Uma encíclica social, não “verde”. Somos parte integrante da natureza

Foto: Pexels

10 Setembro 2020

O coração do livro são os três diálogos entre o Papa Francisco e Carlo Petrini, dos quais retiramos alguns trechos com as perguntas de Petrini. Referem-se a três encontros realizadas em 30 de maio de 2018, 2 de julho de 2019 e 9 de julho de 2020.

 

O trecho do livro é publicado por Avvenire, 09-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto. 

 

Carlos Petrini: Por deformação profissional, mas também por convicção profunda, acredito que o alimento é um elemento muito importante não só nas relações afetivas, mas também nas integrações entre povos e culturas diferentes. Não existe cozinha que não seja expressão de hibridização e, quando se trata de gastronomia, o conceito de pureza não existe em nenhum nível. Para dar um exemplo, todos afirmam que o prato simbólico da gastronomia italiana é a massa com molho de tomate. Olhando bem, porém, nem o macarrão nem o tomate são italianos, porque o trigo chegou à Itália vindo da Ásia Menor enquanto os tomates são fruto da "descoberta" das Américas. Eu realmente acredito que a comida é uma ferramenta para construir pontes, de imaginários comuns, de amizades e relacionamentos afetivos fortes. Sem falar do papel central que a comida sempre desempenhou, em todas as culturas, na mediação das relações com o divino, na expressão da espiritualidade e da transcendência. Gostaria de saber o que o senhor pensa e também, se possível, aprofundar o que era a culinária de uma família piemontesa que migrou para a Argentina entre as décadas de trinta e cinquenta do século passado. Como era a comida naquela época?

Reprodução da capa do livro (Foto: Vatican News)

 

Papa Francisco: Em primeiro lugar, lembro-me do ditado árabe (que provavelmente também está na Bíblia, escrito de outra forma) que diz: "Para fazer uma amizade são precisos quilos de sal", ou seja, que para criar um relacionamento é preciso comer juntos muitas vezes, é preciso compartilhar a comida. A comida é um instrumento de convivência, partir o pão é o gesto mais emblemático, o pão é partido e dado primeiro ao hóspede, é partilhado. Nesse sentido, concordo plenamente com o que você diz. Ao mesmo tempo, aliás, hoje também estamos testemunhando certas degenerações quando se trata de comida.

Na época da opulência, as pessoas às vezes exageram, por um lado com a espetacularização do ato de comer e, por outro, adotando uma abordagem esfomeada e desenfreada. Penso naqueles almoços ou jantares com inúmeros pratos: sai-se maravilhado com o que se come, muitas vezes sem prazer, apenas quantidade. Essa maneira de fazer é a expressão de um egoísmo, de um individualismo de fundo, porque no centro está a comida pela comida, não a relação com as outras pessoas, da qual a comida deveria ser um meio. Porém, quando se tem a capacidade de manter as pessoas no centro, então comer é o ato supremo que favorece o convívio e a amizade, cria as condições para o nascimento e manutenção de bons relacionamentos, atua como um intermediário de valores e de culturas.

 

 

Carlos Petrini: Das culturas que se encontram nascem intercâmbios, conhecimentos, crescimento mútuo e confiança que dão origem a novas culturas.

 

Papa Francisco: Na Argentina, por exemplo, na minha família nunca faltaram os típicos raviólis piemonteses aos domingos. Minha avó materna sempre preparava o almoço para quarenta pessoas, porque ela tinha cinco filhos, cada um com sua esposa e filhos. Às vezes ele preparava 600-700 capeletes à mão, era uma forma de mostrar amor e carinho. E como segundo prato vinha o assado, o churrasco. As tradições eram misturadas, mas ninguém se sentia desconfortável ou não tinha algo a objetar. Era a maneira mais natural de se sentir em casa (...).

Almoço em família, mistura de culturas colocadas à mesa (Foto: PHmuseum)

Carlos Petrini: Quando o Slow Food nasceu, em seu manifesto foi definido, entre outras coisas, como um "movimento pela proteção e pelo direito ao prazer". No entanto, tínhamos em mente um prazer que não é comilança, um prazer que não é fartura, mas moderação. Na comilança, como de fato o senhor disse antes, não há um verdadeiro prazer senão a glutonaria. No entanto, a Igreja Católica sempre mortificou um pouco o prazer, como se fosse algo a ser evitado.

