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Por: André | 16 Abril 2013

Nunca é fácil descrever a inquietação ou a perda de uma expectativa. Neste momento, o PSUV – o partido de Chávez na Venezuela – encontra-se envolvido em uma árdua discussão. O que aconteceu com os milhares de votos antes chavistas que moveram sua agulha para o lado de Capriles? As razões são uma súbita percepção ocorrida em numerosos setores populares de que Chávez era insubstituível? Maduro não representou de forma acabada o “legado”? Ou, ao contrário, o representou excessivamente? Há motivos econômicos que corroeram silenciosamente a vida doméstica popular como efeito das desvalorizações, algo que apenas foi mencionado (certamente, muito mais por Capriles)? Hoje, pensar respostas adequadas para o que não foi uma derrota material, mas um severo desacoplamento com a realidade que se esperava, corresponde a um exercício de imaginação política que percorre – deve percorrer – todos os processos populares da região.

A reportagem é de Horacio González e publicada no jornal argentino Página/12, 16-04-2013. A tradução é do Cepat.

Maduro apresenta-se como Filho de Chávez, e este é o “supremo eterno”, isto é, o Pai, que se postou na publicidade do governo como um oráculo que se plasmava em veneráveis imagens de episódios do passado. Sobretudo, do golpe que no mesmo mês de abril de há vários anos haviam tentado muitos dos agora felizes possuidores de quase metade do eleitorado venezuelano, entre eles, Capriles. Ao regressar Chávez da prisão em um célebre helicóptero, os locutores da televisão pública, que certamente estavam munidos de entusiastas chispas discursivas, rebatizaram este fato como “a ressurreição do comandante”. Já não a reintegração nem o resgate. Acrescente-se a isso que Maduro referiu-se àquela antiga gesta como um modo de comportamento populares (milhares e milhares de pessoas atuaram a favor de um objeto, sem nenhum tipo de coordenação), possível de se definir em termos de um “mistério popular”. “O povo é misterioso”, disse. Para além do interesse intrínseco que estas frases têm para uma história da discursividade litúrgica nos movimentos sociais, configurava-se um triângulo de pensamento místico baseado nas figuras do Pai, do Filho e do Mistério Popular (ou Espírito Santo), que estabelecia certas diferenças com as religiosidades populares dos mais diversos tipos, para situar a apelação política em uma estrutura que se semelhava inconscientemente ao corpo de Cristo, onde a sociedade inteira se refletia.

A televisão pública ajudou na criação destas auréolas mítico-políticas ancoradas em ícones já fixadas de um estrato de tempo anterior, de características, na verdade, quase sacras. O efeito reiterativo de certos arquétipos icônicos da televisão ajuda muito a assimilar o presente complexo a um exorcismo ou a uma reza. Não é que estas teologias políticas sejam desdenháveis, pois são o sal e o cimento palavreado dos movimentos sociais de todas as épocas. Ainda mais nesta Venezuela, cujo subsolo cristão tem encaixes de todo tipo, tanto evangélicos como credos de remotos substratos africanos ou orientais, reciclados na era dos meios de comunicação, que trazem seus próprios fetichismos. Maduro moveu-se nessas dimensões auráticas supondo, com razão, que sendo o herdeiro não podia deixar de sobrepor estritamente sua palavra à Palavra, sua voz à Voz. Não fazê-lo era um risco para a enorme nostalgia que não cessa em relação a uma ausência crucial, mas o ausente, no entanto, está exposto na iconografia de suas cidades como um demiurgo onipresente. Nas múltiplas fachadas das moradias sociais construídas em todos os rincões de Caracas, seus olhos continuam contemplando a cidade presente como um olhar paternal, suavizando as palavras de ordem com a fantástica imagem derradeira de seu corpo dançando sob a chuva. A ausência do homem que marca com seu nome os demais, rebela-se diante da morte e não quer saber da sua impotência. Por isso, sempre se postula que essa falha, origina diante do inelutável a frase mais compreensível de todas. “Chávez está vivo”, “Está em nós”, “Somos Chávez”. Só quem não soubesse se emocionar com estas manifestações de angústia diante do desaparecimento das grandes figuras históricas – ainda quando seja o Estado quem organiza o culto – poderia se arriscar a críticas vazias.

