Copa do Mundo 2014: ''O Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro''. Entrevista especial com Marcos Alvito

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04 Janeiro 2012

Com o objetivo principal de barrar o processo de eletização que está em curso no futebol brasileiro, a Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras – ANT critica a construção de novos estádios para sediar a Copa do Mundo em 2014 e os acordos estabelecidos entre o governo brasileiro e a FIFA. Para o presidente da ANT, Marcos Alvito, a construção de novos estádios de futebol tem como finalidade “receber um consumidor passivo, que vai ao estádio apenas para assistir”. Em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone, Alvito esclarece que “o marco deste processo aconteceu há seis anos, com a reforma do Maracanã, quando o clube terminou com a torcida da geral. Ao terminar com a geral, deixaram de lado uma cultura carnavalesca, lúdica e de expressão no futebol”.

Em sua avaliação, a Copa do Mundo não trará benefícios para o país, pois novos estádios serão construídos em estados em que não há tradição futebolística regional, como Brasília, Cuiabá e Manaus, e posteriormente serão vendidos para a iniciativa privada. Além disso, ressalta, comunidades que vivem há mais de 30 anos em um mesmo local serão removidas “por causa da especulação imobiliária”. “O governo brasileiro irá arcar com todos os gastos para a realização da Copa do Mundo, enquanto a FIFA irá vender os ingressos, os patrocínios para a televisão. Nem a FIFA nem a iniciativa privada estão contribuindo financeiramente para a realização das obras de infraestrutura. Esses estádios não irão se pagar”, destaca.

Marcos Alvito é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense  UFF e doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor do Departamento de História da UFF e coordenador da revista digital Esporte e Sociedade, fundada em novembro de 2005.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é a Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras – ANT e como ela se posiciona diante da Copa do Mundo?

Marcos Alvito – A ANT foi criada em 10-10-2010. Fundamos a Associação em frente ao Maracanã fechado para as obras da Copa e temos sete objetivos. Entre eles está homenagear o Garrincha. Também propomos transformar as escolinhas de futebol dos grandes clubes em escolas profissionalizantes, a fim de que suas crianças sejam preparadas para algo mais do que jogar futebol, já que 80% deles não serão jogadores deste esporte.

O objetivo principal da ANT é barrar o processo de eletização que está em curso no futebol brasileiro. Calculei que, para uma família de quatro pessoas ir ao Engenhão uma vez por mês, pagar as passagens de ônibus e comprar uma água e um pastel para cada um, gastaria em torno de 143 reais.

Além do alto valor dos ingressos, as áreas populares dos estádios estão sendo sistematicamente destruídas. O torcedor gosta de ter espaço para torcer, ele não gosta de ficar preso a uma cadeira. O conceito de estádio não é o mesmo de um teatro: torcer não é assistir. O torcedor precisa se emocionar, ficar em pé, vibrar, se movimentar, cantar, xingar e ter uma liberdade que efetivamente está sendo polida. Estão tentando transformar o futebol em um teatro para os ricos. Nesse sentido, a ANT visa defender o direito do torcedor na manutenção da cultura do futebol. O torcedor não se importa com o conforto, com cadeiras. Ele quer segurança, um tratamento descente, transporte público adequado.

Quando acontece um show musical, por exemplo, disponibiliza-se um sistema de transporte especial; mas não é disponibilizado transporte para 30, 40 mil pessoas irem ao estádio. Pelo contrário, algumas empresas até diminuem os horários dos ônibus. O torcedor não é tratado dignamente e depois ainda temos de ouvir essa conversa de que o torcedor quer conforto, poltronas, camarote, quando na verdade ele quer apenas acesso ao estádio, direito de torcer, de levar bandeiras. Em estádios como o do Atlético Paranaense, o torcedor não pode mais levar a faixa e se manifestar.

Já que os estádios da Copa estão sendo construídos com dinheiro público, sugerimos que 30% dos ingressos sejam reservados para ingressos populares. É preciso definir quem terá acesso a isso. Aquelas pessoas que recebem Bolsa Família, por exemplo, poderiam ter direito a esses ingressos. Hoje, o futebol, que foi feito pelo povo brasileiro, está restrito à classe média, que tem condições de pagar de 30 a 40 reais para ir ao estádio.