 

 

Papa Francisco: Disto discordo: a Igreja condenou os prazeres inumanos, rudes, vulgares, mas, pelo contrário, o prazer humano, sóbrio, morais sempre o aceitou. O prazer vem diretamente de Deus, não é católico ou cristão ou qualquer outra coisa, é simplesmente divino. O prazer de comer serve para garantir que, ao comer, se mantenha a boa saúde, assim como o prazer sexual é feito para tornar mais belo o amor e garantir a continuidade da espécie. O que você está dizendo se refere a uma moralidade preconceituosa, um moralismo que não tem sentido e que, no máximo, pode ter sido, em algum momento, uma má interpretação da mensagem cristã. Ao contrário, tanto o prazer de comer quanto o prazer sexual vêm de Deus

 

Carlos Petrini: Inclusive, como o senhor está dizendo, são os dois atos que garantem a sobrevivência da espécie.

 

Papa Francisco: E por isso Deus os fez belíssimos, cheios de prazer. A rigidez pelagiana causou muito mal, a visão pelagiana recusou o prazer de uma forma preconceituosa e causou enormes danos que em alguns casos ainda são fortemente sentidos agora.

 

Carlos Petrini: Quando falo sobre esse aspecto da encíclica com as pessoas, vejo que é muito importante ter consciência de que se pode ser sujeitos ativos de mudança. Mesmo que sejam pessoas humildes e simples. Há uma passagem em que o senhor enfatiza a importância das coisas mínimas, como desligar a luz, economizar a água, consumir o certo. Essas boas práticas individuais são consideradas obsoletas, marginais, folclóricas pela "alta política". Mas essa é a base da mudança, é o húmus sobre o qual um futuro melhor para todos pode crescer. Nós, como movimento, fizemos disso uma bandeira. Desde o início estávamos convencidos de que através da comida (o Slow Food cuida disso) poderíamos mudar profundamente o sistema econômico e social em que vivemos, poderíamos mudar o mundo. E nós pensávamos e pensamos a partir das pequenas coisas. Cada um a cada dia faz escolhas individuais que, no entanto, têm um impacto a nível global, nunca são neutras. Escolher a própria comida faz parte dessas escolhas, é um poderoso mecanismo de mudança: significa premiar um modelo produtivo e econômico em vez de outro.

 

 

Papa Francisco: As pequenas coisas são o que indicam uma raiz. O vício do pároco é apagar a luz, sempre. Os párocos têm essa mania. E por quê? Porque os párocos devem guardar as ofertas para poder usá-las para a caridade. Isso significa entrar em harmonia, envolver-se pessoalmente, tornar-se sujeitos ativos. Passo para outro ponto que você enfatizou: a ecologia integral. Começo dizendo que, ao contrário do que muitos pensam e escrevem, a Laudato si' não é uma encíclica verde, não é um texto ambientalista. É antes uma encíclica social. Se falamos de ecologia, de fato, devemos partir do pressuposto de que somos os primeiros a fazer parte da ecologia. Parece óbvio, mas não é o caso. Você sabe qual é o maior gasto familiar mundial, depois de alimentação e vestuário? 

 

 

Carlos Petrini: As roupas ... a casa? 

 

Papa Francisco: Não. O terceiro é a maquiagem, como se chama ...? Cosméticos! Incluindo a cirurgia estética é o terceiro item de despesa no mundo. E o quarto? As mascotes, os animais de estimação! Essa é uma estatística de alguns anos atrás, mas não deve ter mudado muito. É curioso, não é? Não aparece a educação, por exemplo. Eis então que, nesse contexto, é difícil falar de uma nova abordagem ecológica e de uma nova harmonia com o meio ambiente (...).

 

Carlos Petrini: Os consumos, consumir, consumir ...

