A juventude de Gaza está presa, desesperada e condenada ao suicídio

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21 Agosto 2020

“Os fatores atribuídos à crise de suicídios em Gaza são numerosos e multifacetados. O primeiro é a péssima situação econômica e as altas taxas de desemprego como resultado do bloqueio de Israel e do Egito à Faixa de Gaza. A ONU descreve Gaza como inabitável, com 80% de sua população dependente da ajuda internacional, 69% vivendo abaixo da linha da pobreza, uma taxa de 64% de desemprego juvenil e apenas duas a quatro horas de água encanada e eletricidade por dia”, denuncia Yousra Samir Imran, escritora britânica-egípcia, em artigo publicado por Rebelión, 20-08-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O ativista de direitos humanos Suleiman Al Ajuri, de 25 anos, foi um farol de esperança para muitos palestinos na Faixa de Gaza. Sua morte por suicídio, em 3 de julho, causou ondas de choque em toda a comunidade. Tratava-se de um homem que, em março de 2019, liderou o movimento "Queremos viver" contra a pobreza e se levantou destemidamente diante do Hamas.

Muitos palestinos sentiram que se ele havia chegado a um ponto em que a vida já não valia a pena, havia poucas esperanças para o restante dos habitantes de Gaza, que estão há 14 anos sob um bloqueio esmagador, em que grupos de direitos humanos descrevem como uma prisão ao ar livre.

Em uma sociedade onde o suicídio é um tabu, o pai de Al Ajuri, Abu Muhammad, disse à BBC World News, na semana passada: “Não sei realmente o que levou meu filho a cometer suicídio. Estivemos sentamos juntos em casa e comemos juntos sua última refeição”, disse. “Não houve nenhum problema e ainda não sei o que aconteceu. Não acho que somente a pobreza em si seja uma razão para cometer suicídio. Nós, como família, estamos muito chocados".

No entanto, o amigo próximo de Suleiman, Shaher Al Habbash, foi capaz de fornecer uma visão sobre a vida de Suleiman e como se sentia pouco antes de sua morte. Al Habbash disse ao The National que Suleiman estava tentando emigrar de Gaza, mas que não conseguiu dinheiro para isso e ficou arrasado.

“As forças de segurança interna do Hamas o prenderam, em várias ocasiões. Atacaram a casa de sua família e o humilharam, durante um interrogatório, em suas prisões”, acrescentou. “Inclusive, invadiram a casa durante o casamento da sua irmã. Isso o afetou muito”.

O Hamas viu como uma ameaça o movimento “Queremos viver”, no ano passado, e os protestos foram violentamente dissolvidos. Suleiman foi preso por "causar caos". Seus amigos atribuem o assédio contínuo do Hamas e o desespero de perceber que não havia saída de Gaza como os fatores que o levaram a se matar.

No dia em que Suleiman morreu, outros três jovens de Gaza cometeram suicídio. Ayman Al Ghoul, de 24 anos, se jogou do quinto andar de um prédio, no campo de refugiados de Al-Shati. Uma mulher de 30 anos se enforcou em Rafah, e Ibrahim Yassin, de 21 anos, um professor contratado pela UNRWA [Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo], morreu em decorrência dos ferimentos sofridos após atear fogo em si mesmo, na semana anterior.

No dia seguinte à morte de Suleiman, Ahmed Al Malahi engoliu 50 comprimidos, uma jovem adolescente tentou se atirar da varanda de sua casa e uma garota de 18 anos engoliu dezenas de comprimidos, em uma tentativa de suicídio.

Três dias depois dessas desgraças, um jovem de Gaza tentou pular de uma sacada do Ministério de Assuntos Sociais, quando lhe negaram ajuda. E então, em 9 de julho, Eyas Shehada foi preso pelo Hamas por ameaçar cometer suicídio, caso seus problemas fossem ignorados. Eyas foi de porta em porta pedindo ajuda aos funcionários do Hamas enquanto gravava um Facebook Live, falando sobre sua falta de moradia, indigência e impotência para sustentar sua família.

O jornalista Osama Al Kahlout foi preso pelo Hamas, naquele dia, por cobrir a história de Eyas. O Centro de Direitos Humanos Al Mezan informou que, no dia do funeral de Suleiman, treze de seus amigos foram presos, nove no cemitério e quatro em sua casa, quando foram apresentar condolências à sua família. Nesse mesmo dia, foram presos dois jornalistas que relataram o seu suicídio.

