Palestina. “Gaza é uma prisão ao ar livre”, afirma ativista pacifista

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24 Mai 2019

O último dia 15 de maio marcou os 71 anos da Nakba, a "catástrofe" ou o "desastre", que causou o êxodo maciço de mais de 700.000 palestinos dos territórios de mandato britânico, durante a criação de Israel, entre 1947 e 1949. Atualmente, existem mais de 5,4 milhões de refugiados palestinos no mundo e a violação dos direitos humanos pelo Estado de Israel em relação à população palestina é denunciada por organizações internacionais, como o Organização das Nações Unidas.

A reportagem é de Marta Saiz, publicada por Cuarto Poder, 21-05-2019. A tradução é do Cepat.

"Vivemos em uma situação muito complicada e difícil. Não só pela ocupação, mas pelo sistema de Apartheid que Israel impôs, muito pior do que o que aconteceu na África do Sul", diz Mustapha Barghouti, político palestino e secretário geral do partido Iniciativa Nacional Palestina (INP), terceira formação política depois do Hamas e Fatah.

Estradas de uso exclusivo, meios de transporte segregados, placas diferenciadas, água contaminada nos territórios palestinos, controle de movimento e um tratamento desumano à população que, segundo Barghouti, confirma a falta de compromisso do Acordo de Paz assinado em Oslo, em 1993, em que Yasser Arafat, representante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), aceitou a solução da criação de dois estados, já que segundo a Comunidade Internacional era o único caminho para a paz.

Uma paz que, um quarto de século depois, ainda está longe de ser alcançada, pois o Estado de Israel continua a ocupar e colonizar os territórios palestinos. "Hoje, Israel tem um plano, a colonização. Porém, nós temos outro, a liberdade", diz Barghouti, que esteve presente nas negociações antes do Acordo de Oslo, em Madri, em 1991.

"Várias das pessoas que estiveram em Madri se opuseram ao tratado porque sabiam que seria um fracasso. Infelizmente, o tempo nos deu a razão, porque a solução dos dois estados criou uma ilusão que não existe". O doutor fala sobre essa liberdade utópica dos acordos e dá como exemplo o passaporte palestino, pois embora exista uma autoridade e uma nacionalidade, sem um número de identificação israelense, a liberdade de movimento não é garantida, seja dentro ou fora do país: "Às vezes, nós, os palestinos e as palestinas, esquecemos isso."

A "Nova Palestina"

Assim foi denominada a área que a administração dos Estados Unidos concederia à Palestina, que é chamado de "acordo do século". No entanto, em algumas das diretrizes do mesmo, que foram vazadas pela agência palestina Maan, se comprova que se ajustam aos pedidos do recém-reeleito primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. De fato, o texto foi elaborado sob a direção do genro de Donald Trump, Jared Kushner, também amigo íntimo do presidente israelense.

"O texto nada mais é do que a implementação das ideias do governo de Israel", confirma o secretário do INP. "Tudo o que sai no acordo foi explicado por Netanyahu em 1995, em seu livro Un lugar bajo el sol, no qual reafirma sua posição de que toda a Palestina é terra dos judeus".

Barghouti também esclarece que é um plano para que os Estados Unidos participem da violação do direito internacional e permitam a anexação e ocupação do território através da força. "Nós não vamos permitir isso. Israel goza de impunidade porque a comunidade internacional permite isso. Houve sanções contra o Sudão, a Rússia, a Síria, o Irã e o Iraque, mas nada contra Israel. Ou não querem ver ou não querem fazer. Por essa razão, temos que pressionar os governos internacionais a tomar medidas punitivas contra o Estado de Israel".

A crise na Faixa de Gaza

Os cinco milhões de habitantes do território palestino estão divididos entre a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza, sendo neste último onde a conjuntura é mais complexa. Situação que piorou no início de maio, onde o conflito custou a vida de 25 pessoas e dezenas de feridas. Após 48 horas de tensão, a violência parou com um cessar-fogo entre Hamas e Israel.