 

Papa Francisco: Os consumos. Que são previsíveis, controláveis, que nos falam de posse. Queremos afeto por encomenda, como acontece com os animais de estimação, queremos ser capazes de prever as respostas. Falar de ecologia integral significa derrubar essa visão, significa que os seres humanos e o meio ambiente não são separáveis. É um verdadeiro protesto contra este mundo. Lembro-me do escândalo que Magnani causou com o episódio das rugas. Quando lhe perguntaram se gostaria de se livrar das rugas por meio de cirurgia estética, ela respondeu: “De jeito nenhum, demorei uma vida inteira para consegui-las!" É o exemplo de uma pessoa que entendeu intimamente o vínculo com a natureza, entendeu a beleza da natureza. Natureza que é integral e da qual fazemos parte integrante e inseparável.

 

 

Carlos Petrini: Hoje existe uma realidade muito interessante “dos invisíveis”, como a chamam. Essa humanidade de pessoas que trabalha no campo e vive à margem da sociedade e se tenta não ver. O líder deste movimento é um sociólogo sindicalista costa-marfinense, Aboubakar Soumahoro, que escreve no apelo dos Estados Populares: “... a unidade dos invisíveis deverá ser uma vocação da nossa consciência coletiva que nos obrigará a quebrar as correntes do individualismo para abraçar a liberdade de solidariedade. Reduzir o peso do eu para elevar a leveza do nós”. E depois também cita uma de suas frases em que o senhor diz que Jesus Cristo conheceu os apóstolos no lago da Galileia enquanto trabalhavam, que não houve nenhuma reunião, nenhum seminário, e que nem mesmo os conheceu no templo ...! Achei essa uma bela passagem: essa humanidade que não é visível para a política, para o establishment, para as pessoas que contam.

 

Papa Francisco: É o povo! Devemos recuperar a consciência do povo. Temos experiências de povos em países menores, por exemplo, ali pode ser visto mais. As pessoas são os protagonistas da história. Precisamos abrir os horizontes, deixar a cultura de cada povo se expressar e que haja uma relação entre as culturas. Uma globalização poliédrica com todas as culturas juntas, não aquela esférica que aniquila todas as culturas. Não à uniformidade, sim à universalidade. Devemos fazer ressurgir essas reservas dos povos. Pelo contrário, qual é a solução proposta hoje, a mais fácil? Populismos! O que fazem os populismos? Eles vão com uma ideia, agrupam às pessoas sob uma ideia, semeiam o medo - por exemplo, o medo dos migrantes vem dos populismos - e alguns discursos de certos líderes políticos de alguns países que ouvi realmente vão na direção de um populismo perigoso. Foi publicado um livro e eu devo tê-lo aqui agora (aponta para seu quarto e sua estante). Se eu encontrar, vou lhe dar para que possa lê-lo. É um livro que compara os populismos atuais com 1932-33 na Alemanha. Leia, e depois me devolva. É uma análise clara do que está acontecendo agora, especialmente na Europa.

 

Carlos Petrini: Sim. Sim. E, em vez disso, o que queria lhe perguntar também é isto: nos despedimos com a “Querida Amazônia”, que considero um documento de incrível beleza, porque concilia afetividade por essa terra e essa população, poesia e visão política. Que impressões o senhor teve desse Sínodo?

 

Papa Francisco: Quanto ao Sínodo como tal, creio que tenha sido importante para desenvolver uma consciência. Por exemplo, a Conferência Eclesial da Amazônia nasceu na semana passada e - graças a esses dispositivos modernos que não sei o nome - fizeram a primeira reunião escolhendo as autoridades: o Cardeal Hummes à frente, David Martínez de Aguirre - o vigário episcopal de Puerto Maldonado e secretário do Sínodo - como vice-presidente, e depois os leigos criaram uma comissão muito boa para a consciência pan-amazônica. Eles estão trabalhando bem! Aqui alguns pensavam que deveriam ser dadas regras. Mas não! Deixe a vida vir por si mesma sozinha. Quando a planta crescer, deixe-a crescer. Aí, quando chega a uma certa altura, colocamos a guia para não ir para um lado ou para o outro. Mas não se pode colocar uma guia em uma pequena planta que cresce ... Deixe-a crescer. Essa é a filosofia que uso, que as pessoas sejam livres para se expressar, certo? Depois, há o tempo para a discussão: isso não tanto, aquilo sim, e assim por diante.

 

 

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