Cuidado da casa comum e atitude contemplativa. A reflexão do Papa Francisco

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17 Setembro 2020

No seu discurso em italiano na Audiência Geral da manhã dessa quarta-feira, 16 de setembro, realizada no Pátio de São Dâmaso do Palácio Apostólico do Vaticano, o papa, dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre o tema “Curar o mundo”, centrou a sua meditação no tema “Cuidado da casa comum e atitude contemplativa”, a partir da leitura de Gn 2.8-9.15.

O discurso é publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 16-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo Francisco, "abusar casa comum é um pecado grave que danifica, que faz mal e adoece (cf. LS 8; 66). O melhor antídoto contra esse uso impróprio da nossa casa comum é da contemplação (cf. ibid., 85; 214). Mas como? Não há uma vacina pra isso, para o cuidado da casa comum, pra não deixá-la de lado? Qual é o antídoto para a doença de não cuidar da casa comum? É a contemplação".

Eis o texto.

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Para sair de uma pandemia, é preciso cuidar-se e cuidar uns dos outros. E é preciso apoiar quem cuida dos mais frágeis, dos enfermos e dos idosos. Há o hábito de deixar de lado os idosos, de abandoná-los: isso é feio. Essas pessoas – bem definidas no termo espanhol “cuidadores”, aqueles que cuidam dos doentes – desempenham um papel essencial na sociedade de hoje, mesmo que muitas vezes não recebam o reconhecimento e a remuneração que merecem.

Cuidar-se é uma regra de ouro do nosso sermos humanos e traz consigo saúde e esperança (cf. encíclica Laudato si’ [LS], 70). Cuidar de quem está doentes, de quem precisa, de quem foi deixado de lado: essa é uma riqueza humana e também cristã.

Devemos dirigir esse cuidado também à nossa casa comum: à terra e a toda criatura. Todas as formas de vida estão interconectadas (cf. ibid., 137-138), e a nossa saúde depende da dos ecossistemas que Deus criou e dos quais nos encarregou de cuidar (cf. Gn 2).

Por outro lado, abusar dela é um pecado grave que danifica, que faz mal e adoece (cf. LS 8; 66). O melhor antídoto contra esse uso impróprio da nossa casa comum é da contemplação (cf. ibid., 85; 214).

Mas como? Não há uma vacina pra isso, para o cuidado da casa comum, pra não deixá-la de lado? Qual é o antídoto para a doença de não cuidar da casa comum? É a contemplação.

“Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos” (ibid., 215). Também em objeto de “usa e joga fora”.

No entanto, a nossa casa comum, a criação, não é um mero “recurso”. As criaturas têm um valor em si mesmas e “refletem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus” (Catecismo da Igreja Católica, 339). Esse valor e essa centelha de luz divina devem ser descobertos e, para descobri-los, precisamos fazer silêncio, precisamos escutar, precisamos contemplar. A contemplação também cura a alma.

Sem contemplação, é fácil cair em um antropocentrismo desequilibrado e soberbo, o “eu” no centro de tudo, que superdimensiona o nosso papel de seres humanos, posicionando-nos como dominadores absolutos de todas as outras criaturas. Uma interpretação distorcida dos textos bíblicos sobre a criação contribuiu para esse olhar equivocado, que leva a explorar a terra até sufocá-la.

Explorar a criação: isso é pecado. Acreditamos que estamos no centro, fingindo ocupar o lugar de Deus e, assim, arruinamos a harmonia da criação, a harmonia do desígnio de Deus. Tornamo-nos predadores, esquecendo a nossa vocação de guardiões da vida.

É claro, podemos e devemos trabalhar a terra para viver e nos desenvolver. Mas o trabalho não é sinônimo de exploração e vem sempre acompanhado do cuidado: arar e proteger, trabalhar e cuidar... Essa é a nossa missão (cf. Gn 2,15).

Não podemos esperar continuar crescendo em nível material, sem cuidarmos da casa comum que nos acolhe. Os nossos irmãos mais pobres e a nossa mãe terra gemem pelos danos e injustiças que provocamos e exigem outra rota. Exigem de nós uma conversão, uma mudança de rumo: cuidar também da terra, da criação.

Portanto, é importante recuperar a dimensão contemplativa, ou seja, olhar a terra, a criação como um dom, não como algo a ser explorado pelo lucro. Quando contemplamos, descobrimos nos outros e na natureza algo muito maior do que a sua utilidade.

Aqui está o núcleo do problema: contemplar é ir além da utilidade de uma coisa. Contemplar o belo não significa explorá-lo: contemplar é gratuidade. Descobrimos o valor intrínseco das coisas que lhes foi conferido por Deus. Como ensinaram tantos mestres espirituais, o céu, a terra, o mar, toda criatura possui essa capacidade icônica, essa capacidade mística de nos levar de volta ao Criador e à comunhão com a criação.