Em seu último relatório sobre 2018, o Relator Especial da ONU para os Direitos Humanos Palestinos, Michael Lynk, alertou sobre as graves infrações do Estado de Israel a tratados internacionais e denunciou o uso de munição real pelo Exército israelense na conhecida Grande Marcha do Retorno, do ano passado – protestos contra a ocupação de Israel -, na qual 189 palestinos foram mortos.

O relatório também afirma que, "desde o início de 2019, as forças de segurança israelenses continuam a usar munição real, balas revestidas de borracha e gás lacrimogêneo na cerca de separação". E conclui: "continuar sufocando Gaza é uma mancha na consciência do mundo e uma receita para um maior derramamento de sangue".

O Dr. Barghouti, que visitou Barcelona, pela Associação Catalã para a Paz (ACP), para apresentar o relatório Viver sob a ocupação, também falou sobre a grave crise humanitária em Gaza, onde 95% da água está contaminada, o que leva a um aumento de infecções e doenças. "Israel controla as fronteiras, o espaço aéreo, o campo eletromagnético e o mar. O que faz de Gaza uma prisão ao ar livre".

"Lutamos contra um inimigo forte, que tenta desumanizar os palestinos. Não somos terroristas. Terroristas são os que lideram massacres na Palestina e usam aviões para soltar bombas e matar a população. Israel é quem pratica isso e também usa o terror psicológico para aterrorizar a população do mundo e aqueles que apoiam a causa palestina", continua o político.

Barghouti aponta o nível de pessoas resilientes e resistentes à ocupação, determinadas a permanecer na terra, "nossa terra Palestina" e incentiva que a Europa continue apoiando o BDS (Movimento Boicote, Desinvestimentos e Sanções) com ações como as realizadas após a celebração do Festival Eurovision, que ocorreu no último sábado, 18 de maio, em Telavive, e no qual houve algumas alusões ao conflito, como a exposição de símbolos palestinos por um grupo islandês e o aparecimento da bandeira palestina dentro da performance de Madonna.

Além dos vários protestos internacionais e no país, Gaza comemorou sua "Eurovision alternativa" nas ruínas de um dos edifícios bombardeados na mais recente escalada de violência. "A população deve saber o que está acontecendo na Palestina, especialmente em Gaza. É vergonhoso ter um festival nessas condições", conclui Barghouti.

Direito à saúde

Mustapha Barghouti é também o presidente da Sociedade de Socorro Médico Palestino (PMRS), uma organização fundada em 1979 para cobrir a falta de assistência médica sofrida pela população palestina, tanto fora, como dentro dos territórios ocupados.

Começaram instalando clínicas móveis, mas viram que a necessidade era tão grande que construíram centros de saúde. Atualmente, ajudam mais de um milhão e meio de palestinos e treinaram mais de 71.000 pessoas em primeiros socorros, se tornando uma das maiores organizações de saúde não institucionais do país. "Apesar das dificuldades, conseguimos construir um sistema de saúde independente da ocupação israelense", afirma o médico.

Desde que começaram, tiveram problemas com a administração israelense. Durante a primeira e segunda intifada, várias das pessoas que trabalhavam auxiliando as vítimas foram presas. Barghouti conta que, quando chegaram à cadeia, começaram a fazer o mesmo trabalho dentro das prisões, identificando e tratando os doentes com remédios que os advogados traziam. Mais tarde, ele próprio sofreu dois tiros nas costas enquanto atendia a um ferido.

E o mais grave, os assassinatos: "recentemente, o Exército israelense matou duas de nossas companheiras enquanto atendiam pessoas em nossas clínicas móveis". E sofrem também com a obstrução de trabalhar em territórios como Gaza, onde não estão autorizados a atravessar, tendo que viajar para a Jordânia ou o Egito para entrar na área. "Mas lá continuamos, nada pode nos parar. E quando vemos um obstáculo, nós o enfrentamos e o superamos".

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