Leigos franceses: transformar a Igreja

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06 Agosto 2020

Como Transformar a Igreja Católica? Como repartir após a devastação dos abusos, saindo do clericalismo e de uma pregação sexofóbica para uma prática sinodal e eclesial na vida dos fiéis? Onze católicos leigos da França propuseram algumas indicações a esse respeito.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimana News, 05-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Respondendo a uma solicitação de Michel Camdessus, ex-diretor geral do Fundo Monetário Internacional e ex-membro do Conselho Pontifício Justiça e Paz, uma dezena de figuras altamente respeitadas (entre elas Yves Berthelot ex-subsecretário da ONU, Xavier Larere ex-diretor geral da Antena 2, a principal televisão pública, Pierre Achard, inspetor geral de finanças) desenvolvem suas propostas em cerca de trinta páginas (às quais devem ser acrescentados três ensaios histórico-teológicos de Pe. Hervé Legrand).

Com franqueza e liberdade, os autores se sintonizam com o desejo de reforma do Papa Francisco e alimentam uma corrente de reflexão que na França conhece vozes importantes inclusive recentes. Como a de G. Lafont, Immaginare la Chiesa cattolica, J. Moingt, Faire bouger l'église catholique, M. Bellet, La quarta ipotese. Sul futuro del cristianesimo, A. Borras, Communion ecclésiale et synodalité, H. Legrand, Vatican II, un avenir obblié.

Na Igreja francesa, elementos estruturais como a renovação nos próximos dois anos de cerca de vinte sedes episcopais (de cerca de 80) e a redução dos seminaristas (este ano os seminários de Lille e Bordéus foram fechados) são misturados com debates públicos animados como aqueles sobre os abusos (desde a absolvição ao cardeal P. Barbarin até as conclusões da comissão de Sauvé sobre os abusos que encerrará seu trabalho daqui há alguns meses) ou as provocações propositais de algumas mulheres de fé (A. Soupa se candidatou a sé episcopal de Lyon e sete mulheres se propuseram para a ordenação diaconal).

Estados gerais, ou seja, um sínodo

“Que igreja gostaríamos de ver sair depois da ‘grande provação’ pela qual estamos passando juntos? Uma igreja onde nem o descuido da instituição nem o silêncio dos leigos favorecerão mais as derivas que feriram profundamente pessoas inocentes; uma igreja que se liberta do clericalismo que a debilita; uma Igreja que caminha de forma sinodal, onde clérigos e leigos dialogam e assumem juntos as responsabilidades de viver o Evangelho e testemunhar a Palavra de Deus.

Uma igreja que baseia a reconstrução na prioridade absoluta do Evangelho e sobre a santidade buscada por todos os seus membros; para além da distinção entre clérigos e leigos. Finalmente, uma Igreja onde todos os fiéis, homens e mulheres, celibatários e casados, poderão assumir muitas responsabilidades hoje reservadas aos padres. Assim transformada, propor-se-á como um povo dos batizados, em plena coerência com as diretrizes do Concílio Vaticano II. Uma Igreja não prisioneira da repetição de normas éticas e de um discurso doutrinário às vezes abstrato, e capaz de solicitar a hospitalidade de um mundo que ela ama e da qual compartilha os sofrimentos, as esperanças e as alegrias.

Em uma palavra, "uma Igreja nutrida pelo Evangelho e pela Eucaristia, a serviço do mundo" (p. 30). Uma espera consciente por uma situação inédita, de um futuro não fácil e de fortes resistências. Por esse motivo, "propomos uma reunião de bispos e fiéis, uma espécie de ‘estados gerais’ pelo tempo necessário para preparar o futuro da Igreja com as inovações e as reformas ancoradas em sua grande tradição e periodicamente revisadas" (p. 30).

Aprendemos com os abusos

A proposta final é preparada em três capítulos: sair do clericalismo; em direção a uma visão realista da vida afetiva e da sexualidade; por uma igreja sinodal.

Clericalismo é o contexto de cultura dos abusos porque nele se alimenta um poder e uma autoridade desprovidos de controle e cobertos por um segredo complacente, para não comprometer o prestígio da instituição. Tanto mais forte quanto compartilhado pelas famílias das vítimas, condicionadas por uma concepção errada de obediência. É honesto admitir: "os leigos não podem culpar os padres inteiramente pela crise causada pelos abusos. Eles têm sua parte de responsabilidade nesse desastre" (p. 10).

Para enfrentar os novos desafios, é necessário uma nova linguagem. Em especial em questões sexuais e bioéticas. Para comunicar os aspectos positivos da antropologia cristã, é necessário, por um lado, distanciar-se da ênfase sobre a moral pessoal e da reiterada crítica ao moderno (materialismo, relativismo, secularismo etc.) e, pelo outro, interceptar o pedido confuso, mas real de sentido e vida espiritual, na consciência, bem expressa pela encíclica Laudato Sí' da defesa do ser humano comum.