Por exemplo, Santo Inácio de Loyola, no fim dos seus Exercícios Espirituais, convida a realizar a “Contemplação para alcançar o amor”, ou seja, a considerar como Deus olha para as suas criaturas e se alegrar com elas; a descobrir a presença de Deus nas suas criaturas e, com liberdade e graça, amá-las e cuidar delas.

A contemplação, que nos leva a uma atitude de cuidado, não é olhar a natureza de fora, como se nós não estivéssemos imersos nela. Mas nós estamos dentro da natureza, fazemos parte da natureza. Pelo contrário, faz-se isso a partir de dentro, reconhecendo-nos como parte da criação, tornando-nos protagonistas e não meros espectadores de uma realidade amorfa que só se buscaria explorar. Quem contempla desse modo fica maravilhado não só com o que vê, mas também porque se sente parte dessa beleza; e também se sente chamado a guardá-la, a protegê-la.

E há uma coisa que não devemos esquecer: quem não sabe contemplar a natureza e a criação não sabe contemplar as pessoas na sua riqueza. E quem vive para explorar a natureza acaba explorando as pessoas e as tratando como escravas. Esta é uma lei universal: se você não souber contemplar a natureza, será muito difícil que saiba contemplar as pessoas, a beleza das pessoas, o irmão, a irmã.

Quem sabe contemplar se empenhará mais facilmente para mudar aquilo que produz degradação e danos à saúde. Vai se comprometer a educar e a promover novos hábitos de produção e consumo, a fim de contribuir para um novo modelo de crescimento econômico que garanta o respeito pela casa comum e o respeito pelas pessoas.

O contemplativo em ação tende a se tornar guardião do ambiente: isso é bonito! Cada um de nós deve ser guardião do ambiente, da pureza do ambiente, buscando conjugar saberes ancestrais de culturas milenares com os novos conhecimentos técnicos, para que o nosso estilo de vida seja sempre sustentável.

Enfim, contemplar e cuidar: eis duas atitudes que mostram o caminho para corrigir e reequilibrar a nossa relação de seres humanos com a criação. Muitas vezes, a nossa relação com a criação parece uma relação entre inimigos: destruir a criação em meu benefício; explorar a criação em minha vantagem.

Não nos esqueçamos de que se paga caro por isso. Não esqueçamos daquele ditado espanhol: “Deus perdoa sempre; nós perdoamos às vezes; a natureza não perdoa nunca”.

Hoje, eu lia no jornal sobre aquelas duas grandes geleiras da Antártica, perto do Mar de Amundsen: estão prestes a cair. Será terrível, porque o nível do mar vai subir, e isso vai trazer muitas, muitas dificuldades e muitos males. E por quê? Por causa do sobreaquecimento, por não cuidar do ambiente, por não cuidar da casa comum.

Em vez disso, quando tivermos essa relação – permito-me a palavra – “fraternal” em sentido figurado com a criação, nos tornaremos guardiões da casa comum, guardiões da vida e guardiões da esperança, guardaremos o patrimônio que Deus nos confiou para que as futuras gerações possam dele gozar.

E alguém pode dizer: “Mas eu me viro assim”. Mas o problema não é como você vai se virar hoje – dizia um teólogo alemão, protestante, bravo: Bonhoeffer–, o problema não é como você se vira hoje; o problema é: qual será a herança, a vida da geração futura?

Pensemos nos filhos, nos netos: o que deixaremos para eles se explorarmos a criação? Guardemos esse caminho para que nos tornemos “guardiões” da casa comum, guardiões da vida e da esperança. Guardemos o patrimônio que Deus nos confiou, para que as gerações futuras possam dele gozar.

Penso de modo especial nos povos indígenas, em relação aos quais todos temos uma dívida de reconhecimento – e também de penitência, para reparar o mal que lhes causamos. Mas também penso naqueles movimentos, associações, grupos populares que se comprometem em proteger o próprio território com os seus valores naturais e culturais. Nem sempre essas realidades sociais são valorizadas, às vezes são até obstaculizadas, porque não produzem dinheiro; mas, na realidade, contribuem para uma revolução pacífica, poderíamos chamá-la de “revolução do cuidado”.

Contemplar para curar, contemplar para guardar, guardar a nós, a criação, os nossos filhos, os nossos netos e guardar o futuro. Contemplam para curar e para guardar e para deixar uma herança para a geração futura.

Mas não devemos delegar a alguns: essa é a tarefa de cada ser humano. Cada um de nós pode e deve se tornar um “guardião da casa comum”, capaz de louvar a Deus pelas suas criaturas, de contemplar as criaturas e de protegê-las.

 

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