LCWR e o Vaticano: as relações foram consertadas, não transformadas

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25 Agosto 2015

"A realidade é que a Igreja ainda constitui numa monarquia, um universo e uma cultura idealizada por homens – exclusivamente por homens. A menos que haja uma conversão profunda nesta cultura, nada irá mudar. O que se mudou até então pode ser chamado corretamente de um conserto. Administrou-se uma crise. Não houve algo transformador. Ter a metade da população da Igreja fora dos ambientes decisórios não é uma cultura que, provavelmente, será alterada em breve", assevera o editorial do National Catholic Reporter, 22-08-2015, refletindo sobre o fim da investigação comandada pelo Vaticano sobre as Religiosas dos EUA. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Segundo o editorial, "no momento a monarquia trabalhou a favor das irmãs. Francisco, no entanto, não estará junto de nós para sempre. Mas há muitos por aí que se sentem ameaçados pelas mudanças que ele está tentando pôr em prática e que, por muito tempo, lembrar-se-ão que as religiosas americanas venceram este round".

Eis o artigo.

As representantes da Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR, reunidas em assembleia pela primeira vez desde que o Vaticano pôs o fim da investigação sobre a organização, tinham muito a comemorar. O grupo sobreviveu intacto aparentemente após alguns anos sob uma maior interferência do Vaticano. As religiosas agradeceram calorosamente aqueles que as ajudaram a continuar firmes em meio à crise. Em particular elas agradeceram ao arcebispo de Seattle, Dom Peter Sartain, que recebeu elogios por sua integridade e habilidade em mediar à polêmica.

Em nossa comunidade de fé, não há planejamento ou responsabilização pela graça ou pelo movimento do Espírito, apenas uma expectativa de que estes dois infundem nossas vidas e ações em abundância. Ao mesmo tempo, aquela tensão presente na analogia da serpente e da pomba está, também, sempre conosco.

Assim, em meio à celebração do fim da investigação sobre a LCWR e, de maneira geral, da investigação conduzida a todas as religiosas nos EUA, atrevemo-nos a observar que certo número de realidades institucionais concernentes às atitudes do Vaticano em relação às mulheres permanece inalterado.

A Irmã Sharon Holland, presidente da LCWR (sigla em inglês para Leadership Conference of Women Religious), exemplo raro de mulher que passou grande parte da vida trabalhando na Cúria, mencionou o “choque de culturas” que ela e outras encontraram ao longo destes anos.

“Corremos o risco de acabar falando uns sobre os outros em vez de falarmos mais profundamente com o outro”, disse Holland, membro da Congregação do Imaculado Coração de Maria. Algumas pessoas que vivem naquela cultura curial/hierárquica “acreditavam honestamente que estávamos distanciadas de algumas questões doutrinárias; alguns estavam convencidos de que estávamos faltando com respeito pelas autoridades eclesiásticas”.

Holland, canonista, ajudou várias irmãs e congregações religiosas dos EUA a navegar nas correntes perigosas e, muitas vezes, ocultas da burocracia vaticana. Sem dúvida, ela teve um valor inestimável na tradução daquela cultura curial às líderes religiosas que haviam sido acusadas de estar distorcendo a fé em Jesus Cristo e enfraquecendo o ensino da Igreja.

Um outro momento foi lembrado pela Irmã Janet Mock, da Congregação de São José, religiosa que atuou como diretora executiva da LCWR de abril de 2012 a dezembro de 2014. Mock revelou que, embora tenha tido condições de lidar com a investigação vaticana esforçando-se para ver o lado bom das pessoas, ela também observou a cultura de corrupção a partir do qual a ação do Vaticano surgiu.

“Eu realmente não queria olhar para estas coisas”, disse Mock. “Mas havia uma cultura de corrupção em todos os níveis, e nós sentimos o impacto dela”.

Os debates durante as sessões executivas, que mais da metade das irmãs em assembleia desejou que fossem abertas ao público, deram vazão às complexidades da situação que elas enfrentam. Será que estas religiosas continuam a fazer o que percebem como sendo a sua vocação, mesmo que isso possa colocá-las em apuros novamente com a cultura masculina vaticana? No longo prazo, qual o significado da resolução e qual a linguagem é a adequada para descrevê-lo?