Embora as autoridades de Gaza não registrem o número oficial de suicídios, grupos de direitos humanos dizem que houve um aumento alarmante de mortes. O Centro Palestino para Resolução de Conflitos relatou 30 mortes por suicídio e 600 tentativas de suicídio, nos primeiros sete meses de 2020, o que implica que o número triplicou em cinco anos. Em 2015, foram registrados um total de 10 suicídios em Gaza, de acordo com estatísticas compiladas pelo site árabe The New Arab.

O Hamas nega que a taxa de mortalidade por suicídio esteja aumentando, mas prendeu jornalistas e ativistas que falam abertamente sobre o assunto.

“As razões pelas quais as pessoas cometem suicídio em Gaza são a falta de esperança de que as coisas vão mudar para melhor, pressões sobre a saúde mental como resultado do bloqueio de Israel à Faixa, bem como divisão interna e supressão de liberdades ”, disse o defensor e ativista Issa Amro, que mora na Cisjordânia, ao The New Arab.

“Em uma sociedade árabe e islâmica, a morte por suicídio não é aceita. É um dos maiores pecados do Islã e é considerado pela sociedade como algo que envergonha a pessoa e sua família”, acrescentou.

Apesar do forte estigma social, o escritor, analista e gerente do Euro-Med Monitor, Muhammed Shehada, diz que quase todas as pessoas que conhece em Gaza já consideraram o suicídio pelo menos uma vez. “Em geral, a ideia de cometer suicídio está na mente da maioria dos jovens de Gaza que conheço, como resultado de estarem presos em um estado de não-vida, de não viver, nem morrer, durante a maior parte de sua existência adulta, de sentir-se no nada", disse Shehada ao The New Arab.

“Sentem que até mesmo sua sobrevivência básica se tornou um fardo para suas famílias, uma existência dolorosa e uma fonte de vergonha, pois a maioria deles vê se aproximar a idade de 30 anos sem trabalho, sem economias, sem poder garantir o mínimo de uma vida digna, nem poder constituir família própria”.

“A resposta para esse problema geralmente é como escapar de um navio naufragado. Seja através da emigração e pela viagem ao desconhecido, as drogas, que ajudam a ignorar o que está à sua volta, ou tirar a própria vida”.

Os fatores atribuídos à crise de suicídios em Gaza são numerosos e multifacetados. O primeiro é a péssima situação econômica e as altas taxas de desemprego como resultado do bloqueio de Israel e do Egito à Faixa de Gaza. A ONU descreve Gaza como “inabitável”, com 80% de sua população dependente da ajuda internacional, 69% vivendo abaixo da linha da pobreza, uma taxa de 64% de desemprego juvenil e apenas duas a quatro horas de água encanada e eletricidade por dia.

Antes que o presidente Abdel-Fattah al-Sisi fechasse as fronteiras com o Egito e adotasse medidas muito duras contra os túneis de contrabando de Gaza, em 2014, ainda havia maneiras pelas quais os jovens de Gaza conseguiam arrecadar o dinheiro necessário para adquirir os documentos de viagem necessários, cruzar a fronteira com o Egito e depois fazer o caminho para a Turquia, na esperança de encontrar oportunidades lá ou mais além, na Europa. Isso agora é completamente impossível.

“O bloqueio imposto pelo Egito é mais severo do que o bloqueio de Israel, pois o Egito, desde que Al-Sisi assumiu o poder, fechou e destruiu túneis e nos tirou o mundo”, disse ao The New Arab, Bassem Eid, ativista palestino de direitos humanos, jornalista e analista político em Jerusalém.

Eid explica que, além do bloqueio, os habitantes de Gaza “enfrentam e estão submetidos a espancamentos, prisões, repressão de liberdades, silenciamento de presos e tortura nas prisões por militantes do Hamas.

Também é preciso levar em consideração o trauma de longa duração e as taxas esmagadoras de habitantes de Gaza que padecem de problemas de saúde mental, como distúrbios pós-traumáticos, transtornos de ansiedade e depressão clínica como resultado de três grandes operações militares israelenses, desde 2008, em particular a guerra de 50 dias, em 2014, que matou mais de 2.200 palestinos.

“O lançamento de foguetes de Gaza contra Israel e a violenta resposta israelense destruíram o resto da Faixa. Essas guerras continuam sendo um grande fardo para os habitantes de Gaza, que não podem mais suportá-las. O povo de Gaza sonha mais com a morte do que com a vida”, disse Eid.