IHU On-Line – A que atribui essa eletização do futebol? Desde quando esse processo está em curso no país?

Marcos Alvito –
Esse processo começou na Inglaterra, quando aconteceu um acidente em um estádio por causa da concentração de torcedores em frente a uma grade muito forte, que não cedeu, e vários torcedores morreram esmagados.

Depois desse ocorrido, a pessoa encarregada de fazer a investigação do caso sugeriu que não houvesse grades nos estádios, que tivesse espaço para as pessoas sentarem e que fossem adotadas medidas para não haver superlotação. Os clubes pegaram dinheiro com o governo inglês, modificaram os estádios, colocaram cadeiras, mas aproveitaram para aumentar o preço dos ingressos. Os ingleses, portanto, resolveram mudar de clientela.

No Brasil, há muito tempo o maior recurso dos clubes não é proveniente da venda de ingressos, quer dizer, os ingressos não chegam a 20% dos recursos dos clubes. Esses recursos são provenientes dos patrocínios, da televisão, da venda de jogadores. Então, já que o ingresso não pesa tanto no orçamento, os clubes preferem mudar a clientela. Em vez de terem um torcedor, preferem ter um consumidor. O marco desse processo aconteceu há seis anos com a reforma do Maracanã, quando o clube terminou com a torcida da geral. Ao terminar com a geral, deixaram de lado uma cultura carnavalesca, lúdica e de expressão no futebol.

Os estádios estão se transformando em um estúdio de televisão, a exemplo do Engenhão, que é bonito, mas tem um campo com dimensões reduzidas, uma pista de atletismo, o que torna o estádio frio e é todo vazado. Então, as torcidas gritam e não reverberam o grito; não se cria um ambiente de estádio de futebol. Os torcedores que ficam atrás do gol, na área mais popular e emocionante, não conseguem ver a linha do gol e tampouco a bola entrar na goleira. Quem fica na lateral do estádio tem a visão prejudicada por causa das placas publicitárias.

IHU On-Line – Quais são os principais equívocos e acertos em torno das obras da copa?

Marcos Alvito –
O primeiro equívoco foi o acordo político feito à época do governo Lula no que se refere ao aumento de sedes, de 8 para 12 estádios. O Brasil não tem 12 grandes centros futebolísticos. Sabemos que Cuiabá, Manaus e Brasília, por exemplo, não são centros esportivos para futebol. Serão construídos estádios em lugares onde os campeonatos regionais praticamente inexistem. Então, construir arenas nessas regiões é como jogar dinheiro fora. Esse acordo foi feito, obviamente, para atender a acordos políticos do governo no sentido de costurar alianças políticas. A negociação política foi tão forte, que a seleção brasileira provavelmente não irá jogar no Maracanã, a menos que ela chegue à final. Mas, pelo jeito, a final da Copa vai ser disputada entre Espanha e outro time.

Além do mais, a construção de estádios nessas regiões não irá transformar a realidade local. A manutenção desses estádios é grande, de praticamente 10% do valor do estádio ao ano. Não acredito que esse dinheiro esteja sendo utilizado de forma correta. As obras em torno do Maracanã, por exemplo, já foram suspensas porque havia um superfaturamento de 90 bilhões de reais. Obviamente, se considerarmos o fato divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, de que 54% dos parlamentares brasileiros foram financiados por empreiteiras, basta juntar 2+2 para entender o que está acontecendo: somente a Odebrecht tem obras no valor de 2,5 bilhões de reais ligados a obras da Copa do Mundo. O BNDES, por exemplo, vai gastar sete bilhões com a construção de novos estádios.

Recentemente, dois jornalistas marxistas, que trabalham no Financial Times, disseram que não vale a pena um país como o Brasil sediar grandes eventos porque eles não são suficientes para pagar as contas geradas. Esses estádios que estão sendo construídos não têm alma. Eles são estúdios e são construídos dentro desta perspectiva de receber um consumidor passivo, que vai ao estádio apenas para assistir. São estádios eletizados, com muitas áreas vips, quando, na verdade, vip, no futebol, deveria ser o povo, que criou esse esporte.