Alguns pontos que destoam deste contexto parecem contribuir:

• Ainda que o mandato formal para se investigar as religiosas do país tenha partido do Vaticano, sabemos que o conteúdo da denúncia teve origem em queixas de longa data que as forças conservadoras nos Estados Unidos, incluindo alguns bispos, há tempos apresentam contra estas irmãs. O breve emitido para abrir o caso contra as irmãs era, desde o início, ridículo; seus argumentos e documentação não teriam sido aprovados nem como requisitos de um trabalho escolar de Ensino Médio. Além da inanidade das acusações estava a ousadia necessária da cultura clerical masculina em iniciar as suas investigações rasteiras sobre a vida destas irmãs.

• As negociações e reuniões entre as irmãs e as autoridades eclesiásticas foram todas conduzidas em termos masculinos, no território deles, com os seus representantes tendo recebido plena autoridade e poder sobre a organização que elas compõem. Tudo isso foi realizado a portas fechadas. Reconhecemos que alguns assuntos de família, se aceitamos esta como uma analogia apropriada, devem ser tratados em segredo, que algumas negociações raramente são bem-sucedidas quando conduzidas em público. Mas isso começou como um terrível abuso de poder numa relação em que os participantes dificilmente se encontravam num mesmo patamar. É essencial compreender que isso continua existindo.

• A resolução, é seguro concluir, não teria ocorrido desta maneira, se estivéssemos vivendo ainda dentro do pontificado de João Paulo II ou de Bento XVI. Esta investigação era o produto de um tipo de pensamento e poder episcopal resultante dessas duas administrações. Não é nenhum segredo que toda a mudança de tom e de pessoal em cargos da Cúria – especialmente após a eleição de Francisco – teve muito a ver com a maneira como as coisas aconteceram. Não devemos também subestimar a influência representada pelas 100 mil cartas de apoio recebidas pela LCWR. O que o Vaticano acabou percebendo logo depois que a investigação sobre as ordens religiosas havia começado foi que milhões de católicos conheciam e amavam estas irmãs.

• Por fim, e talvez isto seja o mais importante, está a linguagem empregada para caracterizar a aproximação que ocorreu na medida em que esta intrusão na vida das religiosas americanas se aprofundava. Muito foi dito das “relações”, da “confiança” e do diálogo que se desenvolveram no curso destes cinco anos. As relações apresentam-se sob muitas formas, e a forma como esta relação se apresentou pareceu, de acordo com padrões razoáveis, tender ao nível do abusivo.

No caso da LCWR, as religiosas foram inteligentes, determinadas e fizeram o que precisava ser feito, auxiliadas por milhares de pessoas e pela mudança no papado, de forma que levaram a crise a um fim apropriado. 

A realidade é, no entanto, que a Igreja ainda constitui numa monarquia, um universo e uma cultura idealizada por homens – exclusivamente por homens. A menos que haja uma conversão profunda nesta cultura, nada irá mudar. O que se mudou até então pode ser chamado corretamente de um conserto. Administrou-se uma crise. Não houve algo transformador. Ter a metade da população da Igreja fora dos ambientes decisórios não é uma cultura que, provavelmente, será alterada em breve.

Sem dúvida, as religiosas dos Estados Unidos deixaram uma impressão marcante em alguns representantes da cultura hierárquica/curial e estreitaram um pouco o abismo entre alguns líderes masculinos e algumas líderes femininas na Igreja. A questão a seguir envolve saber o grau de sabedoria e esclarecimento que deve acompanhar os próximos passos da história.

Estas mulheres se beneficiaram das manifestações de apoio recebido dos leigos, pois representavam uma expressão bem diferente da Igreja que nós, normalmente, encontramos na cultura clerical masculina. Esperamos que o espírito de aventura, essencial a este modelo, não tenha se perdido.

Até o momento, a monarquia trabalhou a favor das irmãs. Francisco, no entanto, não estará junto de nós para sempre. Mas há muitos por aí que se sentem ameaçados pelas mudanças que ele está tentando pôr em prática e que, por muito tempo, lembrar-se-ão que as religiosas americanas venceram este round.

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