O setor de saúde está sobrecarregado e prioriza pessoas com ferimentos físicos, como os milhares que foram feridos por balas pelas forças israelenses, durante a Grande Marcha do Retorno, do ano passado, além de ferimentos por foguetes entre os dois lados e o uso excessivo da força pelo exército israelense nas fronteiras.

Aqueles que padecem de doenças mentais vêm em segundo lugar. Não ajuda exatamente o fato de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cortar 90 milhões de dólares do orçamento de ajuda da ONU para Gaza, em 2018, deixando a unidade de saúde mental da UNRWA na Faixa com um déficit de financiamento de 350 milhões de euros.

Contra todas as probabilidades, o Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza (GCMHP, em sua sigla em inglês) faz tudo o que é possível para fornecer saúde mental e apoio psicológico à população local, assim como Sumud Palestine, uma organização beneficente, com sede no Reino Unido, que envia especialistas em saúde mental para Gaza como voluntários. Mas com uma população tão traumatizada de 2 milhões de pessoas, incluindo 400.000 crianças que, segundo a UNICEF, necessitam de apoio psicológico, não podem chegar a todos.

“É pouco o que os psicólogos podem conseguir. A reabilitação e o tratamento psicológico têm como objetivo ajudar as pessoas a se reintegrarem à sociedade e a voltarem a uma vida normal, mas em Gaza, em primeiro lugar, não vale a pena viver, a perseguição afoga, psicologicamente e emocionalmente, tudo no local” diz Shehada, do Euro-Med Monitor.

"Além disso, um psicólogo árabe-israelense, Mohammed Mansour, que viajou para Gaza no final de 2017, apontou que até os próprios psicólogos de Gaza sofriam de depressão, ansiedade e desesperança, os mesmos problemas que deveriam tratar entre a população".

A pandemia de Covid-19 também influenciou o recente aumento de suicídios em Gaza, nas últimas quatro semanas. As restrições de viagens do Egito e de Israel para controlar a pandemia, além dos recentes planos de anexação de Israel, fizeram com que a Autoridade Palestina cessasse toda coordenação com Israel, o que faz com que a saída de Gaza seja praticamente impossível.

Desde o surto de Covid-19, 4.000 habitantes de Gaza perderam seus empregos e 50 fábricas fecharam suas portas para sempre. Novas pressões, como a superlotação domiciliar extrema, com crianças impossibilitadas de frequentar a escola e homens desempregados, também levaram ao aumento dos índices de violência doméstica.

O Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza relatou uma queda nas ligações de mulheres de 60 a 30%, desde o fechamento, o que é preocupante. Com os homens presos em casa, as mulheres maltratadas têm dificuldade em fazer chamadas e pedidos de ajuda. O GCMHP respondeu operando mais horas, 12 horas por dia, 7 dias por semana.

“A ameaça da anexação de Israel não só acabou com qualquer esperança remanescente da solução de dois Estados, mas também paralisou psicologicamente a Autoridade Palestina e comprometeu gravemente, junto com o coronavírus, a economia palestina, que é muito mais sério em Gaza”, explica Shehada.

“Uma grande proporção da economia de Gaza é sustentada pelos salários que a Autoridade Palestina envia para suas dezenas de milhares de funcionários, todos os meses, mas a Autoridade Palestina não recebe sua receita de impostos de Israel desde maio, o que tem impedido que paguem esses salários".

Como a situação da crise de saúde mental em Gaza continua piorando, Shehada diz que uma série de medidas são necessárias para aliviar o sofrimento dos palestinos. Internamente, os habitantes de Gaza precisam de uma unidade genuína entre o Hamas e o Fatah e eleições nacionais adequadas para que o povo possa eleger uma liderança verdadeiramente representativa. No nível internacional, a comunidade mundial deve desafiar seriamente o bloqueio de Israel e o Egito a Gaza e exigir que Israel assuma suas responsabilidades para com a população ocupada.

Shehada também sugere que a comunidade mundial crie bolsas de estudo especiais para os jovens de Gaza e prepare oportunidades de aprendizagem online. “Através de minhas chamadas para alguns jovens em Gaza, tenho transmitido a ideia de que se Israel abrir suas fronteiras por algumas horas, 30% sairá de lá e emigrará para outros países. Isso pode fazer com que no futuro a taxa de suicídios diminua", acrescentou Eid.

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