IHU On-Line – Os defensores da Copa do Mundo dizem que os gastos serão elevados, mas que o retorno será positivo. Como é feita essa conta para saber se vale a pena sediar uma Copa do Mundo?

Marcos Alvito – A conta é simples: o governo brasileiro irá arcar com todos os gastos para a realização da Copa do Mundo, enquanto a FIFA irá vender os ingressos, os patrocínios para a televisão. Nem a FIFA nem a iniciativa privada estão contribuindo financeiramente para a realização das obras de infraestrutura. Esses estádios não irão se pagar. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, já anunciou que irá privatizar o Maracanã antes da Copa das Confederações, ou seja, o Estado vai gastar um bilhão na reforma do Maracanã e depois vai entregá-lo para a iniciativa privada, e diz que o modelo vai ser o do Engenhão.

Só para você ter uma ideia, o Engenhão custou 400 milhões de reais, e o Botafogo paga 33 mil reais por mês de aluguel pelo estádio. Pagando essa quantia de aluguel por mês, demoraria 88 anos para esse clube pagar o Engenhão. É isso que vai acontecer com o Maracanã e com os outros. O Estado entra com o prejuízo. Esse é o modelo brasileiro de desenvolvimento: o Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro.

Em nome da Copa, 123 comunidades estão sendo removidas por causa da especulação imobiliária. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, vai construir todos os equipamentos olímpicos na Barra da Tijuca, uma região “carente” de infraestrutura. Ele já foi subprefeito da Barra, e os dez maiores financiadores de campanha dele, segundo o jornal O Globo, são empresas ligadas à construção imobiliária. Esses megaeventos alavancam grandes negócios para a iniciativa privada em detrimento de quem?

IHU On-Line – Seria possível realizar a Copa no país sem construir novos estádios?

Marcos Alvito –
Se o Brasil optasse por ter oito sedes, em vez de doze, seria possível reduzir a despesa. Não entendo como o Engenhão, por exemplo, foi construído e não está em condições de abrir um jogo de Copa do Mundo.

A França não construiu estádio nenhum, nem a Alemanha. Na Alemanha, os ingressos são relativamente baratos. Custam basicamente o mesmo valor que no Brasil, mas o poder aquisitivo alemão é muito maior. A segunda divisão da Alemanha tem uma média de público maior do que a do Campeonato Brasileiro. Os estádios têm áreas para as pessoas ficarem em pé, porque isso faz parte da tradição deles. Em 2006, quando a Copa do Mundo aconteceu na Alemanha, a FIFA disse que todas as pessoas precisavam ficar sentadas nos estádios. Você acha que eles demoliram o estádio ou reformaram? Colocaram cadeiras. Isso aconteceu na Alemanha, “um país pobre”, “subdesenvolvido”, “com dificuldades financeiras”. Mas já um país “rico” como o Brasil, coloca o Maracanã abaixo e gasta um bilhão de reais. É óbvio que isso poderia ser feito de outra maneira; o governo poderia negociar com a FIFA. Mas o governo brasileiro não negociou porque queria a Copa, tanto que o Brasil não disputou a Copa do Mundo com ninguém. Mas por que não disputou? Nós não nos perguntamos, porque somos muito patriotas, principalmente quando se trata de futebol.

A FIFA queria fazer a Copa do Mundo na América do Sul, mas por que a Argentina, Uruguai e Chile não quiseram? Porque houve um acordo. Mas qual é o preço deste acordo para que não exista nenhuma contestação? O governo Lula queria garantir a Copa aqui, então, topou fazer uma “Copa de arrebentar”. Mas agora, o governo Dilma está vendo que essa é uma conta alta. A negociação deveria ter sido feita antes.

IHU On-Line – Quantas comunidades, apenas no Rio de Janeiro, já foram e serão removidas de suas moradias para que estádios sejam construídos?

