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Entrevistas

A noção de antagonismo esteve ausente na campanha política gaúcha. Entrevista especial com Bruno Lima Rocha

“Na medida em que as diferenças partidárias vão diminuindo, fica menos traumática a troca de governo”, constata o cientista político.

Confira a entrevista.


Apesar de as eleições municipais do Rio Grande do Sul não sinalizarem novidades políticas, é possível verificar “um movimento pendular, onde alguns grupos novos, ou renovados, retomam posições de poder local e uma legenda que se consolida dia a dia como partido tradicional – o PT –, e se distancia de suas origens reformistas”. A avaliação é do jornalista e cientista político, Bruno Lima Rocha, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Para Rocha, a eleição do prefeito da capital gaúcha, José Fortunati (PDT), está atrelada aos grandes eventos, como Copa das Confederações e Copa do Mundo, e à aliança do partido com o PMDB na última eleição. “Fortunati não teve o desgaste da primeira gestão Fogaça e aproveitou a oportunidade das circunstâncias da aliança PMDB-PDT para o Piratini em 2010, e agora vem a compensação”, assinala. O cientista político também comenta a derrota no PT em Porto Alegre, que pela primeira vez ficou de fora da disputa pelo segundo turno, e em algumas cidades importantes da região metropolitana. “O PT se dilacera na capital e tem, na prática política, uma atitude mais próxima do antigo Campo Majoritário. Ou seja, não faz política mais à esquerda, utilizando-se de linguagem de tipo liberal, como ‘parcerias’. A novidade nas gestões municipais do PT gaúcho seria o estilo Jairo Jorge, puro pragmatismo e um consenso em seu município em torno das realizações aparentes”.

Sobre a eleição de Eduardo Leite (PSDB), em Pelotas, única cidade gaúcha que teve segundo turno, Bruno Lima Rocha diz se tratar de uma “renovação para perpetuação”. E explica: “Eduardo Leite (PSDB) é um político com ares de novidade (pouca faixa etária e discurso gerencialista), mas reivindica a herança política de Bernardo de Souza. Este derrota a Marroni, que também implica uma continuidade. Leite mesmo foi chefe de gabinete de Fetter Jr. (quando ainda muito novo), o que, de certa forma, aponta uma continuidade”.

Bruno Lima Rocha possui graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e mestrado e doutorado em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Atualmente leciona no curso de Jornalismo da Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Percebe alguma novidade política nas eleições municipais do Rio
Grande do Sul?

Bruno Lima Rocha –
Em princípio, não percebo nenhuma novidade. Apenas um movimento pendular onde alguns grupos novos, ou renovados, retomam posições de poder local e uma legenda que se consolida dia a dia como partido tradicional – o PT –, e se distancia de suas origens reformistas. O espaço político do PT dos anos 1980 ainda não foi coberto.

IHU On-Line – A que atribui a reeleição de José Fortunati (PDT) em Porto Alegre? Quem são os eleitores do prefeito?

Bruno Lima Rocha –
Uma soma de fatores, mas é preciso dizer que é difícil que um prefeito surfando na onda de grandes eventos esportivos não consiga a reeleição. Fortunati não teve o desgaste da primeira gestão Fogaça e aproveitou a oportunidade das circunstâncias da aliança PMDB-PDT para o Piratini em 2010, e agora vem a compensação.

Seus eleitores são a maioria silenciosa, e o impacto da imagem das realizações que sua gestão vem fazendo assim como a anterior. Mas é preciso dizer que em torno da prefeitura da capital há um consenso formado pela mídia estadual, a Agenda 2020, os espaços que sua gestão privatiza – ao menos no simbólico – como nas iniciativas de exposição de logomarcas privadas em espaços públicos (locais físicos, como na Orla do Guaíba e no Largo Glênio Peres).

IHU On-Line – Como avalia as campanhas de Adão Villaverde (PT), de Manuela D'Ávila (PCdoB) e de Fortunati (PDT)?

Bruno Lima Rocha –
O PT sair como cabeça de chapa foi um suicídio eleitoral. Villaverde pode ser um experiente operador político, mas não tem nem carisma como “produto” e menos ainda capacidade de emocionar o eleitor mediano. Já Manuela só teria alguma chance se saísse com o apoio do PT e PSB e, nesta chapa meio puro sangue, batesse duro e com fatos consumados contra a gestão de Fogaça e Fortunati. Mas, saindo em conjunto com o PSD e tendo o apoio da Ana Amélia, fica simplesmente indefensável sua posição de crítica a atual gestão. Ela não se diferenciava de Fortunati e tinha de esconder sua vice-candidata.

IHU On-Line – As pesquisas sempre apontaram Porto Alegre como uma capital de eleitores de esquerda. Por que, no entanto, partidos como PT e PSOL tiveram pouca representatividade nessas eleições?

Bruno Lima Rocha –
Vejo como planos diferentes. Hoje o PSOL é um partido ainda embrionário em termos eleitorais, tentando construir uma imagem mais republicana do que classista. O PT se dilacera na capital e tem, na prática política, uma atitude mais próxima do antigo Campo Majoritário. Ou seja, não faz política mais à esquerda, utilizando-se de linguagem de tipo liberal, como “parcerias”. A novidade nas gestões municipais do PT gaúcho seria o estilo Jairo Jorge (prefeito reeleito de Canoas), puro pragmatismo e um consenso em seu município em torno das realizações aparentes.