Aqui queremos dizer outra coisa. O sincretismo chavista havia agregado a noção de socialismo do século XXI e outros elementos da teoria política contemporânea, como democracia participativa e autogestão comunitária, dando-lhes muitas vezes alcances que remetiam não tanto à crucifixão, mas a uma bibliografia que o próprio Chávez gostava de exibir em atos públicos. Não apenas mostrar o livro da Constituição, ato com certa reminiscência maoista, mas para recordar o Popol Vuh da cultura maia, mas também exibir em público a grande novela de Uslar Petri, As lanças coloradas, para exemplificar com as dificuldades dos espíritos mais aventureiros lançados ao azar da batalha.

Maduro viu-se ameaçado a exercer uma efetiva mímesis. Algumas inflexões de seu discurso são as de Chávez, e, além disso, compromete-se por meio de reiterados juramentos diante do chefe morto, o que produz um efeito de pregação e ritual soluçante, que não o desmerece – estreme vê-lo –, mas que é necessário revisar neste momento profundamente delicado da nação venezuelana. Ouçam-se os discursos posteriores à eleição de Capriles e de Maduro. O primeiro é terminante, ameaçador, dá a impressão de um primeiro tenente dando ordens em alguma cena castrense classe B. Ao contrário, Maduro, esse sim visita quartéis – sobretudo o da Montaña, que tem valor de sacrário maior, pois ali está o corpo de Chávez – e que participa de reuniões da milícia popular onde escuta as inflexões da cultura disciplinar militar, é um homem que parece constrangido e frágil. Sua responsabilidade será muito maior a partir de agora. Talvez deva mudar algumas citações (os livros de Coelho que exibiu até este momento talvez reclamem uma mudança por outras visões menos trivializadas do amor individual e coletivo) e, acima de tudo, promover uma nova esquerda social que deve ser novamente ativada, em matéria de concepções sociais que tenham grande heterogeneidade, embora com um eixo dominante democrático permanentemente autocrítico. Deverá, assim mesmo, fugir dos binarismos políticos fáceis e dar um alcance maior à consigna mais relevante do período chavista: uma nação é uma grande paideia, um grande aparelho pedagógico e de linguagem. Ali descansam também suas forças produtivas materiais.

Pode-se apreciar isso quando se caminha pela Caracas profunda em um dia de eleições. Em cada local de votação há cidadãos informados, com um certo toque de sabedoria jacobina, e os que resmungam pelo “poder chavista”, inclusive, se sabem definir bem como cidadãos de direita, balançam como peritos as possibilidades do golpe, da eleição e da conspiração. Um percurso exige que o visitante tome o novo teleférico. Os carros pingentes têm nome. Toca-nos viajar em um que diz “Pátria socialista”. Do alto se veem as moradias que ainda esperam dar seu salto para uma melhor qualidade habitacional, humana e social. Toda cidade é um grande montículo de inscrições, que são de todas as idades históricas e são escritos de esperança. O próprio petróleo é pensado politicamente como uma forma imediata de renda social comunitária. É necessário afinar estes pensamentos.

Maduro, em seu discurso da noite, quando os cômputos esperados haviam fracassado, insinuou revisar questões, buscar caminhos alternativos, pensar com maior destreza as conjunturas enormemente difíceis que se verão de agora em diante. Deverá sair de seu estado de governo acossado, embora portador de uma grande herança, para pensar essa herança, e pensar-se a si mesmo de um modo que, sem abandonar o que pressupõe a dificuldade de ser guardador designado e eleito do carisma de outro, saiba explorar o que dá a excepcionalidade da história, tão importante como a economia do petróleo, mas com um sentido de emancipação. Explorar também o que é proporcionado pela posse do Estado, mas para afastar as rotinas mais obscuras que todo Estado defende como se fossem seu segredo mais precioso; o que dá dirigir um poderoso movimento social latino-americano, mas recriando sua excepcional mediação de um legado. Diante de uma direita que fala a partir de uma arena repleta de votos, deverá encontrar as necessárias enunciações inovadoras exigidas pela já desvelada carga democrática das urnas. O destino das sociedades bipolarizadas exige uma nova discussão por parte dos que são a parte da dicotomia que se proclama mais próxima da felicidade pública, da partilha equitativa do produto social e da eticidade política subjetivamente emancipada. Temos que demonstrá-lo com renovadas reflexões sobre a espessura, o espírito popular, os grandes legados humanistas e a constante predisposição crítica.

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