É necessário sair da diferença ontológica e de poder entre o sacerdócio compartilhado pelo povo de Deus e aquele ordenado para o serviço do culto. Os candidatos ao sacerdócio precisam de uma formação capaz de dialogar com o mundo. E as condições de acesso ao ministério não podem permanecer tão restritivas quanto as atuais. A Igreja "deveria se preparar para a ordenação de homens casados que tenham dado prova de maturidade cristã" (p. 12). Um percurso que, aliás, já foi experimentado com a escolha dos diáconos permanentes.

"Um clero casado seria um importante corretivo para as atitudes católicas em relação à sexualidade e a vida conjugal não mais pareceria como uma opção de vida inferior" (p. 13). Os padres casados na Igreja Católica já são numerosos (dos ritos orientais aos novos ingressos do anglicanismo). E tudo isso sem questionar o empenho com o celibato ou com a vida consagrada para os que são chamados a isso. "É importante não bloquear a questão do acesso das mulheres aos ministérios ordenados ... É legítimo temer que uma recusa definitiva se torne uma desvantagem para a transmissão da mensagem eclesial nas sociedades contemporâneas. Confirmando os preconceitos relativos ao patriarcado e à misoginia na Igreja Católica, apesar do desataque assumido pela figura de Maria"(p. 16).

Primeiro o evangelho, depois a moral

“A moral sexual ainda hoje proposta pelo magistério católico é caracterizada efetivamente por seu grande rigor e rigidez. Não admite a sexualidade, exceto no caso de cônjuges que são legítima e indissoluvelmente unidos" (p. 18). Expressa uma suspeita substancial, como mostra a impossibilidade de divorciados e novamente casados de ter acesso à Eucaristia, o acesso impossível ao ministério para homens casados, a promessa solicitada aos diáconos de não se casar novamente em caso de viuvez.

De fato, a sexualidade é reduzida à sua função reprodutiva. Um arranjo felizmente recolocado em discussão pela encíclica Amoris laetitia e pela prática pastoral mais sensível, também em relação à homossexualidade. Os jovens que vivem junto precisariam de itinerários espirituais e de uma "benção pré-nupcial".

Processos sinodais

O esforço feito pelo Vaticano II para dar mais espaço ao exercício da colegialidade e da eclesiologia de comunhão se chocou com uma recepção que empurrava na direção oposta. As reformas em andamento, particularmente em relação à cúria romana, valorizam ainda mais o sínodo dos bispos e as conferências episcopais.

Mas a sinodalidade é proposta ao conjunto da Igreja e às igrejas locais individuais. "Atualmente, diante do perigo de um clericalismo institucionalizado, a sinodalidade, no seu significado de plena associação dos cristãos à gestão das comunidades, apresenta-se como um recurso para melhorar a situação" (p. 24).

A Igreja entendida como povo de Deus, corpo de Cristo e templo do Espírito é tal apenas dentro do exercício sinodal. Muitos elementos remam contra. Um papel como o dos bispos, nomeado pelo papa, não condicionáveis pelos fiéis e autônomos em relação aos bispos vizinhos e à conferência episcopal é um exemplo disso.

É bom não ser ingênuo e acreditar que tudo é perfeito na sinodalidade e tudo é ruim na função hierárquica. É certo, no entanto, que a sinodalidade não deve ser confundida com a democracia, mesmo que com esta tenha algo em comum. "Considerar que a Igreja deva funcionar em todas os âmbitos como uma democracia não faria sentido, porque as assembleias cristãs buscam uma verdade que de forma alguma está sujeita ao consenso" (p. 27). A tarefa mais imediata parece ser aquela de atualizar o direito canônico à teologia da comunhão. É importante o que está acontecendo na Alemanha com o início do processo sinodal.

Também é desejável para a França "uma assembleia representativa de bispos e leigos para identificar os esforços intelectuais, espirituais e organizacionais que o futuro exige. Nada impede e tudo o recomenda”. (p. 27) “O povo de Deus, em sua diversidade, percebe vivamente a necessidade de indicar as reformas mais urgentes, de conversar sobre elas juntos para superar dificuldades de ordem prática, mas também insuficiências doutrinárias herdadas de controvérsias históricas. Sem esse caminho que favoreça a expressão do que carregam em seus corações, a frustração dos católicos só aumentará" (p. 29).

Um texto militante que não renuncia a dialogar com as tendências mais conservadoras mesmo sendo distante delas e que compartilha cordialmente a orientação das reformas e dos caminhos sugeridos pelo Papa Francisco.

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