IHU On-Line – Os candidatos à prefeitura de Porto Alegre não fizeram campanhas nos “bolsões de miséria da capital”. O que mudou nas campanhas? Trata-se de uma campanha direcionada para a chamada “nova classe média”?

Bruno Lima Rocha –
Boa pergunta. É difícil entender por que a pobreza não mobilizou os candidatos. Mas, para os padrões brasileiros, Porto Alegre é uma capital razoavelmente organizada e com uma aparência de “classe média” (tomo cuidado com este conceito, pois sociedades de maioria fabril se parecem com a ideia de classe média). O que esteve ausente desta campanha foi a noção de antagonismo, ao menos dos candidatos favoritos.

IHU On-Line – Como compreender a reeleição de Tarcísio Zimmermann (PT) em Novo Hamburgo, sendo que ele tinha a candidatura impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral – TSE? O que isso revela sobre a perspectiva do eleitorado?

Bruno Lima Rocha –
Revela alguns fatores. Um deles é a aprovação do atual prefeito, apesar de uma situação complicada. Outro é a relativa desinformação do eleitorado, ou mesmo como uma aposta, de que uma vez reeleito ele seria legitimado. Por fim, a ausência de competição mais dura, porque apenas com esta ameaça de cassação poder-se-ia fortalecer os rivais.

IHU On-Line – O PT tinha 60 prefeituras no Rio Grande do Sul, e elegeu candidatos em 72 na última eleição, mas perdeu em algumas cidades estratégicas como em São Leopoldo, Caxias do Sul e na capital. Como vê a atuação do partido no estado? O que esses dados sinalizam?

Bruno Lima Rocha –
Assim como o PT ganhou em 2008 o eixo da BR 116, agora perdeu algumas cidades-polo, dentre estas a do Vale dos Sinos. A disputa em municípios mais populosos é muito forte e pode haver rejeição, além do fator local, a conformação de poderes locais. Outro indício é simples: na medida em que as diferenças partidárias vão diminuindo, fica menos traumática a troca de governo.

IHU On-Line – Entre as coligações polêmicas deste pleito, destaca-se a do PT, em Canoas, que se aliou a vários partidos, e a aliança entre PCdoB e setores do PP, em Porto Alegre. Como compreender coligações entre partidos que têm históricos divergentes? Pode-se falar de uma crise dos partidos políticos, considerando as coligações partidárias?

Bruno Lima Rocha –
Sim, claro que sim. Jairo Jorge é o exemplo de pragmatismo político e reincorporação de setores que já foram governo, que prendem-se a realizações e não a um modelo de acumulação de forças.

IHU On-Line – O senhor analisou os gastos das eleições do Vale do Rio dos Sinos, apontando um gasto de 32.125.000 reais. O que esse dado representa?

Bruno Lima Rocha –
O volume de gastos em Canoas, vejo como proporcional ao reflexo da votação do atual prefeito (reeleição). Canoas puxa o volume de gastos, mas todo o investimento de campanhas na região se justifica, tanto do ponto de vista dos “doadores” como de quem recebe. A região metropolitana é fundamental para quem tem pretensões estaduais, além de que cada um destes municípios pode ser um fator-chave para a eleição de um deputado estadual.

IHU On-Line – O mensalão pode ter influenciado o resultado das eleições no que se refere ao PT?

Bruno Lima Rocha –
Não creio. A população observa o mensalão como um episódio e a eleição no sentido pragmático, de observar quem realiza ações aparentemente concretas (positivas) para o município e quem apela para a moral republicana ou o antagonismo social. Infelizmente, os dois últimos itens estão com apelo relativamente baixo.

IHU On-Line – Considerando o resultado das eleições municipais, já é possível vislumbrar alguma possibilidade para a eleição de governador em 2014?

Bruno Lima Rocha –
A posição do desembarque será fundamental, conjecturando o possível fortalecimento do PDT a partir da capital. Por enquanto é o que podemos vislumbrar. E, claro, o PSB, em termos nacionais, pode forçar algum desembarque do governo estadual, ou uma nova relação na aliança com o PT.

IHU On-Line – Como avalia a eleição em Pelotas?

Bruno Lima Rocha –
Seria o que na análise política clássica chama-se “renovação para perpetuação”. Uma sequência de embates meio tradicionais, onde quem ganha, Eduardo Leite (PSDB), é um político com ares de novidade (pouca faixa etária e discurso gerencialista), mas que reivindica a herança política de Bernardo de Souza (ex-prefeito de Pelotas). Este derrota a Marroni (ex-prefeito de Pelotas - PT e atualmente, deputado federal), que também implica uma continuidade. Leite mesmo foi chefe de gabinete de Fetter Jr.(prefeito de Pelotas), quando ainda muito novo, o que, de certa forma, aponta uma continuidade.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Bruno Lima Rocha –
É cada vez mais urgente debatermos formas de democracia para além do voto sistemático; aplicando mecanismos onde a população seja protagonista, ao ser convocada (ou ao convocar) para plebiscitos que decidam sobre temas fundamentais na vida das maiorias. Nesse caso, a política municipal pode operar como um bom embrião de democracia direta e substantiva. Do contrário, a população é convocada a autorizar expoentes de carreira política com tendências para a profissionalização. É possível aprofundar e radicalizar a democracia em todos os níveis.

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