populares, “compreendendo a sociedade de classes”. De todo modo, acentua, os rumos políticos do país "estão sendo transformados, uma vez que estas conquistas pontuais implicam num modelo de que é possível reverter decisões de Estado, mesmo que estas sejam dadas como fatos consumados".

Bruno Lima Rocha possui graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e mestrado e doutorado em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Atualmente leciona no curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Além do aumento do preço da passagem, que outros motivos desencadearam as manifestações dos últimos dias? Há um descontentamento com os rumos da política brasileira?

 Foto Divulgação

Bruno Lima Rocha – Entendo que há um problema de organização social. Há 10 anos vivemos um cogoverno de centro-esquerda, vivemos melhor no mundo do consumo, mas estamos desorganizados como povo. Setores inteiros do movimento popular estão desarticulados ou têm relações complicadas – subordinadas – para com o governo. Ao mesmo tempo, no Brasil circula muita informação que adere, desde 2000, às lutas antiglobalização. Bem, entendo que é disso que se trata. No caso do Movimento Passe Livre – MPL, é uma luta que se inicia em 2000 em Florianópolis, se nacionaliza a partir de 2005 justo com a realização do Fórum Social Mundial – FSM em Porto Alegre e que se acumula junto com a Copa das Confederações.

IHU On-Line – O que tais manifestações demonstram sobre a atuação do Estado brasileiro com a agenda social?

Bruno Lima Rocha – Demonstram que a exigência pelos direitos é uma pauta que hoje atravessa setores desorganizados. Também apresenta que, apesar da agenda social, é tão visível a distribuição de poder no país, que mesmo tendo memória dos tempos em que vivíamos pior, já não é possível conviver sem o direito à cidade e à mobilidade. A economia do país levou a uma inclusão capitalista, mas esta não veio por conquistas. A agenda social não processou um vigoroso movimento popular, foi justo ao contrário. Assim, o Estado cumpre a tarefa da agenda social, mas não redistribui poder e não tolera algum poder de exigência e mobilização.

IHU On-Line – Em todas as manifestações houve conflito entre manifestantes e a polícia. Como avalia a violência presente nos protestos e a repressão policial? Por que manifestações sociais sempre são seguidas de repressão? Há uma tendência à criminalização das manifestações?

Bruno Lima Rocha – Sim, há um nítido intento de criminalizar os movimentos populares e atribuir causas individuais aos ativistas. Há a presença de infiltração policial e de elementos de extrema direita, mas são dois os fatores mais relevantes: 1) ninguém atura mais ser reprimido durante o exercício democrático de livre expressão e demanda por direitos. As cidades não pertencem apenas ao sistema de transporte, e a repressão na Paulista e, no caso do RS, na avenida Ipiranga, demonstra isso; 2) as multidões têm algo de incontrolável e neste caso, as manifestações se parecem com as da França, em que as agrupações de movimentos sociais se confundem com o povo que mora nos chamados “subúrbios quentes”. Quando esta nova força se politiza, este processo demora e passa por descontrole.

IHU On-Line – Há um sentimento massivo de que unidos é possível mudar os rumos políticos do país. Na prática, o que isso significa e aponta como mudança de perspectiva política?

Bruno Lima Rocha – Creio que sim, que há uma perspectiva nova em relação à coletividade. O problema é que trata-se de um termo e sentido em disputa, onde quem nunca se organiza traz a bandeira e o hino nacionais, enquanto quem está a mais tempo organizado aponta para lutas populares, compreendendo a sociedade de classes. A prática já existe e este caldo de cultura seguirá organizado, ao menos até a agenda eleitoral do ano que vem. Ou seja, durante a Copa do Mundo teremos uma pauta paralela, onde o povo se questiona quanto aos gastos da Copa, considerando que aqui teremos uma realização mais parecida com a da África do Sul do que com a da Alemanha. E, quanto aos rumos políticos do país, sim, creio que já estão sendo transformados, uma vez que estas conquistas pontuais implicam num modelo de que é possível reverter decisões de Estado, mesmo que estas sejam dadas como fatos consumados.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a crítica à política representativa e aos partidos políticos, especialmente aos que são considerados de esquerda e têm uma agenda social?

Bruno Lima Rocha – Considero as críticas acertadas, porque a tendência de quem entra no jogo eleitoral é se imiscuir com as regras do jogo viciado, mais do que transformar as relações políticas. Não é mais possível admitir que uma luta popular tenha como meta a eleição de algum representante, ou pior, que alguém seja eleito prometendo ser controlado pela entidade coletiva e depois se descole desta e passe a atuar por conta própria. Entendo que a esquerda só se renova, ou se legitima, como é o caso do anarquismo, por baixo e na base.

IHU On-Line – Os manifestantes deixam claro que são apartidários, e não têm lideranças. Como interpreta esse discurso? Como pensar um novo modelo político a partir dessas características?

Bruno Lima Rocha – É um modelo bem antigo, e não é que seja “apartidário” necessariamente, mas sim que as agrupações político-ideológicas se subordinam às decisões coletivas tomadas pelos movimentos. Isso é o inverso do leninismo, assim como a não constituição de lideranças carismáticas. Os líderes seriam transitórios e o maior número possível de decisões é submetido a deliberações coletivas. É possível expandir este modelo, tanto para a pressão popular no sentido de diminuir as margens de manobra dos governos, do aparelho de Estado e dos empresários em prol das maiorias, como também em uma situação ampliada, de modelo societário mesmo.

IHU On-Line – Ontem os governos anunciaram redução de tarifa do transporte público em
São Paulo e no Rio de Janeiro. O que isso significa? Percebe uma possibilidade de diálogo entre o Estado e os cidadãos?

Bruno Lima Rocha – Antes de nada uma vitória exemplar, mesmo que esta decisão implique em uma manobra para esconder a pauta das margens de lucro dos empresários. O Estado tem vários canais de diálogo com a cidadania, organizada ou não. O problema é que as maiorias só têm poder de veto se mobilizadas, se coagindo o topo da pirâmide social a não avançar tanto sobre os interesses coletivos. No Rio, em São Paulo, aqui [no RS] e no Brasil inteiro, trata-se disso. Para cessar uma perda, só pressionando e pondo em xeque não apenas a decisão em si, mas o mecanismo decisório, a legitimidade dos argumentos e os interesses de fundo.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Bruno Lima Rocha – Repito o que disse em outras publicações. A presença da ideologia anarquista é visível, tanto em sua forma mais difusa como na mais orgânica, vinculada a Coordenação Anarquista Brasileira, sendo que no RS esta Coordenação tem a Federação Anarquista Gaúcha – FAG como membro. Digo isso por ter total certeza deste dado e afirmo que, para ampliar a democracia direta e a defesa dos direitos coletivos, tal presença é fundamental. Todos os elementos apresentados: horizontalidade, identidade e independência de classe, sentido popular, democracia direta, profunda democracia interna, exercício do direito das maiorias, todas estas categorias estão presentes e constituem a ideologia anarquista em si.

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