Venezuela. A velha utopia em ruínas. Artigo de Sergio Ramírez

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07 Agosto 2020

“Hoje, a utopia se degradou a ponto de se tornar caricatura, convertida em uma aberração mentirosa, burocrática e letal. É por isso que os romances que os jovens escrevem para contar o século XXI venezuelano são distópicos”, escreve Sergio Ramírez, escritor premiado e protagonista da revolução nicaraguense, quando encabeçou o Grupo dos Doze, formado por intelectuais, empresários, sacerdotes e dirigentes que apoiaram a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), em artigo publicado por La Jornada, 06-08-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A última vez que estive na Venezuela foi em 2007, tempo já distante, em que o chavismo buscava se consolidar apertando todas as porcas possíveis do maquinário de poder para converter, tantos anos depois, a incerta utopia do socialismo do século XXI na alucinante distopia que é agora. E me acompanhavam, então, dois livros que me ajudavam a entender a paisagem viva, o romance País Portátil, de Adriano González León, vencedor do prêmio Seix Barral, em 1967, e Hugo Chávez sem uniforme, escrito a duas mãos por Cristina Marcano e Alberto Barrera Tyszka, então recém-lançado.

Ainda era possível imaginar a Venezuela de duas formas: como na história do rei Midas, que tudo o que tocava transformava em ouro, até os alimentos que levava à boca, de modo que, por isso mesmo, morria de fome, ou como o glorioso país de Jauja, onde estando tudo tão ao alcance da mão, não é preciso arar, nem serrar.

Certa vez, Arturo Uslar Pietri chamou seus concidadãos a se dedicarem a semear o petróleo, em vez de gastá-lo sem reflexão. Hoje em dia, no mundo distópico que é a Venezuela, isso parece uma imagem extravagante, quando falta até gasolina, se antes um litro de combustível foi mais barato que um litro de refrigerante.

“Por trás de um Mitsubishi há pessoas comprometidas”, rezava o lema de um anúncio de página inteira, quando ainda havia jornais impressos. Um exército de técnicos sorridentes, guardavam um deslumbrante modelo Lancer. A palavra compromisso, assim como a palavra revolução, pertencia ao léxico sagrado de Chávez, e ainda era possível tirar proveito dos slogans revolucionários.

“A Venezuela roda, e roda em carros e caminhões fabricados na Venezuela”, diz o anúncio da Chrysler, citado como epígrafe em País portátil. Ainda em 2007, havia filas de espera de até seis meses para receber o modelo de carro reservado, Mercedes, Jaguar, Hummers. E uma festa para cirurgiões plásticos. Uma menina costumava receber como presente de seus pais, aos 15 anos, um lifting de seios, não à toa que o país produzia rainhas de beleza em série.

Mas a Venezuela também havia se tornado, nos anos 1970, graças às mesmas bênçãos inesgotáveis do petróleo, tão mal distribuídas, um foco cultural único: o Prêmio de romance Rómulo Gallegos, o mais importante do continente, a Biblioteca Ayacucho, dirigida por Ángel Rama, destinada a publicar todos os livros importantes da cultura latino-americana, e teatros, editoriais, revistas, jornais inovadores, como o El Diario de Caracas, que foi dirigido por Tomás Eloy Martínez.

O personagem de País portátil, um combatente guerrilheiro, busca na luta clandestina o que ainda é possível para a utopia pessoal nos anos 1960, as chaves perdidas do país desigual em que nasceu. Hoje, a utopia se degradou a ponto de se tornar caricatura, convertida em uma aberração mentirosa, burocrática e letal. É por isso que os romances que os jovens escrevem para contar o século XXI venezuelano são distópicos.

The Night, por exemplo, de Rodrigo Blanco Calderón, ganhador da Bienal de Romance Vargas Llosa: Caracas na escuridão dos apagões como um cemitério sem vozes, sendo como foi a cidade mais barulhenta do mundo, o alucinante retrato em sombras de um submundo onde os psicopatas andam soltos como almas penadas. O poder da mandíbula insaciável que mastiga os seres humanos na escuridão.

E La hija de la española, de Karina Sainz Borgo, premiada na Espanha, França e Alemanha, que acabei de ler e que provocou este artigo. É um livro que se lê com crescente sensação de asfixia, o próprio leitor é encurralado na trama em que o protagonista se perde em um labirinto que parece não ter rota de fuga.

Caracas deixou de ser a cidade aberta, de acentuados contrastes, onde as pessoas discutiam alto em bares como se estivessem se matando, para explodir depois em barulhentas gargalhadas, para se tornar um cenário de amargo confronto, sem saída possível, porque o poder de garras sujas que controla as pessoas invade casas, atira em dissidentes nas ruas, enche os necrotérios com cadáveres sem nome.

Então, Adriana Falcón, expulsa de sua casa, busca refúgio assumindo a identidade de Aurora Peralta, sua vizinha, filha de uma imigrante espanhola. A mudança de identidade é a única porta para escapar do inferno que queima dia e noite nas ruas, partidas de motores, a polícia envolvida com os acólitos do poder dos filhos da revolução.

E Mariscala e seus sequazes, personagens do submundo que repetem os slogans ardentes que são cantados ao ritmo do reggaeton, enquanto traficam com os alimentos do cartão de racionamento, são a imagem definitiva da metamorfose entre a velha utopia em ruínas e a distopia que arde nos fogaréus nas ruas com chamas de enxofre.

A redenção prometida terminou em uma fantasmagoria de disparates.

 

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