Marcos Alvito –
A prefeitura do Rio de Janeiro está removendo comunidades de algumas regiões e as indenizando com um valor de oito mil reais, que é a metade do preço do metro quadrado no Leblon. Serão removidas 123 comunidades só no Rio de Janeiro. Algumas moram há 30, 40 anos no mesmo local e terão de sair para dar espaço aos novos estacionamentos do Maracanã.

IHU On-Line – As próximas copas serão no Brasil, na Rússia e no Catar. O que estes países têm em comum? A escolha desses países para sediar as próximas Copas foi proposital?

Marcos Alvito – Esses são países que topam tudo por uma Copa do Mundo no intuito de se firmar no cenário mundial. Eles farão tudo que a FIFA quiser. Não são países como a França e a Alemanha, que não aceitaram construir estádios novos. Os alemães aceitaram vender a cerveja que a FIFA escolheu, mas também venderam a cerveja deles. No Brasil isso não vai acontecer.

A Copa é um processo bastante autoritário para as camadas populares. Ela tem significado um
Estado de exceção: o Estado passa por cima das próprias normas e leis em nome de uma situação especial, de um megaevento; ele cria uma situação para que todos concordem.

Brasil, Rússia e Catar são países que irão liberar os gastos, pois eles têm essa ideia de que é preciso se afirmar diante de um cenário mundial, precisam mostrar que são capazes de organizar um evento de tal magnitude. No Brasil, a oposição à Copa é tardia, e já é quase impossível barrar algumas decisões. Mas imagina se na Rússia tem oposição. Lá, se alguém manifestar posição contrária, toma tiro. No Catar, se tem oposição o sujeito guarda para si, porque não tem condição de se manifestar, mas somente fazendo uma revolta geral. Esses são países que vão engolir o pacote FIFA sem grandes problemas, sem grandes questionamentos. Está havendo um questionamento pequeno no Brasil, mas, no final das contas, os deputados estão aprovando o projeto da FIFA.

IHU On-Line – Como vê as manifestações dos torcedores em relação à Copa do Mundo? O fato de o futebol ser uma paixão nacional dificulta a divulgação das críticas e mesmo a participação popular nos protestos ou, pelo contrário, isso favorece oposições à forma como os processos estão sendo conduzidos?

Marcos Alvito – Não é que a paixão dificulte. Ela até ajuda na medida em que torna tudo que diz respeito ao futebol uma coisa importante. Entretanto, o futebol mobiliza as pessoas até um determinado ponto. Já fomos a estádios, distribuímos panfletos, fizemos um abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira, por exemplo, e coletamos mais de cinco mil assinaturas. Mas não existe milagre em uma sociedade civil fraca como a brasileira, com baixo nível de participação das camadas populares e médias. Costuma-se dizer que a participação é uma questão meramente de educação formal, mas não é. Costumamos dizer que o povo não participa, que o povo é ignorante, que não sabe dos seus direitos, mas a classe média também não participa e ela não pode alegar esta desculpa. Existe um baixo grau de mobilização, de engajamento. Hoje em dia existe um pseudoengajamento virtual: as pessoas curtem os comentários no Facebook, apoiam as lutas, votam virtualmente, mas não participam na prática. Mesmo havendo uma mobilização entorno do assunto, há uma baixa disposição para que as pessoas participem efetivamente das lutas. No máximo elas estão informadas acerca do assunto.

Sou antropólogo, historiador e percebo que se tem um Estado historicamente muito forte, que surge antes da nação. Quando a nação foi formada, o Estado já estava em cima dela, controlando-a ou querendo construir a nação segundo o seu interesse. Isso se reflete também nesta luta do futebol. Não se trata mais da importância da luta, não se trata mais de conhecimento ou desconhecimento. Trata-se de uma questão de disposição para lutar e para participar. A democracia contemporânea produz apatia, e as pessoas pensam que participam do processo político quando votam. Em termos de mobilização de massa existe uma apatia; o movimento estudantil não tomou isso para si, nem os sindicatos.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Marcos Alvito –
A ANT está lutando e já estamos elaborando um abaixo-assinado pedindo para a Justiça apressar as investigações em torno de Ricardo Teixeira. O abaixo-assinado pode ser assinado na internet pelo site www.torcedores.org.